Design de Interiores “Vivemos numa era de referências infinitas e, paradoxalmente, de casas cada vez mais parecidas” By Revista Spot | Dezembro 18, 2025 Dezembro 18, 2025 Share Tweet Share Pin Email A casa não é um cenário. É um organismo. E, se for bem pensada, regula-nos. Segundo a designer de interiores Filipa Oliveira, é aqui que a fronteira entre “decorar” e “projetar”. Depois de um dia acelerado, percebemos isso no corpo: há casas que baixam o volume do mundo e há outras que o aumentam. E é aqui que o design de interiores está a ganhar uma nova relevância, menos espetáculo, mais vida real. Numa era de referências infinitas e casas perigosamente parecidas, as escolhas fáceis prometem resultado imediato, mas falham quase sempre naquilo que mais importa: identidade e bem-estar. “Decorar pode ser escolher peças; projetar é desenhar rotinas, luz, proporções e conforto”, destaca Filipa. Porque, no fim, uma casa certa não é a que impressiona. É a que regula. A que faz sentido. A que, quando se abre a porta, parece dizer: “estás aqui”. O mito do Pinterest e o vício de “casas catálogo” Vivemos numa era de referências infinitas e, paradoxalmente, de interiores cada vez mais parecidos. O Pinterest, diz Filipa, não é o inimigo. É o início. “O Pinterest é ótimo, é maravilhoso porque é onde as pessoas se perdem nas ideias.” O problema começa quando a pressa substitui a escuta. A designer de interiores descreve um fenómeno muito atual: projetos “catalogados”, com marcas pré-definidas, móveis repetidos, fórmulas que aceleram a venda e roubam a identidade. “Se houver escuta verdadeira, é impossível existir um projeto igual ao outro, todas as pessoas são diferentes”. Há uma frase dela que funciona como diagnóstico clínico e que, no design, é ouro: “Temos que primeiro perceber qual é a dor que o cliente nos traz.” Dor não no sentido dramático, mas no sentido exato: o que incomoda, o que envergonha, o que trava. A casa pode estar “pronta” e, ainda assim, não estar certa. “Há espaços que não estão efetivamente decorados, estão só com móveis lá dentro. Falta o toque, sim, mas falta, sobretudo, coerência. Falta a história certa.” Identidade espacial: quando alguém entra e diz “isto sou eu” A identidade não nasce de um briefing bem escrito; nasce daquilo que o cliente não sabe dizer. É uma leitura que parece psicologia aplicada e, de certa forma, é. Nos últimos anos, a neuroarquitetura e o neurodesign popularizaram uma ideia simples: o espaço mexe connosco. Luz, cor, textura, ruído, circulação, tudo influencia stress, descanso, foco e sensação de segurança. Organizações e autores da área do design têm vindo a explorar esta ligação entre ambiente e bem-estar emocional. Na prática, Filipa traduz isto sem jargão: quando transforma um espaço, há uma intenção de “a casa ficar leve”. E “leve” não é minimalismo obrigatório. Pode haver cor, exuberância, excentricidade, desde que esteja alinhada com a pessoa. O papel do designer é fazer essa tradução, não impor um estilo, mas revelar um fio condutor. Materiais, texturas e luz: o sistema nervoso da casa Se há um lugar onde o “projetar” se vê, sem se ver, é na luz. Filipa aponta um erro recorrente em casas portuguesas recentes: temperaturas de cor demasiado brancas para uma casa vivida ao final do dia. “Vemos muitas vezes luzes 4000K, quando à noite queremos ter uma luz acolhedora, porque queremos baixar o nosso nível de stress.” Isto não é só gosto, a própria literatura e guias técnicos de iluminação descrevem como tons mais quentes tendem a ser percecionados como mais relaxantes, enquanto brancos neutros são mais “ativos” e funcionais. E depois há o conceito que muda uma casa sem partir uma parede: luz em camadas. Não é “mais luz”; é luz com intenção, ambiente, tarefa e destaque, em conjunto. A ideia de layered lighting é amplamente usada no design contemporâneo para criar cenários e atmosferas ajustáveis, divisão a divisão. Filipa dá exemplos que toda a gente sente: chegar a casa e acender só um ponto certo; jantar com um candeeiro bem colocado; ler com luz dirigida sem “ligar a casa toda”. Às vezes a paz começa num interruptor bem pensado. Quiet