SAÚDE ORAL “A ortodontia não se resume ao que se vê no espelho, mas a tudo aquilo que muda na vida das pessoas” By Revista Spot | Abril 9, 2026 Abril 16, 2026 Share Tweet Share Pin Email Um sorriso pode ser a parte mais visível do tratamento, mas raramente conta a história toda. Em ortodontia, aquilo que se vê é apenas a superfície de um trabalho que envolve função, estabilidade, crescimento e saúde oral a longo prazo. Mário Brito, médico dentista com prática exclusiva em ortodontia, fala de uma área onde a estética conta, mas não pode comandar sozinha. Entre alinhadores, planeamento digital, inteligência artificial e expectativas aceleradas pelas redes sociais, esta conversa devolve profundidade a uma especialidade que exige tempo, observação e acompanhamento real. Fala-se da criança que pode beneficiar de uma avaliação precoce, do adulto que chega com uma boca já marcada por desgaste e compensações, da retenção como parte essencial do tratamento e da importância de trabalhar em articulação com outras áreas clínicas. Porque, em ortodontia, um resultado bem conseguido não se mede apenas pelo que mostra, mas também pelo equilíbrio, pela função e pela estabilidade que consegue sustentar. A ortodontia cruza ciência, estética, função e tempo. Em que momento percebeu que era este o caminho que queria seguir? Foi muito cedo, praticamente assim que terminei a faculdade. Nessa altura, fui convidado a entrar numa pós-graduação em ortodontia e, no início, ainda não sabia bem se era esse o meu caminho. Mas bastou começar para perceber que tudo ali fazia sentido para mim. A ortodontia surgiu de uma forma muito natural e encaixou-se profundamente naquilo que eu sou e na forma como gosto de trabalhar. Para além da componente técnica, há uma dimensão humana muito forte, e isso sempre me disse muito. Na ortodontia criam-se relações próximas, porque acompanhamos as pessoas durante um, dois ou até mais anos, e vamos vendo muito mais do que a evolução do tratamento. Vamos conhecendo as suas fases de vida, as suas conquistas, as suas inseguranças, os seus desabafos. Há doentes que chegam mais fechados, mais contidos, e que ao longo do processo se vão transformando, vão-se abrindo, sorrindo mais, ganhando confiança. E isso é muito especial. Porque a ortodontia não é apenas alinhar dentes, é, muitas vezes, ajudar a mudar a forma como a pessoa se vê e se sente. E isso tem tudo a ver com aquilo que sou. Numa altura em que os alinhadores ganharam enorme visibilidade, o que é que se perde quando a ortodontia é quase vista apenas como uma solução estética e “invisível”? Perde-se, acima de tudo, a noção de que a ortodontia nunca é só estética. Mesmo quando o paciente chega e diz que quer corrigir apenas um dente ligeiramente desalinhado, quase sempre existe algo mais por trás. Há uma componente funcional que não é imediatamente visível: questões de mordida, equilíbrio muscular, relação entre os maxilares, postura oral, higiene, mastigação. Muitas vezes, a pessoa não tem consciência disso, porque não sente propriamente dor nem identifica um problema. Mas ele está lá. E é precisamente essa leitura mais profunda que faz parte da nossa responsabilidade clínica. Hoje vejo a ortodontia como uma área onde a função e a estética caminham lado a lado, mas com uma ordem muito clara: quando a função melhora, a estética acompanha. Dentes bem alinhados e bem encaixados permitem mastigar melhor, higienizar melhor, distribuir melhor as forças e preservar a saúde oral a longo prazo. Por isso, costumo dizer que a estética é, muitas vezes, o bónus de uma função bem tratada. Quando tudo funciona melhor, também fica mais bonito, mas a beleza, sozinha, nunca pode ser o ponto de partida. Na era das redes sociais, dos “smile makeovers”, filtros e resultados rápidos, sente que a ortodontia enfrenta hoje o desafio de gerir expectativas cada vez mais aceleradas, mais visuais e, por vezes, menos informadas? Sim, esse desafio existe, mas eu não o vejo necessariamente de forma negativa. As pessoas chegam hoje à consulta com mais referências, mais curiosidade e, muitas vezes, depois de já terem pesquisado bastante. E isso, por si só, não é um problema. Pelo contrário, pode ser uma excelente base para a conversa. O mais importante é perceber que nos cabe a nós, enquanto médicos dentistas e ortodontistas, orientar essa informação, esclarecer o que faz sentido e corrigir aquilo que está errado ou incompleto. A internet pode trazer perguntas; a consulta tem de trazer contexto, critério e individualização. Na minha prática, por exemplo, recorro muitas vezes ao scan e à simulação do tratamento logo na primeira consulta. Não como uma promessa irrealista, mas como uma ferramenta de comunicação. Ajuda muito o doente a perceber o que se passa realmente na sua boca, o que queremos corrigir e qual poderá ser o percurso. Eu valorizo muito essa transparência. Gosto que a pessoa entenda o que