SAÚDE DA MULHER “Nenhuma mulher devia ouvir que uma relação sexual dolorosa é normal, ou que a perda de urina é o preço da maternidade” By Revista Spot | Novembro 6, 2025 Novembro 12, 2025 Share Tweet Share Pin Email Há dores que não se veem, mas que influenciam silenciosamente a forma como as mulheres vivem o dia a dia. Na Qiuman, no Porto, Susana Queirós fez da fisioterapia pélvica uma nova forma de diálogo, sem tabus, feita de ciência, escuta e presença. Aqui, a dor na relação, as perdas de urina, a diástase, ou a endometriose deixam de ser “normais” e passam a ser olhadas com a importância e o cuidado que merecem. Na consulta, o corpo ganha voz: aprende-se a nomear o clitóris, a respeitar o ciclo, a abandonar crenças herdadas e a reconquistar autonomia e prazer. Adolescentes, grávidas, mulheres no pós-parto e na menopausa encontram planos personalizados, integrativos e colaborativos com ginecologia, nutrição e sexologia. Mais do que reabilitar, a Qiuman devolve presença: habitar o corpo sem culpa, amar sem dor, envelhecer com confiança. “A saúde íntima é saúde pública, começa quando ouvimos o que o corpo tenta dizer”, afirma Susana Queirós. O que é que a levou a especializar-se em fisioterapia pélvica e saúde integrativa feminina? E que momentos-chave definiram a criação da Qiuman? Tudo começou no fim da licenciatura, quando entrei para o hospital onde dei os primeiros passos como fisioterapeuta. Foi ali que tive contacto com as várias áreas da fisioterapia e percebi a vastidão de caminhos possíveis. Mas o “bichinho” pelas mulheres nasceu cedo, a curiosidade em compreender o corpo feminino, as suas transformações, a sua força silenciosa. Fascinava-me especialmente a gravidez: aquele período em que a mudança é visível, mas também profundamente simbólica. A forma como o corpo se transforma e, depois, se reergue. Mais tarde, quando vivi a minha própria gravidez, percebi que a transformação não era apenas física, era emocional, mental, espiritual. Vieram os medos, as dúvidas, o confronto com uma nova identidade. E foi aí que percebi o quanto as mulheres vivem ciclos de mudança constantes, muitas vezes sem o apoio que merecem. A Qiuman nasceu desse despertar: da vontade de criar um espaço onde a mulher fosse vista e cuidada de forma global, integrando corpo, mente e alma. Um lugar de escuta e acolhimento, onde cada mulher pudesse viver o seu corpo sem vergonha, sem culpa e sem tabus. Quando é que compreendeu que a fisioterapia pélvica teria de ser integrativa e não apenas reabilitadora? Foi precisamente nesse processo que percebi que a fisioterapia pélvica não podia limitar-se à reabilitação muscular. O corpo fala, mas é a alma que muitas vezes grita. Comecei a ver que cada sintoma era apenas a ponta do iceberg, por baixo havia emoções, histórias, crenças antigas e padrões enraizados. Uma mulher com dor pélvica, por exemplo, traz muitas vezes consigo uma relação complexa com o próprio corpo, com a sexualidade, com o pudor. Uma mulher com disfunção urinária pode carregar hábitos aprendidos, como reter a urina durante horas, o que mais tarde se traduz em dor e perda de controlo. Percebi que tratar apenas o músculo era como colocar um penso numa ferida sem cuidar da causa. É claro que a biomecânica, o padrão respiratório e a postura são fundamentais, mas sem olhar para as emoções, para a história daquela mulher, o tratamento fica incompleto. A verdadeira cura começa quando integramos tudo: corpo, mente e consciência e devolvemos à mulher o poder de se reconectar consigo própria. Quando afirma que desenvolveu um método próprio, o que muda, concretamente, na forma de avaliar e tratar uma mulher? De que forma integra a ciclicidade hormonal, a individualidade emocional e a história corporal no plano terapêutico? O método nasceu da vontade de unir a ciência à alma, de olhar o corpo feminino com humanidade, sensibilidade e escuta. A consulta começa sempre com uma abordagem global: compreender o corpo, sim, mas também o que vive dentro dele. E um dos primeiros passos é ajudar a mulher a conhecer-se. É impressionante a quantidade de mulheres que chegam à consulta sem compreender o próprio ciclo menstrual, sem perceber como as fases hormonais influenciam a energia, o humor, o apetite, a sexualidade e o sono. Pergunto-lhes: “Sabe