SAÚDE/Saúde Infantil “Enquanto cirurgiã pediátrica acredito que, mesmo num bloco operatório, se pode cuidar com o coração” By Revista Spot | Agosto 2, 2025 Agosto 2, 2025 Share Tweet Share Pin Email Entre bisturis e afetos, a cirurgia pediátrica revela um lado profundamente humano que nem sempre se vê. Sara Porto Carmo, cirurgiã pediátrica, lembra-nos que operar uma criança vai muito além da técnica: é escutar silêncios, acolher medos, traduzir diagnósticos em metáforas e transformar o bloco operatório num lugar onde também se cuida com o coração. Num tempo em que a medicina evolui em tecnologia de ponta, a escuta ativa, a preparação emocional e o vínculo criado com cada família continuam a ser insubstituíveis. O seu percurso, entre centros internacionais e experiências marcantes com queimados pediátricos, trouxe-lhe não só precisão cirúrgica, mas uma consciência profunda de que cada gesto importa. Mãe e médica, acredita que equilíbrio não é a perfeição, mas a presença. Nesta conversa, fala-se de ciência, mas também de coragem, empatia e humanidade. Porque, por vezes, o maior desafio da cirurgia pediátrica não está no bisturi, mas na ansiedade que antecede o corte e essa também merece ser acolhida e cuidada. Numa primeira consulta de avaliação cirúrgica, o que costuma ser mais desafiante: gerir o diagnóstico ou as expectativas emocionais dos cuidadores? Numa primeira consulta, o diagnóstico é fundamental, claro, e faço sempre questão de ser rigorosa e clara na explicação clínica, mas frequentemente o mais desafiante costuma ser gerir as expectativas e as emoções dos cuidadores. Muitos pais chegam ansiosos, com medo do pior ou à procura de uma solução imediata, muitas vezes influenciados por informações online, que podem ser fidedignas e adaptar-se ao seu caso, ou não. O mais importante é escutar, perceber o que já sabem e sentem, e a partir daí construir uma conversa honesta, sem alarmismos, mas também sem falsas garantias. É comum que as crianças não compreendam totalmente o que é uma cirurgia. Como adapta a explicação para diferentes idades, e qual é o papel da preparação emocional da criança neste processo? É perfeitamente natural que as crianças e os adolescentes não compreendam totalmente o que é uma cirurgia. O objetivo é que se sintam confortáveis comigo e no consultório. Com os mais pequenos, incentivo a explorar o espaço e uso materiais para desenhar, tornando o momento mais leve. Adapto a linguagem à idade: metáforas simples para os mais novos, exemplos da vida real, vídeos ou redes sociais para os adolescentes. O essencial é que percebam que estão seguros, que os pais estarão por perto e que há uma equipa de confiança. A preparação emocional faz uma grande diferença: reduz a ansiedade e melhora o pós-operatório. Por isso, tento explicar tudo com clareza, ajustando a comunicação à idade e ao estado emocional da família. “Entregar um filho no bloco operatório para ser operado” é, como descreve, um ato de coragem. Como é que procura transformar esse momento de medo e vulnerabilidade numa experiência de confiança, tanto para os pais como para a criança? Perante a perspetiva de uma cirurgia, é natural que tanto os pais como a criança se sintam vulneráveis. Antes do dia da cirurgia, há um processo de preparação com várias consultas, comigo, com Anestesiologia e Enfermagem, para que compreendam o circuito e saibam o que esperar. No próprio dia, meu papel não é apenas operar, mas também tentar entender estes pais e criar um ambiente de segurança, escutar, responder às dúvidas e perceber o que tranquiliza cada família. Tenho o privilégio de trabalhar com equipas competentes e empáticas. Sempre que possível e seguro, os pais acompanham os filhos até estarem anestesiados e reencontram-nos logo após o despertar. Temos ainda estratégias lúdicas, como carros telecomandados que levam os meninos até à sala operatória. Pequenos gestos que tornam a experiência menos pesada, para as crianças e para os cuidadores. Há medos que os pais verbalizam e outros que não dizem, mas sente que estão lá. Como reconhece e acolhe essas angústias, e que papel