Medicina Estética “Entre um ‘antes’ e um ‘depois’ há uma ampulheta: tempo e orientações médicas no pós-operatório” By Revista Spot | Fevereiro 3, 2026 Fevereiro 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Hoje, muitas pessoas chegam à consulta de cirurgia plástica com uma fotografia no telemóvel e uma ideia preconcebida. Segundo Rita Valença, cirurgiã plástica, antes do bisturi é fundamental conversar sobre anatomia, ética e limites. Formada na FMUP, com experiência no Centro Hospitalar de São João e anos no IPO do Porto, aprendeu na reconstrução que cada milímetro pode devolver função e, ao mesmo tempo, identidade. Na estética, essa escola traduz-se numa regra simples: indicar com critério, planear com rigor e recusar quando a segurança ou a motivação não estão alinhadas, o seu DNT (Do Not Treat). “O compromisso é com o procedimento, planeamento, contexto hospitalar, e um doente informado e participante”, resume. Nesta entrevista fala-se de mama e contorno corporal com tecnologia e evidência, mas também da parte que não cabe num “antes e depois”, ou seja, a qualidade da pele, a cicatriz, o edema, a fibrose, a rede de apoio e a disciplina no pós-operatório. Porque o resultado não acontece num clique, acontece ao longo do tempo. Em que momento percebeu que queria trabalhar na fronteira entre reconstrução e estética? Ao longo da minha formação na FMUP e no Centro Hospitalar de São João, fui percebendo que me realizava especialmente nas situações em que era possível devolver não só a função, mas também a identidade, harmonia e a confiança ao paciente. A cirurgia plástica surgiu aí, naturalmente, como o espaço onde reconstrução e estética se cruzam e não se separam. A minha ideia de beleza nasce desse mesmo percurso: algo equilibrado, natural e profundamente individualizado. Costuma dizer que “o compromisso do cirurgião é com o procedimento e não com o resultado”. Como é que isso se traduz quando alguém chega com expectativas muito “fechadas”, muitas vezes moldadas por filtros, tendências e comparações? Quando alguém chega muito influenciado por filtros ou comparações, o meu papel é explicar o que é possível e adequado para aquela pessoa, tendo em conta aspetos anatómicos e respeitando critérios de segurança e ética. Por outro lado, é importante passar a mensagem de que o resultado de uma cirurgia não depende apenas da técnica ou do cirurgião. Depende muito do cumprimento dos cuidados pós-operatórios e dos hábitos de vida do próprio paciente, que podem otimizar ou comprometer esse resultado. Por isso, o compromisso com o procedimento implica também envolver o doente no processo e torná-lo parte ativa do sucesso da cirurgia. O que é que a cirurgia reconstrutiva ensina à estética e o que é que a estética obriga a reaprender sobre limites, detalhe e responsabilidade? A experiência em cirurgia reconstrutiva major, como a que adquiri no Centro Hospitalar de São João e mais tarde no IPO do Porto, onde também trabalhei durante vários anos, permite ao cirurgião desenvolver skills que realmente aprimoram a cirurgia estética. É difícil separar verdadeiramente as duas vertentes, que se complementam, mas em última instância, a reconstrução ensina o impacto funcional e emocional de cada gesto, e a estética exige limites, atenção ao detalhe e responsabilidade sobre “corpos saudáveis” e identidade de cada pessoa. Se tivesse de escolher três procedimentos que hoje concentram mais procura, quais seriam? O que é que as pessoas tendem a subestimar em cada um: critérios de seleção, risco, recuperação ou manutenção dos resultados? Hoje, os procedimentos mais procurados são cirurgias de mama, rinoplastia e de contorno corporal como a lipoaspiração HD. Em cada um, há aspetos que os pacientes tendem a subestimar: na cirurgia da mama, a seleção adequada da cirurgia e do volume de próteses, e expectativas realistas; na rinoplastia, a complexidade anatómica, individualidade e o tempo de recuperação; no contorno corporal, os cuidados pós-operatórios e a manutenção dos resultados através de hábitos de vida saudáveis. Conhecer bem estes fatores é essencial para que o resultado seja seguro, duradouro e natural. Hoje há uma procura crescente por resultados discretos. Como define harmonia e quais são os sinais de alarme de um pedido que não é saudável? Harmonia é encontrar equilíbrio entre proporções, identidade e naturalidade. Um pedido deixa de ser saudável quando as expectativas são irreais, influenciadas por comparações ou pressão externa, ou quando põe em risco a segurança e o bem-estar. Utilizo muitas vezes a expressão DNT – Do Not Treat, seja porque o paciente não tem motivação ou expectativas alinhadas com a realidade, seja porque não existe segurança cirúrgica ou anestésica adequadas. Que perguntas considera indispensáveis antes de aceitar operar? Antes de se avançar para qualquer cirurgia, é essencial conhecer o historial clínico do paciente como hábitos de vida, medicação habitual, doenças crónicas, cirurgias prévias, histórico de cicatrização, relação emocional com o próprio corpo e existência de rede de apoio adequada no pós-operatório. Estas perguntas ajudam a avaliar segurança, expectativas e a perceber