ÉS DE BRAGA/Podologia “No futebol de alta competição, o detalhe que separa o rendimento da lesão pode começar na saúde dos pés” By Revista Spot | Junho 9, 2026 Junho 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email Durante muito tempo, os pés foram tratados como uma nota de rodapé na conversa sobre saúde. No desporto, porém, tornaram-se impossíveis de ignorar. É neles que começa o contacto com o chão, a aceleração, a travagem, o salto, a mudança de direção e, muitas vezes, a lesão que ainda não apareceu. José Pedro Couto, podologista ligado à Podologia Desportiva e à alta competição, com experiência em clubes como o Sporting Clube de Braga e clubes da Arábia Saudita, trabalha precisamente nesse ponto onde clínica, biomecânica e performance se cruzam. Para o podologista, avaliar o pé é avaliar uma cadeia inteira de movimento, percebendo como pequenas alterações podem influenciar joelho, anca, coluna ou rendimento desportivo. Nesta entrevista, falamos sobre prevenção, tecnologia, calçado, atletas profissionais e amadores, e sobre uma Podologia que quer deixar de ser vista como último recurso para ocupar o lugar que merece: o da prevenção. Em que momento do seu percurso percebeu que o pé não deve ser avaliado isoladamente, mas como parte do movimento de todo o corpo? A sua experiência no desporto de alta competição mudou a forma como olha para a Podologia? Sendo sincero, desde a licenciatura percebi que a Podologia era muito mais do que tratar apenas os pés. Sobretudo nas unidades curriculares de Anatomia do Membro Inferior e Biomecânica, compreendi que a avaliação podológica deve olhar para o corpo humano como um todo. Mais tarde, a experiência em Inglaterra, numa clínica muito direcionada para o desporto, veio confirmar essa visão. Muitas vezes, a patologia ou a lesão não têm origem apenas no pé, mas resultam de alterações noutras estruturas ou de compensações ao longo da cadeia de movimento. Hoje, ao trabalhar em clubes profissionais de futebol e integrado em departamentos médicos e de performance, essa abordagem faz ainda mais sentido. Na alta competição, não podemos olhar para o pé de forma isolada. Temos de avaliar o movimento humano no seu conjunto, perceber como o atleta se move, como apoia, como compensa e de que forma tudo isso pode influenciar a lesão, a prevenção e a performance. No desporto, o que é que o pé revela antes de a lesão aparecer, sobre a postura, o gesto técnico, a carga de treino ou a forma como o atleta compensa desequilíbrios? No desporto, uma avaliação biomecânica, recorrendo, por exemplo, a uma plataforma de pressões, pode dar-nos indicadores importantes sobre a forma como o atleta apoia, distribui a carga e compensa determinados desequilíbrios. Através dessa análise, conseguimos perceber se aquele padrão de apoio, aquela postura ou determinada alteração no movimento podem aumentar o risco de lesão. O nosso papel passa precisamente por identificar esses fatores de risco e trabalhar em conjunto com o departamento médico e de performance, de forma a reduzir ao máximo essa probabilidade. Naturalmente, sabemos que existem fatores externos que não estão sob o nosso controlo, mas quanto mais cedo conseguirmos detetar estes sinais, maior será a nossa capacidade de prevenir, ajustar cargas e proteger o atleta. O que é que uma avaliação podológica consegue mostrar sobre a forma como um atleta corre, trava, salta, muda de direção ou leva o corpo ao limite? Na Podologia Desportiva, pelo menos no meu ponto de vista, o papel do podologista passa por fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que o atleta tenha o máximo rendimento possível, reduzindo simultaneamente o risco de lesão, sobretudo de lesões por sobrecarga. Numa avaliação podológica, recorremos a diferentes instrumentos, como câmaras de vídeo, análises 3D, plataformas de pressões e, quando necessário, palmilhas personalizadas impressas em 3D. Todas estas ferramentas ajudam-nos a conhecer melhor o atleta, a perceber como se move e a identificar as alterações mais relevantes sobre as quais o podologista pode e deve intervir. Informações como o centro de gravidade, a estabilometria, a distribuição das pressões plantares e a avaliação dinâmica são extremamente importantes para compreender a forma como o atleta corre, trava, salta, muda de direção ou suporta cargas elevadas. Com esta informação, trabalhamos em conjunto com o departamento médico e com o departamento de performance, com o objetivo de melhorar a função, prevenir lesões e potenciar a performance do atleta. Que tipo de exigência específica coloca o futebol aos pés de um atleta? No futebol, os pés estão sujeitos a uma carga constante e muito variável. O atleta corre em linha reta, acelera, trava, muda de direção, salta, apoia e volta a arrancar em espaços muito curtos de tempo. Tudo isto faz com que toda a estrutura músculo-esquelética do pé esteja em permanente