LADO B/Restaurantes “O nome que deixamos vale mais do que o negócio que construímos” By Revista Spot | Julho 30, 2026 Julho 31, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há empresários que constroem negócios. E há empresários que constroem lugares onde os outros querem ficar. Henrique Meireles Caniço pertence aos dois mundos. Cresceu entre cozinhas, salas cheias e conversas à mesa, num ambiente onde aprendeu cedo que receber é muito mais do que servir. Essa forma de estar atravessa projetos como o restaurante D. Frango, a Garrafeira do Henrique, a Eira Costa House e a DC Solution: diferentes entre si, mas unidos pela vontade de fazer alguém sentir que chegou ao lugar certo. Para lá do empresário exigente, existe o pai que passou a medir o tempo de outra forma, o amigo que reúne pessoas, o viajante atento e o ciclista que encontra na estrada o silêncio que os dias raramente permitem. Nesta conversa, os negócios são apenas o ponto de partida para conhecer o homem que existe para lá deles: os valores que herdou, as escolhas que repete e a marca que procura deixar em quem se cruza consigo. Quem é o Henrique quando ninguém lhe pergunta pelo negócio? É curioso, porque a restauração faz parte da minha vida desde sempre, mas quando chego a casa gosto de voltar a ser apenas o Henrique. Sou um homem que valoriza a família, os amigos e os momentos simples. Gosto de reunir as pessoas à volta de uma mesa, conversar sem pressa e criar memórias. Outra grande paixão que tenho é viajar. Sempre que posso gosto de conhecer novos países, novas culturas e novas formas de viver. Viajar inspira-me, abre-me horizontes e ensina-me que há sempre algo a aprender. Muitas das ideias que levo para os meus projetos nasceram precisamente dessas experiências. Gosto de observar a forma como cada povo recebe quem chega, como vive a gastronomia e como preserva as suas tradições. No fundo, sou alguém que acredita que a vida é feita de experiências. O trabalho ocupa uma parte muito importante da minha vida, mas são as pessoas, a família, as viagens e os momentos partilhados que lhe dão verdadeiro sentido. Quando pensa na casa onde cresceu, que imagem lhe surge primeiro? O que levou dessa infância para o homem que é hoje? Na verdade, a minha casa sempre foi a restauração. Cresci a ver os meus pais dedicarem a vida a este negócio e passei grande parte da minha infância entre cozinhas, salas de restaurante e mesas cheias de pessoas. Foi ali que comecei a perceber que servir alguém vai muito além de colocar um prato na mesa; é fazer essa pessoa sentir-se bem-vinda. Mas os maiores ensinamentos não aconteceram apenas no restaurante. Aconteciam quando a família se reunia à mesa. Era nesses momentos que se partilhavam histórias, experiências e valores que ainda hoje fazem parte de quem sou. Foi ali que aprendi a importância da honestidade, de ser verdadeiro, de respeitar a palavra dada e de dar valor ao trabalho. Os meus pais ensinaram-me que nada se conquista sem esforço. As conquistas acontecem com persistência, dedicação e a coragem de nunca desistir perante as dificuldades. Hoje percebo que herdei muito mais do que uma profissão. Herdaram-me uma forma de estar na vida. Ensinaram-me que devemos fazer sempre o nosso melhor, respeitar as pessoas e nunca esquecer que, no fim do dia, o nosso nome vale mais do que qualquer negócio. Sempre foi aquela pessoa que reunia os amigos e organizava encontros? O que lhe dá mais prazer quando junta pessoas à mesma mesa? Sempre gostei de juntar pessoas. Talvez por ter crescido na restauração, aprendi desde cedo que as melhores conversas acontecem à volta de uma mesa. Não importa se é um almoço de família, um jantar entre amigos ou uma prova de vinhos. O que realmente gosto é de criar momentos em que as pessoas desligam da rotina, convivem e levam consigo boas memórias. Acredito que a hospitalidade não é apenas uma profissão; é uma forma de estar na vida. É isso que tento transmitir em todos os meus projetos. Mais do que servir refeições ou vender produtos, gosto de criar espaços onde as pessoas tenham vontade de regressar. Quem é o Henrique num grupo de amigos? O que diriam sobre si as pessoas que o conhecem melhor? Os meus amigos sabem que sou muito mais descontraído do que aquilo que a imagem de empresário pode transmitir. Gostam de dizer que