Psicologia “A velocidade da vida engole silêncios e atropela perguntas fundamentais” By Revista Spot | Agosto 1, 2025 Agosto 2, 2025 Share Tweet Share Pin Email A velocidade da vida engole silêncios e atropela perguntas fundamentais: Quem sou eu? O que estou a fazer aqui? Para onde vou? Muitas pessoas sentem-se perdidas na própria história, como se estivessem a viver a vida de alguém que não reconhecem. Nesta entrevista com a psicóloga Loa Nadny, mergulhamos na urgência de “nos reconhecermos”, ou seja, de olharmos para dentro com honestidade, coragem e curiosidade. Contar a própria trajetória com consciência pode ser um ato revolucionário, um ponto de viragem emocional. Mas não basta compreender, é preciso agir. Do autoconhecimento à maturidade emocional, da autoestima à libertação de padrões antigos, Loa convida-nos a fazer as pazes com a dor, a validar emoções difíceis e a cultivar vínculos autênticos. Um convite a resgatar a narrativa da nossa vida e a reescrevê-la com mais presença, significado e liberdade. “Reconhecermos” e “narrarmos” o nosso próprio percurso com consciência pode ser um ponto de viragem emocional? Partindo do princípio que reconhecer é o mesmo que conhecer novamente, preciso de dar uns passos para trás e voltar ao processo de me conhecer a mim mesma. Em síntese, eu só posso reconhecer aquilo que já conheço. O processo de autoconhecimento envolve sobretudo, encontrar caminhos que me conectem com os meus valores de vida, com aquilo que eu acredito ser certo ou errado, bom ou mau, com o que é negociável ou não. Estar disponível para movimentar a vida nesse sentido, pode ser, sem dúvida, um ponto de viragem emocional, lembrando que tanto o processo de conhecimento como o de reconhecimento são abertos, pois estamos em constante aprendizagem sobre nós e sobre os outros. Tomar consciência é, de certa forma, “iluminarmo-nos”, desvendar e descobrir… É importante valorizar essa consciência, mas também é preciso entender que só iluminar não basta, em algum momento do nosso percurso a consciência precisa de se transformar em comportamento. Nesse sentido, a consciência entra como parte do processo, que se completa quando eu entendo e decido o que eu quero fazer com essa sabedoria. Assim, quando estamos iluminados por essa perspetiva, temos mais força para contar a nossa história com propriedade, organização e discernimento do que é verdadeiramente significativo. Fala-se muito de autoestima, mas pouco da sua construção. Que fatores considera fundamentais na construção de uma autoestima saudável? Bem, aqui podemos fazer um link com a resposta da pergunta anterior, porque sem dúvida, um dos pontos centrais da autoestima está no autoconhecimento. Quando eu tenho clareza das minhas forças e fragilidades, quando eu conheço os meus limites, quando eu sei o que posso oferecer ao mundo, eu tenho maior probabilidade de construir uma autoestima com uma base sólida e consistente. Costumo brincar com os meus pacientes, que a partir desses princípios podemos construir uma autoestima forjada em aço! Às vezes as pessoas podem pensar de forma errada que a autoestima tem como ponto principal corresponder a aspetos físicos valorizados pela sociedade, mas esse tema exige uma reflexão mais profunda com muitas camadas. Nesse sentido, a aparência física pode ser considerada apenas um dos pontos para a construção da autoestima, mas é preciso refletir também sobre o desenvolvimento de competências que agregam pessoalmente e socialmente. Agradar aos outros em detrimento de si mesmo é algo muito comum. O que está na base desse padrão de comportamento e como é que se pode começar a romper com ele? Acredito que existem fatores culturais muito antigos, mas que sem dúvida deixam vestígios na sociedade atual, onde no passado a mulher era criada para agradar, cuidar e servir de maneira submissa. No geral, a maioria das pessoas desejam ser amadas, respeitadas, valorizadas, mas isso torna-se um problema quando anulam as suas próprias necessidades para agradar os outros. Então posso dizer, que ser protagonista da minha própria vida, passa por abrir espaço para a flexibilidade psicológica e clareza sobre os meus limites. Quebrar padrões pode ser entendido como possibilidade de cura para a geração atual e para as próximas. Mesmo que eu tenha recebido