Psicologia “A Psicologia de hoje já não vive fechada no consultório. Vive na comunidade, nas escolas, nas empresas, na vida real” By Revista Spot | Maio 7, 2026 Maio 8, 2026 Share Tweet Share Pin Email A saúde mental deixou de caber apenas entre quatro paredes. Hoje fala-se mais de ansiedade, burnout, terapia e autocuidado, mas entre a procura crescente e o ruído das respostas rápidas continua a existir uma pergunta essencial: quem cuida da qualidade do cuidado? André Gonçalves, psicólogo clínico, formador e fundador da PsiqueMais, tem construído o seu percurso precisamente nesse cruzamento entre consulta, formação, supervisão e responsabilidade social. Depois de 15 anos de experiência em contextos como o Hospital de Braga, o SNS, autarquias, centros de estudos e clínica privada, percebeu que a saúde mental exige respostas menos isoladas e mais integradas. Na PsiqueMais, junta psicologia, psiquiatria, nutrição, terapia da fala, formação acreditada, supervisão e literacia. Nesta entrevista, fala-se do futuro da Psicologia, mas também do seu ponto de partida mais antigo: a relação humana. Em que momento percebeu que queria ir além da prática em consulta e construir um projeto mais abrangente na área da saúde mental? O meu percurso iniciou-se na psicologia clínica e da saúde, sempre muito ligado à prática clínica, à avaliação psicológica e ao acompanhamento de pessoas em diferentes contextos. A consulta continua a ser uma base essencial da minha identidade profissional, pela proximidade humana e pelo impacto direto que permite gerar. Ao longo destes 15 anos como psicólogo, tive a oportunidade de trabalhar em contextos diversificados, como o Hospital de Braga, estruturas do SNS, autarquias locais, centros de estudos e clínica privada. Estas experiências deram-me uma visão mais ampla da saúde mental. Com o tempo, fui percebendo que queria ir além da prática em consulta e contribuir de forma mais abrangente. A minha visão sempre passou por construir um projeto multidisciplinar, integrando psicologia, supervisão, psiquiatria, nutrição, terapia da fala, entre outras áreas, promovendo uma resposta integrada à saúde física e mental. A PsiqueMais nasce dessa visão: criar respostas qualificadas, humanas e articuladas, porque sem saúde mental não há saúde. Que visão quis imprimir ao projeto desde o início? O que é que sentia que faltava no terreno, tanto na resposta clínica como na formação de futuros profissionais? No terreno, sentia que existiam, muitas vezes, duas lacunas principais. Por um lado, ao nível da resposta clínica, verificava-se por vezes uma intervenção fragmentada, pouco articulada entre diferentes especialidades e nem sempre suficientemente personalizada. Muitas pessoas necessitavam de acompanhamento psicológico, mas também de uma articulação próxima com áreas como psiquiatria, nutrição, terapia da fala ou outras valências, numa lógica verdadeiramente integrada de cuidado. Por outro lado, no que respeita à formação de futuros profissionais, identificava uma necessidade clara de maior aproximação entre teoria e prática. Muitos estudantes e profissionais em início de carreira terminam a sua formação académica com bases importantes, mas sentem falta de ferramentas concretas, treino aplicado, discussão de casos, supervisão clínica, formação contínua e contacto com a realidade clínica do dia a dia. Foi precisamente a estas necessidades que procurei responder com a PsiqueMais, criar um projeto onde coexistem intervenção clínica de qualidade, composta por psicólogos maioritariamente especialistas reconhecidos pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), equipas multidisciplinares, formação prática e supervisão especializada. Um espaço onde se cuida das pessoas, mas onde também se investe no crescimento técnico e humano dos profissionais que irão cuidar delas no futuro. Porque é que considera tão importante defender formação acreditada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e em percursos que possam ter reconhecimento efetivo, incluindo em termos de valorização curricular e profissional e não apenas valor promocional? A Ordem dos Psicólogos Portugueses é, desde logo, o principal garante da regulação da profissão da Psicologia em Portugal, assumindo um papel fundamental na promoção da qualidade, da ética e da competência profissional. Nesse sentido, considero essencial valorizar percursos formativos acreditados pela OPP, sobretudo num contexto em que existe atualmente uma oferta muito vasta e nem sempre diferenciada do ponto de vista científico e pedagógico. A competência é um dos princípios éticos e deontológicos que deve pautar e nortear o exercício profissional dos psicólogos. Isso implica uma responsabilidade contínua de investir no próprio processo formativo, procurando atualização constante, aquisição de novas competências e aperfeiçoamento técnico, de forma a garantir a melhor resposta possível às pessoas que nos procuram. Sem