ÉS DE BRAGA “O sofrimento psíquico não se encaixa em respostas automáticas nem desaparece com frases feitas” By Revista Spot | Abril 7, 2026 Abril 7, 2026 Share Tweet Share Pin Email Fala-se cada vez mais de ansiedade, de exaustão e de saúde emocional. Mas falar mais nem sempre significa compreender melhor. Num tempo acelerado, em que tudo parece exigir respostas rápidas, Michelle Amora propõe profundidade para olhar o sofrimento sem o reduzir a frases feitas. O seu percurso cruza áreas tão distintas como a educação, a tecnologia, a psicanálise e a espiritualidade, mas foi a experiência de uma doença grave, durante a pandemia, que marcou de forma decisiva a visão que tem hoje sobre a literacia emocional. A partir de uma prática online entre Portugal e o Brasil, acompanha histórias de vida sem ceder à lógica das fórmulas prontas nem à banalização da dor. Fala de autoconhecimento, ansiedade e vulnerabilidade com a consciência de que nem tudo se explica à superfície. E com a certeza de que compreender o que dói continua a exigir tempo, escuta e elaboração. O seu percurso cruza a educação, a tecnologia, a psicanálise, a espiritualidade e uma experiência muito marcante de doença durante a pandemia. Quem é hoje a mulher que resulta desse caminho de aprendizagem, vulnerabilidade e reconstrução? O meu percurso passou por várias áreas, da educação à tecnologia, da psicanálise à espiritualidade, mas foi, sem dúvida, a experiência de ter estado gravemente doente durante a pandemia que mais me transformou. Cada uma dessas dimensões trouxe-me aprendizagens importantes, mas foi na vulnerabilidade que encontrei uma força que antes talvez não conhecesse verdadeiramente. Hoje, sinto que sou uma mulher mais inteira, mais consciente de si, mais reconciliada com a imperfeição e com a profundidade da vida. Alguém que aprendeu a integrar conhecimento e emoção, fragilidade e coragem, dor e reconstrução. E que olha para o seu caminho com mais verdade, mais presença e mais amor. O que é que esse caminho menos linear lhe ensinou sobre o ser humano que, por vezes, uma leitura mais técnica ou mais académica não consegue alcançar? O meu caminho não começou na clínica tradicional, e isso acabou por ser uma das maiores riquezas do meu percurso. Ter passado por áreas diferentes e por experiências de vida tão marcantes ensinou-me a olhar para o ser humano para lá de rótulos, categorias ou explicações fechadas. Aprendi que cada pessoa é única, complexa e feita de muitas camadas, algumas visíveis, outras profundamente silenciosas. Nem tudo se entende apenas pela técnica, e nem tudo se resolve dentro de uma lógica puramente racional. Há dimensões da experiência humana que só se revelam quando existe escuta verdadeira, empatia e disponibilidade para acolher o outro na sua singularidade. A ansiedade está hoje em todo o lado: no discurso público, nas redes sociais, nas conversas íntimas. Sente que estamos finalmente a olhar para ela com mais maturidade ou, em muitos casos, apenas a mudar-lhe o nome sem tocar verdadeiramente na raiz do sofrimento? Acredito que hoje se fala muito mais de ansiedade, e isso, por si só, já é importante, porque durante muito tempo houve silêncio, desvalorização e incompreensão. Mas falar mais não significa necessariamente compreender melhor. Em muitos casos, continuamos a nomear o sofrimento sem realmente o escutar. Olhar para a ansiedade com maturidade exige mais do que identificá-la ou descrevê-la. Exige coragem para entrar em contacto com aquilo que dói, com aquilo que falta, com aquilo que ficou por elaborar. Só quando nos aproximamos da raiz, sem pressa e sem julgamento, é que deixamos de viver apenas à superfície do sintoma e começamos verdadeiramente a cuidar. Na sua perspetiva, porque é que existem hoje tantas pessoas aparentemente funcionais, produtivas e até bem-sucedidas, mas internamente exaustas, ansiosas e desligadas de si próprias? Porque aprendemos, muitas vezes, a funcionar antes de aprender a sentir. Vivemos numa cultura que valoriza o desempenho, a produtividade e a capacidade de aguentar tudo, mas que nem sempre nos ensina a ouvir o corpo, a reconhecer