uma educação, vale a pena questionar se manter essa aprendizagem faz sentido para a minha vida, por outro lado, quando eu aceito e mantenho pensamentos e comportamentos sem questionar eu adoeço o meu corpo, a minha mente, as minhas emoções. O que significa, na sua perspetiva, maturidade emocional? Que sinais indicam que alguém está, de facto, a amadurecer psicologicamente? De forma muito resumida, na minha opinião, a maturidade está relacionada com a capacidade de entender o que está no nosso controlo e que podemos mudar e na aceitação daquilo que não podemos modificar, precisamente porque não controlamos. Então é importante ter consciência de que eu só tenho o poder de movimentar o que vive dentro de mim. O que vive dentro do outro não está ao meu alcance de forma automática, ou seja, eu só consigo algum acesso com permissão, e mesmo assim esse acesso tem limitações. É um trabalho importante aumentarmos a tolerância às frustrações e ao mesmo tempo estarmos atentos aos sorrisos que a vida nos dá, pois se por um lado a vida “é uma surra”, por outro, a vida também “é mãe que abraça”. A maturidade tem a ver também com as escolhas que fazemos, se a vida me der um limão, eu posso escolher chorar porque ele é azedo, ou posso escolher misturar água, açúcar e fazer uma limonada. Eu partilho sempre com os meus pacientes que eu sou uma psicóloga que vai a um psicólogo, e essa minha disponibilidade para fazer terapia teve muito impacto na minha qualidade de vida, justamente por causa dessa possibilidade do autoconhecimento que traz maior capacidade de aceitação, de flexibilização, de reflexão, de movimento e, consequentemente, de maturidade, como um efeito dominó. Numa era de produtividade e positividade tóxica, como podemos validar emoções difíceis sem cair no autojulgamento ou na negação da dor? Quando se fala em educação emocional, é urgente o entendimento, a aprendizagem e a aceitação de que a dor faz parte do processo existencial. Não dá para passar por esta vida sem sentir dor. Temos uma geração que passa grande parte do tempo a tentar evitar ou anestesiar a dor, em vez de a elaborar emocionalmente. As emoções difíceis, os pensamentos difíceis, os sentimentos difíceis, precisam de conexão e validação, simplesmente porque fazem parte da vida humana. Por exemplo, se eu tenho um pensamento que me traz sentimentos difíceis e eu tento fugir dele, mais ele me persegue, e quanto mais eu valido, abraço, enfrento e “converso” com esse pensamento, maior a probabilidade de eu conseguir superar e seguir em frente. Como podemos cultivar a escuta genuína e não-julgadora nas nossas relações, sobretudo quando quem amamos partilha connosco dores profundas? Sempre que falo em desenvolver a escuta, estou a falar também de comunicação. Comunicar de forma efetiva e saudável não é apenas a capacidade de falar daquilo que eu quero e preciso, mas também a capacidade de escutar o que o outro quer e precisa. Existem vários caminhos para desenvolver a capacidade de escuta, e posso afirmar que investir num processo terapêutico pode ser muito interessante. Fazer terapia traz a possibilidade de adquirir autoconhecimento e quando aprendemos a nossa forma de funcionar e existir no mundo, melhoramos significativamente a nossa forma de nos relacionarmos com os outros. Quando chegamos a esse lugar subjetivo onde trabalhamos duro para exercer o direito de sermos nós mesmos, é muito natural darmos a liberdade para os outros serem quem são. A qualidade dos nossos vínculos é hoje apontada como um dos maiores preditores de felicidade e saúde mental. Que ingredientes tornam uma relação verdadeiramente íntima, segura e significativa? Atualmente, quando falamos em qualidade de vida, estamos a falar em saúde física, saúde mental e saúde social, sendo que a última refere-se também à capacidade de interação com o mundo e ao desenvolvimento de competências relacionais. Uma relação de qualidade, baseada num vínculo considerado saudável, precisa de ter como um dos principais ingredientes o espaço para a autenticidade, ou seja, espaço para que a pessoa possa ser ela mesma, por mais estranha que ela possa parecer. A intimidade mora nesse lugar de “transparência” das relações, porque na medida em que uma pessoa se sente aceite, ela vai sentir, possivelmente, mais