SAÚDE/Saúde Infantil “Quem cresce com saúde oral é muito mais feliz. E a felicidade é o maior selo de beleza” By Revista Spot | Março 4, 2026 Março 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email Na consulta de Ricardina Nobre, a ortodontia começa na respiração de uma criança que dorme mal, na mordida que cresce fora do tempo, na língua que não repousa onde deve, no adulto que procura corrigir mais do que dentes desalinhados. Especialista em ortodontia, ortodontia intercetiva e ortopedia funcional dos maxilares, olha para cada caso como um projeto biológico e humano, onde estética e se completam. Num tempo em que alinhadores invisíveis, “antes e depois” e autodiagnósticos circulam com facilidade excessiva, o seu discurso devolve complexidade a uma área muitas vezes simplificada. “Porque um bom sorriso mede-se, acima de tudo, pelo equilíbrio facial, pelo conforto funcional e pela estabilidade que consegue manter ao longo dos anos”, defende. O que é, para si, um bom sorriso do ponto de vista clínico e em que momento percebeu que a ortodontia é tanto função como estética? Para mim, um bom sorriso vai muito para além do que é visível. Deve ser funcional, equilibrado e estável. A estética é a consequência natural desse equilíbrio: quando a função está correta, o sorriso torna-se espontaneamente mais bonito, mais leve e integrado no rosto. A minha “assinatura clínica” assenta precisamente nesse equilíbrio entre ciência e sensibilidade estética. A ortodontia transforma padrões de crescimento, influencia a respiração, interfere na postura mandibular e pode prevenir disfunções futuras. Os meus tratamentos são muito mais do que só alinhar dentes. A estética passa, portanto, a ser uma consequência positiva de uma função bem orientada. Hoje, encaro cada tratamento como um projeto individualizado. Não procuro apenas dentes alinhados; procuro equilíbrio facial, conforto funcional e estabilidade a longo prazo. E acredito que é essa visão integrada, função e estética como partes inseparáveis, que define o meu trabalho. Que avaliação mínima exige em consulta, antes de propor aparelho, e quais são os erros mais comuns de “autodiagnóstico”? Antes de propor qualquer aparelho, preciso de perceber a pessoa que está à minha frente. E isso começa sempre por um diagnóstico rigoroso, para mim, isso é absolutamente inegociável. Faço sempre um exame clínico completo, não apenas dentário, mas funcional: avalio a oclusão, a dinâmica muscular, postura lingual, padrão respiratório, incluo registos fotográficos, porque o sorriso tem de ser analisado no contexto facial, assim como radiografias, SCAN intraoral e, sempre que possível, CBCT. É, portanto, uma recolha completa de informações, para uma análise exaustiva e um estudo completo. Mas há algo que considero tão importante como qualquer exame complementar: perceber as expectativas do paciente. Procuro sempre compreender o que aquela pessoa espera do tratamento, o que a incomoda e mais valoriza. E aqui entram as expectativas muitas vezes irrealistas. Com a exposição crescente nas redes sociais, recebo frequentemente pacientes com autodiagnósticos feitos a partir do TikTok ou Instagram, que falham porque não há conhecimento da fisiologia. O que é possível numa pessoa, pode não ser possível noutra. É precisamente aqui que reside a diferença entre uma abordagem superficial e uma abordagem clínica responsável. E o que procuro é garantir que no final temos não só um sorriso alinhado, mas enquadrado no rosto, com uma função estável e um resultado duradouro. Quando é que um caso é realmente bom candidato a alinhadores invisíveis e quando é que o aparelho fixo ainda é a opção mais previsível? Hoje fala-se muito em alinhadores, e com razão. São uma excelente opção terapêutica, mais estéticos, confortáveis, removíveis, facilitam a higiene e integram-se facilmente na vida social do paciente. Para muitos adultos, representam uma solução mais apelativa e