como o seu corpo se comporta antes da menstruação? Que sinais lhe dá?” Muitas não sabem responder. Outras vivem com culpa por sentirem tristeza, irritabilidade ou cansaço, sem perceber que tudo isso faz parte da sua natureza cíclica. E é aqui que começa o trabalho: ensinar a mulher a escutar o corpo, a reconhecer os seus sinais e a respeitar o seu ritmo, em vez de travar guerras contra si mesma. A base é sempre científica, há toda uma avaliação clínica, biomecânica, fisiológica, mas o foco é conduzi-la num caminho de reconexão. Cada mulher é única: traz uma história, crenças, experiências e emoções próprias. O método procura integrar tudo isso num plano terapêutico personalizado, que a ajude a recuperar o equilíbrio físico, emocional e energético. No fundo, quero que cada mulher saia da consulta a sentir-se em casa no seu corpo, consciente, livre e reconciliada com a sua natureza. “É impressionante a quantidade de mulheres que chegam à consulta sem compreender o próprio ciclo menstrual” Além da componente músculo-esquelética, observa padrões respiratórios, memória somática e hábitos comportamentais? Sim, absolutamente. Os hábitos diários dizem-nos muito sobre o corpo e, muitas vezes, explicam o que a mulher sente. A forma como respira, contrai ou relaxa, se descansa ou se vive em modo de tensão constante, tudo isso tem expressão no pavimento pélvico. Um exemplo muito simples: mulheres que, desde pequenas, ouviram dizer “não se vai à casa de banho fora de casa” aprendem a reter. Reprimem uma necessidade fisiológica natural. Com o tempo, o corpo adapta-se a essa repressão e surgem disfunções urinárias, obstipação, dores pélvicas, desconforto nas relações sexuais. Por isso, o tratamento começa por compreender a história corporal daquela mulher, os seus padrões, crenças, emoções. Claro que existe uma componente técnica rigorosa: faço ecografia funcional, testes musculares, avaliação postural e biomecânica. Mas nada disso é suficiente se não existir empatia, escuta ativa e compreensão do que está por trás. Posso aliviar uma dor momentaneamente, mas se a causa emocional ou comportamental não for trabalhada, ela regressa. A fisioterapia pélvica é, para mim, um espaço de reencontro, entre ciência e sensibilidade, entre músculo e emoção, entre o corpo que fala e a mente que, finalmente, começa a ouvir. A tecnologia e a visão multidisciplinar são aliadas fundamentais? Sem dúvida. A tecnologia e a visão multidisciplinar são duas das grandes aliadas da fisioterapia pélvica moderna, lado a lado com a empatia, que é a base de tudo. Na Qiuman trabalhamos com uma forte componente científica e tecnológica: utilizamos ecografia funcional, biofeedback, diatermia, laser, magnetoterapia, ondas de choque e testes de força e endurance para avaliar e acompanhar a evolução das pacientes. Estes recursos permitem-nos observar em tempo real o comportamento muscular, a coordenação e a resposta do pavimento pélvico, dando à mulher consciência do que o seu corpo está a fazer e poder sobre ele. Mas nenhuma tecnologia substitui o olhar integrativo. Em casos como a dor pélvica crónica, por exemplo, é impossível intervir eficazmente sem uma equipa multidisciplinar. Muitas vezes, é preciso o olhar de uma ginecologista, de uma médica especialista em menopausa e equilíbrio hormonal, de uma sexóloga ou de uma nutricionista, porque tudo está interligado. Uma mulher que sofre com dor na relação sexual pode, na verdade, estar a lidar com um desequilíbrio hormonal, uma inflamação, um trauma antigo ou uma tensão emocional acumulada. Temos muitos exemplos que nos lembram porque escolhemos este caminho. Lembro-me de uma jovem de 24 anos que chegou à clínica sem nunca ter sentido prazer sexual, sem qualquer sensibilidade. Com a fisioterapia pélvica, trabalhámos a dor e as disfunções musculares, mas foi o trabalho em conjunto com a médica especialista que permitiu descobrir a origem hormonal e corrigir o problema. Hoje, essa mulher redescobriu o corpo e o prazer, um testemunho de como a integração entre especialidades pode realmente mudar vidas. Há outros casos igualmente marcantes: mulheres que não conseguiam ter uma penetração e que, após o tratamento, não só o conseguiram, como realizaram o sonho de engravidar. É bonito acompanhar todo o percurso, antes