CASA & DESIGN “Para construir alguma coisa em conjunto, é essencial conseguir afastar o ego” By Revista Spot | Outubro 2, 2026 Outubro 2, 2026 Share Tweet Share Pin Email Antes de ser empresário, Cláudio Dias aprendeu a gerir clientes, a depender dos próprios resultados e a perceber o peso de cada decisão. Entrou quase por acaso no setor da caixilharia, mas foi aí que encontrou uma vocação para o contacto com as pessoas e para a construção de projetos. Anos depois, essa experiência ajudaria a dar forma à Brajanela, criada com Dulcineia Vilaça e Bruno Simões. Hoje, a empresa aproxima-se dos 15 anos e Cláudio sabe que crescer exige muito mais do que tomar boas decisões: implica antecipar, confiar em quem está ao seu lado, ceder quando é necessário e perceber que nenhum projeto se constrói apenas à medida de uma pessoa. É nessa ideia de construção partilhada que se percebe melhor a sua forma de liderar. Antes da Brajanela, dos clientes, das equipas e da responsabilidade de gerir uma empresa, quem era o Cláudio Dias? Como era na infância e na juventude? Acho que, no essencial, continuo a ser a mesma pessoa. Quando olho para trás, considero que tive uma infância muito privilegiada, não pela abundância de bens materiais, pelo contrário, mas pela liberdade, pelo amor, pelo contacto com a natureza e pelo afeto que recebi. Fui criado, de certa forma, entre os meus pais e a minha avó paterna e nunca me faltou amor. Ao mesmo tempo, cresci muito na rua, em grupo, a jogar à bola, a conviver, a partilhar. Isso obrigou-me desde cedo a aprender a desenvencilhar-me, a desenvolver alguma destreza, perspicácia e confiança. Talvez muitas das caraterísticas que hoje reconheço em mim tenham começado aí. O gosto por estar com pessoas, a capacidade de me adaptar, de encontrar soluções e de funcionar em grupo vêm muito dessa infância e dessa juventude. No fundo, fui uma criança feliz. E tenho a sensação de que essa base acabou por influenciar muito aquilo que viria depois. Quem trabalha consigo conhece o gestor e o comercial. Mas que versão conhecem a família e os amigos? Durante muito tempo, honestamente, não existia uma grande diferença entre o Cláudio da família e o Cláudio da Brajanela. Mais recentemente, fui percebendo que, do ponto de vista empresarial, precisava de me moldar em algumas situações. Não significa mudar quem sou, mas perceber que determinados contextos exigem posturas diferentes. Na vida pessoal, continuo a ser uma pessoa alegre, bem-disposta e que gosta muito de estar com os outros. Também fui aprendendo a selecionar mais as pessoas à minha volta. Para mim, família e amigos acabam por estar muito ligados, porque os amigos são também aquela família que escolhemos. Com a idade e com aquilo que vamos vivendo, esse círculo tornou-se mais restrito, mas quem está nele sabe que pode contar comigo. Sou muito de estar de corpo e alma, de deixar aquilo que for preciso para ajudar alguém de quem gosto. E gosto muito das coisas simples: um bom jantar, uma boa conversa, férias, convívios, bons momentos. Esse talvez seja o Cláudio que aparece menos numa reunião, mas é provavelmente aquele que está mais próximo daquilo que sou. Antes de ser sócio-gerente, houve um profissional a aprender o setor. Como começou o seu percurso profissional? Em que momento percebeu que queria deixar de trabalhar apenas num projeto de outros para construir o seu próprio caminho? Nesse aspeto, considero-me uma pessoa com alguma sorte. A minha entrada no setor aconteceu quase por acaso, depois de uma interrupção nos estudos. Não consegui entrar na universidade no curso que pretendia e decidi trabalhar durante um ano numa fábrica de caixilharia. Foi aí que tive o primeiro contacto com este setor. Mais tarde, surgiu o desafio de passar para a área comercial e aceitei trabalhar como comissionista. Esse momento foi muito importante porque, apesar de formalmente continuar ligado a uma empresa, comecei praticamente a trabalhar para mim próprio. Tinha de gerir o meu tempo, o meu dinheiro, os meus clientes e os meus resultados. Comecei a construir uma carteira e a perceber que havia ali um caminho profissional para mim. Isso terá acontecido por volta de 2002 ou 2003. E considero-me um sortudo porque descobri quase por acaso aquilo que era, afinal, a minha verdadeira vocação: o contacto com as pessoas. Gosto da componente comercial, de criar relações, de desenvolver projetos e de construir alguma coisa. Foi essa experiência que me começou a moldar como empresário. O bilhar ocupa um lugar suficientemente importante na sua vida para o levar à competição federada pelo SC Braga–Brajanela. Como começou essa relação? A relação mais séria com o bilhar começou sensivelmente na mesma altura em que me casei com a Dulcineia e no ano em que nasceu a Brajanela, ali entre 2010 e 2012. Sempre gostei muito de desporto. Joguei futebol, pratiquei hóquei em patins de forma mais esporádica e sempre fui uma pessoa ligada a esse universo. Mas o bilhar acabou por se tornar especial porque também