SAÚDE ORAL “Um implante não substitui apenas um dente perdido, precisa de uma estrutura saudável e de manutenção para ter estabilidade a longo prazo” By Revista Spot | Março 12, 2026 Março 14, 2026 Share Tweet Share Pin Email À consulta de Lígia Marques, médica dentista especialista em Cirurgia Oral e Reabilitação, chegam anos de desconforto, dentes perdidos, infeções repetidas, mastigação alterada e a tentativa de normalizar aquilo que há muito deixou de ser normal. A queixa pode parecer dentária, mas, muitas vezes, o que está em causa é a forma como a pessoa mastiga, fala, dorme, convive e se apresenta aos outros. É nesse ponto, entre a perda e a reconstrução, que a cirurgia oral e a reabilitação revelam o que verdadeiramente são: não uma resposta rápida à estética, mas um trabalho clínico de função, precisão e tempo. Em casos complexos, já não basta tratar um dente. É preciso perceber o que ainda pode ser preservado, o que compromete a estabilidade do conjunto e de que forma o osso, a gengiva, a oclusão e os hábitos do doente condicionam o resultado. “Não é, de todo, apenas uma questão de aparência, mas, acima de tudo, voltar a mastigar sem receio, falar com conforto e recuperar a confiança perdida”, explica Lígia Marques. Em que momento percebeu que queria focar-se mais em cirurgia oral e reabilitação e o que é que esta mudança lhe trouxe de mais exigente? Desde os tempos de faculdade que sempre gostei muito de assistir a congressos onde eram apresentados casos clínicos complexos de cirurgia e reabilitação. Essas áreas despertaram desde cedo o meu maior interesse e acabaram por marcar o rumo da minha prática clínica. Foi ao longo da minha prática clínica que fui percebendo que, de facto, a estética não é tudo e que um sorriso bonito só é verdadeiramente bem-sucedido quando existe uma base funcional estável e saudável. Então rapidamente percebi que queria focar-me mais em cirurgia oral e em reabilitação oral. Essa mudança trouxe-me, naturalmente, um nível de exigência muito maior. Implica um conhecimento multidisciplinar para um planeamento rigoroso, o domínio de diferentes áreas e atualização constante. E claro que a pressão do paciente também é maior pois, muitas das vezes, intervir em situações complexas, envolve uma grande carga emocional para o paciente. Sinto que a comunicação passou a ser ainda mais importante, pois considero essencial que a pessoa compreenda todo o processo, as limitações e é fundamental criar uma relação de confiança, alinhar expectativas e envolver o paciente nas decisões. Hoje sinto que a minha escolha transformou a minha prática clínica e tornou-me numa profissional mais completa, mais consciente do impacto real do meu trabalho e, acima de tudo, mais alinhada com o propósito que me move: devolver função, transformar sorrisos e devolver qualidade de vida. Na cirurgia e na reabilitação, muitas vezes o que está em causa é a forma como a pessoa se mostra ao mundo. O que é que esta profissão lhe ensinou sobre as pessoas (e sobre si)? O que mais aprendi com estas áreas é que raramente tratamos apenas dentes. Tratamos histórias, inseguranças acumuladas durante anos, o medo de julgamento, a frustração. Aprendi que é essencial saber escutar o paciente e ter empatia porque muitas das vezes as pessoas não procuram apenas um tratamento, procuram sentir-se compreendidas, respeitadas e seguras. Esta profissão ensinou-me também sobre mim: sobre responsabilidade, humildade, dedicação e sobre a importância de nunca normalizar o sofrimento do outro. Um dos casos que mais me marcou foi o de um paciente com várias perdas dentárias, mobilidade generalizada e dor crónica. Mastigava apenas de um lado, evitava muitos alimentos e sorria sempre com a mão à frente da boca. Tinha consciência de que precisava de uma solução total, mas adiou durante anos por medo, por experiências anteriores pouco positivas e também por receio do investimento emocional que sabia que implicava. Clinicamente, tratava-se de uma reabilitação total, um plano exigente que implicava fases cirúrgicas, períodos de cicatrização, provisórios e um acompanhamento muito próximo. Mas o verdadeiro desafio foi ajudá-lo a acreditar que era possível voltar a ter estabilidade e conforto sem dor. Houve um momento particularmente simbólico que foi no dia da colocação dos implantes e da prótese provisória fixa em que a primeira reação quando se viu ao espelho foi: “Vou poder voltar a comer com os meus filhos sem ter medo que os dentes me