exigência, dificilmente haverá verdadeira competência. Cabe-nos igualmente, enquanto psicólogos, contribuir para o combate à pseudociência e à disseminação de práticas sem base empírica, quer por parte de não psicólogos, quer até de alguns profissionais que, por vezes, mesclam a ciência psicológica com abordagens não científicas. Exemplos disso são as constelações familiares, terapias de conversão, programação neurolinguística (PNL), entre outras metodologias sem sustentação científica robusta, como advoga igualmente a OPP. A formação acreditada pela OPP representa, por isso, uma importante referência de qualidade. Para as entidades formadoras, funciona como um guia de orientação para a conceção e desenvolvimento da oferta formativa, confere um selo de garantia científico-pedagógica e permite uma divulgação mais qualificada junto dos públicos-alvo. Para os psicólogos, traduz-se numa maior segurança na seleção das ações formativas, assegurando que o investimento realizado corresponde a formação relevante e credível. Para além disso, constitui um elemento de valorização curricular e profissional, podendo ainda contribuir com créditos relevantes para a obtenção de títulos de especialidade. Mais do que um valor promocional, a acreditação deve ser entendida como um compromisso com a qualidade, com a responsabilidade profissional e com a defesa de uma Psicologia cada vez mais rigorosa e socialmente útil. A PsiqueMais valoriza formação síncrona, proximidade com o formador e acompanhamento ao longo do percurso. O que é que, na sua perspetiva, se perde quando a aprendizagem em psicologia se torna demasiado impessoal, automática ou distante da realidade clínica? A PsiqueMais procura distinguir-se pela aposta numa oferta formativa ampla e qualificada, ministrada por psicólogos especialistas em várias áreas da Psicologia e por médicos psiquiatras, assegurando elevados padrões técnico-científicos. Para além disso, mais de metade das nossas ações de formação são submetidas a acreditação junto da Ordem dos Psicólogos Portugueses, reforçando o compromisso com a qualidade e a relevância profissional dos percursos formativos que disponibilizamos. Outro aspeto diferenciador passa pelo facto de as nossas formações em regime e-learning serem 100% síncronas, com contacto permanente com o formador e metodologias verdadeiramente práticas. Privilegiamos discussão de casos, role play, trabalhos de grupo, reflexão conjunta e partilha entre colegas. Não pretendemos ser um mero depósito de conteúdos numa plataforma digital, onde o formando acede a materiais de forma isolada, sem contacto com o formador e, por vezes, sem qualquer relação humana ao longo do processo. Na nossa perspetiva, quando a aprendizagem em Psicologia se torna demasiado impessoal, automática ou distante da realidade clínica, perde-se aquilo que é essencial na própria natureza da profissão: a relação. A Psicologia é, em grande medida, uma ciência da relação humana, da escuta, da comunicação e da capacidade de compreender a complexidade das pessoas e dos contextos. Quando a formação é excessivamente distante, perde-se a possibilidade de esclarecer dúvidas em tempo real, de confrontar diferentes perspetivas, de treinar competências práticas, de receber feedback qualificado e de desenvolver pensamento clínico crítico. Perde-se também a riqueza da partilha entre colegas, e da construção de redes profissionais. Acreditamos, por isso, que formar psicólogos e outros profissionais da saúde mental não é apenas transmitir conteúdos. É criar experiências de aprendizagem vivas, exigentes e relacionais, capazes de aproximar conhecimento, prática e identidade profissional. A supervisão e a orientação de estágios surgem como uma vertente forte do vosso trabalho. Porque é que a passagem da teoria para a prática continua a ser um dos momentos mais decisivos na formação de um psicólogo? A passagem da teoria para a prática continua a ser, muitas vezes, um dos momentos mais frágeis e simultaneamente mais decisivos na formação de um psicólogo, porque é nesse ponto que o conhecimento académico passa a confrontar-se com a complexidade da realidade humana. Os manuais, os modelos teóricos e a evidência científica são fundamentais, mas nenhum deles substitui totalmente o contacto com a singularidade de cada pessoa, com a imprevisibilidade dos casos e com as exigências emocionais e éticas da prática clínica. Existem atualmente inúmeros modelos e abordagens científicas válidas, no entanto, muitos colegas, ao saírem da universidade, ainda procuram compreender qual é o seu espaço profissional, com que público-alvo se sentem mais identificados e onde conseguem expressar melhor as suas competências. Alguns descobrem maior aptidão com crianças e adolescentes, outros com adultos ou idosos. Uns sentem-se mais confortáveis a intervir em casos de luto, outros em perturbações da personalidade, ansiedade ou outras problemáticas clínicas. Nesse