da gravidez, durante e no pós-parto, e ver como a reabilitação do corpo se transforma também numa reabilitação emocional. As redes sociais, curiosamente, tornaram-se uma extensão desse propósito. Não pelo gosto de estar exposta, mas pela missão de despertar consciências. Quando uma mulher no Algarve me escreve a dizer que, depois de ver um vídeo meu, procurou ajuda e mudou a sua vida, mesmo sem nunca vir cá, sinto que o meu trabalho já cumpriu o seu papel. Continua a receber mulheres com dor sexual, perdas de urina ou tensão vaginal que nunca foram explicadas ou levadas a sério. Quais são os mitos clínicos ou frases erradas que mais a entristecem ouvir, ainda hoje? Infelizmente, sim e continua a ser uma das partes mais difíceis do meu trabalho. Ainda recebo, todos os dias, mulheres com dor durante a relação sexual, perdas urinárias, sensação de peso pélvico ou tensão vaginal, que ouviram durante anos que “é normal”. Que “acontece a todas depois de serem mães”. Que “é psicológico”. Que “têm de relaxar”. Estas frases magoam porque banalizam a dor feminina e perpetuam o silêncio. Nenhuma mulher devia ouvir que uma relação sexual dolorosa é normal, ou que a perda de urina é o preço da maternidade. São frases que escondem séculos de tabus e desinformação e que fazem com que muitas mulheres cheguem até nós desacreditadas, envergonhadas, a achar que o problema é só delas. O trabalho começa por desconstruir essa crença: mostrar que não estão sozinhas, que não é normal sentir dor, que o prazer também é um direito. Assim como vamos ao ortopedista por uma dor no joelho, também devemos procurar ajuda por uma dor pélvica. A diferença é que esta, durante muito tempo, foi silenciada. Hoje, queremos mudar isso, com ciência, empatia e escuta. A verdadeira cura começa quando a mulher volta a acreditar no seu corpo. “Quando a dor está presente desde o início da vida sexual, é essencial perceber o que está na sua origem” O que acontece numa primeira consulta com mulheres que nunca conseguiram ter penetração ou prazer? Essas consultas são, talvez, das mais delicadas e transformadoras que acontecem aqui na clínica. Recebo mulheres muito vulneráveis, muitas delas com uma relação difícil com o próprio corpo, marcada por medo, vergonha ou frustração. Há, geralmente, dois perfis: as que nunca conseguiram uma penetração (o que chamamos de vaginismo) e as que, em algum momento da vida, muitas vezes após o parto, desenvolveram dor e deixaram de conseguir ter relações sexuais. São mulheres que chegam em silêncio, muitas vezes depois de anos a acreditar que o problema está “na cabeça”, porque foi isso que lhes disseram. Algumas têm quarenta anos e nunca conseguiram ter penetração; outras viveram décadas a evitar relações íntimas por medo da dor. E há ainda as que se culpam, ou que reprimem o desejo de amar por não conseguirem viver a intimidade sem dor. Estas primeiras consultas têm de ser conduzidas com extremo respeito. Tudo é feito ao ritmo da mulher. O primeiro objetivo não é o toque, é a confiança. É fazê-la sentir-se segura, acolhida, compreendida. Acredito que grande parte da cura começa aí. E é importante dizer: viver uma sexualidade plena não se resume à penetração ou ao orgasmo. A sexualidade é um campo muito mais vasto, onde o prazer, a conexão e o amor próprio também contam. Muitas mulheres chegam sem saber que cerca de 70% só atingem o orgasmo através da estimulação do clitóris e que isso é absolutamente normal. Trabalhar com estas mulheres é, acima de tudo, devolver-lhes o poder sobre o corpo e o direito ao prazer. Mostrar que não estão sozinhas, que há tratamento, que existem profissionais, fisioterapeutas pélvicas, ginecologistas e sexólogas, sensíveis e preparadas para as ajudar. E sim, há uma componente de relaxamento, mas há muito mais: há um reencontro com o corpo, com a história e com a autoestima. Como articula dilatadores, reeducação sensorial, terapia manual e quando é que é essencial integrar psicologia ou sexologia? Tudo depende da origem da dor e da história daquela mulher. Quando a dor está presente desde o início da vida sexual, é essencial perceber o que está na sua origem: houve uma experiência traumática? Crenças religiosas rígidas? Educação repressiva? Muitas mulheres cresceram a ouvir que o sexo “dói”, que é