limites ou a cuidar da vida interior. Muitas pessoas tornam-se muito competentes por fora, mas vão-se afastando de si mesmas por dentro. E esse afastamento tem um custo. O corpo acusa, a mente desgasta-se, a ansiedade instala-se e a exaustão aparece, mesmo quando, à primeira vista, parece estar tudo bem. O verdadeiro desafio está em perceber que o sucesso sem ligação interior pode tornar-se vazio. E que o bem-estar não é incompatível com a realização, exige apenas mais consciência, mais verdade e mais cuidado connosco. Qual é a sua definição de autoconhecimento e porque é que esse processo pode ser bem mais exigente do que muitas vezes se imagina? Conhecermo-nos verdadeiramente não é apenas olhar para dentro de forma vaga ou inspiradora. É ter coragem de nos encontrarmos sem filtros, de reconhecer medos, padrões, fragilidades, desejos, contradições e partes de nós que nem sempre são fáceis de aceitar. É um exercício de honestidade profunda, que obriga a sair das narrativas confortáveis e a encarar aquilo que, muitas vezes, se passou anos a evitar. Talvez por isso seja um caminho tão exigente. O autoconhecimento não é uma ideia bonita nem um conceito decorativo. É um processo vivo, por vezes incómodo, mas profundamente transformador. Exige presença, humildade e disponibilidade para nos revermos, para nos ouvirmos e para nos acolhermos por inteiro, mesmo nas zonas mais desconfortáveis. Numa era obcecada por respostas rápidas, soluções imediatas e fórmulas prontas, o que é que continua a tornar a psicanálise tão necessária, precisamente por exigir tempo, profundidade e elaboração? A psicanálise continua a ser necessária exatamente porque recusa essa lógica da pressa que hoje contamina quase tudo. Vivemos num tempo em que se procura resolver rapidamente aquilo que, na verdade, precisa de ser ouvido com profundidade. O sofrimento psíquico não se encaixa em respostas automáticas nem se dissolve em frases feitas. Há conflitos internos, repetições, feridas antigas e conteúdos inconscientes que só se tornam compreensíveis quando existe tempo, escuta e elaboração. A psicanálise oferece precisamente esse lugar raro, onde a pessoa pode falar sem ter de se justificar, sem ter de parecer forte, sem ser interrompida por julgamentos ou receitas prontas. E isso, hoje, é quase contracultural. Mais do que dar respostas rápidas, permite construir compreensão. E compreendermo-nos a sério continua a ser uma das experiências mais exigentes e valiosas que podemos atravessar. O estoicismo voltou a ganhar força no discurso contemporâneo, mas muitas vezes surge reduzido à ideia de “aguentar tudo” ou de “não sentir”. O que é que esta filosofia pode realmente oferecer à saúde emocional, sem ser deturpada numa nova forma de dureza ou autoexigência? O estoicismo tem muito para oferecer, mas só quando é lido com profundidade e não como uma caricatura emocional. Não se trata de endurecer, de reprimir o que se sente ou de fingir que a dor não existe. Essa interpretação é redutora e, muitas vezes, até perigosa. Na sua essência, o estoicismo convida-nos a desenvolver uma relação mais consciente, lúcida e responsável com aquilo que vivemos. Pensadores como Epicteto, Séneca ou Marco Aurélio não propunham insensibilidade, mas discernimento. Não diziam para negar a emoção, mas para não sermos arrastados cegamente por ela. Nesse sentido, esta filosofia pode ser um contributo importante para a saúde emocional, porque ajuda a distinguir o que depende de nós do que não depende, a responder com mais clareza e a cultivar uma forma de liberdade interior que não nasce da rigidez, mas da consciência. Não ensina a suportar tudo em silêncio, mas a viver com mais critério, presença e equilíbrio. Ao integrar psicanálise e reiki no seu projeto, como é que define os limites entre uma prática complementar e o acompanhamento médico ou psicológico que nunca deve ser substituído? Para mim, essa integração só faz sentido quando existe clareza absoluta sobre o lugar de cada prática. Não se trata de confundir campos, nem de apresentar respostas simplificadas para dimensões que exigem enquadramentos diferentes. A psicanálise