processo de construção identitária e técnica, é natural surgirem dúvidas, inseguranças e necessidade de orientação. Por isso, a supervisão assume um papel central. Muitos profissionais beneficiam profundamente de acompanhamento científico, técnico e ético por parte de colegas com mais experiência, que possam ajudar a pensar casos, a clarificar limites de intervenção e a sustentar decisões clínicas. Na PsiqueMais valorizamos particularmente momentos de intervisão, supervisão individual e supervisão de grupo, por considerarmos que são espaços essenciais de aprendizagem contínua, reflexão crítica e desenvolvimento de competências. Por fim, outro aspeto fundamental nestes processos passa pelo incentivo a práticas de autocuidado e à definição de limites saudáveis na intervenção. A formação que promovem não parece dirigida apenas a psicólogos, mas também a estudantes e até a pessoas de áreas próximas. Como é que se constrói uma oferta que seja acessível e útil para perfis diferentes, sem perder profundidade nem rigor técnico? Acreditamos que rigor e acessibilidade não são conceitos opostos. Quando existe qualidade científica, boa pedagogia e respeito pelos diferentes níveis de experiência, é possível criar formação útil para perfis distintos, sem perder profundidade nem relevância profissional. Na PsiqueMais, a nossa equipa de formação é composta por mais de 20 profissionais, psicólogos especialistas reconhecidos pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e médicos psiquiatras com experiência clínica e pedagógica, capazes de adaptar a comunicação aos diferentes públicos, mantendo sempre exigência conceptual e utilidade prática. A forma de garantir essa diversidade sem perder qualidade passa, em primeiro lugar, por definir claramente o público-alvo e os objetivos de cada ação formativa. Em segundo lugar, privilegiamos uma abordagem pedagógica que alia linguagem acessível a conteúdo tecnicamente robusto para as ações destinadas à população em geral. A PsiqueMais tem vindo a reunir profissionais e áreas distintas, da psicologia clínica à educação, do desporto à neuropsicologia, da sexologia à psicanálise, passando por vertentes comunitárias. O que é que esta diversidade lhe diz sobre a psicologia de hoje e sobre a necessidade de respostas menos fechadas e mais integradas? A diversidade de áreas e profissionais que a PsiqueMais tem vindo a reunir reflete, acima de tudo, a própria evolução da Psicologia enquanto ciência e profissão. Hoje, a Psicologia é cada vez mais plural, especializada e presente em múltiplos contextos da sociedade. Vai muito além do consultório tradicional, estando igualmente presente na saúde, educação, desporto, organizações, intervenção comunitária, justiça, neuroreabilitação, sexologia, entre muitas outras áreas. Esta realidade mostra-nos que as pessoas não vivem os seus desafios por “caixas separadas”. Uma dificuldade emocional pode cruzar-se com questões familiares, escolares, laborais, físicas, relacionais ou neuropsicológicas. Por isso, também as respostas devem ser mais integradas, articuladas e ajustadas à realidade concreta de cada pessoa. Na PsiqueMais valorizamos esta diversidade que é também muito importante ao nível formativo. Reunir profissionais de diferentes áreas e modelos teóricos permite enriquecer a leitura clínica, promover diálogo e evitar reducionismos. Disponibilizam consultas de psicologia e psiquiatria online. Depois de anos em que o digital ganhou outro peso na saúde, o que é que mudou verdadeiramente na forma como as pessoas procuram ajuda e no modo como vivem a relação terapêutica? A disponibilização de consultas de psicologia e psiquiatria online acompanha uma mudança significativa pós-covid, na forma como as pessoas procuram ajuda e acedem aos cuidados de saúde mental. O digital veio reduzir barreiras que durante muitos anos limitaram esse acesso, como a distância geográfica, dificuldades de mobilidade, horários profissionais exigentes, ausência de oferta especializada em algumas regiões ou mesmo o receio e estigma ainda associado, por vezes, à procura de apoio presencial. A própria OPP tem vindo a reconhecer e enquadrar a teleconsulta como uma modalidade legítima de prestação de cuidados, desde que realizada com critérios técnicos, éticos e deontológicos rigorosos. Isso significa assegurar confidencialidade, proteção de dados, consentimento informado, adequação clínica do caso e utilização de plataformas seguras, preservando sempre a qualidade da relação terapêutica. Entre as principais vantagens do formato online destaca-se a maior acessibilidade, permitindo acompanhamento a pessoas que vivem longe dos grandes centros urbanos ou no estrangeiro. Acresce a flexibilidade horária, a redução do tempo e custos de deslocação, a maior facilidade em manter regularidade nas sessões e a possibilidade de integrar a consulta de forma mais simples na rotina pessoal e profissional. Para muitas pessoas, o facto