eficaz. Eu adoro! Mas a decisão nunca pode ser só guiada pela tendência. Tem de ser clínica. Os alinhadores são uma ótima opção de tratamento quando o paciente tem maturidade para cumprir o protocolo e seguir o tratamento conforme indicado. Quando percebo que pode haver dificuldade nesse compromisso, o aparelho fixo pode ser uma escolha mais segura. O aparelho fixo continua a ser uma opção de tratamento extremamente eficaz. É muito previsível sobretudo quando falamos de movimentos mais complexos: rotações severas, extrusões, situações que requerem maior controlo biomecânico. Portanto, não há um aparelho melhor do que outro. Há, mais uma vez, uma análise global do caso, do paciente, dos problemas presentes e das suas expectativas e motivações. Eu procuro sempre ouvir a pessoa, esclarecer as suas dúvidas e guiar. O tratamento ortodôntico, seja com que aparelho for, é complexo e tem uma série de variáveis determinantes. É um caminho que tem de ser feito de mãos dadas entre o médico e o paciente. Na sua abordagem, quais são os sinais que justificam avaliação precoce de ortontontia intercetiva? O que é que muda, de forma concreta, quando tratamos na infância em vez de “esperar para a adolescência”? A avaliação precoce é extremamente importante porque é preventiva. Muitos dos problemas começam de forma silenciosa para as crianças e pais, e só são notadas por estes quando há já um acumular de consequências. Quando intervenho na infância, o que estou verdadeiramente a tratar não são só dentes, é todo o crescimento. Temos de olhar para o ser humano como um todo. A boca não é uma estrutura isolada. Uma alteração no desenvolvimento maxilar pode ter repercussões muito para além dos dentes, como alterações na respiração, postura, défice de atenção, problemas de aprendizagem e de socialização. Sinais como perdas dentárias fora do tempo esperado ou dentes que demoram muito tempo a nascer, apinhamento, assimetria facial, problemas respiratórios ou de mastigação e ressonar são grandes alertas! Um tratamento por exemplo, aos 7 anos, evita muitas consequências futuras e é muito mais simples e estável. Tratar mais cedo simplifica significativamente o tratamento, reduz tempo, complexidade e risco de recidiva. Uma criança que cresce com saúde, é mais “despreocupada”, mais leve e muito mais feliz. E a felicidade é o maior selo de beleza. Isso nota-se desde cedo! Como explica aos pais e aos doentes a diferença entre “alinhar dentes” e “orientar crescimento”? Em que situações Na Ortopedia funcional dos maxilares faz mesmo diferença e quais são os limites biológicos que coloca logo à partida? Eu costumo explicar aos pais e aos doentes de uma forma muito simples: alinhar dentes é “organizar o que já existe”; orientar crescimento é “criar melhores condições para o que ainda se está a desenvolver”. A ortopedia funcional dos maxilares (OFM) trabalha a base óssea, os padrões funcionais e o ambiente onde os dentes vão nascer e estabilizar. Ou seja, a OFM é a raiz, e a ortodontia é a flor. Havendo um problema na base, irá arrecadar consequências no futuro. Para eu decidir se faz sentido falar de ortopedia funcional, não olho só para a boca. Avalio a criança, mas também olho para os pais, para o tipo de face presente na família e avalio o meio em que a criança vive, hábitos, respiração, sono, postura, alimentação. Porque muitas vezes o que parece “só dentes tortos” é a ponta de um iceberg de função e desenvolvimento. Aqui, existe uma janela de oportunidade, se intervirmos na altura certa, conseguimos influenciar trajetórias de crescimento. Se essa janela já passou, as opções de tratamento mudam. A OFM dirige-se essencialmente ao potencial de crescimento da criança. Aproveitamos essa fase ativa para intervir não apenas nos dentes, mas nos maxilares, corrigindo problemas já presentes, diminuindo as suas consequências e, sobretudo, redirecionando o crescimento. É uma mais valia imensurável. Até que ponto padrões