solicitação. Além desta exigência funcional, há ainda os traumatismos próprios da modalidade, como os pisões, os contactos com outros jogadores, os impactos repetidos na bola e a própria relação do pé com a chuteira. A forma da chuteira, o tipo de apoio que permite e a pouca proteção que oferece no dorso do pé também podem influenciar o conforto, o rendimento e o risco de lesão. Por isso, no futebol, o pé não é apenas uma base de apoio. É uma estrutura de aceleração, travagem, equilíbrio, contacto e precisão, constantemente levada ao limite. Numa equipa profissional, qual é verdadeiramente o papel do podologista? Numa equipa profissional, o papel do podologista passa por estar integrado no departamento médico e trabalhar em equipa, em articulação com os diferentes profissionais que acompanham o atleta. Nas equipas onde trabalho, uma das minhas funções é avaliar os atletas numa fase de pré-época, procurando identificar alterações passíveis de correção. Esse trabalho é feito em conjunto com o departamento de performance, com o objetivo de prevenir lesões, melhorar a função e potenciar o rendimento. Numa outra vertente, cabe também ao podologista fazer o acompanhamento regular das lesões e problemas relacionados com o pé, desde alterações ungueais a problemas dérmicos, garantindo que estas situações não se tornam um entrave à disponibilidade do atleta. Naturalmente, a decisão final sobre se um atleta está ou não apto para jogar cabe sempre ao médico da equipa. Fala-se muito em rendimento, mas talvez a palavra mais decisiva seja prevenção. Que sinais é que os pés dão antes de surgir uma lesão mais evidente no joelho, na anca, na coluna ou na cadeia muscular? Os pés têm um impacto muito significativo em todo o membro inferior e podem revelar sinais importantes antes de surgir uma lesão mais evidente noutras estruturas, como o joelho, a anca, a coluna ou a cadeia muscular. Na minha opinião, alterações como um valgo ou varo exagerado, alterações da pinça maleolar, pés cavos ou planos, bem como padrões de marcha em intra ou extraversão, são alguns dos sinais mais relevantes que o podologista deve saber identificar. A partir dessa avaliação, é possível perceber de que forma o apoio do pé pode estar a influenciar compensações ao longo da cadeia de movimento. O objetivo passa por corrigir ou compensar essas alterações, recorrendo, por exemplo, ao tratamento ortopodológico, sempre que indicado, de forma a reduzir o risco de lesão e melhorar a função do atleta. No desporto de alta competição, o detalhe pode decidir tudo. Uma unha encravada, uma bolha, uma alteração de apoio ou uma dor aparentemente pequena podem mesmo mudar o rendimento de um atleta ou condicionar um jogo? Sim, é verdade. Podem parecer lesões de menor importância quando comparadas com outras, como roturas musculares ou fraturas, mas a realidade é que podem ter um impacto muito significativo no rendimento do atleta. Uma unha encravada, sobretudo quando se encontra num estádio mais avançado, é extremamente dolorosa e pode perfeitamente impedir o atleta de estar disponível para o treinador. O mesmo acontece com lesões de fricção, como as flictenas, ou bolhas, e com lesões de sobrecarga, como calosidades ou helomas. Apesar de, muitas vezes, serem vistas como problemas simples, estas situações podem limitar o gesto técnico, alterar o apoio, condicionar a corrida e retirar foco ao atleta durante o jogo. Na alta competição, qualquer desconforto pode fazer diferença, porque o detalhe conta muito. A tecnologia trouxe novas ferramentas à Podologia, mas como se garante que estes dados servem para compreender melhor o atleta e não apenas para produzir uma solução automática? A tecnologia é, sem dúvida, uma ferramenta muito importante para a Podologia, mas deve ser entendida como um auxiliar de diagnóstico e não como uma resposta automática. Os dados recolhidos através da avaliação biomecânica, da podobarometria ou de outras ferramentas tecnológicas ajudam-nos a compreender melhor o atleta, mas têm de ser sempre enquadrados numa avaliação clínica rigorosa. Essa avaliação começa, muitas vezes, na marquesa, onde observamos, palpamos, testamos mobilidade, identificamos alterações e começamos a formular possíveis diagnósticos. Só depois é que cruzamos essa informação clínica com os dados fornecidos pela tecnologia disponível. É dessa integração entre observação, experiência clínica e análise objetiva que nasce uma intervenção verdadeiramente personalizada. A tecnologia dá-nos informação, mas cabe ao podologista interpretá-la e transformá-la numa decisão ajustada a cada atleta. As chuteiras, as sapatilhas e o tipo de piso tornaram-se parte da performance. Até que ponto o calçado pode ajudar um atleta e em que momento começa a iludir, quando promete corrigir aquilo que devia ser avaliado clinicamente? Sem dúvida que cada desporto e cada tipo de piso exigem um calçado adequado. A