Construção “A fotografia conquista o comprador. O tempo avalia o construtor” By Revista Spot | Agosto 2, 2026 Agosto 3, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há casas que escondem a forma como foram construídas. Esta faz o contrário. O betão permanece exposto nos planos e nas superfícies, a madeira de carvalho aquece a força mineral da estrutura, os degraus parecem suspensos, os pilares metálicos afinam a composição e uma janela sobre Braga transforma a luz em parte da arquitetura. É neste cenário, que parece resumir a identidade da Cintilante Construções, que Bruno Ferreira fala sobre o futuro da habitação. Num país obcecado com a urgência de construir mais, o CEO prefere fazer a pergunta: estaremos a construir as casas certas? Entre soluções repetidas e projetos pensados sobretudo para vender, defende que uma casa não se torna bonita quando é decorada, mas quando cada material, encontro e decisão foi pensado para durar. Porque a fotografia pode conquistar o comprador. Mas só o tempo, o uso e a vida conseguem avaliar quem a construiu. O betão como assinatura Nada está ali apenas para preencher espaço. Na casa onde Bruno Ferreira é fotografado, cada linha parece confirmar uma ideia que o CEO da Cintilante Construções repete ao longo da conversa: uma casa ganha caráter quando alguém escolhe o material certo, antecipa os encontros entre sistemas e coordena as equipas com decisões certas tomadas em obra. Talvez por isso o betão seja uma matéria tão próxima da identidade da empresa. Não apenas porque se tornou reconhecível nos seus projetos, mas porque obriga a assumir tudo. O betão aparente não permite esconder facilmente uma falha atrás de um revestimento. Expõe o desenho, a execução e o rigor de quem o trabalhou. É uma matéria com memória. E, de certa forma, também um manifesto. Construir mais não é o mesmo que construir melhor Portugal precisa de mais casas. A frase repete-se em debates, campanhas, programas políticos e conversas entre famílias que procuram comprar ou arrendar. Bruno Ferreira não contesta a urgência. Questiona aquilo que pode desaparecer quando toda a atenção se concentra no número de portas que conseguimos colocar no mercado. “Temos de perguntar se estamos a construir as casas certas.” A pergunta parece simples, mas abre várias outras. Que tipologias estão a ser construídas? Com que dimensões? Para que famílias? Com que capacidade de adaptação às diferentes fases da vida? Estamos a responder às necessidades reais da população ou apenas a reproduzir o produto que apresenta menor risco comercial? Para Bruno, uma parte significativa da construção continua condicionada pelo que é mais fácil de vender. As áreas diminuem, os espaços são comprimidos e a rentabilidade de cada parcela de terreno passa, muitas vezes, por conseguir encaixar mais frações no mesmo edifício. “As casas estão cada vez mais pequenas. Quanto mais apartamentos for possível construir, mais apartamentos haverá para vender.” A racionalidade económica existe e não pode ser ignorada. Mas o empresário alerta para o momento em que a eficiência financeira deixa de organizar o projeto e começa a empobrecer a vida dentro dele. Uma planta pode cumprir todas as áreas mínimas e, ainda assim, não compreender a família que irá habitá-la. Pode ter uma sala aberta, uma cozinha fotografável e acabamentos dentro das tendências, mas falhar na arrumação, na privacidade, na circulação ou na capacidade de acompanhar o crescimento de uma criança, o envelhecimento de um casal ou o trabalho feito a partir de casa. O problema não está apenas em construir pequeno. Está em construir sem perguntar porquê. “Não podemos continuar a chamar casa a quatro paredes” Bruno não procura uma formulação diplomática para descrever parte do que vê no mercado. “Chegámos a um ponto em que se constroem quatro paredes e se chama casa.” A expressão pode parecer dura, mas traduz uma inquietação maior: a progressiva indiferenciação da habitação. Volumes repetidos, fachadas sem profundidade, soluções copiadas, plantas reproduzidas independentemente do terreno, da orientação solar ou do modo como as pessoas vivem. Para o CEO da Cintilante Construções, uma casa começa a ganhar identidade em elementos que, numa leitura apressada, poderiam parecer secundários: uma pala que protege e desenha uma