SAÚDE “A saúde do cérebro constrói-se, todos os dias, com gestos simples” By Revista Spot | Dezembro 21, 2025 Dezembro 22, 2025 Share Tweet Share Pin Email O cérebro não é um “centro de comando” distante, é um órgão vivo, sensível ao que comemos, às horas de sono, ao stress e às rotinas que repetimos sem pensar. Num tempo de aceleração, notificações e cansaço crónico, cuidar da saúde cerebral deixou de ser tema de futuro, é tema da atualidade. Nesta entrevista, Jorge Alves, Diretor do Centro CEREBRO, fala de dez anos de experiência e de uma aposta pioneira em tecnologia aplicada com critério: exoesqueletos, robótica, realidade virtual e interfaces cérebro–máquina, ao serviço de pessoas reais, com AVC, traumatismos, lesão medular ou desafios complexos como a cegueira cortical. Mas o mais importante é o fio condutor, “a inovação só conta quando se transforma em prática, em evidência e em ganhos concretos.”, refere. Porque a saúde do cérebro constrói-se, todos os dias, com gestos simples e com equipas que sabem quando a tecnologia é ferramenta, e não promessa. Nos últimos meses, o Centro CEREBRO tem reforçado a sua presença e alargado áreas de intervenção. Que novidades, projetos ou avanços clínicos destacaria na avaliação, neuroeducação, treino cognitivo e neurorreabilitação? Somos pioneiros em mais de 20 tecnologias com a mais ampla gama de respostas clínicas e tecnologia. Por exemplo, aqui os pacientes que sofreram uma lesão ou doença neurológica podem encontrar ao mesmo tempo exoesqueletos, robots neurológicos, interfaces cérebro-máquina, sensores, entre outros. Recentemente implementámos um novo sistema 3D de avaliação e treino dos movimentos dos braços. Estamos constantemente a adicionar ferramentas inovadoras. Ao longo dos nossos 10 anos de existência, para além da melhoria contínua do nosso acervo de equipamentos tecnológicos, acumulámos extensa experiência em casos de lesões neurológicas tais como AVC, traumatismo crânio-encefálico e lesão medular, entre outros, incluindo síndromes difíceis como a cegueira cortical, na qual o paciente não consegue processar corretamente a informação visual devido a danos no cérebro. O Centro CEREBRO afirma trabalhar com protocolos baseados em evidência científica. De que forma transformam a investigação em intervenções práticas e acessíveis no dia a dia e que áreas recentes mais têm influenciado o vosso trabalho? Exige um conhecimento extenso nas vertentes científica, clínica e prática. O nosso ethos tem sido marcado desde a nossa génese por inovação tecnológica. Tal acontece desde há 10 anos, quando tecnologias como exoesqueletos, realidade virtual e interfaces cérebro-máquina não eram do conhecimento nem de profissionais nem do público português. Estamos sempre atentos aos novos desenvolvimentos tecnológicos e científicos. Mais ainda, participamos continuamente na criação de novo conhecimento através de estudos científicos e de apresentações em eventos desta área da ciência. Por exemplo, existem estudos interessantes evidenciando que, em determinados casos de lesões cerebrais, em que existem alterações “visuais” devido ao dano no cérebro é possível alguma melhoria através de terapias específicas. Nós temos um programa direcionado para estas problemáticas há já 10 anos e temos também contribuído com estudos científicos e divulgado os nossos resultados clínicos em momentos e espaços específicos do mundo da ciência. Ministramos e recebemos continuamente formação e a nossa atualização científica é constante. Estamos sempre a beber dos conhecimentos provenientes das neurociências básicas e aplicadas, neuropsicologia e neurorreabilitação. Destacando apenas alguns, este ano surgiram novos estudos que reforçam o conhecimento sobre a eficácia da terapia recoveriX no AVC. Destaque, também, para a importância de parâmetros específicos na neurorreabilitação, para o papel de fatores ambientais e psicossociais e de estimular a cognição e movimento na prevenção e intervenção nas demências. Que vantagens concretas têm observado nesta integração entre robótica, realidade virtual