tem, o que vai mudar e o que pode esperar nos meses seguintes. Quando a comunicação é clara, a ansiedade diminui, o compromisso melhora e o tratamento torna-se muito mais consciente. O que é que muda quando a pessoa chega com uma história clínica mais complexa, desgaste, restaurações, perda de suporte ou anos de compensações funcionais? Muda bastante. Tratar um adulto é, quase sempre, mais exigente, porque já estamos a trabalhar sobre uma estrutura que traz história. Ao contrário do que acontece nas crianças e nos adolescentes, em que há crescimento e uma grande capacidade de adaptação dos tecidos, no adulto tudo exige mais cautela, mais planeamento e expectativas mais realistas. Os dentes podem mover-se, claro, mas o comportamento biológico já não é o mesmo. Muitas vezes há desgaste, restaurações antigas, ausência de peças dentárias, retrações gengivais ou compensações funcionais que se foram instalando ao longo de anos. E isso obriga-nos a olhar para o caso com muito mais prudência. Em algumas situações, temos de ser muito honestos com a pessoa e dizer: vamos tentar melhorar, mas pode não ser possível chegar exatamente àquilo que imagina. E essa gestão de expectativas é, para mim, uma das partes mais importantes do tratamento no adulto. Porque a ortodontia pode melhorar muito a posição dos dentes e a função da mordida, mas não altera, por si só, a forma dos dentes nem resolve tudo isoladamente. Às vezes, é preciso articular com outras áreas para chegar ao resultado final. E o sucesso começa precisamente aí, em prometer com verdade, tratar com critério e ajustar o plano à realidade de cada boca. Na infância, há sinais que ainda tendem a ser desvalorizados ou confundidos com fases normais do crescimento. Em que situações é que uma avaliação ortodôntica precoce pode fazer realmente diferença? Em muitas mais do que os pais imaginam. Na infância, pequenos hábitos aparentemente inofensivos podem ter um impacto muito real no desenvolvimento da boca e da oclusão. Às vezes, basta uma chupeta usada durante demasiado tempo, o hábito de chuchar no dedo, o uso prolongado do biberão ou até determinadas posturas orais para começarem a surgir alterações que mais tarde vão exigir tratamento. Muitas dessas mudanças acontecem de forma silenciosa. Os pais nem sempre se apercebem, porque a criança está a crescer e tudo parece fazer parte de uma fase. Mas a verdade é que a forma como a boca se desenvolve nesta altura é muito sensível a estímulos e hábitos repetidos. Por isso, quanto mais cedo conseguirmos observar, orientar e corrigir esses comportamentos, melhor. Nem sempre significa começar logo um tratamento, mas significa acompanhar, prevenir e encaminhar atempadamente. E isso pode fazer toda a diferença no futuro, tornando um eventual tratamento ortodôntico muito mais simples, mais estável e menos exigente. Há uma ideia muito enraizada de que o tratamento termina quando o aparelho sai. Porque é que a fase de retenção continua a ser tão subestimada e o que é que as pessoas ainda não compreendem sobre o risco real de recidiva? Porque, para muitas pessoas, o aparelho é a parte visível do tratamento e, quando ele sai, sentem que o processo terminou. Mas, na verdade, essa é apenas uma etapa. A fase de retenção não é um detalhe nem um extra, é aquilo que ajuda a manter o resultado alcançado. Durante o tratamento, estamos a mover os dentes para uma nova posição, mas os tecidos à volta têm memória e tendência para querer regressar ao ponto de partida. É por isso que os dentes podem voltar a mexer, mesmo depois de tudo parecer resolvido. E essa movimentação pode ser discreta ou bastante evidente, depende dos casos, mas o risco existe sempre. A contenção é, por isso, uma parte essencial da ortodontia a longo prazo. Com o passar dos anos, o uso pode ser ajustado, claro, mas a ideia de que basta terminar o tratamento e esquecer o resto não corresponde à realidade. Os dentes mudam ao longo da vida, com ou sem aparelho, e quem quer preservar o resultado precisa de compreender que a retenção faz parte desse compromisso. Até que ponto a ortodontia mais exigente de hoje deixou de poder ser pensada de forma isolada e passou a depender de uma articulação real com outras áreas, da periodontologia à cirurgia e à reabilitação oral? Hoje, mais do que nunca, a ortodontia tem de ser pensada de forma integrada. Já não faz sentido olhar apenas para os dentes e tentar alinhá-los como se todo o resto pudesse ser ignorado. A posição dos dentes está profundamente ligada ao osso, à gengiva, às raízes, à mordida e, muitas vezes, a tratamentos que precisam de ser articulados com outras áreas da medicina dentária. Recebemos cada vez mais adultos com histórias clínicas complexas: perda óssea, recessões gengivais, dentes ausentes, desgaste, necessidade de implantes ou de reabilitação. Nestes casos, o ortodontista não trabalha sozinho. Trabalha em conjunto com outras