acredita que a escuta tem na prática médica? Às vezes os pais falam do que os preocupa, mas nem todos os medos são expressos em palavras, por vezes estão num silêncio, num olhar ou numa brincadeira que esconde preocupação. A escuta é uma ferramenta clínica essencial: permite perceber o que aquela família precisa e criar uma ligação de confiança. E quando os pais se sentem ouvidos e tranquilos, a criança também vive todo o processo com mais segurança e tranquilidade. Acredita que a presença humana e empática da equipa médica pode ter impacto real não só na experiência emocional da cirurgia, mas até no desfecho clínico? Sem dúvida. A empatia na cirurgia pediátrica não é opcional. A confiança nasce da combinação entre a competência técnica do cirurgião e a presença humana. E é isso que tento transmitir: que estamos juntos neste caminho e que podem confiar em mim e na equipa. Quando a criança sente que está protegida, todo o processo, da cirurgia ao pós-operatório, é menos traumático. Mesmo em situações graves, tudo o que pudermos fazer para reduzir o impacto emocional pode influenciar o desfecho clínico. A forma como cuidamos impacta e muito. Nos últimos anos, a cirurgia pediátrica tem evoluído com técnicas menos invasivas e mais seguras. Quais são os avanços que mais transformaram a sua prática e o bem-estar das crianças? As técnicas minimamente invasivas, laparoscopia, toracoscopia e, mais recentemente, cirurgia robótica, mudaram radicalmente a cirurgia pediátrica. Permitem menos dor, recuperação mais rápida, cicatrizes quase invisíveis, menos complicações e menos tempo de internamento. Com equipas bem treinadas, estes avanços trazem mais segurança e menor impacto físico e emocional para as crianças e famílias. A sua formação incluiu passagens por centros de referência internacionais em cirurgia plástica e queimados pediátricos. Que experiências marcaram mais o seu olhar clínico e o seu lado humano? Essas experiências foram profundamente marcantes, não só pela excelência técnica dos centros onde estive, mas também pelo contacto com realidades clínicas complexas e com equipas verdadeiramente centradas no doente. Trabalhar com crianças vítimas de queimaduras graves, por exemplo, obriga-nos a ver muito além da ferida: há dor física, há trauma emocional e um processo longo de reabilitação para a criança e para a família. Aprendi que a reconstrução começa muitas vezes muito antes da cirurgia, com a escuta e ajuda na aceitação da nova realidade física e estética da criança, com o toque, com a presença. E que, se aliarmos as melhores técnicas à empatia e o cuidado contínuo, o resultado tenderá sempre a ser melhor. Patologias como a hérnia inguinal, o freio da língua, ou a apendicite aguda são comuns, mas ainda geram muita ansiedade. Que conselhos costuma dar aos pais nestes casos? São situações comuns, mas para muitos pais é a primeira vez que ouvem falar nelas. Procuro explicar de forma simples o diagnóstico, a necessidade ou não de cirurgia, o grau de urgência e o que esperar do tratamento. É importante que entendam que que há um plano, que estão acompanhados e que não estão sozinhos. Aconselho ainda a que se informem, mas que não se assustem com tudo o que encontram na internet. Cada criança é única, e nem tudo o que lemos se aplica ao caso concreto. Além do lado técnico, também contribui para a literacia em saúde com o livro “O meu filho vai ser operado… e agora?”. O que a motivou a escrevê-lo e que retorno tem recebido por parte das famílias? O livro nasceu da vontade de humanizar a experiência cirúrgica e ajudar os pais a sentirem-se mais seguros. Muitos chegam à consulta perdidos, sobrecarregados por pesquisas e mitos online. Fui-me apercebendo também que a ansiedade e as questões dos pais não se resolvem só com explicações no consultório. Com o tempo, fui reunindo perguntas frequentes, estratégias que funcionam e histórias que me mostraram o quanto é importante ter informação clara, prática e adaptada às diferentes idades. Quis criar um recurso gratuito que pudesse apoiar os pais para além da consulta e ajudá-los a sentirem-se mais