e interfaces cérebro–computador? Para além de muitas destas tecnologias permitirem aumentar as repetições efetivas necessárias à aprendizagem de movimentos e potenciarem a motivação, cada uma delas tem aplicações e benefícios específicos. Utilizamos tecnologias com comprovação científica. Por exemplo, a terapia recoveriX, para neurorreabilitação através de interface cérebro-computador, tem excelentes resultados na melhoria do movimento, espasticidade e função motora de membros superiores e inferiores no AVC. E como imagina o futuro da neurorreabilitação em Portugal, num contexto de inovação acelerada? Existe um considerável número de tecnologias disponíveis, o que pode gerar confusão em muitos profissionais e público, mas o diferencial é possuir o treino e conhecimento necessários, e isso demora tempo e um investimento pessoal e profissional considerável. Não basta apenas fazer uma pesquisa na internet ou recorrer a uma ferramenta de inteligência artificial para recomendar a melhor terapia. Ou seja, a tecnologia é uma ferramenta. Precisamos de clínicos que conheçam a evidência, a técnica e os limites tecnológicos, e estejam inseridos num ecossistema de interligação entre inovação e prática clínica. Existe um caminho a percorrer no nosso país, mas também existem bons exemplos. Tentamos liderar a área em Portugal procurando ser o melhor exemplo possível. Ministramos, frequentemente, formações convidadas para informar a nova geração de psicólogos, médicos, fisioterapeutas e engenheiros, entre outros profissionais, e o público em geral. Vivemos num tempo de stress crónico, aceleração e sobrecarga digital. Qual é o impacto real destes fatores sobre o cérebro? E que estratégias concretas recomenda para proteger o sistema nervoso num mundo hiperestimulante? A melhor intervenção é a prevenção (embora por vezes não seja possível prevenir). Acho que é útil recorrermos à analogia da proteção solar em relação à exposição solar excessiva. O sol é importante, mas em dose excessiva aguda ou através de exposição crónica cumulativa pode causar lesões cutâneas ou cancro da pele. Numa analogia não linear, o stress pode até ser promotor de desenvolvimento, mas com intensidade exacerbada ou crónica pode levar a uma desregulação psíquica e física, nomeadamente do eixo HPA (Hipotálamo-Hipófise-Adrenal) responsável pela homeostase e regulação da resposta do corpo ao stress. Continuando com a analogia da exposição solar, tal como usamos protetor solar ou tal como os japoneses utilizam chapéus de sol para se protegerem, podemos implementar de forma intencional, pausas e atividades que nos ajudem a “desligar” temporariamente. Para muitas pessoas o exercício físico regular serve este propósito, para outras uma outra atividade pode servir melhor. Contudo, particularmente em casos de stress crónico e sobrecarga crónica, importa recorrer a apoio especializado de psicólogo e/ou psiquiatra para avaliação e restabelecimento da saúde psicológica. Não existe uma receita “mágica” igual para todas as pessoas. Até que ponto um estilo de vida estruturado, com treino cognitivo e educação, pode reduzir o risco ou atrasar o aparecimento de doenças neurodegenerativas, mesmo com predisposição genética? A evidência científica atual refere que existem fatores envolvidos na prevenção da doença de Alzheimer e do declínio cognitivo, fatores estes relacionados com o estilo de vida e a gestão de doenças crónicas, tais como: treino cognitivo, saúde cardiovascular, perda auditiva, nutrição, atividade física, envolvimento social e cognitivo, exposição ambiental, sono. Tal é atualmente aceite e preconizado pela comunidade científica. Contudo, convém relembrar que, tal como tudo na vida, não há garantias absolutas de podermos prevenir as doenças neurodegenerativas. A idade é o principal fator de risco, quanto mais tempo vivemos maior é a possibilidade de doenças neurodegenerativas. Fazermos o melhor para preservar a nossa saúde e em simultâneo aceitar a nossa mortalidade é reconciliador. Tendo esta premissa em conta, existem de facto alguns estudos recentes