Psicologia/PSIQUIATRIA “Vivemos ligados e sós” By Revista Spot | Maio 7, 2026 Maio 7, 2026 Share Tweet Share Pin Email Imaginemos uma sala de espera de um qualquer hospital. Vinte pessoas sentadas, cada uma mergulhada no ecrã do seu telemóvel. Não há olhares trocados, não há palavras ditas, não há gestos partilhados. Há apenas o silêncio de vinte solidões que coexistem em paralelo sem sequer se tocarem. Esta cena, que se repete em todos os lugares onde as pessoas se reúnem, nos transportes públicos, nos restaurantes, nas salas de aula, nas próprias casas, é o retrato mais preciso do tempo que vivemos. Vivemos a era da hiperconectividade. Nunca na história da humanidade tantas pessoas estiveram ligadas a tantas outras em tempo real. Nunca um ser humano se cruzou com tantos outros seres numa vida. As redes sociais prometeram-nos um mundo sem fronteiras, uma comunidade global, uma ágora digital onde todos teriam voz e onde a distância deixaria de existir. E, no entanto, os dados mostram-nos uma realidade radicalmente diferente: os níveis de solidão atingiram proporções epidémicas. A Organização Mundial de Saúde reconhece a solidão como um dos maiores desafios de saúde pública do nosso século. Num relatório recente, estima que uma em cada seis pessoas no mundo experiencia solidão, proporção que sobe para um em cada cinco entre adolescentes e jovens adultos. Em Portugal, os números acompanham esta tendência global. Entre os chamados “nativos digitais”, a geração que nasceu com o mundo na palma da mão, essa solidão é ainda mais paradoxal. Como é possível? Algumas respostas estão na diferença fundamental entre conexão e relação. Ao contrário do que nos prometeram, as redes sociais não foram concebidas para aproximar as pessoas, foram concebidas para as manter presas ao ecrã durante o maior período de tempo possível. Os seus algoritmos alimentam-se da nossa atenção, recompensando com dopamina cada notificação, cada “gosto”, cada comentário, criando um ciclo de dependência que imita a intimidade sem a proporcionar. O que experienciamos nas redes sociais não são relações genuínas entre pessoas, são conexões entre performances. Não existe a imprevisibilidade do outro nem a corporalidade do encontro. Até a vulnerabilidade, por vezes genuína, tem o potencial de ser lida como meramente performativa. O que existe em abundância é a curadoria cuidadosa de uma existência que se quer aprovável e partilhável. Testemunhamos frequentemente as consequências negativas desta realidade e, muitas vezes, essas consequências adquirem relevância clínica. A ansiedade social é agravada pelo escrutínio permanente das redes. A tristeza é alimentada pela comparação contínua com vidas que não existem fora do ecrã. A erosão da autoestima é acelerada pelos likes que chegam tarde ou que acabam por nem sequer chegarem. O vazio identitário acentua-se em jovens que aprenderam a construir a sua existência “para fora” em vez de “por dentro”. Em simultâneo, desenvolve-se um outro fenómeno que preocupa ainda mais: a violência que o mundo digital normaliza com uma velocidade assustadora. A distância física e a ausência de consequências imediatas libertam nos seres humanos uma crueldade que o encontro real moderaria. O insulto que nunca seria dito cara a cara torna-se comentário publicado em segundos. A humilhação que envergonharia em público transforma-se em meme partilhado por milhares. O ódio que precisaria de coragem para ser expresso em voz alta encontra na rede o anonimato que o emancipa. Estamos a testemunhar a construção de uma nova gramática da violência, mais rápida, mais difusa, mais normalizada e, por isso mesmo, mais perigosa. Há, porém, uma dimensão deste fenómeno que exige que nos detenhamos com particular atenção: a emergência de uma nova geração de influencers que constroem as suas audiências, e os seus rendimentos, sobre o ódio. Nas redes sociais, multiplicam-se os vídeos com narrativas extremistas contra as mulheres e as minorias, discursos que ganham popularidade crescente entre os jovens, alimentados por influencers que muitos veem como ídolos. A figura do “homem alfa”, dominante, financeiramente bem-sucedido, sexualmente predador, tornou-se o arquétipo de uma masculinidade tóxica que se vende como aspiração e que chega, sem mediação adulta, ao telemóvel de crianças. Uma investigação recente do jornal Público revelou que 79 escolas portuguesas permitiram, nos dois últimos anos letivos, a entrada de influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio, a coberto de campanhas de associações de estudantes. Não estamos só a falar de ignorância. Estamos a falar de influência. De um discurso partilhado com naturalidade perante milhares de jovens, muitos dos quais ainda estão a formar a sua visão do mundo, das relações e das mulheres. E quando esse discurso naturaliza a misoginia, ridiculariza a homossexualidade e transforma a crueldade em entretenimento, o dano é geracional. Esta violência não é inócua e é meticulosamente organizada com fins políticos e sociais. A exposição continuada a conteúdos de ódio, ao cyberbullying e à hostilidade das redes sociais aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de perturbações de ansiedade, depressão e comportamentos autolesivos. Os adolescentes são especialmente vulneráveis num período em que o cérebro ainda está em desenvolvimento e em que o reconhecimento pelos pares é uma necessidade fundamental para a construção da identidade. O paradoxo é cruel: a ferramenta que prometia aproximar-nos tornou-nos mais sós e mais violentos. E a resposta não pode ser a de virar costas à tecnologia, esse seria um anacronismo tão ingénuo quanto inútil. A resposta tem que ser outra: precisamos de reconstruir, dentro e fora do digital, a capacidade de nos relacionarmos com autenticidade, de tolerarmos a diferença, de resistirmos à sedução do ódio fácil. E precisamos de uma maior regulamentação do mundo digital que permanece fortemente desregulado e, crescentemente, à margem das leis. Como dizia Simone Weil, a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade. Num mundo que nos treina para a distração permanente e para o julgamento instantâneo, dar atenção verdadeira a outra pessoa, estar presente, ouvir, reconhecer a sua humanidade, é um ato radical. É também, provavelmente, o antídoto mais poderoso contra a solidão e a violência que o mundo digital está a semear. Precisamos de comunidades que eduquem para a literacia digital e emocional, que criem espaços de encontro real onde o corpo, a voz e o silêncio possam existir sem mediação. Precisamos de políticas que regulem com seriedade o poder das plataformas que lucram com a nossa solidão e com o nosso ódio. E precisamos, cada um de nós, de ter a coragem de desligar, não para nos isolarmos, mas para finalmente nos encontrarmos. “Nem todos os antes e depois contam a verdade” “Dizer ‘vivo com uma doença’ é muito diferente de dizer ‘sou doente’”
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