PRONUNCIA DO NORTE “A economia circular precisa de olhar para o mundo como um sistema interligado, não como fronteira a fechar” By Revista Spot | Novembro 7, 2025 Novembro 10, 2025 Share Tweet Share Pin Email Há empresas que falam de sustentabilidade e há outras que a concretizam. A Bracicla, liderada por António Veloso, pertence a esta segunda categoria, a das que transformam resíduos em futuro. Num setor onde o desperdício ainda pesa toneladas, a empresa afirma-se como uma das maiores referências nacionais na reciclagem e valorização de papel, exportando até 90% da sua produção para mercados como Europa, Ásia e Estados Unidos. Mas 2026 assinala um ponto de viragem: um investimento de 3,5 milhões de euros que promete redefinir o conceito de economia circular. A expansão das instalações e a incorporação de tecnologia de última geração permitirão reaproveitar o resíduo na sua totalidade, reduzir emissões e aproximar a operação da autossuficiência ambiental. “Queremos crescer com inteligência”, sublinha o CEO. E inteligência, neste caso, significa propósito: transformar cada fibra, cada caixa, cada fragmento descartado em matéria-prima para um mundo mais consciente. Metas europeias: realidade económica À medida que a União Europeia aperta as metas de reciclagem e reutilização até 2030, António Veloso defende uma abordagem que combine ambição com pragmatismo. “Temos um problema ambiental para resolver, mas não podemos dar passos maiores do que a realidade da economia.” Traz o paralelismo com o setor automóvel, onde, na sua perspetiva, exigências ambientais demasiado rápidas fragilizaram a indústria europeia face à concorrência asiática. A sustentabilidade, sublinha, deve começar na origem, nas embalagens. “As embalagens precisam de ser redesenhadas. Têm de ser mais simples, homogéneas e economicamente apetecíveis para reciclar. É preciso que o sistema seja sustentável para todos os lados da cadeia.” Por isso, defende uma cooperação mais estreita entre produtores, recicladores e entidades gestoras, de modo a garantir soluções que sejam simultaneamente técnicas, ambientais e economicamente viáveis. Tecnologia e consciência: a revolução invisível A inteligência artificial e a digitalização estão a mudar o setor da reciclagem. As chamadas “embalagens inteligentes”, com códigos digitais que permitem rastrear o ciclo de vida dos materiais, já são uma realidade. “A inteligência artificial pode ser uma ferramenta poderosa, mas tem de ser usada com consciência. No nosso caso, serve para identificar materiais, otimizar triagens, prever fluxos e reduzir emissões. Não queremos tecnologia pelo espetáculo, queremos tecnologia que resolva problemas reais.” A revolução é silenciosa, mas profunda: sensores, algoritmos e dados estão a redefinir a logística. “Vamos otimizar as recolhas. Os nossos contentores vão estar equipados com sensores que nos dizem quando estão cheios ou vazios. Com base nessa informação, o sistema desenha rotas mais curtas e eficientes. Um contentor em Chaves e outro quase cheio em Valpaços podem ser recolhidos na mesma viagem. Assim, poupamos tempo, combustível e emissões. É uma nova forma de pensar a logística: menos é mais.” Na triagem, a automação permitirá separar materiais com maior pureza e menor contaminação, garantindo um produto final mais valorizado e preparado para as exigências das fábricas nacionais e internacionais. A nova fronteira: resíduos orgânicos e bioeconomia Outro eixo de inovação está nos bioresíduos, um tema que António Veloso considera decisivo para o futuro. “Há um mercado enorme por explorar. As cidades produzem toneladas de resíduos orgânicos e o sistema ainda não lhes dá resposta adequada. Queremos entrar aí com soluções que sejam realmente resíduos zero, com aproveitamento energético e retorno ambiental.” A Bracicla vê a bioeconomia como uma das grandes oportunidades de crescimento do setor. O novo projeto de expansão prevê a instalação de unidades capazes de tratar resíduos orgânicos e industriais não recicláveis, transformando-os em energia ou novos materiais, numa lógica de valorização total do resíduo. “Estamos a preparar-nos para um mercado que ainda não tem soluções. Queremos ser pioneiros num modelo de economia circular completa, onde nada se perde. Acreditamos que o futuro passa por aí.” Energia, neutralidade e bem-estar das pessoas A sustentabilidade, sublinha, não se resume à energia limpa, é uma questão de eficiência e bem-estar humano. Com uma das maiores unidades de gestão de resíduos da Europa, a Bracicla quer ‘fechar’ o seu círculo ecossustentável investindo em energias renováveis nos processos produtivos e numa mobilidade eficiente na frota assumida pela Bracargo. Mais do que uma ‘bandeira verde’, uma filosofia de ecoeficiência e gestão sustentável que pretende ‘contagiar’ positivamente outras empresas do setor. “Nunca vamos chegar a emissões zero absolutas. Temos camiões que percorrem centenas de quilómetros por dia; isso não muda de um dia para o outro. Mas podemos reduzir consumos e otimizar cada quilómetro. Cada painel solar que instalamos significa menos eletricidade comprada, menos emissões e mais autonomia. É o tipo de investimento que faz sentido: bom para o ambiente e bom para a empresa. A sustentabilidade nunca pode ser só ambiental, tem de incluir a economia e as pessoas.” “Temos um problema ambiental para resolver, mas não podemos dar passos maiores do que a realidade da economia” O tabu da incineração e a urgência da verdade António fala de temas que muitos evitam. Um deles é a incineração. “Temos de ser realistas. Há resíduos que não são recicláveis, quer por razões técnicas quer económicas. Não podemos continuar a fingir que isso não existe. A incineração, quando