trabalha com a palavra, com o inconsciente, com os processos psíquicos e com a elaboração emocional, dentro de uma tradição teórica sólida ligada à saúde mental. O reiki, por sua vez, situa-se no campo das práticas complementares de bem-estar, podendo contribuir para estados de relaxamento, maior consciência corporal e sensação de equilíbrio subjetivo. São planos diferentes e é precisamente por isso que a responsabilidade é essencial. Uma prática complementar não substitui avaliação clínica, acompanhamento médico ou intervenção psicológica quando estes são necessários. Pode existir como suporte, nunca como substituição. Uma abordagem integrativa séria não dilui fronteiras, respeita-as. E é esse respeito que torna qualquer cuidado mais ético, seguro e consciente. Atende online e acompanha pessoas entre Portugal e o Brasil, o que é que acontece quando se atravessam contextos culturais, ritmos de vida e formas diferentes de nomear o sofrimento? Atender online, entre realidades como a portuguesa e a brasileira, não altera aquilo que é essencial na escuta, mas transforma de forma muito concreta a maneira como essa escuta se constrói. A dor humana continua a tocar dimensões universais, como a perda, o conflito, o desejo, o medo ou a repetição, mas a forma como cada pessoa vive, expressa e organiza esse sofrimento está profundamente atravessada pela cultura, pela linguagem e pelo contexto em que existe. Mesmo quando se fala a mesma língua, há diferenças subtis, mas muito importantes, na forma de dizer, de silenciar, de pedir ajuda ou até de disfarçar a dor. À distância, a escuta precisa de se tornar ainda mais sensível a tudo isso. Passa a depender mais do ritmo da fala, das pausas, do tom de voz, da presença possível naquele espaço virtual. A presença não desaparece, reinventa-se. E talvez seja precisamente aí que a escuta se torna mais apurada: quando deixa de presumir e aprende a acolher, com mais delicadeza, a singularidade de cada forma de sofrer. Se tivesse hoje de desmontar um mito particularmente enraizado sobre saúde emocional, ansiedade ou autoconhecimento, qual escolheria e porquê? Talvez escolhesse este: a ideia de que, se uma pessoa se conhecer verdadeiramente, então conseguirá resolver tudo sozinha. À primeira vista, parece quase uma frase de força, autonomia ou maturidade, mas na prática pode tornar-se uma armadilha muito cruel. Porque instala a crença de que sentirmo-nos ansiosos, confusos ou emocionalmente perdidos é sinal de falha pessoal, como se bastasse mais esforço, mais controlo ou mais consciência para tudo ficar resolvido. E não é assim. A experiência mostra-nos precisamente o contrário, há dores que não se esclarecem sozinhas, há conflitos internos que não se organizam apenas com reflexão individual e há partes de nós a que não acedemos sem relação, sem escuta e sem tempo. Quando alguém acredita que tem de dar conta de tudo sozinho, tende a adiar pedidos de ajuda, a aumentar a autoexigência e a transformar o sofrimento em culpa. Por isso, desmontar este mito é também devolver humanidade ao processo. O autoconhecimento não é uma prova solitária de competência emocional. É, muitas vezes, um caminho que só se torna possível quando deixamos de carregar tudo sozinhos. Instagram: @amoradoc__ Site: amoradoc.com “Amamos, muitas vezes, a partir daquilo que nunca chegámos a curar” “Na Medicina Dentária hospitalar uma intervenção pode salvar vidas”
EMPRESAS & EMPRESÁRIOS / ÉS DE BRAGA Protegido: “Há decisões quase invisíveis numa obra que determinam a forma como vivemos um espaço durante décadas” Não existe excerto porque se trata de um artigo protegido.
ÉS DE BRAGA / SAÚDE E se o seu médico lhe prescrevesse exercício físico? “Aos 40 já estamos a construir a autonomia que teremos aos 70” Podemos ter o colesterol controlado, a tensão arterial dentro dos valores de referência e análises impecáveis. Mas será que conseguimos…
ÉS DE BRAGA Ricardo Costa: “É quando tudo corre bem que mais precisamos de recordar de onde viemos” Há empresários que guardam prémios, fotografias de inaugurações ou o primeiro contrato. Ricardo Costa foi buscar o Opel Corsa comercial…