pecado, que é algo a suportar. Esses medos ficam gravados no corpo e manifestam-se como tensão e bloqueio. Nesses casos, a integração da sexologia e da psicologia é fundamental desde o início. Já quando a dor surge após o parto, a causa pode ser física: uma cicatriz, uma alteração no tónus muscular, uma contratura, um desequilíbrio pélvico. Aqui, a fisioterapia pélvica atua com terapia manual, técnicas de relaxamento, diatermia e reeducação sensorial. Os dilatadores são usados não como instrumentos de “treino”, mas de consciência, uma forma segura e progressiva de a mulher voltar a sentir o próprio corpo, sem medo. O mais importante é que cada passo seja feito com respeito e escuta. A mulher precisa sentir-se no controlo, perceber o que acontece, compreender o que o corpo lhe quer dizer. Às vezes, a sessão começa apenas com respiração, conversa e toque superficial, outras vezes nem isso. O corpo vai cedendo quando se sente seguro. E é isso que lhes digo sempre ao entrar: “Bem-vinda a este espaço onde somos livres para ser mulheres, sem tabus, sem culpa e sem pressa.” O tratamento começa nesse instante, no momento em que ela percebe que pode ser ela própria, inteira, e que o corpo, afinal, está do seu lado. Qual é o papel real da fisioterapia pélvica na endometriose? A endometriose é, de facto, um dos grandes temas da saúde feminina atual e também um dos mais dolorosos, no sentido literal e emocional. Muitas mulheres vivem anos, até décadas, sem diagnóstico. Ouvir “é normal ter dor” torna-se quase um refrão. Algumas chegam à clínica com histórias de vida marcadas por sofrimento físico constante, dor na menstruação, dor na relação sexual, dificuldade em engravidar e, muitas vezes, um profundo sentimento de desamparo. A fisioterapia pélvica tem aqui um papel essencial: aliviar, devolver mobilidade e reconectar a mulher com o seu corpo. Trabalhamos com técnicas de libertação miofascial e visceral, promovendo a circulação, reduzindo a tensão pélvica e ajudando a modular a resposta inflamatória. O objetivo é melhorar a qualidade de vida e quebrar o ciclo de dor. Mas nenhuma abordagem é isolada. A mulher com endometriose precisa de uma equipa multidisciplinar: ginecologista especializada, nutricionista, psicóloga, fisioterapeuta pélvica, cada uma destas áreas atua sobre uma parte do problema. A nutrição, por exemplo, é fundamental para reduzir a inflamação; a psicologia, para ajudar a gerir o impacto emocional de uma dor crónica; a fisioterapia, para restaurar o movimento e o conforto. E há algo muito importante: o autoconhecimento. Cada mulher reage de forma diferente ao alimento, ao exercício, ao stress. Por isso, é essencial aprender a ouvir o corpo e perceber o que resulta para si. É, sobretudo, urgente parar de normalizar a dor. Nenhuma dor menstrual incapacitante é “normal”. A endometriose precisa de atenção, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado e é com essa consciência que tantas mulheres voltam, finalmente, a viver sem dor. Quais são os maiores equívocos que ainda encontra na recuperação pós-parto, diástase e regresso à vida sexual? O maior equívoco é acreditar que o corpo “volta ao normal” sozinho. Não volta. O corpo pós-parto é um corpo transformado, forte, mas também fragilizado em algumas estruturas. Durante a gravidez, há uma verdadeira reprogramação muscular e hormonal: o abdómen expande-se, o pavimento pélvico adapta-se, a postura muda. Depois do parto, tudo precisa de tempo, consciência e acompanhamento para recuperar o equilíbrio. Outra ideia errada é pensar que o pós-parto é apenas físico. É uma fase de enorme vulnerabilidade emocional e psicológica. Muitas mulheres chegam exaustas, confusas, com o corpo a “não responder” e sem energia para a intimidade. Um dos erros mais comuns é achar que, ao fim dos 40 dias, a famosa “quarentena”, a mulher já pode retomar as relações sexuais. No entanto, isso só deve acontecer após uma avaliação do pavimento pélvico e, se necessário, a reabilitação adequada. O retomar da vida sexual deve acontecer quando a mulher se sentir verdadeiramente preparada e essa preparação pode levar um mês, meio ano ou até um ano, conforme o tempo e as necessidades de cada uma. E é aqui que o acompanhamento adequado faz toda a diferença: identificar diástases, tratar