fiscalizada e supervisionada, é o menor dos males. Permite recuperar energia e reduzir volume, evitando problemas de saúde pública.” Defende, por isso, a criação de uma central de valorização energética no Norte, que una as entidades regionais e trate resíduos públicos e privados. “Seria uma forma racional de dar resposta rápida a um problema crescente. Os aterros não são infinitos e é preciso pensar a médio prazo.” Entre os resíduos mais problemáticos estão as espumas industriais e os têxteis mistos, para os quais ainda não existe solução económica nem tecnológica de reciclagem. “O têxtil é um problema gravíssimo. O algodão e algumas fibras naturais podem ser reaproveitados, mas a maioria dos tecidos sintéticos e mistos não. A incineração controlada é, para já, a única solução realista.” Exportar para circular: a globalização como parte da solução Portugal continua a exportar 80% a 90% dos materiais recicláveis processados pela Bracicla. Mas, ao contrário do que alguns defendem, António Veloso não vê nisso uma falha, vê uma engrenagem essencial da circularidade global. “Exportar é essencial. Fechar o circuito apenas à Europa seria dar um tiro no pé. Países asiáticos precisam de papel reciclado. Se não lhes enviarmos, vão às árvores. A circularidade é global, não podemos confundi-la com autarcia.” A globalização, lembra, tem paradoxos económicos difíceis de ignorar: “Hoje é mais barato trazer um contentor da Índia do que um camião do Algarve. Os barcos transportam milhares de contentores e diluem custos. Não é lógico, mas é a economia global. Temos de saber viver com ela e otimizá-la.” A economia circular, defende, precisa de olhar para o mundo como um sistema interligado, não como fronteira a fechar. A caixa que dá a volta ao mundo Há uma história que António Veloso gosta de contar porque simboliza, melhor do que qualquer diagrama, o que significa circularidade. “Uma caixa de cartão que transporta o Nestum é usada pelo consumidor, vai para o ecoponto, chega à Bracicla, é enfardada e enviada para uma fábrica na Europa ou na Ásia. Lá, transforma-se novamente em papel, que depois regressa em bobinas e volta a ser caixa. É um ciclo perfeito, circular e global. O material pode dar a volta ao mundo e regressar ao mesmo sítio. Isso é circularidade real.” “As embalagens precisam de ser redesenhadas: mais simples, homogéneas e economicamente apetecíveis para reciclar” Literacia ambiental: ensinar para mudar Apesar dos avanços tecnológicos, o maior desafio continua a ser a literacia ambiental. “Adoro falar com as gerações mais jovens. Eles ouvem, perguntam e fazem-nos pensar. Muitos professores e pais não sabem como funciona o processo da reciclagem. As pessoas acham que tudo o que vai para o ecoponto é reciclado automaticamente, mas não é assim. Um copo de iogurte sujo pode contaminar toneladas de material. É preciso mostrar, explicar, ensinar com exemplos.” O CEO defende também uma mudança de paradigma nas políticas públicas. “Muitos concursos de recolha de resíduos ainda olham apenas para o preço. É preciso avaliar a qualidade do serviço, a triagem correta, o acondicionamento adequado. Caso contrário, o sistema perde eficiência e o esforço ambiental transforma-se em burocracia.” A educação e a comunicação são, para o responsável, o motor silencioso da mudança. “Falar sobre isto é um investimento para o futuro. É uma hora gasta hoje que poupa milhares amanhã.” 2030: o tempo que se esgota Quando se fala de 2030, o tom do líder da Bracicla torna-se direto. “Faltam quatro anos. E estamos a fazer pouco. Sensibilizar a população já não chega. É preciso agir em coordenação: produtores, recicladores, entidades gestoras. E aceitar que nem tudo se recicla. A meta é reduzir, reutilizar e reciclar, nesta ordem.” Para cumprir os objetivos europeus, acredita, é preciso mais do que campanhas: é necessário ecodesign obrigatório, incentivos económicos coerentes, valorização energética para fluxos irrecuperáveis e educação prática desde a escola básica. “Ver um resíduo transformar-se novamente em matéria-prima é das coisas mais gratificantes que há. É o verdadeiro ciclo da vida” Olhar para dentro: um sapato à medida Aos 50 anos, a Bracicla entra numa nova era. Continua líder no tratamento de papel e cartão, mas aposta em novas instalações e equipamentos para ampliar o seu raio de ação e reaproveitar o resíduo na sua totalidade. “Durante muito tempo vivemos do papel. Hoje percebemos que temos dentro de portas outros resíduos que também precisam de tratamento. Estamos a criar soluções à nossa medida, desenhadas para o nosso próprio mix de materiais. É o que chamo fazer um sapato à nossa medida.” Para o gestor, esta capacidade de adaptação é o segredo da longevidade. Ser arrojado com consciência António Veloso acredita que o futuro da sustentabilidade se constrói com os dois pés no chão. “Não podemos dar passos maiores do que a realidade. Mas também não podemos ficar parados. Entre a pressa e a inércia, escolhemos o trabalho bem feito. Ver um resíduo transformar-se novamente em matéria-prima é das coisas mais gratificantes que há. É o verdadeiro ciclo da vida.” A Bracicla entra em 2026 com um pé firme no presente e o olhar no futuro, a provar que a verdadeira inovação é, antes de mais, uma questão de lucidez. Morada: Figueiredo, Rua de Santo Aleixo, 4720-427 Amares, Braga Contacto: 253 216 931 Facebook: Bracicla Linkedin: BRACICLA Unipessoal Lda Site: www.bracicla.pt “Num tempo em que todos correm, parar pode ser o gesto mais revolucionário” No choro do primeiro bebé, no mergulho sereno das sessões aquáticas ou no abraço silencioso do luto gestacional, Rita Cruz encontrou a sua missão de amor
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