OTORRINOLARINOLOGIA “Não existe um nariz ideal, existe o nariz certo para cada rosto” By Revista Spot | Abril 9, 2026 Abril 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email O nariz raramente é neutro. Pode ser a estrutura que mais incomoda ao espelho, mas também aquela que mais se faz sentir quando a respiração falha ou o sono deixa de ser verdadeiramente reparador. Tiago Órfão, otorrinolaringologista, parte da cirurgia funcional do nariz para sustentar uma prática em que estética e função se completam. Num tempo em que se exige ao rosto que corresponda a referências externas e tendências digitais, o otorrinolaringologista insiste em contrariar simplificações. “Um nariz não se escolhe em catálogo, não se replica de outro rosto, nem se avalia apenas por uma fotografia”, refere. Nesta entrevista, fala-se de leitura clínica, de proporção, de naturalidade e do rigor exigido por uma cirurgia onde os milímetros contam. No nariz, a estética vê-se, mas a função sente-se todos os dias. Numa rinoplastia, porque é que olhar apenas para a forma pode ser uma visão incompleta do problema? A minha formação de base é em Otorrinolaringologia e, antes de chegar à componente estética, aprendi primeiro a cirurgia funcional do nariz. Essa foi a minha escola e continua a marcar profundamente a forma como penso cada caso. Ao longo dos anos fui aperfeiçoando técnicas, adquirindo experiência e integrando cada vez mais a vertente estética, mas sem nunca separar verdadeiramente uma coisa da outra. É que, na prática, essa fronteira quase não existe. O nariz é uma estrutura única, onde função e estética estão intrinsecamente ligadas. Há pacientes que chegam sobretudo por uma questão funcional e outros por uma questão estética, mas muitas vezes existe sempre um “já agora”: quem vem por uma razão acaba por perceber que a outra também faz parte do problema. Na maioria dos casos, não conseguimos dizer que determinado gesto cirúrgico é exclusivamente funcional ou exclusivamente estético. Muitas decisões têm impacto nas duas dimensões. Por isso, tratar apenas a forma, ignorando a função, é quase sempre olhar para o nariz de forma incompleta. Já realizou um elevado número de rinoplastias e rinosseptoplastias, mas há algo que nenhuma fotografia, simulação ou tendência consegue substituir: a leitura real de um nariz no conjunto de um rosto. Onde é que essa leitura clínica e estética continua a fazer toda a diferença? Essa leitura faz toda a diferença porque não existe um nariz ideal que sirva para toda a gente. Cada nariz tem de ser pensado no contexto daquele rosto, expressão e identidade. Não há um catálogo onde se escolha um modelo como quem escolhe um número. O que resulta bem numa pessoa pode não fazer qualquer sentido noutra. O nariz bonito, para mim, é aquele que se integra de forma harmoniosa no rosto e que não chama a atenção para si próprio. É um nariz discreto, equilibrado, natural. Quando o resultado é realmente bom, a pessoa parece simplesmente ter nascido com aquele nariz. Não se percebe que foi operado e isso, na minha perspetiva, é um excelente sinal. Pelo contrário, quando um nariz fica com estigmas cirúrgicos, há qualquer coisa que denuncia a intervenção, e isso é precisamente o que eu procuro evitar. A leitura clínica e estética serve para isso mesmo, perceber o que é adequado para aquela pessoa, o que é exequível, o que é realista e o que pode ser feito sem comprometer a harmonia do rosto. No fundo, mais do que “fazer um nariz bonito”, trata-se de encontrar o nariz certo para aquela face. A ideia de harmonizar o rosto mantendo naturalidade ganhou muito peso nos últimos anos. O que distingue, na sua perspetiva, um nariz tecnicamente bem operado de um nariz verdadeiramente certo para aquela pessoa? Um nariz tecnicamente bem operado é, para mim, aquele que fica tão natural que nos deixa na dúvida: será que foi operado ou será que sempre foi assim? Esse é o ideal. O melhor resultado é aquele em que o nariz é bonito, equilibrado, funcional e não parece “feito”. Quando olho para um nariz e percebo imediatamente que foi operado, mesmo que esteja aceitável do ponto de vista técnico, sinto que há ali qualquer coisa que falha em termos de naturalidade. Pode haver um detalhe, uma proporção, uma definição excessiva ou um traço demasiado marcado que o torna menos harmonioso. Um nariz verdadeiramente certo para aquela pessoa é aquele que respeita o rosto, a expressão, o sexo, a estrutura facial e a identidade. Não se trata de reproduzir tendências nem de impor um formato. Trata-se de perceber o que faz sentido naquele rosto e criar um resultado que valorize a pessoa sem a descaraterizar. Quando isso acontece, o nariz deixa de ser protagonista e passa simplesmente a pertencer ao rosto de forma natural. Antes da técnica, há a pessoa, a sua história, a forma como se vê e a forma como respira. Numa cirurgia como esta, até que ponto ouvir bem o doente pode ser tão decisivo para o resultado como o gesto cirúrgico? Acredito sinceramente que a escuta e a humanização podem ser tão decisivas para o resultado como a própria cirurgia. A primeira