como respiração oral e ronco devem fazer parte do raciocínio ortodôntico? Quando é que encaminha para ORL e terapia miofuncional e como coordena equipas sem transformar a ortodontia numa “cura para tudo”? Para mim é impossível fazer ortodontia responsável sem integrar respiração no raciocínio clínico. Não significa que a ortodontia seja a solução para todos os problemas respiratórios, mas significa que não podemos ignorá-los. Sempre que avalio uma criança, observo o padrão respiratório, a postura labial, o tónus muscular, a posição da língua e questiono sobre sono: ressona? acorda cansada? Tem dificuldades de concentração? São dados clínicos relevantes, não curiosidades. Quando há alterações funcionais, interposição lingual, deglutição atípica, incompetência labial, respiração oral, o trabalho com terapia miofuncional, terapia da fala e otorrino é, muitas vezes, decisivo. A coordenação é feita de forma muito clara e ética: cada especialidade tem o seu papel. Eu explico aos pais que temos de trabalhar em equipa. A ortodontia é uma peça integrada de um plano de tratamento amplo. E essa integração, quando bem indicada e bem comunicada, faz uma diferença enorme na qualidade do resultado, não só dentário, mas global. Sente mais procura de adultos por ortodontia? O que muda no plano quando há restaurações extensas, doença periodontal, bruxismo ou perda óssea? Sem dúvida que sinto uma procura crescente de adultos por ortodontia. Muitos não tiveram oportunidade de tratar em jovens, outros procuram corrigir recidivas, melhorar função ou preparar reabilitações estéticas ou outros tratamentos mais complexos. E há também uma geração muito informada, que já não vê a ortodontia como algo exclusivo da adolescência. No adulto, o raciocínio clínico muda. Já não estamos a trabalhar com crescimento, estamos a trabalhar com biologia já madura; muitas vezes existe perda dentária associada, alterações ósseas, recessões gengivais etc. Aqui os movimentos têm de ser mais controlados, mais lentos; o tratamento é diferente. Apesar de tudo isto, adoro tratar adultos porque os pacientes compreendem o tratamento e são muito focados e motivados. É um desafio profissional, mas os resultados são transformadores. Não só a nível funcional, como estético. O paciente adulto depois de um tratamento ortodôntico, é sempre mais feliz! Quais são, na prática, os fatores que mais encurtam ou prolongam um tratamento? E como lida com a pressão por resultados “rápidos”? O tempo de tratamento em ortodontia não depende apenas do plano clínico. Depende muito do que acontece entre consultas; o compromisso faz toda a diferença. A responsabilidade do paciente é ativa, desde usar os alinhadores no tempo indicado, colocar os elásticos como prescrito, ter uma higiene oral reforçada, adotar cuidados com a alimentação, comparecer às consultas. E é aqui que entra algo que considero fundamental: envolver o paciente. Eu gosto de explicar ao paciente o que estamos a fazer e porquê, qual é o objetivo daquela fase, o que acontece se não houver a sua colaboração. Quando o paciente compreende o peso da sua responsabilidade, a sua postura muda. Muitos dos meus pacientes dizem-me precisamente isso: que se sentem parte do processo e sentem que eu estou verdadeiramente a trabalhar no sorriso deles. Em relação à pressão por resultados rápidos, sou muito transparente. As redes sociais mostram transformações aceleradas, mas grandes mudanças requerem o seu tempo. O objetivo não é apenas terminar, é terminar bem. Porque é que os dentes “mexem” depois do tratamento e como define um plano de contenção realista? Qual é a sua mensagem mais importante para evitar frustração anos depois? A fase de contenção é, muitas vezes, a mais subestimada e, paradoxalmente, uma das mais importantes. Os dentes não “ficam no sítio” apenas porque terminaram o tratamento. Os dentes podem mover-se ao longo da vida por múltiplos motivos: forças musculares, bruxismo, envelhecimento