segurança, esperança, confiança, felicidade…. O tema do propósito tem estado em alta. Na sua prática clínica, como percebe a relação entre propósito, saúde mental e sentido de vida? Quando falo de propósito, prefiro abrir a possibilidade do plural, porque, por vezes, a ideia de que se deve ter um propósito maior que orienta e direciona a vida dificulta a reflexão sobre o tema. Grande parte do que é significativo na vida das pessoas está relacionado com a clareza que têm sobre os seus valores. Só consigo identificar os meus propósitos de vida quando estou ligada ao que é verdadeiramente importante para mim Costumo dizer que o valor é uma bússola: sempre que estiver em dúvida, se conseguir aproximar-me dos meus valores, consigo orientar-me pelo que faz sentido para mim, o que me traz mais conforto na minha própria vida. É nesse encontro comigo mesma que encontro os meus propósitos. Que papel atribui à espiritualidade (não apenas religiosa, mas no sentido existencial) na travessia de momentos difíceis e na reconstrução interior? Enquanto psicóloga, baseio-me em diversos estudos científicos que apontam para uma relação positiva entre o desenvolvimento da espiritualidade e a melhoria da qualidade de vida. Sabemos, por exemplo, que pessoas que cultivam uma fé, entendida como a crença em algo que não se vê, independentemente de religião, tendem a apresentar uma recuperação mais significativa em processos de tratamento de doenças. Ao longo dos meus 15 anos de experiência clínica, acompanhei centenas de pacientes, e tenho observado que muitos encontram na espiritualidade uma fonte de conforto e resiliência. Este acolhimento espiritual não está necessariamente associado a doutrinas religiosas específicas, mas sim a práticas que promovem o bem-estar interior, como a meditação, a oração, o contacto com a natureza, as atividades artísticas ou físicas. Enquanto pessoa, posso partilhar que a minha fé é o que me sustenta e salva todos os dias. A psicoterapia é muitas vezes vista como último recurso. Como desmistificar esse preconceito e incentivar as pessoas a procurarem apoio antes de o sofrimento se tornar insuportável? Entendendo que o preconceito pode ser considerado um conceito antecipado daquilo de que não se tem conhecimento, acredito que a única forma de desmistificar é espalhar conhecimento, é procurar informação, procurar saber sobre. A resistência em recorrer à terapia vai para além de uma questão individual, é também um desafio que deveria ser abordado pelas políticas públicas, garantindo acesso, divulgação e desmistificação do tratamento psicológico. O processo terapêutico, realizado em parceria com profissionais qualificados da área da psicologia, é um método cientificamente validado, seguro e sério, que oferece não só autoconhecimento, mas um vasto conjunto de ferramentas para vivermos com maior conforto, resiliência e significado. Afirmo ainda que o tratamento psicológico é uma ferramenta colaborativa de ajuda, que pode proporcionar a construção de um estilo de vida saudável. Todos nós temos luzes e sombras no nosso percurso, e ambas merecem respeito. Contudo, quando estamos disponíveis para investir num processo de autoconhecimento, ganhamos a capacidade de escolher que partes queremos acolher e potenciar. Eu particularmente, acredito muito nos benefícios do processo terapêutico porque eu vivo essa realidade na posição de paciente que faz terapia e na posição de psicóloga que colabora com o processo terapêutico dos meus pacientes. Esta experiência dupla dá-me uma compreensão profunda do valor transformador da psicoterapia. Além disso, o processo terapêutico tem esta “coisa bonita” de nos proporcionar mais possibilidades e consciências. A partir disso, podemos identificar as nossas feridas emocionais e vazios interiores, perceber quais conseguimos preencher, assim como aprender a conviver dignamente com aqueles que não podemos mudar, encontrando, desta forma, caminhos para uma vida mais plena e significativa. Instagram: @loanadny_psicologa LinkedIn: Loa Nadny Alves Entre o Reiki, o autocuidado, a meditação e o yoga kids, Mariana Ribeiro fez do seu Plena Corpo e Alma um reencontro com o essencial Há 10 anos, esta healthtech de Braga mudou a forma como se consome saúde em Portugal
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