EMPRESAS & EMPRESÁRIOS/LADO B Conquistou a perfumaria internacional sem deixar Braga para trás. Daniel Vilaça fez da inquietação uma forma de avançar By Revista Spot | Setembro 17, 2026 Setembro 23, 2026 Share Tweet Share Pin Email Talvez Daniel Vilaça nunca tenha aprendido a escolher apenas um caminho. O rapaz que tocava bateria, experimentava coisas novas e procurava sempre o desafio seguinte tornou-se empresário, piloto e presidente da Associação Empresarial de Braga (AEB), sem deixar verdadeiramente nenhuma dessas versões para trás. É dessa mistura e dessa inquietação que nasce também a Nortempresa, criada há mais de duas décadas, numa altura em que falar de identidade olfativa em Portugal ainda exigia explicar primeiro o próprio conceito. Hoje, a empresa desenvolve fragrâncias e cosméticos para mercados internacionais e acaba de acrescentar ao seu percurso uma conquista particularmente relevante: um contrato de desenvolvimento e produção para uma das marcas mais luxuosas de perfumes do mundo. É uma conquista significativa para uma empresa portuguesa e o resultado de um caminho construído com persistência, capacidade de adaptação e vontade de fazer diferente. Pelo meio, Daniel continua também a somar prémios no automobilismo, onde encontra competição, concentração e uma forma de desligar do resto. Ainda assim, prefere continuar a olhar em frente. Porque aquilo que o move nunca foi apenas chegar mais longe, mas continuar a encontrar razões para avançar. Já se definiu como “o homem dos sete ofícios” e disse ter “pressa de viver”. De onde nasce essa urgência? Acho que nasce da minha forma de estar. Gosto de estar envolvido em projetos, de criar, de resolver problemas e, sobretudo, de ver as coisas acontecer. Quando uma coisa deixa de me desafiar, começo naturalmente a procurar outra. Foi assim em várias fases da minha vida, desde a música até à empresa, passando agora também pelo automobilismo. Não vejo isso propriamente como pressa. É mais uma necessidade de continuar a avançar. Gosto de olhar para aquilo que já fizemos, perceber o que pode ser melhorado e pensar no passo seguinte. Quem era o Daniel Vilaça na infância? Era muito traquina. Tinha um grupo de amigos com quem estava constantemente a inventar qualquer coisa. Chegámos, por exemplo, a transformar um frigorífico velho numa espécie de canoa para descer um rio. Na altura, pareceu-nos uma excelente ideia. Hoje, provavelmente não repetiria a experiência. (risos) Sempre tive essa tendência para experimentar e perceber como as coisas funcionavam. Gostava de desmontar, construir, inventar. Com o tempo, naturalmente, ganhamos responsabilidades e aprendemos a pensar melhor antes de avançar. Mas acho que essa curiosidade ficou. Talvez hoje seja aplicada de uma forma um pouco mais organizada. Construiu a Nortempresa num setor dominado por grandes grupos internacionais e ajudou a colocar Braga no mapa da perfumaria e da cosmética. Houve algum momento em que achou que não iria conseguir? Houve vários momentos difíceis. O erro é olhar para uma empresa com mais de 20 anos e imaginar que o percurso foi linear. Não foi. Criei a Nortempresa quando tinha 25 anos, do zero e sem nada. Comecei com uma ideia, muita vontade de trabalhar e a convicção de que era possível construir um projeto sólido. Numa viagem aos Estados Unidos, descobri o marketing olfativo, um conceito que praticamente ninguém conhecia em Portugal e que trabalhava a identidade das marcas através do cheiro. Fez-me sentido imediatamente e percebi que havia ali uma oportunidade. O problema é que uma coisa pode ser interessante e, ao mesmo tempo, não ser considerada necessária. Eu ia falar com empresas sobre identidade olfativa, as pessoas achavam o conceito interessante, mas depois era difícil transformar esse interesse numa decisão de investimento. A crise de 2008 obrigou-me a redefinir a estratégia. Foi nesse contexto que criei uma marca de perfumes e, posteriormente, o laboratório e a fábrica da Nortempresa. Começámos então a desenvolver e a produzir perfumes para várias marcas nacionais e internacionais. Em 2020, surgiu uma nova adversidade, com a pandemia. Mais uma vez, decidimos transformar a dificuldade numa oportunidade. Investimos em novos equipamentos para a produção de cosméticos, reforçámos a equipa e começámos a produzir cosmética, complementando a área da perfumaria. Hoje produzimos para várias marcas internacionais. Tenho muito orgulho em dizer que estamos a desenvolver e a produzir produtos cosméticos para uma das marcas mais luxuosas do mundo, com presença global. Este é um momento muito importante para a Nortempresa. Muitas portas vão abrir-se a partir de agora e acredito que estamos preparados para novos voos e para tornar a empresa uma referência internacional no setor cosmético. Há resultados que parecem acontecer de um momento para o outro, mas que, na realidade, são construídos durante muitos anos. Ainda