cicatrizes, aliviar tensões, prevenir incontinências, readquirir confiança e prazer. Cada mulher vive este processo de forma única, mas há um ponto em comum: nenhuma deveria atravessá-lo sozinha. O corpo não precisa de “voltar ao que era”; precisa de ser cuidado, compreendido e celebrado na nova fase que representa. Em que momento defende que deve começar a recuperação pós-parto e quando inicia a reabilitação ativa? A prevenção começa antes do parto, idealmente durante a gravidez. É nesse período que a mulher deve aprender a conhecer o seu pavimento pélvico, a respirar corretamente, a mobilizar a pelve e a preparar o corpo para o parto e para o que vem depois. No pós-parto, as primeiras quatro semanas são de adaptação: há um novo corpo, uma nova rotina, um novo bebé e uma nova vida. Mas isso não significa inatividade. As mulheres que acompanho recebem logo orientações para casa: exercícios leves para ‘reeducação abdominal’, com impacto na possível diástase abdominal, técnicas para cuidar da cicatriz e evitar aderências, estratégias respiratórias para recuperar o tónus e prevenir dor pélvica ou disfunções urinárias. Ao fim de quatro a seis semanas, iniciamos a reabilitação ativa, com avaliação personalizada: ecografia funcional, testes de força e controlo muscular. É uma fase de reconstrução, física e emocional, talvez uma das mais marcantes na vida de uma mulher. E, mais uma vez, o essencial é o mesmo: respeitar o tempo do corpo, acolher as emoções e devolver à mulher o prazer de habitar o seu próprio corpo, agora transformado, mas mais consciente e inteiro do que nunca. Quais são as queixas mais silenciosas que recebe na menopausa? Como preservar o prazer, a força pélvica e a autonomia num período tantas vezes associado à perda? Costumo dizer às minhas pacientes: não é uma fase de perda, é uma fase de renascimento. A menopausa, com todas as suas transformações, pode ser o início de uma nova relação com o corpo, mais consciente, mais livre, mais centrada em si. É muitas vezes o momento em que a mulher, depois de uma vida inteira a cuidar dos outros, decide finalmente cuidar de si. É verdade que há sintomas conhecidos, os afrontamentos, as alterações de humor, a perda de memória, mas há outros, mais silenciosos, que raramente são falados: a secura vaginal, a dor nas relações sexuais, a diminuição do desejo, a sensação de “desligar”, como tantas me dizem. E o medo de deixar de ser mulher é real. Mas o feminino não se perde, transforma-se. A fisioterapia pélvica tem um papel precioso nesta fase. Através de técnicas como a diatermia, a reeducação muscular e o tratamento dos pontos de dor, é possível restaurar a irrigação sanguínea, oxigenar os tecidos e devolver vitalidade ao pavimento pélvico. Quando o corpo volta a ser nutrido e sensível, o prazer e a energia regressam naturalmente. O meu sonho é que as mulheres encarem a menopausa não como o fim de um ciclo, mas como o início de um novo. Uma fase de autoconhecimento, de maturidade e de poder. Porque, nesta idade, uma mulher não perde nada, ganha consciência, liberdade e, muitas vezes, o seu verdadeiro centro. “Desejo que o pavimento pélvico deixe de ser uma “região autónoma” esquecida e volte a ser o centro da força, prazer e identidade feminina” Quais são os comportamentos diários mais nocivos para a saúde íntima que quase todas as mulheres repetem sem perceber? Há muitos hábitos aparentemente inofensivos que, com o tempo, fragilizam o pavimento pélvico. Um dos mais comuns é adiar a ida à casa de banho. Quando a vontade de urinar surge e é sistematicamente ignorada, o corpo altera o seu padrão natural e pode desenvolver disfunções urinárias, como perdas, urgência ou dor. Outro comportamento frequente é fazer força para evacuar, um hábito que cria tensão excessiva na musculatura pélvica, podendo originar dor, obstipação e desconforto durante as relações sexuais. O mesmo acontece com a forma como muitas mulheres treinam no ginásio: prender a respiração ao levantar pesos é um erro clássico. Essa apneia cria uma pressão enorme dentro do abdómen e força o pavimento pélvico para baixo, algo para o qual ele não está preparado. Também o sedentarismo e o uso de roupas demasiado apertadas contribuem para o aumento da tensão e a diminuição da circulação na zona pélvica. O ideal