fisiológico, etc. Mesmo pessoas que nunca fizeram ortodontia apresentam alterações dentárias com o passar dos anos. O movimento não é uma exceção, é a regra biológica. Por isso, a contenção não é uma fase temporária, é uma parte integrante do tratamento. A recomendação do uso da contenção é de uso prolongado, muitas vezes indefinido, não como uma imposição, mas como manutenção de um investimento e forma de preservar aquilo que foi conquistado. O que é que a investigação e a prática clínica lhe ensinaram sobre tomada de decisão e comunicação com doentes? A investigação ensinou-me a duvidar, no melhor sentido da palavra. Ensinou-me que cada decisão clínica deve ter por base fundamento e evidência científica. A prática clínica, por sua vez, ensinou-me a avaliar todo o contexto, a individualidade do paciente e a importância de uma boa comunicação. A melhor opção nem sempre é a mais rápida nem a mais moderna, é a mais segura, previsível e adequada àquela pessoa, naquele momento da sua vida. E isso exige tempo, análise e, muitas vezes, a coragem de dizer “não” quando a expectativa do doente não é real ou viável. No meu ponto de vista, o paciente precisa de entender o seu tratamento. No caso das crianças, o papel dos pais é absolutamente central. São eles que garantem higiene, o uso de aparelhos removíveis, comparência às consultas e o cumprimento das orientações. Mas também procuro envolver a própria criança, adaptando a linguagem à idade. Quando a criança sente que faz parte do processo, a sua colaboração é excelente. No que diz respeito à comunicação de “antes e depois”, é importante compreender que cada caso é único, não existem resultados universais. Todos os pacientes são diferentes, todos os tratamentos são únicos. Essa é a dificuldade e a magia da ortodontia. No seu caminho até à ortodontia, da formação às equipas e contextos onde trabalha hoje, que pessoas e que momentos foram decisivos? A ortodontia surgiu na minha vida pela dimensão estética e integrativa que tem no paciente. Desde cedo sabia que queria uma área que combinasse ciência rigorosa, detalhe técnico e sentido estético. A ortodontia apareceu como o ponto de encontro perfeito entre esses três pilares. Sempre tive um olhar muito atento à harmonia facial, talvez também pela influência de ter crescido num ambiente artístico. Percebi cedo que uma face equilibrada tem um impacto profundo no bem-estar, na autoestima e no dia a dia. Eu quis, através da ortodontia, contribuir para essa mudança, física, funcional, estética, mas também com grande influência psicológica e na qualidade de vida a longo prazo. O que me fascina na ortodontia é o impacto em diferentes áreas: quando conseguimos melhorar a função, respiração, estabilidade oclusal, a estética surge como consequência natural. E quando a face se harmoniza, o paciente muda na forma como sorri, fala e se posiciona socialmente. A transformação vai muito além dos dentes. A sua vida muda! Durante o meu percurso, aprendi a questionar, a estudar exaustivamente, a atualizar-me constantemente, a rever casos, a não aceitar respostas fáceis ou simplistas. Penso que é essa “fome” de saber que me distingue. Por consequência, ensinar tornou-se uma extensão natural desse percurso. Dou formação porque é um desafio intelectual e porque acredito profundamente que é na partilha que todos crescemos e o mundo evolui. É também muito gratificante saber que, através do que ensino, outros colegas conseguem tratar melhor os seus pacientes. Essa multiplicação dá um sentido muito especial ao que faço, e motiva-me diariamente a querer sempre ser e saber mais. Faço-o por mim e pelos outros. Instagram: @dra.dinanobre Facebook: Dina Nobre “Os pés carregam a pressa do nosso tempo, mesmo quando lhes falta estrutura para a suportar” “Quando o organismo está saudável, a resposta aos tratamentos é muito mais harmoniosa e sustentável”
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