a demonstrar que, mesmo em pacientes que apresentam maior risco de demência devido a variantes específicas de genes, a mudança de alguns destes fatores tais como nutrição, exercício físico e treino cognitivo melhora a cognição das pessoas. O Centro CEREBRO acompanha crianças, adultos e seniores. Quais são as diferenças mais marcantes entre estes três “cérebros em momentos distintos da vida”? Do ponto de vista da estrutura do cérebro, existem diversas diferenças. Por exemplo, o cérebro de um bebé até possui mais ligações entre neurónios do que o de um adulto, mas o cérebro adulto é mais “refinado”, pois vai-se moldando com as experiências de vida e as aprendizagens. Ao longo do envelhecimento, a parte mais superficial do cérebro diminui a sua espessura, pois vai-se especializando em contacto com o ambiente e as aprendizagens, dedicando módulos à linguagem, ao movimento, à memória, etc., e também gradualmente melhorando a comunicação entre estes diferentes módulos através da densificação da substância branca (as autoestradas da informação no nosso cérebro). Na última fase do envelhecimento, existe uma diminuição gradual do volume de tecido cerebral, claramente mais acentuada nos casos de algumas doenças, tal como a doença de Alzheimer. Importa salientar que, ao longo da vida, é preservada a propriedade essencial da neuroplasticidade. Contudo, isto não significa que, quando existe uma lesão, esta vai ser magicamente reparada através de um número infindável de neurónios; pode, sim, haver fenómenos de compensação e reorganização em função da reaprendizagem direcionada por terapias. Do ponto de vista funcional, em cada fase da vida há funções mentais que assumem maior predomínio. Por exemplo, um sénior não é tão rápido a processar informação como um adulto jovem, mas, por outro lado, tem mais experiência de vida e pode ativar/recorrer a soluções ou conhecimentos que aprendeu ao longo da vida e que facilitam resolver um determinado problema ou desafio mental. Tendo por base as especificidades de cada fase de desenvolvimento e envelhecimento cerebral, a pessoa à nossa frente, o seu exposoma (exposições ambientais, sociais e comportamentais que uma pessoa passa ao longo da vida) e o contexto biopsicológico atual, adaptamos a avaliação e a intervenção. Uma mensagem que ajude o público a perceber que cuidar do cérebro não é um ato tardio, mas um investimento vitalício na qualidade de vida… Poderíamos recorrer ao velho adágio popular: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. Seja na promoção de comportamentos saudáveis para tentar preservar a nossa função cerebral (ex.: alimentação saudável, exercício), na prevenção de fatores que aumentam o risco de AVC (ex.: pressão arterial e colesterol), de fatores envolvidos em outras lesões cerebrais como traumatismo crânio-encefálico lesão medular (ex.: sendo recomendado usar cinto de segurança, não conduzir sobre o efeito de álcool, usar capacetes em obras e em desportos tais como ciclismo, e não mergulhar de cabeça particularmente em águas de profundidade desconhecida), ou na reabilitação após lesão cerebral (ex.: recorrer a terapias realmente baseadas na evidência científica e necessidades de cada caso e família). No Centro CEREBRO, tentamos contribuir todos os dias para a saúde cerebral, a nível local e global, construindo o futuro hoje. Mantemos esse ímpeto com a mesma intensidade do dia em que iniciámos, há 10 anos, este projeto ímpar. Este adágio popular faz sentido ao nível da nossa instituição e ao nível individual de cada pessoa que valoriza cuidar da sua saúde cerebral, pois todos os dias há pequenos contributos que podemos dar para tentar construir um presente e um futuro melhores para o nosso cérebro. Morada: Rua Nova de Santa Cruz, nº 317 R/C , 4710-409 Braga Contacto: +351 253 137 687 (Chamada para a Rede Fixa Nacional) Facebook: Centro CEREBRO Instagram: @centrocerebro www.centrocerebro.pt Baukonzept: a engenharia invisível que está a elevar o padrão da construção G&G: A nova era da construção
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