se o paciente está preparado para o processo e para otimizar os seus resultados desde o pré até ao pós-operatório. A tecnologia veio trazer uma nova narrativa ao nível da segurança e da previsibilidade dos resultados? A tecnologia com base na ciência trouxe avanços reais na Cirurgia Plástica nos últimos anos: planeamento 3D para simulação anatómica, técnicas minimamente invasivas com recurso a dispositivos/tecnologias que otimizam segurança e eficiência cirúrgica como a lipoaspiração ultrassónica, vibrolipoaspiração e ecografia intra-operatória, tecnologias de retração de pele, e protocolos de recuperação que aceleram os resultados. O resto, sem evidência científica e prometedor de milagres, é apenas “ruído” de mercado. Quando se fala de lipoaspiração, lipoescultura e alta definição, o que distingue um bom candidato? E que conversa honesta sobre pele, anatomia e expectativas costuma ser decisiva? Um bom candidato tem peso estável, hábitos de vida saudáveis, massa muscular adequada e elasticidade de pele suficiente para resultados harmoniosos. A conversa honesta sobre anatomia, limites da pele e expectativas realistas é decisiva para garantir segurança, naturalidade e satisfação com o resultado. Desde a avaliação até ao momento da cirurgia, os pacientes são informados sobre as particularidades do seu caso, como alterações anatómicas, qualidade da pele, para estarem cientes de possíveis resultados reais e alinharem expectativas. Numa era de “resultados instantâneos”, como é que educa a pessoa para o tempo biológico da recuperação, edema, fibrose, maturação da cicatriz, e para a disciplina do pós-operatório? Educar o paciente é explicar que o corpo tem o seu próprio tempo de recuperação: edema, fibrose e cicatrizes seguem processos biológicos que não podem ser acelerados. O sucesso depende de disciplina no pós-operatório, paciência e cumprimento rigoroso das orientações médicas. Costumo explicar que entre um “antes” e um “depois” há uma ampulheta de tempo que pressupõe paciência e cumprimento de orientações médicas. Nos últimos anos, a cirurgia íntima feminina tem sido cada vez mais falada. Que tipo de casos chegam mais ao consultório? E que cuidados e riscos é importante esclarecer sem romantizar o tema? Na cirurgia íntima feminina chegam casos muito variados: muitas mulheres procuram alívio de desconforto/dor, melhoria na higiene diária com corrimentos e infeções genitais recorrentes, outras vêm por alterações após o parto ou menopausa, por motivos estéticos ou influência de padrões irreais. Um pedido é legítimo quando há impacto real na qualidade de vida, e não apenas insegurança ou comparação. É fundamental esclarecer quais os cuidados no pós-operatório, limites anatómicos e riscos como alterações da sensibilidade. Sendo uma cirurgiã com presença digital, como equilibra a pedagogia com a linguagem rápida das redes? O que é que gostava que o público soubesse, e que raramente se diz, sobre segurança em cirurgia plástica? Nas redes, o desafio é usar uma linguagem simples sem perder rigor científico. Procuro transformar informação complexa em pedagogia clara, falando de riscos, recuperação, limites e variabilidade anatómica, mesmo quando isso não é “viral” ou não gera um impacto imediato. O que gostava que o público soubesse é que segurança em cirurgia plástica não está apenas no resultado imediato, mas na seleção do paciente com hábitos saudáveis, na experiência do cirurgião, no contexto hospitalar e, sobretudo, no cumprimento do pós-operatório. O que raramente se diz é que a verdadeira segurança em cirurgia plástica começa muito antes do bloco operatório e se prolonga muito além da cirurgia. Entre personalização, planeamento 3D, “mini-procedimentos” e a procura por naturalidade, que tendências a entusiasmam de verdade e quais a preocupam? Entusiasmam-me a personalização sustentada por planeamento 3D, a crescente valorização de resultados naturais e individualizados com a máxima de sempre “less is more”. Entusiasmam-me igualmente as tecnologias cientificamente comprovadas, que vão sendo aprimoradas constantemente, e que nos permitem devolver resultados com maior efetividade e segurança. Hoje, fazer uma lipoaspiração tradicional é “coisa do passado”, o recurso a tecnologia deveria ser o gold standard pelos claros benefícios que existem, quer para o paciente, quer para o cirurgião. Por outro lado, preocupa-me a padronização de rostos e o turismo médico, muitas vezes feito sem critérios rigorosos de segurança e sem acompanhamento adequado. Deixo um apelo à consciência dos profissionais de Medicina Estética para que preservem a individualidade dos resultados e aos potenciais candidatos a procedimentos e/ou cirurgias plásticas para que façam uma pesquisa informada sobre o médico que escolhem, conhecendo o seu percurso, competências e seriedade. Facebook: Rita Valença – Cirurgia Plástica Instagram: @ritavalencacirurgiaplastica Site: ritavalenca.pt “O problema não é a falta de força de vontade. É o sistema nervoso em alerta” “A área do pé e tornozelo é, provavelmente, uma das subespecialidades da Ortopedia onde houve mais inovação na última década”
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