Cirurgia/OTORRINOLARINOLOGIA “Há quem passe anos habituado ao cansaço, ao sono fragmentado e à falta de energia, até descobrir o que é voltar a respirar bem” By Revista Spot | Maio 6, 2026 Maio 11, 2026 Share Tweet Share Pin Email Respirar tornou-se, para muitas pessoas, uma dificuldade silenciosa, normalizada durante anos, escondida atrás de frases como “é só rinite”, “sempre respirei assim” ou “é apenas uma questão estética”. O nariz é uma peça fundamental no sono, no rendimento físico, na concentração e até no desenvolvimento facial na infância. Roberto Estevão, médico Otorrinolaringologista e Cirurgião Cérvico-Facial, conhece bem essa fronteira entre o sintoma banalizado e o diagnóstico capaz de mudar a vida de uma pessoa. Nesta entrevista, fala-nos de diagnósticos adiados, de expectativas criadas pelas redes sociais, de cirurgia responsável e da importância de encontrar, em cada caso, o ponto certo entre função, naturalidade e bem-estar. Há áreas da Otorrinolaringologia que tocam dimensões muito diferentes da vida de uma pessoa. Como é que a sua experiência clínica o levou a desenvolver essa visão mais integrada? Ao longo da minha formação em Otorrinolaringologia, tive a oportunidade de trabalhar em vários hospitais, em Portugal e no estrangeiro, o que me deu uma perspetiva abrangente da especialidade. Com o tempo, fui-me diferenciando nas áreas da Rinoplastia e da Apneia do Sono/Roncopatia, que são hoje o foco principal da minha prática. Tive também o privilégio de ter grandes mentores que marcaram profundamente a minha forma de trabalhar, sempre com base no rigor científico e na ética, princípios que orientam toda a minha prática clínica. A eles estou profundamente grato. Na rinologia, não vejo o nariz como uma estrutura isolada. É parte de um sistema que envolve respiração, sono, desempenho físico e harmonia facial. Isso traduz-se numa abordagem mais completa: não trato apenas um sintoma ou uma alteração estética, trato uma pessoa com necessidades específicas e frequentemente interligadas. Até que ponto respirar mal compromete a qualidade de vida? O nariz não serve apenas para respirar, tem um papel essencial na filtragem do ar, na defesa do organismo, no olfato e na regulação da temperatura e humidade do ar que chega aos pulmões. Quando a respiração nasal não é eficaz, especialmente em crianças, surge muitas vezes a respiração pela boca, com impacto no desenvolvimento facial, na dentição, na fala e na qualidade do sono. Pode também associar-se a cansaço, dificuldades de concentração e maior suscetibilidade a infeções. Nos adultos, respirar mal pelo nariz afeta diretamente o sono, tornando-o fragmentado e pouco reparador. Isso traduz-se em fadiga, menor produtividade, dificuldades cognitivas e alterações de humor. Além disso, há impacto no desempenho físico. Uma respiração ineficiente limita a capacidade durante o exercício. Curiosamente, muitos doentes só percebem o impacto real quando voltam a respirar bem. A melhoria pode ser, de facto, transformadora. O que é que mais atrasa um diagnóstico correto? Um dos principais fatores é a banalização dos sintomas. Muitos doentes desvalorizam queixas persistentes com a ideia de que “é só rinite” ou “é uma sinusite”, o que pode levar a anos de sintomas não tratados. A verdade é que existem várias patologias nasais com sintomas semelhantes. A maioria é simples, mas, em casos mais raros, podem tratar-se de situações mais graves que beneficiariam de um diagnóstico precoce. Por isso, uma avaliação especializada é essencial para um diagnóstico correto e atempado. Como decide entre tratamento médico, vigilância e cirurgia? A decisão baseia-se em três fatores: a causa do problema, a intensidade dos sintomas e o impacto na qualidade de vida do doente. Nem todos os casos requerem cirurgia, muitos resolvem-se com tratamento médico adequado. A cirurgia é considerada quando existe uma alteração estrutural relevante ou quando os tratamentos conservadores não são suficientes. O mais importante é que cada decisão seja individualizada e sustentada por um diagnóstico rigoroso. O que falta explicar sobre rinoplastia e rinosseptoplastia? Ainda existe a ideia de que a rinoplastia é apenas estética, quando, na realidade, assume frequentemente uma componente funcional muito importante. A rinoplastia moderna deve integrar função e estética. Em muitos casos, estamos não só a melhorar a aparência, mas também a corrigir alterações que comprometem a respiração. O verdadeiro desafio, e também a excelência, está em conseguir um resultado natural, equilibrado e que melhore simultaneamente a função respiratória. De que forma essa visão global muda o diagnóstico e o resultado? Uma abordagem integrada permite decisões mais precisas e resultados mais consistentes. Ao considerar em conjunto respiração, sono, anatomia nasal e estética facial, é possível antecipar melhor os desafios e planear intervenções mais equilibradas. O resultado deixa de ser apenas técnico e passa a ter um impacto real no bem-estar global do doente. A vertente funcional influencia a estética? Sem dúvida. A cirurgia funcional exige precisão e respeito pela anatomia, e isso reflete-se diretamente na estética. Um nariz pode ser esteticamente agradável, mas se não funcionar bem, o resultado não é satisfatório. Na prática, função e estética estão profundamente ligadas, e o equilíbrio entre ambas é essencial para resultados duradouros e seguros. Os filtros e as redes sociais trazem mais insegurança ou mais consciência? Ambas. Por um lado, aumentam a pressão estética e criam expectativas muitas vezes irrealistas. Por outro, facilitam o acesso à informação e levam mais pessoas a procurar ajuda especializada. O papel do médico é ajudar a interpretar essa informação, ajustar expectativas e orientar decisões com base na realidade clínica, não em tendências digitais. Como gere esse equilíbrio em consulta? Com diálogo claro e responsabilidade. É essencial perceber a motivação do doente e alinhar expectativas com o que é possível e seguro. A naturalidade e a identidade facial são prioridades, o objetivo não é transformar um rosto, mas melhorá-lo de forma harmoniosa. E há um ponto fundamental: nem tudo o que é desejado é indicado ou exequível. Faz parte do nosso papel dizer isso com transparência. Que temas vão marcar o futuro da área? A tendência aponta para uma medicina cada vez mais integrada e personalizada. A respiração nasal e a medicina do sono terão um papel crescente, especialmente na prevenção desde a infância. Ao mesmo tempo, a rinoplastia continuará a evoluir no sentido de resultados mais naturais e adaptados a cada pessoa. Possuímos ainda cada vez mais e melhor tecnologia que permite realizar os procedimentos com mais precisão e segurança. Caminhamos para uma abordagem em que saúde, função e estética deixam de ser vistas separadamente e passam a fazer parte do mesmo conceito de bem-estar. Facebook: Dr. Roberto Estevão Instagram: @dr.robertoestevao Site: www.drrobertoestevao.com Nova clínica Materum em Braga: “Quando nasce um bebé, nasce uma família e essa família também precisa de acompanhamento” “E se o problema não estivesse nos 40+, mas na forma como aprendemos a ignorar o corpo das mulheres?”
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