seria levantar-se a cada duas horas, alongar, movimentar a bacia em círculos e respirar profundamente, pequenas ações que fazem uma grande diferença. O pavimento pélvico não é apenas um conjunto de músculos: é o centro do corpo, da força, do prazer e da vitalidade. E, tal como qualquer outra estrutura, precisa de movimento, oxigénio e respeito para continuar a sustentar tudo o que somos. Que mudança gostaria de ver implementada na sociedade ou no sistema de saúde em relação à saúde íntima feminina? A verdadeira mudança tem de começar pela prevenção e, sobretudo, pela educação. Gostava muito que este tema chegasse cedo às escolas, porque nem todos os pais têm as ferramentas certas para o abordar. Sonho com o dia em que uma menina cresça a saber o que é o pavimento pélvico, que compreenda o seu ciclo menstrual, que reconheça o impacto das hormonas no seu corpo e no seu humor, e que perceba que a sua biologia não é uma limitação, mas uma força. Acredito que a educação sexual deve ir muito além da prevenção da gravidez e das doenças. Deve ensinar a conhecer o corpo, o prazer e os limites. Gostava que todas as raparigas soubessem onde está o seu clitóris e que percebessem que o prazer é um direito, não um tabu. Que aprendessem a olhar-se com naturalidade, a tocar-se sem culpa, a compreender o que gostam e o que não gostam antes de partilhar o corpo com outra pessoa. Mas também é urgente educar os rapazes. Porque a falta de conhecimento sobre o corpo feminino alimenta mitos e frustrações. Muitos aprendem sobre sexualidade através da pornografia e isso não ensina nada sobre intimidade, respeito ou prazer real. É preciso reeducar olhares, desmistificar crenças e criar uma cultura onde homens e mulheres se encontrem em igualdade e consciência. Gostava que todas as mulheres soubessem que têm músculos pélvicos e que podem fortalecê-los, cuidar deles, tal como cuidam do rosto ou das mãos. Que olhassem para a sua vulva com o mesmo carinho com que olham para o espelho. Que soubessem identificar alterações, inflamações, sinais de desequilíbrio. Que percebessem que o corpo fala e que cuidar dele é um ato de amor. No fundo, o meu desejo é simples: que a mulher volte a habitar o seu corpo por inteiro. Que o pavimento pélvico deixe de ser uma “região autónoma” esquecida e volte a ser o centro da sua força, prazer e identidade. O que gostaria que cada adolescente aprendesse sobre o seu corpo para evitarmos décadas de tabu e silêncio? Acima de tudo, gostava que cada adolescente aprendesse a conhecer-se. Que percebesse como funciona o seu corpo, o seu ciclo e o seu prazer. O autoconhecimento é a base da liberdade e uma mulher que conhece o seu corpo é uma mulher que vive com prazer, vitalidade e confiança. A desconexão corporal é uma das maiores causas de mal-estar feminino. Quando a mulher não entende o que sente, tende a culpar-se, a esconder-se, a viver com medo ou vergonha. Por isso, integrar a região íntima na perceção do corpo é essencial, não como algo separado, mas como parte natural de quem somos. Seria transformador se a fisioterapia pélvica fosse vista desde cedo como uma área preventiva, e não apenas terapêutica. Tal como se vai ao dentista ou ao ginecologista, as jovens deviam ter acesso a uma primeira avaliação pélvica logo após a menarca (a primeira menstruação). Isso permitiria compreender o ciclo, monitorizar sintomas e aprender a reconhecer as suas fases: a fase da energia e ação, a fase da introspeção, a da emoção. Educar é empoderar. Se as adolescentes soubessem que o corpo muda, que o prazer é diverso e que o seu valor não depende de padrões ou expectativas, teríamos mulheres mais livres, conscientes e saudáveis. E, muito provavelmente, menos dor, menos tabus e menos silêncio. É um sonho bonito, mas possível, o de uma geração de mulheres que crescem a conhecer o seu corpo, e não a desconfiar dele. Facebook: Qiuman Instagram: @qiuman.fisioterapiapelvica Morada: Rua da Saudade 59 4º Andar, Sala 41, 4050-570 Porto Contacto: 911 579 641 (chamada para a rede móvel nacional) Site: www.qiuman.pt “Há uma beleza silenciosa em cada sorriso reabilitado. A forma de estar no mundo muda” “A dor, física ou emocional, é muitas vezes a voz daquilo que ficou por dizer ou por sentir”
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