consulta é absolutamente fundamental. É nesse momento que começamos verdadeiramente a perceber quem é a pessoa que temos à frente, o que procura, como se vê, o que a incomoda e, sobretudo, se as suas expectativas são realistas. Essa capacidade de ler o paciente, para além do nariz, é algo que a experiência vai ensinando. Há narizes que nunca poderão transformar-se exatamente na imagem idealizada pela pessoa, e isso tem de ser explicado com clareza, honestidade e tempo. É importante dizer, por exemplo, que uma assimetria muito marcada nunca será uma simetria perfeita, ou que um nariz com pele grossa nunca terá o mesmo comportamento de um nariz com pele fina. Por isso, a consulta pré-operatória exige detalhe, observação e transparência. É preciso analisar fotografias, observar o interior do nariz, explicar limitações e mostrar até pormenores que o paciente talvez nunca tenha reparado antes. Muitas vezes, no pós-operatório, a pessoa passa a olhar para o nariz com muito mais atenção e pode interpretar como “novo defeito” algo que já existia antes e que simplesmente não podia ser corrigido na totalidade. Quando esse trabalho de escuta e explicação é bem feito desde o início, estamos a proteger não só o resultado cirúrgico, mas também a confiança e a relação com o doente. O “antes e depois” ajuda a mostrar possibilidades, mas também pode criar comparações perigosas. Como é que se conduz essa conversa em consulta sem alimentar a ideia de que existe um nariz replicável? Hoje em dia, essa conversa faz inevitavelmente parte da consulta, porque vivemos rodeados de imagens, referências e resultados que circulam constantemente nas redes sociais. Muitos pacientes chegam com fotografias de outras pessoas e com a ideia de que gostariam de ter um nariz semelhante. O meu papel, aí, é explicar com clareza que um nariz não se copia. Cada rosto tem a sua estrutura, as suas proporções, a sua expressão e a sua identidade. O que nós fazemos não é reproduzir o nariz de outra pessoa, mas sim trabalhar sobre aquele nariz em concreto, procurando o melhor resultado possível dentro daquilo que é a face e a anatomia de quem nos procura. Há também um receio muito frequente, que eu compreendo bem: o medo de perder identidade, de deixar de se reconhecer ao espelho, de “deixar de parecer a mesma pessoa”. Mas, para o bem e para o mal, o nariz também não permite esse tipo de transformação radical que às vezes se imagina. Mesmo quando há melhorias significativas, a pessoa não fica irreconhecível. Isso é muito raro. A consulta serve precisamente para recentrar expectativas, desmontar comparações irrealistas e mostrar que o objetivo não é criar um nariz replicável, mas um nariz mais harmonioso, sem apagar quem a pessoa é. Saber dizer “não” também faz parte de uma boa prática cirúrgica? Sem dúvida. Saber dizer “não” faz parte de uma prática séria, responsável e ética. Quando aquilo que a pessoa pretende não coincide com aquilo que eu considero equilibrado para aquele rosto, é preferível não avançar. Há situações em que percebo que não vou conseguir chegar a um resultado com o qual me identifique ou que considere realmente bom para aquela pessoa. Nesses casos, digo-o com frontalidade: posso não ser o profissional certo para concretizar aquilo que procura. E prefiro ser honesto nesse momento do que realizar uma cirurgia que não respeita a minha visão clínica nem aquilo que considero um bom resultado. Claro que há pequenos ajustes que podem ser discutidos e adaptados, mas quando se pede uma mudança que retira naturalidade ou desvirtua completamente a harmonia do rosto, já estamos a sair daquilo em que acredito. Operar também é ter um critério. E esse critério inclui, muitas vezes, recusar. Muitas pessoas chegam hoje à cirurgia depois de já terem feito rinomodelação com ácido hialurónico. O que é que esse percurso muda na avaliação do nariz e que equívocos continuam a existir sobre a passagem da medicina estética para a cirurgia? Vou ser muito claro em relação a isso: eu não faço rinomodelações e nunca injetei ácido hialurónico no nariz. E há duas razões principais para essa decisão. A primeira é que, na minha opinião, o comportamento do ácido hialurónico no nariz é muito imprevisível. Já operei doentes que tinham feito esse tipo de procedimento vários anos antes e que ainda mantinham produto no nariz, quando teoricamente ele já deveria ter desaparecido há muito tempo. Na prática, nem sempre aquilo que está descrito como duração “esperada” corresponde ao que acontece. E, em cirurgia, tudo o que seja imprevisível torna-se um problema. A segunda razão é que, apesar de muitas vezes ser apresentada como uma solução simples, temporária e pouco invasiva, a rinomodelação não substitui a cirurgia nem oferece o mesmo tipo de resultado. Diria até que, na maioria dos casos, o melhor resultado obtido com ácido hialurónico é inferior ao resultado de uma rinoplastia, mesmo quando esta não atinge a perfeição idealizada. Além disso, exige manutenção, reinjeções e vai acumulando custos ao longo do tempo. Muitas pessoas começam esse percurso a pensar que estão a evitar a cirurgia, mas