passou a ser uma paixão partilhada por mim e pela Dulcineia. Mais tarde surgiu a vertente competitiva no distrito de Braga e hoje tenho muito orgulho em representar o Sporting Clube de Braga através do SC Braga–Brajanela, embora reconheça que a minha participação seja menos assídua do que a de outros elementos da equipa. A Dulcineia e o Miguel, que também faz parte dos quadros da Brajanela, levam a competição de uma forma mais regular. Para mim, o bilhar funciona sobretudo como um escape. É um espaço onde consigo sair um pouco da lógica permanente do trabalho e concentrar-me numa coisa completamente diferente, embora, curiosamente, existam muitos paralelismos com o mundo empresarial. No bilhar, uma boa jogada raramente termina na bola que temos à frente: é preciso antecipar a seguinte. Reconhece nessa lógica alguma coisa da sua forma de estar nos negócios? É alguém que pensa várias jogadas à frente, ou, quando chega o momento decisivo, confia mais no instinto? Reconheço completamente essa lógica. O instinto já me salvou muitas vezes e gosto de ouvir aquilo que estou a sentir num determinado momento. Há ocasiões em que temos mesmo de confiar numa espécie de instinto mais primário, perceber o ambiente e tomar uma decisão. Mas uma boa gestão exige sobretudo capacidade de antecipação. No bilhar, não serve de muito embolsar todas as nossas bolas se, no final, não deixarmos posição para jogar a preta. Nos negócios acontece algo semelhante. Precisamos de pensar não apenas na decisão que estamos a tomar hoje, mas também naquilo que essa decisão nos vai permitir fazer amanhã. Na Brajanela procuramos pensar a curto e médio prazo. Muito do nosso crescimento tem passado por essa tentativa de antecipar aquilo que poderá acontecer. Claro que nunca conseguimos controlar tudo. Não controlamos aquilo que pensam os clientes, os fornecedores ou os próprios colaboradores. Há variáveis imprevisíveis. Por isso, por melhor que seja a preparação, há sempre momentos em que temos de recorrer ao instinto. Mas, sempre que possível, prefiro jogar em antecipação. Construir uma empresa com sócios implica muito mais do que dividir responsabilidades. A Brajanela nasceu e cresceu consigo, com a Dulcineia Vilaça e com o Bruno Simões. O que é que aprendeu sobre confiança, cedência e ego ao construir durante tantos anos um projeto em conjunto? Confiança, acima de tudo. Acredito que a confiança é o pilar de qualquer relação, seja amorosa, familiar, de amizade ou profissional. E uma confiança forte não aparece de um dia para o outro. Constrói-se ao longo do tempo, através daquilo que fazemos todos os dias. Até numa relação comercial é assim. Podemos dizer a um cliente que somos de confiança, mas essa confiança só existe verdadeiramente quando é confirmada em vários momentos da relação. Ao longo destes anos aprendi também a colocar-me no lugar dos meus sócios. Gosto de partilhar e fui percebendo que, para construir alguma coisa em conjunto, é essencial conseguir afastar o ego. Isso nem sempre é fácil. O ego faz parte do ser humano. Mas, quando o alimentamos demasiado, perdemos foco, perdemos alguma destreza emocional e passamos a olhar excessivamente para nós próprios em vez de conseguirmos ver quem está ao nosso lado. Por isso, talvez a confiança seja a maior aprendizagem. Confiar, ceder quando é necessário, perceber a perspetiva do outro e não deixar que uma necessidade individual se sobreponha permanentemente ao projeto comum. Há uma imagem que se repete quando se fala da Brajanela: equipa, convívios, famílias, pessoas juntas. De onde vem essa necessidade de criar grupo? Isso vem claramente da minha infância e da minha juventude. Sempre estive inserido em grupos. Fiz parte de equipas de futebol e fui capitão em vários escalões, participei num grupo de jovens, num grupo de cavaquinhos, nos escuteiros. Venho também de uma família numerosa. Portanto, estar em grupo, partilhar e promover momentos em conjunto sempre fez parte de mim. Hoje, fora da empresa, faço isso menos porque também fui restringindo e selecionando mais o meu círculo pessoal. Mas o gosto por juntar pessoas continua lá. Na Brajanela isso tornou-se parte da cultura. Quando criámos o projeto, havia determinadas coisas das nossas experiências profissionais anteriores que não queríamos repetir. Pensávamos: se vamos passar oito, nove ou dez horas por dia a trabalhar, então temos de criar um ambiente em que as pessoas se sintam bem. Daí os convívios, as festas de aniversário, os momentos de equipa ou os team buildings. Sei perfeitamente que há quem valorize mais essas iniciativas e quem valorize menos, mas acredito que é importante sermos coerentes com aquilo em que acreditamos. Tenho uma ideia muito simples: eu dificilmente estarei verdadeiramente bem se quem está ao meu lado não estiver também bem. Isso aplica-se à vida e aplica-se à empresa. Às vezes penso no contraste entre aquilo que existia há algumas décadas e aquilo que vemos hoje: tínhamos casas pequenas, com poucos móveis, mas cheias de