equipas, preparando o terreno para que o tratamento final seja não apenas bonito, mas biologicamente seguro e funcional. Essa abordagem multidisciplinar faz toda a diferença. Permite planear com mais rigor, proteger melhor os tecidos e chegar a resultados mais sólidos e duradouros. A ortodontia deixou há muito de ser apenas “alinhar dentes”. Hoje, o verdadeiro sucesso está em perceber o lugar de cada especialidade e construir o caso em equipa. Com a digitalização crescente da medicina dentária, o que é que mudou na prática ortodôntica e o que é que continua a depender, acima de tudo, do olhar clínico? A digitalização transformou profundamente a prática ortodôntica e trouxe ganhos enormes em conforto, rapidez, precisão e comunicação com o doente. O scanner intraoral, por exemplo, veio substituir em muitos casos os moldes tradicionais, que eram desconfortáveis para tanta gente, e permite hoje uma visualização muito mais clara e imediata da boca. Isso facilita não só o planeamento, mas também a forma como explicamos o tratamento e envolvemos o doente em todo o processo. Mas há uma coisa que a tecnologia, por mais avançada que seja, não substitui: o olhar clínico. É esse olhar que identifica detalhes que podem passar despercebidos, que interpreta o caso para lá da imagem digital e que antecipa movimentos, limites e consequências. A tecnologia ajuda muito, mas não decide sozinha. No fundo, o digital é uma ferramenta extraordinária, mas continua a precisar de ser guiado por experiência, critério e sensibilidade clínica. Porque planear um tratamento não é apenas ver dentes num ecrã, é perceber pessoas, tecidos, equilíbrios e possibilidades reais. Num tempo em que se tenta vender alinhamento dentário quase como um serviço remoto, rápido e simplificado, o que é que mais o preocupa na banalização de tratamentos sem supervisão clínica adequada? O que mais me preocupa é precisamente aquilo que nem sempre se vê no imediato. À primeira vista, pode até parecer que o tratamento está a correr de forma aceitável, mas a ortodontia não se avalia apenas pelos primeiros movimentos dos dentes. O verdadeiro problema aparece com o tempo, quando faltam diagnóstico rigoroso, planeamento individualizado e acompanhamento clínico regular. Há tratamentos que até avançam bem numa fase inicial, mas depois estagnam, desviam-se do objetivo ou prolongam-se muito para lá do que seria expectável. E, muitas vezes, as pessoas só percebem que algo não está bem quando começam a sentir que o resultado ficou aquém, que há dentes que não encaixam como deviam ou que o tratamento parece não ter fim. Na ortodontia, o acompanhamento não é um pormenor, é parte essencial do tratamento. Há pequenos sinais que, numa consulta, se detetam em segundos e que podem fazer toda a diferença no rumo do caso. Ajustar, orientar, corrigir a tempo e dar ao paciente indicações concretas faz parte daquilo que garante segurança e previsibilidade. Sem essa presença clínica, corre-se o risco de transformar um tratamento que podia ser simples num processo longo, frustrante e, por vezes, mal resolvido. Com a entrada da inteligência artificial no diagnóstico e no planeamento ortodôntico, onde é que vê verdadeiro progresso e onde é que começa o risco de substituir raciocínio clínico por automatismo? A inteligência artificial pode trazer contributos muito úteis e seria um erro ignorar isso. Pode ajudar a analisar imagens, organizar informação, sugerir hipóteses de diagnóstico e até tornar alguns processos mais rápidos e eficientes. Como ferramenta de apoio, tem um potencial real e acredito que vai ganhar cada vez mais espaço na prática clínica. Mas uma coisa é apoiar; outra, muito diferente, é substituir. E é aí que começa o risco. Nenhuma tecnologia deve ser aceite como verdade absoluta sem passar pelo crivo do raciocínio clínico. A inteligência artificial pode reconhecer padrões e fazer medições com grande precisão, mas não decide sozinha aquilo que é biologicamente seguro, nem compreende, por si só, a complexidade de cada boca, de cada tecido, de cada limite anatómico. Na ortodontia, não basta saber para onde um dente pode ir no ecrã; é preciso perceber se esse movimento faz sentido naquela estrutura, se respeita o osso, a gengiva, a estabilidade futura e a saúde do doente a longo prazo. Por isso, vejo a inteligência artificial como uma ferramenta valiosa, sim, mas sempre ao serviço do médico e nunca no lugar do seu julgamento. O progresso faz-se quando a tecnologia acrescenta critério, não quando o substitui. Contacto: +351917 644 257 (chamada para a rede móvel nacional) Facebook: Mário Brito – Ortodontia Instagram: @mariobritoortodontia Site: mariobritoortodontia.com “Muitas mulheres vivem em guerra com a comida sem perceberem que estão presas a uma dependência silenciosa” “Não existe um nariz ideal, existe o nariz certo para cada rosto”
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