sombra; o modo como uma janela enquadra a paisagem; a proporção entre cheios e vazios; a entrada de luz; o encontro entre o betão e a madeira; a transição entre interior e exterior. “São os pormenores, as palas, os alinhamentos e as proporções que dão beleza à casa. É isso que a impede de ser apenas mais uma.” Na habitação, a beleza não deveria funcionar como maquilhagem aplicada no final. Deveria nascer da própria lógica da construção. Da forma como a estrutura, os materiais e o desenho se tornam inseparáveis. É isso que acontece na casa fotografada. A estereotomia do betão, o estudo das divisões, juntas, cortes e proporções que organizam a superfície, não foi decidida depois de as paredes existirem. Foi pensada para que comprimentos, larguras e encontros formassem um conjunto visualmente coerente. O detalhe não entrou no fim. Organizou a obra desde o princípio. Os olhos compram. Os anos fazem a inspeção Nunca foi tão fácil apaixonarmo-nos por uma casa que ainda não existe. Os compradores recebem imagens tridimensionais, vídeos imersivos, plantas mobiladas e representações de interiores onde a luz entra sempre na direção certa. As árvores estão crescidas, os cortinados movem-se suavemente e todas as cozinhas parecem preparadas para uma vida sem desarrumação. Bruno reconhece o poder dessas ferramentas, mas também os seus riscos. “O olhar enamora-se. Muitas pessoas não estão propriamente a comprar uma casa; estão a comprar um projeto e a imagem que lhes foi apresentada.” O problema não está na visualização. Está em confundir a qualidade da imagem com a qualidade da construção. Quem não conhece o setor dificilmente consegue avaliar o que estará por trás do revestimento, como será tratado o isolamento, que materiais serão utilizados ou de que forma as várias especialidades vão encontrar-se. O comprador vê a torneira, o pavimento e a bancada. Raramente vê a cola usada no exterior, a continuidade do isolamento, o tratamento das pontes térmicas ou a preparação da superfície que receberá a tinta. No entanto, serão essas decisões invisíveis a determinar se, alguns anos mais tarde, surgirão fissuras, peças soltas, condensações, manchas ou bolor. “Quem percebe de construção não entra numa casa à procura apenas do que está bem. Procura os defeitos, porque sabe que são os pormenores que revelam a qualidade da execução.” Uma casa vende-se num determinado momento. Mas é inspecionada diariamente pela vida: pelo inverno, pelo calor, pela chuva, pelo ruído, pelo uso repetido, pelas portas que abrem milhares de vezes e pela humidade que encontra qualquer descontinuidade para se manifestar. A fotografia conquista o comprador. O tempo avalia o construtor. O material mais barato nem sempre produz a obra mais barata Na construção, poupar é necessário. Improvisar é outra coisa. “Temos de aplicar os materiais próprios no sítio certo. Não basta dizer que existe isolamento ou que foi usada determinada solução. É preciso controlar o que está realmente a ser aplicado e como está a ser executado.” Esta distinção torna-se particularmente relevante num mercado pressionado pelo aumento dos custos. Quando todos procuram reduzir o orçamento, existe a tentação de olhar apenas para o valor imediato de cada produto. Mas o custo de uma construção não termina no dia em que a obra é entregue. Continua na manutenção, nas reparações, nos consumos energéticos e nas patologias que podem surgir anos mais tarde. Para Bruno, qualidade não significa necessariamente escolher sempre o produto mais dispendioso. Significa saber onde é possível racionalizar e onde uma redução compromete o desempenho da casa. É uma forma de inteligência técnica: gastar melhor, em vez de simplesmente gastar mais ou menos. A construção do Norte ainda se faz com uma reputação em jogo Há empresas do Norte chamadas para executar projetos no Centro e no Sul do país. Bruno acredita que essa procura continua associada a uma determinada cultura de trabalho: proximidade com a obra, dedicação, capacidade de resolver e atenção à execução. “A qualidade e a dedicação ainda fazem com que procurem muito as empresas do Norte. Existe aqui uma cultura de trabalho muito ligada à obra.” Não se trata de reivindicar uma superioridade geográfica, mas de reconhecer uma tradição empresarial construída em torno do saber-fazer. Uma