preparados. Como cirurgiã, mulher e mãe, vive diariamente o equilíbrio entre exigência e sensibilidade. O que aprendeu com a maternidade que leva para o bloco operatório e o que leva do bloco para a vida? Ser mãe logo no início da minha formação enquanto cirurgiã pediátrica e passar pelas cirurgias dos meus filhos ajudou-me a compreender o que é “entregar” um filho para ser operado. A experiência tornou-me mais sensível ao papel dos pais e à sua confiança em nós. Na Europa cerca de 30 a 40% dos cirurgiões são mulheres e existem vários estudos que demonstram que as médicas tendem a escutar mais e estabelecer relações médico-doente mais empáticas, são frequentemente descritas como mais rigorosas na preparação do doente e mais cuidadosas em procedimentos complexos. A cirurgia trouxe-me foco, resiliência e capacidade de decisão, que levo para casa e como eu, muitas acumulam o papel de cirurgiãs e de mães e sentem na pele a “mommy guilt” e vivem entre exigências clínicas e emocionais. Com isso aprendi que equilíbrio não é perfeição, é adaptação. Acredito que essa fusão me torna, e a tantas outras que vivem entre estes dois mundos, numa cirurgiã mais exigente, mas também mais sensível e completa. Como vê o futuro da cirurgia pediátrica em Portugal? Acredita que há espaço para uma prática ainda mais integrada, que una técnica, humanismo e educação em saúde? Vejo um futuro promissor para a cirurgia pediátrica em Portugal, com inovação técnica, e uma prática mais integrada, que una excelência cirúrgica, empatia e literacia em saúde. Mas para isso acontecer, é preciso reconhecer também os limites de quem cuida. A exigência técnica é imensa e, quando somada ao desgaste emocional, pode levar a um cansaço profundo e até ao burnout. E a verdade é que a empatia exige energia, não é inesgotável, sobretudo quando o ritmo não permite tempo para escutar ou estar verdadeiramente presente. Acredito que o grande desafio, e ao mesmo tempo a grande oportunidade, está em criar condições para que os profissionais possam exercer a sua função de forma plena: com competência, mas também com tempo, apoio e espaço para cuidar. Só assim será possível manter viva uma prática verdadeiramente humanizada e sustentável. Por fim, depois de tantos anos, o que é que ainda a transforma numa cirurgia? Há histórias que a acompanham e que continuam a dar sentido ao que faz? O que me transforma, ainda hoje, é a consciência de que cada cirurgia é única, porque cada criança, cada família e cada história o são também. Continuo a sentir que ser cirurgiã é mais do que uma profissão: é um compromisso profundo com o bem-estar de alguém que, naquele momento, está vulnerável e confia plenamente em nós. Levo comigo momentos felizes e outros difíceis. Mas todos me lembram porque escolhi este caminho. É um privilégio poder usar as mãos e o conhecimento para aliviar, curar ou simplesmente estar presente, e trazer alguma leveza ao momento, sempre que possível. No fundo, continuo a acreditar que, mesmo num bloco operatório, também se pode cuidar com o coração. Facebook: Sara Porto Carmo – Cirurgia Pediátrica Instagram: @drasaraportocarmo Marcações: linktr.ee/drasaraportocarmo “A pele é um espelho vivo da nossa história e a medicina estética consciente ajuda a contá-la sem apagar as marcas que nos definem” “A nossa pele tem memória”: Eugénia Costa criou a Lab.123, uma clínica onde o bem-estar da mulher é tratado com lupa clínica e escuta empática
Saúde Infantil “O que parece birra é, muitas vezes, uma criança em esforço” Brincar, comer, dormir, tolerar mudanças, estar à mesa, pegar num lápis. A infância constrói-se em gestos aparentemente simples, mas é…
Saúde Infantil “A relação da criança com a comida começa muito antes da primeira colher” A alimentação infantil é, muitas vezes, lida à superfície. Mas, por trás de uma textura que desencadeia rejeição ou de…
Cirurgia / Saúde Infantil “Ser Cirurgião Pediátrico é operar sem nunca perder de vista o adulto que ali começa a formar-se” Quando uma criança precisa de Cirurgia, nada é pequeno para uma família. Há o medo, a incerteza, a ansiedade dos…