sou eu quem organiza os encontros, quem procura sempre um bom restaurante ou um destino diferente para conhecer. Também sabem que gosto muito de ouvir. Interessa-me conhecer histórias, perceber diferentes formas de pensar e aprender com as pessoas que vou encontrando pelo caminho. Talvez os clientes vejam um empresário exigente e muito dedicado ao trabalho. Os meus amigos conhecem alguém que valoriza acima de tudo a simplicidade, a lealdade e o tempo passado com quem realmente importa. O é que a paternidade lhe ensinou? Ser pai foi, sem dúvida, a maior transformação da minha vida. Mudou completamente a forma como vejo o tempo e as prioridades. Os meus filhos ensinaram-me que estar presente é muito mais importante do que estar apenas disponível. Fizeram-me perceber que o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelos negócios que construímos, mas pelas memórias que criamos com quem amamos. Continuo a ser exigente comigo próprio e com os meus projetos, porque faz parte da minha forma de estar. Mas hoje tento encontrar um equilíbrio maior entre o trabalho e a família, porque sei que há momentos que nunca voltam. No fundo, ser pai tornou-me uma pessoa melhor. Mais paciente, mais consciente e ainda mais determinado em deixar um legado que vá muito além dos negócios: um legado de valores, respeito e exemplo. Como nasceu a sua ligação ao ciclismo? O que procurava quando começou e o que é que acabou por encontrar na estrada? A bicicleta entrou na minha vida numa altura em que senti necessidade de encontrar um equilíbrio. A restauração é um setor muito exigente, com horários intensos e uma disponibilidade quase permanente. Precisava de um momento que fosse só meu. Comecei a pedalar pelo desafio físico, mas rapidamente percebi que estava a ganhar muito mais do que isso. Descobri uma forma de desligar do ritmo acelerado do dia a dia, de cuidar da minha saúde e, acima de tudo, de organizar as ideias. Hoje, subir para a bicicleta já faz parte da minha rotina. É um momento em que volto a focar-me em mim, onde encontro tranquilidade e energia para enfrentar novos desafios. O que é que encontra na bicicleta que não consegue encontrar noutro lugar? É liberdade, desafio, convívio ou uma forma de regressares a si? Para mim, a bicicleta representa liberdade. Quando estou a pedalar não existem chamadas, reuniões ou preocupações imediatas. Existe apenas a estrada, o silêncio e o tempo para pensar. É um dos poucos momentos em que consigo desligar completamente do trabalho e estar presente no momento. Gosto especialmente de pedalar em contacto com a natureza. Faz-me lembrar que, por muito exigente que seja o nosso dia a dia, devemos sempre encontrar tempo para respirar, olhar à nossa volta e aproveitar o caminho. No fundo, a bicicleta ensinou-me que nem sempre o mais importante é chegar depressa ao destino. Muitas vezes, o verdadeiro valor está em aproveitar o percurso. É durante os quilómetros de bicicleta que consegue organizar ideias, tomar decisões ou olhar para os problemas com maior distância? Sem dúvida. Muitas das decisões mais importantes que tomei nasceram durante uma volta de bicicleta. Quando o corpo está em movimento, a mente também parece ganhar espaço para pensar de forma mais clara. É curioso como, muitas vezes, começo um treino preocupado com um problema e termino com uma solução. A bicicleta ajuda-me a colocar tudo em perspetiva. Também é nesses momentos que surgem novas ideias para os meus projetos. Viajar inspira-me a conhecer novas realidades; a bicicleta ajuda-me a transformá-las em ideias concretas. Que Henrique aparece nas subidas e nos momentos de cansaço? É competitivo, persistente, contemplativo ou aquele que não deixa ninguém para trás? A estrada revela exatamente aquilo em que acredito. Mostra-me que não existem conquistas sem esforço, que todas as subidas acabam por terminar e que desistir nunca pode ser a primeira opção. Tal como na vida e nos negócios, há dias em que tudo parece fácil e outros em que cada quilómetro custa mais do que o anterior. Mas aprendi, desde muito novo, que a persistência e a dedicação acabam sempre por fazer a diferença. É talvez por isso que me identifico tanto com o ciclismo. Não se trata apenas de força física. Trata-se de disciplina, compromisso e da capacidade de continuar, mesmo quando o caminho se torna