pessoas. Hoje temos casas enormes e muitas vezes muito menos gente lá dentro. Não é isso que quero para a minha vida, nem para a empresa. Quem lidera habitua-se a ser procurado quando é preciso decidir, resolver ou assumir responsabilidades. Tem facilidade em admitir que não sabe, pedir ajuda ou mostrar fragilidade? Ou essa foi uma aprendizagem que teve de fazer ao longo dos anos? Admitir que errámos é sempre um exercício. Muitas vezes é aí que aparece novamente o ego. Tenho uma forma muito própria de lidar com isso e reconheço que nem sempre é fácil. É uma aprendizagem contínua. Por outro lado, estou muito habituado a decidir e gosto que me procurem quando é preciso tomar uma decisão. Quem lidera sabe que vai acertar algumas vezes e vai errar noutras. Quando tomo uma decisão, como escolher um fornecedor em vez de outro, seguir determinado rumo ou contratar uma pessoa em vez de outra, procuro não ficar permanentemente preso ao eventual erro. Se a decisão se revelou errada, massacrar-me por isso não resolve nada. O que tento fazer é perceber onde falhámos, retirar a aprendizagem e evitar repetir exatamente o mesmo erro. A humildade está muito aí: não em fingirmos que não erramos, mas em sermos capazes de reconhecer quando aconteceu e crescer a partir daí. Há empresários que saem da empresa, mas levam a empresa para casa. Consegue verdadeiramente desligar? O que é capaz de o fazer esquecer um orçamento, um cliente, um problema ou aquilo que ficou por resolver naquele dia? É difícil desligar completamente. No meu caso há ainda uma particularidade: eu e a Dulcineia somos ambos sócios da Brajanela. Crescemos enquanto casal ao mesmo tempo que a empresa crescia. Durante muitos anos, isso significou literalmente levar o trabalho para casa. Não vale a pena esconder isso e acredito até que uma parte do crescimento da empresa aconteceu também porque existiu esse nível de entrega e de sacrifício. Felizmente, soubemos gerir isso enquanto casal. A minha relação com o trabalho em casa mudou bastante com o nascimento do Gabriel. Nessa altura estabeleci comigo próprio uma regra: quando chegava a casa, o telemóvel ficava em silêncio. Isso não significa que a cabeça desligue totalmente. Acho muito difícil alguém construir um projeto empresarial vivendo apenas as oito horas em que está fisicamente no trabalho. Podemos estar oito horas na empresa, mas mentalmente o projeto acompanha-nos muito mais tempo. O importante é conseguir impedir que todos os pequenos problemas do dia entrem connosco em casa. Hoje, estar com o Gabriel e com a Dulcineia, jantar, brincar e conviver em família ajuda-me bastante a abstrair. Um bom jogo de futebol ou uma boa leitura também ajudam. A cem por cento? Não. Acho que quem vive intensamente um projeto empresarial dificilmente consegue desligar por completo. A Brajanela cresceu em Braga e mantém uma ligação próxima ao desporto e às instituições da região. O que representa Braga na sua história? Gosto muito de viajar e costumo dizer, até em tom de brincadeira, que sou um cidadão do mundo. Há lugares fora de Braga a que estou ligado por razões pessoais e profissionais e onde, de tanto regressar, já me sinto quase em casa. Mas Braga é diferente. A Brajanela é Braga e Braga está profundamente ligada à Brajanela. O próprio nome demonstra isso. Eu nasci em Braga, o Bruno nasceu em Braga, a Dulcineia nasceu em Braga e grande parte das nossas famílias está ligada à região. Não consigo imaginar facilmente a empresa noutro lugar. Devemos muito a esta cidade, que nos acolheu e acompanhou ao longo destes quase 15 anos. É também por isso que procuramos apoiar instituições locais sempre que possível, manter uma ligação próxima ao desporto e contratar, sempre que possível, pessoas da nossa cidade e das freguesias e localidades em redor. Sentimos que também temos essa responsabilidade de devolver alguma coisa ao território onde crescemos. E, olhando mais à frente, se retirássemos a Brajanela do cartão de visita, como gostaria que alguém descrevesse Cláudio Dias daqui a vinte anos? Essa é uma pergunta difícil porque nunca pensei muito naquilo que os outros devem pensar de mim. Sei apenas que, por onde passo, gosto de deixar um pouco da minha forma de ser: a brincadeira, a boa disposição, a tradicional piada, mas também a disponibilidade para os outros. Gostava que alguém pudesse dizer que fui genuíno e que ajudei quando pude. E ajudar nem sempre significa ajuda monetária. Por vezes é uma palavra, um conselho, estar presente num determinado momento. Se daqui a vinte anos alguém disser simplesmente que fui um bom amigo, ficarei feliz. Morada: Rua Edgardo Sá Malheiro, 132 R/C Esq. 4705-267, Braga Contacto: 933 379 627 Facebook: Brajanela Instagram: @brajanela Site: brajanela.pt O que é que Vhils e a inteligência artificial têm em comum? A “casa do futuro”, no novo Palazzo Xperience em Guimarães “A biologia não devia pagar o preço de uma tendência estética. É esse o princípio da biomimética”
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