temos muito para fazer, mas chegámos a um ponto em que conseguimos olhar para o caminho percorrido com orgulho e, ao mesmo tempo, ambição para continuar a crescer. Diz que gostava de ter o “superpoder” de estar duas horas adiantado em relação ao presente. O que, ou quem, consegue fazê-lo abrandar? Não é fácil. (risos) Estou habituado a estar sempre a pensar no que vem a seguir, seja na empresa, na associação ou nas corridas. É uma caraterística minha e também uma parte importante da forma como trabalho. Mas, obviamente, há momentos em que é preciso desligar. A família e os amigos ajudam muito nisso. São os momentos em que consigo sair um pouco dessa lógica de trabalho e projetos. E também há o automobilismo. Quando estou dentro do carro, durante uma subida, não existe espaço mental para mais nada. Estou ali concentrado na competição. É uma forma muito eficaz de desligar. Uma empresa de perfumaria vive de memória, identidade e emoção, embora trabalhe com algo invisível. Se tivesse de traduzir a sua vida num perfume, que notas teria? E que memória gostaria que esse perfume lhe devolvesse sempre que o sentisse? Teria personalidade. Não seria um perfume demasiado convencional. Provavelmente teria madeiras, sândalo e algumas notas mais fortes, mas com qualquer coisa inesperada no fundo. Gosto de perfumes com identidade, que não sejam imediatamente previsíveis. Aliás, essa é uma das coisas que mais me interessa na perfumaria: o perfume não se vê, mas consegue identificar uma pessoa ou uma marca. Pode criar uma memória sem precisarmos de explicar nada. Por isso, se tivesse de transformar a minha vida num perfume, seria provavelmente algo com personalidade, alguma irreverência e uma assinatura própria. Começou no automobilismo de montanha em 2018 e descreve as corridas como uma “terapia”. O que encontra dentro daquele carro que não consegue encontrar na vida quotidiana? Comecei no automobilismo de montanha em 2018 e hoje a competição tem uma dimensão completamente diferente. Atualmente, participo no Campeonato de Portugal de Montanha e encaro cada prova com muita seriedade. Represento a Nortempresa e o Grupo Acrescentar nas corridas e existe, naturalmente, uma responsabilidade acrescida. Não existem prémios monetários, mas existe outra coisa que, para mim, é muito importante: a vontade de vencer e de fazer melhor a cada corrida. Gosto de preparar, analisar, perceber onde podemos melhorar e procurar sempre aquele pequeno ganho que pode fazer a diferença. No fundo, é muito semelhante à minha forma de estar enquanto empresário. Nunca estou completamente satisfeito com o que já conseguimos. Quero melhorar, encontrar novas soluções e tentar fazer melhor amanhã do que fizemos hoje. Dentro do carro acontece também uma coisa que valorizo muito: durante aqueles minutos, estou completamente focado na competição. Não penso na empresa, nas reuniões ou nos problemas do dia a dia. Estou concentrado na estrada, na trajetória, na travagem e no tempo que quero fazer. Por isso, as corridas são simultaneamente competição e uma forma de desligar. E talvez seja essa combinação que me mantém tão ligado ao automobilismo: a adrenalina da competição e a mesma vontade de superação que procuro levar para a minha vida profissional. Antes de ser empresário, foi escuteiro, baterista durante mais de 12 anos e chegou aos perfumes depois de viajar até aos Estados Unidos. O que aconteceu a esse lado mais artístico, livre e talvez até rebelde? Continua cá. Acho que nunca desapareceu. Fui baterista da banda de rock português Sociedade Anónima durante mais de 12 anos. Foi uma fase muito importante da minha vida e tivemos algum sucesso, numa altura em que não existiam redes sociais para ajudar a divulgar uma banda ou a chegar facilmente a novos públicos. Tudo era muito mais difícil: era preciso tocar, divulgar, conseguir concertos e construir o nosso espaço. Essa experiência ensinou-me muito sobre trabalho de equipa, disciplina e, sobretudo, sobre persistência. Numa banda, tal como numa empresa, não basta ter talento ou uma boa ideia. É preciso trabalhar, insistir e fazer as coisas acontecer. O lado mais irreverente e a vontade de experimentar continuam presentes. Hoje manifestam-se de formas diferentes, seja nos projetos empresariais, seja na competição automóvel. Acho que algumas caraterísticas não mudam. Podemos mudar de área, assumir responsabilidades diferentes e ter uma vida completamente diferente, mas continuamos a levar connosco aquilo que aprendemos nas experiências que tivemos. Entre o empresário, o presidente e o piloto, existe também o pai. O que mudou em si quando foi pai? E que Daniel conhece a sua família e os seus amigos? Ser pai foi, provavelmente, a maior mudança da minha vida, mas uma mudança claramente para melhor. Passei a ter outras prioridades e uma perspetiva diferente sobre algumas coisas, mas continuei a fazer aquilo de que gosto e a aceitar