acabam por prolongar uma solução limitada e menos previsível. E quando fazem as contas a médio e longo prazo, em dinheiro, em tempo e em estabilidade do resultado, percebem muitas vezes que a cirurgia teria sido uma opção mais lógica e mais definitiva desde o início. Na rinoplastia, uma das maiores ansiedades começa depois da operação, quando o espelho mostra um nariz ainda longe do resultado final. Porque é que o tempo continua a ser tão subestimado no pós-operatório? Porque continua a haver pouca noção real de tudo o que acontece depois da cirurgia. Uma das partes mais importantes da consulta pré-operatória é precisamente explicar, com detalhe, como vai ser esse processo: o pós-operatório imediato, o médio prazo e a evolução mais lenta até ao resultado final. O nariz incha sempre. Em alguns doentes mais, noutros menos. E esse inchaço não desaparece de um dia para o outro. A cicatrização depende de muitos fatores: da idade, da qualidade da pele, do tipo de nariz, de doenças associadas, do tabagismo e até da forma como cada organismo reage. Não há duas recuperações iguais. É muito importante que a pessoa saiba, antes de ser operada, que nas primeiras semanas já vai notar mudanças, mas que aquilo que vê ao espelho ainda está longe do resultado final. O nariz vai desinchando por fases, vai refinando com o tempo e esse processo pode prolongar-se durante um a dois anos. Há pessoas que evoluem mais depressa, outras mais devagar. Não é matemática. Talvez o tempo continue a ser subestimado porque hoje estamos habituados a querer resultados imediatos. Mas, na rinoplastia, o tempo não é um detalhe, faz parte do tratamento. E perceber isso logo desde o início ajuda muito a viver o pós-operatório com mais tranquilidade e menos ansiedade. Um nariz já operado traz outra complexidade, técnica e emocional. O que é que torna a cirurgia de revisão um dos terrenos mais exigentes da rinoplastia, tanto para quem opera como para quem volta a confiar? A cirurgia de revisão é, de facto, um dos capítulos mais exigentes da rinoplastia, precisamente porque não existe uma única realidade. Há revisões relativamente simples, um pequeno retoque, uma cartilagem ligeiramente assimétrica, uma discreta bossa residual, que podem ser resolvidas de forma relativamente rápida e sem grande complexidade. Mas há outras que são verdadeiras reconstruções. Nesses casos mais difíceis, já não estamos apenas a corrigir um detalhe, estamos muitas vezes a reconstruir um nariz que perdeu suporte, estrutura ou equilíbrio. Podemos precisar de cartilagem da orelha, da costela ou de outros enxertos, porque já houve manipulação prévia, as cartilagens foram alteradas, existe fibrose, cicatrização interna e uma anatomia muito menos previsível. E isso muda tudo. Mas há também uma dimensão emocional muito importante. Quem procura uma cirurgia de revisão já passou por uma experiência que não correu como esperava, às vezes uma, duas ou até mais vezes, e isso deixa marcas. São doentes que chegam muitas vezes mais fragilizados, mais receosos, com menos confiança e, ao mesmo tempo, com uma enorme esperança de finalmente se reverem no resultado. Talvez por isso, quando conseguimos de facto melhorar um nariz revisto e devolver equilíbrio, função e confiança, a recompensa também seja muito grande. São, muitas vezes, dos doentes mais agradecidos, porque sabem exatamente o peso que tem um mau resultado e o que significa voltar a confiar. Ensinar rinoplastia é também ensinar a pensar. Quando forma outros médicos, em que erros de raciocínio ou princípios menos valorizados mais insiste e o que é que isso revela sobre a verdadeira exigência desta cirurgia? A rinoplastia é uma cirurgia de grande complexidade e com uma curva de aprendizagem muito longa. Não é uma área em que se atinge maturidade técnica ao fim de poucas dezenas de casos. Pelo contrário, é uma cirurgia que exige tempo, repetição, análise e uma enorme capacidade de autocrítica. Aquilo em que mais insisto quando ensino é, antes de mais, na importância de ser estruturado. É fundamental ter bons registos fotográficos antes da cirurgia, documentação cuidada do intra-operatório e um seguimento rigoroso no pós-operatório. Sem isso, torna-se muito difícil perceber verdadeiramente o que fizemos, o que resultou, o que podia ter sido melhor e onde é que precisamos de evoluir. Mas há outro ponto igualmente essencial, a capacidade de olhar para o próprio trabalho com sentido crítico. Quem não analisa os seus resultados com honestidade, quem não compara, quem não aprende com os erros e com o trabalho dos outros, evolui muito mais devagar. A rinoplastia obriga a essa humildade permanente. No fundo, aquilo que esta cirurgia revela é que não basta saber operar. É preciso saber observar, pensar, rever, corrigir e aprender continuamente. Facebook: Tiago Órfão Instagram: @tiago_orfao Site: tiagoorfao.pt “A ortodontia não se resume ao que se vê no espelho, mas a tudo aquilo que muda na vida das pessoas” “Respirar pela boca, ressonar ou viver com o nariz entupido não são hábitos, são sinais”
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