saiam.” Foi uma frase que resumiu tudo, não era apenas sobre dentes. Meses depois, com a reabilitação definitiva concluída, a postura dele já era outra. Mais descontraído, mais presente, mais confiante. Para mim, esse caso reforçou algo essencial: numa reabilitação total não estamos apenas a devolver sorrisos mas também a devolver função, identidade e qualidade de vida. Quando um paciente ouve “cirurgia”, imagina logo algo hospitalar. Que procedimentos entram realmente na sua rotina e quais são os sinais de que é mesmo caso para referenciação/hospital? Sim, é verdade que o termo “cirurgia” assusta um pouco alguns pacientes mas, na realidade, a grande maioria dos procedimentos de cirurgia oral realizam-se em contexto de consultório, com anestesia local, baseados num planeamento rigoroso e protocolos de segurança muito bem definidos. Na minha prática diária, a cirurgia oral inclui procedimentos como extrações complexas de dentes inclusos, cirurgia para colocação de implantes, enxertos ósseos e enxertos gengivais. Há situações que justificam referenciação hospitalar como por exemplo, casos de pacientes com patologia médica complexa e descompensada, infeções extensas com risco de disseminação, fraturas faciais, cirurgias oncológicas ou procedimentos que exijam anestesia geral. O mais importante é que o paciente saiba que cirurgia oral não significa automaticamente algo dramático. Significa, isso sim, uma abordagem técnica e criteriosa para resolver situações que não podem ser tratadas apenas de forma conservadora. Que avaliação considera essencial antes de operar ou reabilitar e que papel dá hoje à imagiologia para reduzir risco e aumentar previsibilidade? Para mim, uma reabilitação bem-sucedida não começa na cirurgia, começa no diagnóstico. E há etapas que, para mim, são absolutamente inegociáveis: Um exame clínico detalhado é essencial, que inclui a avaliação dentária, periodontal e oclusal, um protocolo fotográfico e a análise radiográfica (CBCT). Um bom diagnóstico traduz-se diretamente na redução de risco e aumento de previsibilidade do caso. No fundo, uma boa reabilitação é 70% planeamento e 30% execução. Quanto mais criterioso for o diagnóstico, mais conservadora, segura e estável será a intervenção. Com CBCT, scanners intraorais e planeamento digital, até que ponto a cirurgia guiada e o fluxo digital tornaram os resultados mais previsíveis? A integração de CBCT, scanners intraorais e planeamento digital transformou profundamente a previsibilidade em cirurgia oral e reabilitação. Hoje conseguimos planear de forma virtual aquilo que vamos executar clinicamente, com uma precisão que há alguns anos não era possível. A cirurgia guiada permite-nos definir previamente a posição, a angulação e a profundidade dos implantes com base na reabilitação protética e aliada ao fluxo digital permite reduzir margens de erro e facilita a visualização antecipada do resultado final. Isto na prática, para tentar simplificar, significa que deixámos de colocar implantes “onde há osso” para passar a colocá-los “onde a prótese precisa que estejam”. Essa inversão de lógica aumentou significativamente a previsibilidade funcional e estética. Na prática, para o paciente, traduz-se em vários benefícios como menor tempo cirúrgico, procedimentos potencialmente menos invasivos, pós-operatórios mais confortáveis, menos improviso intraoperatório e melhor comunicação e compreensão do plano. Há um momento em que “insistir” num dente pode ser mais prejudicial do que planear a substituição. Quais são os critérios clínicos que mais pesam nessa decisão e como explica isso sem o paciente sentir que “lhe estão a tirar um dente só porque sim”? O princípio é sempre tentar preservar o dente, mas há critérios clínicos que pesam nessa decisão e que incluem, sobretudo, a quantidade de estrutura dentária remanescente, a saúde do osso e da gengiva que suportam o dente, a presença de infeções recorrentes, fraturas radiculares… Quando estes fatores comprometem de forma significativa a estabilidade e a função do dente a longo prazo, pode ser mais previsível e seguro planear a sua substituição. Explico sempre ao paciente que a decisão não é “tirar um dente por tirar”, mas sim escolher a solução com melhor prognóstico e qualidade de vida. Muitas vezes uso uma analogia simples: tal como numa casa, se a estrutura estiver demasiado comprometida, remendar repetidamente pode não ser a melhor opção. O objetivo é encontrar a solução mais estável, funcional e confortável