Luxury: o novo luxo português é silêncio bem feito O luxo, hoje, não precisa de se anunciar. Precisa de durar. Filipa descreve um luxo mais adulto: materiais naturais, madeira com presença, feito-à-mão, peças com peso humano. O quiet luxury, enquanto tendência, tem sido associado a qualidade, discrição, sustentabilidade e artesanato, uma sofisticação que se sente mais do que se exibe. E há aqui uma verdade difícil de vender num mercado habituado ao “barato que parece caro”: o artesanal tem preço porque tem tempo. E o tempo, em 2025, é a matéria-prima mais rara. Os erros mais comuns e como corrigir sem obras grandes Filipa não gosta de chamar “erro” ao que, durante anos, “sempre deu certo”. Chama-lhe fórmulas. E as fórmulas, quando mudam os estilos de vida, começam a falhar. Além da luz, aponta padrões típicos: open space com misturas de tons desnecessárias, ausência de planeamento para cortinados, casas todas brancas por medo de arriscar. O curioso é que a correção muitas vezes não exige demolição, exige estratégia: ajustar temperaturas e cenas de iluminação, introduzir luz indireta (por exemplo, sob móveis de cozinha), repensar têxteis e proporções, usar cor como detalhe inteligente em vez de “tudo ou nada”. É “um bocadinho” bem colocado que muda a perceção do todo. Design e obra: a comunicação entre equipas evita despesas duplicadas Há uma frase dela que devia estar escrita à entrada de qualquer obra: “Nós somos todos uma equipa.” Filipa desmonta o mal-entendido clássico: o designer não substitui o eletricista, o carpinteiro ou o construtor. Ajuda-os a acertar antes de executar. Porque ninguém adivinha onde vai ficar a máquina do café e o cliente também não pensa nisso. O que ela descreve é quase uma economia do pormenor: projetar antes evita retrabalho, evita frustração, evita gastos duplicados. E, quando funciona, até os técnicos agradecem. O lado íntimo: casas que mudam pessoas Quando lhe pedem uma história marcante, Filipa recusa a narrativa do “cliente difícil”. E atira a frase que mais diz sobre o seu olhar: “O cliente não é difícil, o cliente só não sabe.” Saber aqui não é inteligência, é linguagem. As pessoas sentem, mas não conseguem traduzir. O designer torna-se intérprete. E é por isso que, para ela, todos os projetos mudam alguma coisa. Às vezes é uma casa vazia que se torna lar. Outras vezes é uma casa “pronta” que, finalmente, faz sentido. Há transformações silenciosas: a pessoa que passa a receber amigos; o casal que deixa de discutir porque a rotina flui; a sensação de “agora sim” quando a luz acalma, quando o sofá cabe, quando a casa deixa de parecer emprestada. A assinatura Filipa Oliveira: contra o catálogo, a favor do humano “Não quero ser um catálogo. Quero ser procurada pelo processo: o envolvimento, a leitura do não verbal. As pessoas não são um catálogo. As casas não são uma fórmula.”, diz. E talvez seja essa a tal autoridade contemporânea, não a autoridade de quem impõe, mas a autoridade de quem escuta melhor do que o ruído do mercado e constrói, com método, uma casa com identidade. Uma casa que não pede aprovação. Uma casa que, quando alguém entra, devolve a frase certa, sem esforço: “isto sou eu.” Morada: Rua Nova da Estação 200 R/c Esquerdo, 4700-234 Braga Contacto: 910 184 382 Facebook: Filipa Oliveira – Interiores Instagram: @filipaoliveira_interiores INATO Bistrô: Quando um restaurante se torna viagem Grupo Bernardo da Costa: 12 meses, 12 acontecimentos IBD contados na primeira pessoa
Carpintaria “O espaço de trabalho diz muito sobre a cultura interna de uma empresa” Num setor onde durante décadas se falou sobretudo de produção, prazos, obra feita e capacidade de resposta, começa a ganhar…
Arquitetura / Engenharia FEEL Projetos celebra 8.º aniversário com novas instalações e uma nova etapa de crescimento Há mudanças que não se medem apenas em metros quadrados. Medem-se na energia de uma equipa, na confiança acumulada ao…
Design de Interiores / Materiais ASM TAPS inaugura novo showroom: o novo rosto de uma marca com quase 40 anos de história O novo showroom da ASM TAPS é um elogio ao design, à luz certa sobre o metal certo, à textura…