mais difícil. Acredito que esses são exatamente os mesmos valores que procuro aplicar todos os dias, tanto na minha vida pessoal como nos meus projetos profissionais. Quando conhece um restaurante ou um novo projeto, em que repara primeiro? Que experiência recente despertou a sua curiosidade? É quase inevitável. Quando entro num restaurante, o meu olhar vai muito além da comida. Reparo na forma como as pessoas são recebidas, no ambiente, na atenção aos detalhes e na forma como a equipa interage com os clientes. Acredito que uma boa experiência começa muito antes de chegar o primeiro prato à mesa. Começa no sorriso de quem recebe, no ambiente que se cria e na sensação de nos sentirmos bem-vindos. Talvez seja por ter crescido na restauração. Aprendi desde cedo que as pessoas podem esquecer o que comeram, mas dificilmente esquecem a forma como as fizemos sentir. Criar negócios ou criar lugares onde as pessoas querem ficar? Sem dúvida, criar lugares onde as pessoas querem ficar. Nunca vi os meus projetos apenas como negócios. Cada um deles nasceu com uma identidade própria, mas todos partilham o mesmo objetivo: receber bem, criar momentos e proporcionar experiências que as pessoas tenham vontade de repetir. No D. Frango, procuro preservar os sabores da nossa tradição com respeito pelo produto e pela qualidade. Na Garrafeira do Henrique, quero que cada vinho conte uma história e seja um convite à descoberta. A Eira Costa House nasceu da vontade de oferecer tranquilidade, conforto e uma experiência autêntica a quem nos visita. No fundo, todos estes projetos têm algo em comum: foram pensados para que as pessoas se sintam em casa. “Somos aquilo que fazemos, não aquilo que dizemos”. Que gestos, escolhas ou atitudes do seu quotidiano revelam melhor quem é? É uma frase com a qual me identifico muito. Vivemos numa época em que é fácil prometer ou falar sobre aquilo que queremos fazer. Eu prefiro que sejam as minhas atitudes a falar por mim. Procuro liderar pelo exemplo, cumprir a minha palavra, respeitar quem trabalha comigo e tratar todos os clientes da forma como gostava de ser tratado. Os valores que os meus pais me transmitiram continuam presentes em todas as decisões que tomo. A honestidade, o respeito, a dedicação e a persistência nunca passaram de moda e acredito que nunca passarão. No final do dia, aquilo que realmente fica não são as palavras, mas a forma como tratamos as pessoas. O que as pessoas dificilmente imaginariam sobre si? Talvez não imaginem que, apesar de viver diariamente rodeado de pessoas, valorizo muito os momentos de silêncio. É nesses momentos, seja numa viagem, numa volta de bicicleta ou simplesmente junto da família, que encontro o equilíbrio e a inspiração para continuar a crescer. Também sou uma pessoa muito curiosa. Gosto de aprender, de conhecer novas culturas, novas pessoas e diferentes formas de fazer as coisas. Acredito que cada experiência nos pode ensinar alguma coisa e tornar-nos melhores. Se um dia gostava de ser lembrado por alguma coisa, não seria apenas pelos restaurantes ou pelos projetos que construí. Gostava de ser lembrado pela forma como tratei as pessoas, pelos valores que procurei transmitir e pela paixão que coloquei em tudo aquilo que fiz. Porque, no fim de contas, os negócios podem crescer, mudar ou até desaparecer. Mas o nosso caráter, a nossa palavra e a marca que deixamos na vida das pessoas permanecem muito para além de qualquer projeto. D. Frango Restaurante Facebook | Instagram | Website Garrafeira do Henrique Instagram Eira Costa House Facebook | Instagram DC Solution Facebook | Instagram Estarão os seguros preparados para riscos que ainda não têm nome? “O maior risco não é a inteligência artificial substituir pessoas. É substituir o pensamento”
Restaurantes No verão, Braga volta a encontrar-se à mesa da Belga Há uma espécie de ditadura gastronómica que chega todos os anos com o primeiro dia de calor. De repente, tudo…
Restaurantes No Astória, os fins de tarde de verão começam às 17h30 e sobem até ao rooftop Há uma hora do dia em que ninguém sabe exatamente que refeição está a fazer. O almoço já passou, o…
Restaurantes O American Seafood Boil chegou a Braga e come-se de luvas e babete Esqueçam os talheres bem alinhados, os guardanapos impecáveis e aquela regra antiga de que não se deve brincar com a…