para o futuro do paciente. Quais são hoje os fatores que mais condicionam o sucesso e como gere expectativas quando o paciente chega com a ideia de que “implante é para sempre”? Os implantes dentários são uma solução muito previsível e segura para substituir dentes perdidos, mas o seu sucesso depende de vários fatores ligados à saúde geral e aos hábitos do paciente. Entre os mais importantes estão a qualidade e quantidade de osso disponível, uma boa higiene oral, o controlo da doença periodontal, o controlo de doenças sistémicas como a diabetes e a ausência ou redução de hábitos como o tabagismo. Além disso, alguns medicamentos e determinadas condições médicas podem influenciar a cicatrização ou a estabilidade do implante, sendo necessária uma avaliação individual. Quando um paciente chega com a ideia de que “um implante é para sempre”, procuro explicar que ele pode durar muitos anos, frequentemente décadas, mas não é uma estrutura imune a problemas. Tal como os dentes naturais, os implantes precisam de manutenção, consultas regulares e bons hábitos de higiene oral. O sucesso a longo prazo depende muito da colaboração do paciente e do acompanhamento profissional. Quando falta osso, muita gente ouve falar em enxerto, regeneração, elevação do seio maxilar. Como decide entre as opções, que riscos existem e o que é que mudou nos materiais e técnicas nos últimos anos? Quando falamos de implantes, é importante perceber que eles precisam de osso suficiente para ficarem estáveis. Quando esse osso é insuficiente podemos recorrer a técnicas de regeneração óssea ou enxertos para reconstruir o volume necessário. A escolha da técnica depende sobretudo da quantidade de osso existente, da localização e do objetivo do tratamento. Na zona posterior do maxilar superior, por exemplo, muitas vezes é necessário realizar uma elevação do seio maxilar, que consiste em criar espaço para colocar material de enxerto e permitir a formação de novo osso. Noutras situações, podem ser usados enxertos localizados ou técnicas de regeneração guiada. Como em qualquer procedimento cirúrgico, existem riscos, mas na maioria dos casos são pouco frequentes e controláveis. Entre os mais conhecidos estão a infeção, a reabsorção parcial do enxerto ou, no caso da elevação do seio, a perfuração da membrana sinusal. Felizmente, com planeamento adequado e técnicas atuais, estes riscos são bem geridos. Nos últimos anos houve uma grande evolução nos materiais e na forma como planeamos estes tratamentos. O objetivo é sempre criar condições estáveis para que o implante tenha sucesso a longo prazo. Em casos de grande perda dentária, como constrói a estratégia de tratamento e como escolhe entre soluções fixas e removíveis, com critérios de função, higiene, longevidade e orçamento? A escolha entre uma prótese fixa e uma removível depende de vários fatores. As soluções fixas são as mais idênticas aos dentes naturais e permitem um maior conforto, mas exigem boas condições ósseas e uma higiene oral muito cuidadosa. Já as próteses removíveis podem ser uma alternativa mais simples e acessível em determinados casos, permitindo também uma higiene mais fácil para alguns pacientes. Quando se opta por uma reabilitação total fixa sobre implantes ou quando existe a possibilidade de conjugar uma reabilitação fixa sobre dentes e sobre implantes, há sempre a necessidade de um planeamento cuidadoso e personalizado, como já referi. Em casos de grandes perdas dentárias posteriores em que ainda é viável mantermos os dentes anteriores, pode haver a necessidade de fazer aumentos de dimensão vertical, sendo necessário primeiro estabilizar oclusão recorrendo a soluções provisórias que nos permitem testar a função, a estética e o conforto antes da reabilitação definitiva. Nos casos em que a reabilitação tem de ser total e o paciente opta por uma solução fixa sobre implantes, se existirem boas condições ósseas e estabilidade inicial dos implantes, recorro à chamada carga imediata, em que o paciente recebe dentes provisórios fixos no mesmo dia, pouco tempo após a cirurgia. O objetivo final é sempre encontrar a solução que combine função, estética, durabilidade e manutenção adequada, tendo em conta não só os aspetos clínicos, mas também as expectativas e possibilidades do paciente. Que plano de acompanhamento considera razoável para evitar peri-implantite e “reabilitações que envelhecem mal”? Muitas vezes os pacientes pensam que o tratamento termina quando a reabilitação está