cultura onde o responsável não conhece o projeto apenas através de relatórios, fotografias ou reuniões. Vai ao estaleiro, observa, discute com as equipas e toma decisões no lugar onde os problemas realmente existem. É também por isso que Bruno olha com prudência para as promessas de transformação tecnológica do setor. A inteligência artificial pode ajudar a estimar custos, planear tarefas, detetar incompatibilidades, produzir simulações e organizar informação. A digitalização pode tornar os processos mais previsíveis. Mas nenhuma tecnologia substitui a capacidade de observar uma superfície, compreender o comportamento de um material ou adaptar uma solução às condições reais encontradas em obra. “Podemos analisar um projeto e ver um 3D, mas há coisas que só conseguimos resolver quando chegamos à obra. Paramos, olhamos e decidimos ali.” O estaleiro continua a ser um lugar físico, sujeito ao clima, à matéria, à sequência dos trabalhos e à experiência das pessoas. Um algoritmo pode sugerir uma solução. Não consegue, sozinho, garantir que a cofragem foi bem executada, que o cerâmico ficou alinhado ou que o encontro entre dois materiais respeita o desenho previsto. Na construção, a tecnologia pode aumentar a capacidade humana. Não pode dispensá-la. Uma boa obra é uma escolha contínua de pessoas A qualidade final não pertence exclusivamente ao arquiteto, ao engenheiro, ao construtor ou ao aplicador. Resulta da coordenação entre todos. “Há obras para as quais tenho de escolher determinadas equipas e outras em que posso trabalhar com equipas diferentes. A exigência do projeto obriga-nos a perceber quem tem capacidade técnica para o executar.” Esta seleção é uma das decisões menos visíveis para o cliente e uma das mais determinantes. Nem todos os profissionais dominam as mesmas técnicas. Nem todas as empresas têm experiência em acabamentos de elevada exigência, betão aparente, grandes formatos cerâmicos, carpintarias especiais ou encontros complexos entre materiais. Escolher apenas pelo orçamento mais baixo pode introduzir na obra uma diferença que mais tarde será impossível corrigir sem custos adicionais. Para a Cintilante Construções, a especialização é parte da estrutura do projeto. Uma casa diferenciada exige profissionais capazes de interpretar o desenho e compreender que um desvio de poucos milímetros pode alterar um alinhamento pensado para atravessar várias divisões. Fazer da qualidade um nome Quando fala sobre o futuro da Cintilante Construções, Bruno não apresenta uma lista de metas financeiras. Fala de casas. “Queremos continuar a fazer casas de luxo, casas diferentes, casas com assinatura.” Não no sentido de extravagância gratuita, mas de projetos que obrigam a procurar soluções, a trabalhar materiais com exigência e a recusar respostas automáticas. Casas com identidade suficiente para não poderem ser deslocadas para outro terreno sem perderem o sentido. A ambição é fazer crescer a empresa sem diluir essa diferença. Tornar a Cintilante reconhecida não apenas pelos projetos que mostra, mas pela confiança associada ao nome. “Quero que, quando alguém ouvir falar na Cintilante, saiba que é uma empresa de qualidade. É para isso que quero que o nosso nome seja conhecido.” Na casa onde decorre a reportagem, essa intenção está na coerência entre o desenho, a matéria e a forma como cada solução foi executada. Está, sobretudo, naquilo que não se consegue fotografar: nos materiais que foram aplicados no lugar certo, nas equipas escolhidas para cada tarefa, nos alinhamentos revistos e nas decisões tomadas antes de um erro se tornar permanente. O futuro da habitação não será definido apenas pela velocidade com que conseguimos acrescentar novas portas ao mercado. Será definido pelo que permanecerá atrás dessas portas quando a tinta envelhecer, a imagem deixar de ser novidade e uma família começar verdadeiramente a viver ali. Morada: Rua da Talharinha, Nº 10, Vimieiro, 4705-670 Braga Contacto: +351 926 601 740 (chamada para a rede móvel nacional) Facebook: Cintilante Construções Instagram: @cintilanteconstrucoes “O futuro da Medicina Estética passa por uma abordagem cada vez mais preventiva” “O verdadeiro líder é aquele que constrói uma organização capaz de resolver os problemas sem depender dele”
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