novos desafios. A minha mulher e o meu filho fazem parte dessa equação. A minha família apoia-me em todas estas aventuras e esse apoio é muito importante. Não é fácil conciliar tudo quando temos uma vida com tantas coisas a acontecer ao mesmo tempo… Também é interessante ver o meu filho crescer e começar a interessar-se por algumas das coisas de que eu gosto, como a música e a bateria. Não faço questão de que siga os meus passos; quero que encontre o seu próprio caminho. Mas, naturalmente, fico satisfeito quando vejo que algumas dessas paixões também despertam o interesse dele. No final, tento simplesmente encontrar um equilíbrio entre a família, o trabalho e aquilo que gosto de fazer. Ter ao nosso lado as pessoas que nos apoiam torna muito mais fácil continuar a aceitar novos desafios. Quanto ao Daniel que a família e os amigos conhecem, é provavelmente bastante menos formal do que aquele que aparece em determinados contextos públicos. (risos) Gosto de estar com amigos, gosto de festa e sou normalmente dos primeiros a entrar na brincadeira. Não sou muito dado a grandes formalismos. Mesmo nas funções institucionais, tento manter as relações o mais naturais possível. Entre liderar uma empresa, representar outros empresários e competir ao volante de um Porsche, habituou-se a ser visto como alguém que decide, resolve e avança. Em que circunstâncias se permite não ter respostas, baixar a guarda ou simplesmente depender de alguém? Não acho que um líder tenha de ter sempre todas as respostas. Aliás, acho que isso seria impossível. Na empresa, procuro rodear-me de pessoas que saibam tanto ou mais do que eu. Dou-lhes autonomia e espero que tragam ideias e soluções. Os meus pais também tiveram e continuam a ter um papel muito importante neste projeto. Estão comigo desde o início da Nortempresa, ajudaram muito na construção da empresa e continuam a acompanhar-me e a apoiar-me. São uma peça fundamental neste percurso e tenho plena consciência de que este caminho não teria sido o mesmo sem eles. Gosto de tomar decisões, mas também gosto de ouvir quem está comigo. A Nortempresa não cresceu apenas pelas minhas ideias. Cresceu pelo trabalho de uma equipa e pelo apoio das pessoas que estiveram presentes desde o início. Com o tempo, aprendi que liderar não é controlar tudo. É saber escolher as pessoas certas, dar-lhes espaço para trabalhar e assumir a responsabilidade pelas decisões que têm de ser tomadas. Que legado gostaria de deixar? Há uma coisa que, para mim, é fundamental: poder olhar para trás e sentir que tudo aquilo que construí foi feito sem prejudicar ninguém. Nunca precisei de pisar alguém para chegar onde cheguei e não gostaria que algum sucesso profissional pudesse ser construído à custa disso. Também gostava que as pessoas percebessem que não esqueci quem era antes de ter uma empresa, cargos ou reconhecimento. Continuo a sentir que sou essencialmente a mesma pessoa que era quando não tinha nada disto. Os projetos cresceram, as responsabilidades aumentaram e hoje entro em contextos completamente diferentes daqueles em que comecei, mas não quero que isso altere a forma como trato as pessoas ou a maneira como me vejo. Talvez seja esse o legado que mais me interessa. Claro que quero que a Nortempresa continue a crescer. Quero ver a fábrica crescer, desenvolver ainda mais o laboratório, trabalhar com grandes marcas internacionais e mostrar que uma empresa portuguesa pode fazer trabalho de excelência numa indústria tão competitiva. Ainda tenho muitos objetivos e continuo a sentir que o melhor está por vir. Mas, no fim, empresas, cargos e resultados acabam por ser circunstanciais. Se um dia disserem que consegui fazer coisas importantes sem deixar de ser a mesma pessoa e sem passar por cima de ninguém para lá chegar, para mim já será uma boa forma de ser recordado. Morada: Rua Parque Bouça das Mouras, Nº 56 Nogueira Braga Telefone: +351 253 673 269 Email: sales@nortempresa.com Facebook: Nortempresa Perfume & Cosmetics Manufacturer Instagram: @nortempresa www.nortempresa.com “O tempo de consulta pode fazer a diferença entre aliviar uma dor e compreender o que está na sua origem” “O sofrimento psicológico nem sempre é visível. Por vezes, convive com uma vida aparentemente normal”
EMPRESAS & EMPRESÁRIOS / ÉS DE BRAGA Protegido: “Há decisões quase invisíveis numa obra que determinam a forma como vivemos um espaço durante décadas” Não existe excerto porque se trata de um artigo protegido.
EMPRESAS & EMPRESÁRIOS “E se a próxima vantagem competitiva fosse uma inteligência artificial adaptada à sua empresa?” E se, em vez de perguntar à inteligência artificial o mesmo que milhões de outras pessoas, a sua empresa pudesse…
EMPRESAS & EMPRESÁRIOS “Uma marca não pode comunicar uma realidade que o cliente nunca irá encontrar” Os likes não pagam contas. Os seguidores também não. E nenhuma comunicação, por mais apelativa que seja, consegue compensar um…