escolha da chuteira ou da sapatilha pode influenciar o conforto, a estabilidade, a forma como o atleta apoia o pé e, naturalmente, a sua performance. No entanto, não é obrigação do doente ou do atleta saber qual é o melhor calçado para o seu caso, nem conhecer todas as caraterísticas técnicas que deve procurar. É aí que entra o papel do podologista: avaliar clinicamente, perceber o tipo de pé, o padrão de apoio, o historial de lesões e a modalidade praticada, ajudando depois na escolha do calçado mais adequado. Muitas vezes, nas lojas, os funcionários aconselham determinados modelos, mas fazem-no sem conhecer o historial clínico, o tipo de pé ou as necessidades específicas daquela pessoa. Nesses casos, o atleta pode ser facilmente “iludido” por um calçado que promete corrigir ou melhorar tudo, mas que, na prática, pode não ser o mais indicado. O calçado pode ajudar muito, mas não deve substituir uma avaliação clínica. Quando promete corrigir aquilo que ainda não foi devidamente avaliado, deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma solução incompleta. Há hoje uma geração muito mais ativa: corrida, trail, padel, ginásio, futebol amador, caminhadas longas. O atleta amador está mais exposto a lesões por excesso, mau calçado ou falta de orientação do que imagina? O atleta amador gosta de praticar a sua modalidade, mas muitas vezes o tempo joga contra ele. Questões fundamentais como um bom aquecimento, o reforço muscular, a mobilidade e os alongamentos após o exercício acabam, muitas vezes, por ser esquecidas. Se pensarmos, por exemplo, num jogador de futebol profissional, percebemos que atualmente pode treinar em campo durante uma hora ou uma hora e meia, mas depois passa mais duas ou três horas no ginásio, a fazer trabalho de reforço muscular, prevenção de lesões e protocolos de recuperação. O atleta amador, na maioria das vezes, não tem essa disponibilidade horária nem o mesmo acompanhamento. Por isso, está naturalmente mais exposto a lesões por excesso de carga, por falta de preparação física adequada, por escolha incorreta do calçado ou por ausência de orientação especializada. A Podologia não vive apenas no desporto. Que sinais devem levar alguém a procurar ajuda? Diria que o sinal mais importante que deve levar alguém a procurar ajuda é, sem dúvida, a dor. Quando temos dor em alguma zona do pé, isso significa que algo não está bem. É um alerta do nosso corpo e não deve ser desvalorizado. Muitas vezes, o doente vai adiando a consulta, adaptando a marcha, mudando a forma como apoia o pé ou evitando determinadas atividades. O problema é que essas compensações podem acabar por criar alterações noutras estruturas, como o joelho, a anca ou a coluna. No caso do pé diabético, a resposta é diferente, porque aqui a prevenção é absolutamente fundamental. O nosso papel passa por estudar o pé do doente, avaliar o risco e tentar prevenir o aparecimento de lesões, sabendo que, quando surgem feridas ou úlceras, a cicatrização pode ser mais difícil, lenta e complexa. O futuro da Podologia passa por uma abordagem cada vez mais integrada, ao lado de médicos, fisioterapeutas, treinadores e outros profissionais de saúde. O que falta para que a Podologia deixe de ser vista como uma resposta de último recurso e passe a ser reconhecida como uma área estratégica de prevenção, mobilidade e qualidade de vida? Diria que a Podologia tem vindo a crescer muito nos últimos anos, e isso deve-se ao trabalho dos podologistas que, todos os dias, exercem de forma profissional, rigorosa e responsável. Esse trabalho tem ajudado a mostrar aos doentes e aos colegas de outras especialidades que a Podologia tem um papel importante na saúde, na prevenção, na mobilidade e na qualidade de vida. Felizmente, os podologistas têm vindo a conquistar, com muito esforço, o seu espaço na área da saúde. Hoje, faz cada vez mais sentido que estejam integrados em equipas multidisciplinares, ao lado de médicos, fisioterapeutas, treinadores e outros profissionais. Acredito que o caminho passa por continuar a demonstrar, com trabalho clínico, evidência e resultados, que a Podologia não deve ser vista apenas como uma resposta quando já existe dor ou lesão, mas como uma área estratégica na prevenção e no acompanhamento global do doente ou atleta. Aproveito também para agradecer aos médicos com quem tenho o prazer de trabalhar, pela confiança que depositam em mim, nas minhas avaliações e nas propostas terapêuticas que apresento. Facebook: Podologista Dr. José Pedro Couto Instagram: @podologista_jose_pedro_couto Marcações: https://www.trofasaude.pt/braganorte/corpo_clinico/jose-pedro-couto-dr/ “Uma pessoa pode ver bem e, ainda assim, ter uma doença silenciosa a ameaçar a retina ou o nervo ótico” “Há uma pergunta que muitas mulheres nunca fizeram em voz alta: e se isto que me ensinaram a aguentar tiver tratamento?”
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