concluída, mas na realidade é aí que começa uma fase igualmente importante: a manutenção. O que mais falha, na prática, não costuma ser a cirurgia ou a prótese em si, mas sim a falta de acompanhamento regular e de hábitos de higiene adequados. A peri-implantite é uma inflamação dos tecidos à volta do implante que pode levar à perda de osso e está frequentemente associada a acumulação de placa bacteriana, história prévia de doença periodontal, tabagismo ou ausência de consultas de controlo. Tal como acontece com os dentes naturais, os implantes também precisam de cuidados diários e de vigilância profissional. Por isso, explico sempre aos pacientes que é fundamental manter uma higiene oral rigorosa em casa e cumprir um plano de manutenção individualizado, que normalmente inclui consultas de controlo e higiene profissional a cada 4 a 6 meses, dependendo do risco de cada paciente. Quando existe este acompanhamento regular, conseguimos detetar precocemente qualquer alteração e intervir a tempo, o que é essencial para garantir que a reabilitação se mantém saudável e funcional durante muitos anos. A ansiedade dentária continua a ser um grande bloqueio. Que estratégias usa para o paciente se sentir e como equilibra conforto com boas? A ansiedade dentária é muito mais comum do que se imagina e, para muitos pacientes, o maior passo é simplesmente entrar no consultório. Por isso, uma parte importante do meu trabalho começa antes de qualquer tratamento, ou seja, ouvir o paciente, explicar claramente o que vai acontecer e construir uma relação de confiança. Muitas vezes, compreender o procedimento e saber o que esperar já reduz bastante o medo e eu gosto mesmo de explicar e de sentir que me compreendem. Hoje em dia já existem várias estratégias para garantir o conforto durante o tratamento, como técnicas de anestesia muito eficazes e, em alguns casos selecionados, sedação consciente. O objetivo é que o paciente tenha uma experiência o mais tranquila possível, sem sofrimento desnecessário. Ao mesmo tempo, é fundamental manter o rigor clínico e seguir as melhores evidências científicas. Isso significa, por exemplo, evitar o uso de antibióticos por rotina quando não são realmente necessários. O conforto do paciente deve caminhar sempre lado a lado com práticas seguras e responsáveis. Quando conseguimos esse equilíbrio entre uma comunicação clara, controlo adequado da dor e decisões clínicas baseadas na evidência, ajudamos não só a tratar os pacientes, mas também a reduzir o medo que muitos carregam há anos em relação ao dentista. Entre redes sociais, “sorrisos instantâneos” e promessas de transformação rápida, onde é que hoje se vê mais risco? Que perguntas é que um paciente deve fazer antes de avançar para cirurgia/reabilitação? As redes sociais trouxeram algo muito positivo no sentido em que aumentaram o interesse das pessoas pela saúde oral e pela estética do sorriso. No entanto, também criaram a ideia de que todos os tratamentos são rápidos, simples e com resultados imediatos, o que nem sempre corresponde à realidade clínica. O maior risco não está necessariamente nas técnicas em si, mas sim em decisões apressadas ou em tratamentos demasiado invasivos quando existem alternativas mais conservadoras. Em medicina dentária, devemos sempre privilegiar a preservação dos tecidos naturais e um planeamento cuidadoso, em vez de soluções rápidas que podem comprometer a saúde oral a longo prazo. Antes de avançar para uma cirurgia ou uma reabilitação mais complexa, é importante que o paciente questione qual é o diagnóstico real, que alternativas de tratamento existem, quais são os benefícios e limitações de cada opção, qual o prognóstico a longo prazo e que manutenção será necessária. Também é importante que entenda que resultados estéticos são realmente possíveis em cada caso. Um bom tratamento não deve basear-se apenas numa fotografia “antes e depois”, mas num diagnóstico sólido, num planeamento responsável e numa relação de confiança entre médico e paciente. No final, o objetivo não é apenas um sorriso bonito no imediato, mas um sorriso saudável e estável ao longo dos anos. Instagram: @draligiamarques Marcações: linktr.ee/draligiamarques II Congresso Nacional do Luto Perinatal: “A perda gestacional continua envolta em silêncio e há uma urgência de cuidar melhor” Hélia Barros, a nutricionista que fez do legado da Avó Maria um gesto de amor e de reencontro com o prazer de comer
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