de estarem no seu próprio espaço também pode favorecer conforto emocional e abertura no processo terapêutico. Também a relação terapêutica se adaptou e evoluiu. Se inicialmente existiam dúvidas sobre a possibilidade de criar vínculo, empatia e profundidade clínica à distância, a experiência tem mostrado que a aliança terapêutica pode ser construída de forma sólida em contexto digital. As parcerias com associações e núcleos de estudantes mostram uma atenção particular aos mais novos e ao acesso precoce à saúde mental e à formação. Que responsabilidade sente em aproximar a psicologia das novas gerações numa altura em que há mais procura, mas também mais ruído e desinformação? As parcerias com associações e núcleos de estudantes refletem uma convicção clara que temos na PsiqueMais: aproximar a Psicologia das novas gerações é hoje uma responsabilidade social e profissional incontornável. Vivemos um tempo em que existe maior procura por apoio psicológico, maior interesse pela saúde mental e mais abertura para falar destes temas, o que é extremamente positivo, pois nem sempre foi assim. No entanto, esse crescimento tem sido acompanhado também por muito ruído informativo e desinformação difundida nos meios digitais. Perante esta realidade, sentimos a responsabilidade de contribuir para uma relação mais séria, crítica e informada entre os jovens e a Psicologia. Isso passa, desde logo, por promover literacia em saúde mental, informação credível de conteúdos sem base científica, e desenvolvimento pessoal de intervenção psicológica especializada. Na PsiqueMais procuramos transformar essa preocupação em medidas concretas. Através das parcerias com núcleos e associações de estudantes de Psicologia, proporcionamos acesso a descontos nos nossos serviços clínicos e condições especiais de participação nas nossas formações, facilitando o contacto precoce com respostas de qualidade, tanto ao nível do acompanhamento psicológico como do desenvolvimento profissional. As novas gerações procuram respostas rápidas, acessíveis e próximas da sua linguagem, o que exige da nossa parte capacidade de comunicação clara, atual e responsável, sem perder rigor técnico. Aproximar a Psicologia dos jovens não significa banalizá-la, mas sim torná-la compreensível, útil e relevante para os desafios reais que enfrentam, como ansiedade, pressão académica, identidade, relações interpessoais, uso excessivo de redes sociais ou incerteza face ao futuro. No plano formativo, consideramos igualmente importante apoiar estudantes e jovens profissionais na transição para a prática, criando oportunidades de contacto precoce com contextos reais, supervisão, formação de qualidade e modelos éticos de exercício profissional. Com o podcast “Entre Sessões”, percebe-se vontade de levar esta conversa para fora do consultório e da sala de formação. Que temas, dúvidas ou dimensões mais humanas da profissão sente que ainda precisam de ser ditos com mais verdade, mais proximidade e menos formalismo? Com o podcast “Entre Sessões”, existe precisamente essa intenção de aproximar a Psicologia das pessoas, de forma séria mas acessível. Sinto que ainda há temas que merecem ser falados com mais verdade, mais proximidade e menos formalismo, como a vulnerabilidade dos próprios profissionais, o impacto emocional de cuidar de outros, a importância do autocuidado, os desafios do exercício clínico, a solidão, o sentido de vida ou os momentos de crise identitária que tantas pessoas atravessam. Considero igualmente essencial reforçar o papel da psicoeducação e da responsabilidade social da Psicologia. Temos o dever de contribuir para uma população mais informada, com maior literacia em saúde mental, combatendo mitos, estigma e desinformação. A Psicologia deve estar presente no espaço público, ajudando as pessoas a compreender melhor emoções, relações, escolhas e comportamentos. Também me parece importante reconhecer que o psicólogo, mantendo sempre o rigor ético e profissional, continua a ser uma pessoa para além da profissão. A opinião pessoal, a reflexão crítica, o livre-arbítrio e a individualidade podem coexistir com a identidade profissional, desde que enquadrados com responsabilidade e consciência dos limites deontológicos. Acredito que a Psicologia não deve falar apenas de sintomas e diagnósticos. Deve também falar de significado, crescimento, liberdade, responsabilidade, relação e humanidade. Como o próprio Jung referia, “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”, lembrando-nos que, antes de qualquer técnica ou modelo, a relação continua a ser o centro do cuidado psicológico. Contacto: +351 938 224 544 (chamada para rede móvel nacional) Instagram: @psique__mais Site: psiquemais.pt “Muitas desilusões conjugais começam em expectativas que nunca foram ditas” Ostras com açaí, kimchi minhoto e cocktails do mundo: o novo Brecha quer pôr Braga a viajar à mesa
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