SAÚDE “O sexo real vive de intimidade, não de performance” By Revista Spot | Março 5, 2026 Março 6, 2026 Share Tweet Share Pin Email A saúde sexual raramente entra na consulta pela porta da frente. Surge disfarçada de cansaço, de dor, de ansiedade, de distância no casal, de uma tristeza sem nome. Há mulheres que acreditam que perder o desejo é “normal”. Há homens que carregam em silêncio o medo de falhar. Há casais que se habituam à ausência de intimidade como se fosse apenas mais uma fase. E, no entanto, a sexualidade não é um detalhe, é uma dimensão central da saúde, do bem-estar e da forma como cada pessoa habita o próprio corpo. Márcia da Costa Ferreira, médica de Medicina Geral e Familiar com pós-graduação em Sexualidade Humana, tem-se dedicado a uma área ainda atravessada por desconforto, estigma e falta de escuta clínica. A quebra do desejo, a dor nas relações, as alterações da menopausa, o impacto da ansiedade, da medicação ou da doença crónica na intimidade, o sofrimento escondido atrás de disfunções sexuais ou de problemas do pavimento pélvico são problemas reais. Numa medicina tantas vezes apressada, Márcia da Costa Ferreira acredita que, quando a sexualidade é legitimada, a consulta torna-se mais inteira e o cuidado, mais humano. Que lacunas encontrou na consulta “real” que a fizeram investir neste caminho? Na minha formação médica pré-graduada, a abordagem da sexualidade esteve praticamente ausente, sendo o pouco que foi abordado sobretudo centrado na disfunção sexual masculina e numa perspetiva essencialmente biomédica. Não houve uma preparação consistente para integrar a sexualidade como parte natural e relevante da consulta de Medicina Geral e Familiar. Recordo-me de forma muito clara da primeira vez que, já como médica interna, uma mulher me trouxe uma preocupação relacionada com a sua sexualidade. Nesse momento, percebi que não tinha as ferramentas, o conhecimento nem a segurança necessários para a ajudar de forma adequada. Essa experiência foi determinante e motivou-me a procurar formação específica nesta área. Sabemos hoje que a sexualidade é uma dimensão central da qualidade de vida e do bem-estar global. Inquéritos populacionais indicam que cerca de 75% das pessoas consideram o sexo importante para uma vida satisfatória. Ainda assim, continua a ser um tema pouco abordado na prática clínica, muitas vezes por falta de formação, tempo ou conforto por parte dos profissionais, mas também por estigma ou dificuldade dos próprios doentes em trazer estas questões para a consulta. A formação em Sexualidade Humana permitiu-me não só adquirir conhecimento técnico, mas sobretudo desenvolver maior capacidade de escuta, empatia e conforto na abordagem destes temas. Na prática clínica, isso traduziu-se na capacidade de integrar a sexualidade de forma mais natural na avaliação global da pessoa, identificar necessidades que antes poderiam passar despercebidas e oferecer um acompanhamento mais completo e verdadeiramente centrado no doente. Sinto também que esta competência contribui frequentemente para fortalecer a relação médico-doente. Quando criamos um espaço seguro e sem julgamento para falar sobre sexualidade, estamos a validar uma dimensão fundamental da experiência humana, e isso tem, por si só, um valor profundamente terapêutico. Em cuidados de saúde primários, em que situações é que falar de sexualidade é clinicamente decisivo e o que é que ainda impede muitos profissionais de integrar o tema na rotina? Nos cuidados de saúde primários, em última análise, qualquer consulta pode ser uma oportunidade válida para abordar a sexualidade. É importante começar por reconhecer que sexualidade não é apenas atividade sexual, é uma dimensão ampla que integra identidade, intimidade, afeto, imagem corporal, relações e bem-estar. Por isso, está presente transversalmente em todas as fases da vida e em múltiplos contextos clínicos. Naturalmente, existem situações em que esta abordagem é particularmente importante, como nas perturbações de saúde mental, na dor crónica e em doenças como a diabetes ou a doença cardiovascular. Também em fases de transição hormonal, como a menopausa ou o pós-parto, e quando são prescritos determinados medicamentos que podem ter impacto significativo na função e no bem-estar sexual. Mas mesmo fora destes contextos, é importante que o tema permaneça aberto. Sabemos, no entanto, que muitos profissionais ainda não integram a sexualidade de forma consistente na sua prática clínica. Os estudos apontam várias barreiras, entre as quais se destacam a falta de formação específica, a limitação de tempo em consulta, o receio de causar desconforto ao doente, o medo de não saber responder adequadamente e também fatores pessoais, culturais ou geracionais. Existe, frequentemente, um silêncio mútuo: o profissional espera que o doente traga o tema, e o doente espera que seja o profissional a legitimá-lo. Falar sobre sexualidade não é um extra nem um detalhe opcional, é reconhecer a pessoa na sua totalidade. E, muitas vezes, é precisamente nesse espaço de escuta e validação que começa verdadeiramente o processo terapêutico. O que é que tem chegado mais ao consultório: ansiedade de performance, queda do desejo, dor nas relações, disfunção erétil, dificuldade em atingir orgasmo? No gabinete, continuo a acompanhar casos de disfunção erétil, que se mantém uma queixa frequente e muitas vezes multifatorial. No entanto, tenho sentido um aumento das queixas de ejaculação precoce e, nas mulheres, do desejo sexual hipoativo. É-me difícil dizer até que ponto estamos perante um verdadeiro aumento da prevalência ou uma maior visibilidade destas dificuldades. Por um lado, os estilos de vida atuais, marcados por stress crónico, fadiga, privação de sono, exigência constante e menor disponibilidade para a intimidade, têm um impacto real no funcionamento sexual. Por outro, felizmente, existe hoje mais informação e maior abertura para falar sobre sexualidade, o que faz com que as pessoas reconheçam mais facilmente estas dificuldades e procurem ajuda. Muitas vezes, só o facto de sentirem que é um tema legítimo e validado já permite que deem esse passo. Nesse sentido, mais do que uma “tendência”, acredito que estamos a assistir a uma maior consciencialização. Problemas que antes eram vividos em silêncio e com vergonha estão agora a chegar aos profissionais capazes de ajudar, permitindo uma intervenção mais precoce e um acompanhamento mais adequado. Isso é, na verdade, um sinal positivo: mostra-nos que estamos a caminhar para uma visão mais integrada e mais saudável da sexualidade como parte da saúde global. Os casais chegam com expectativas irrealistas sobre o corpo e sobre o sexo influenciadas pela pornografia? E que consequências vê na autoestima e na intimidade, sobretudo quando a referência passa a ser “o que se vê” e não “o que se sente”? Quando falo com pessoas e casais sobre o corpo e o sexo, continuam a surgir muitos mitos que prejudicam a autoestima e a intimidade. Nos homens, há ainda a pressão de “desempenhar”: ter sempre desejo, manter ereção, conseguir penetrar e sentir que são responsáveis por “proporcionar prazer” à parceira. Esta última, reflete uma mudança de paradigma positiva, porque valoriza a reciprocidade e a atenção à experiência do outro, mas muitos sentem-se pressionados a corresponder a um ideal. Nas mulheres, há a ideia de que devem estar sempre disponíveis, que o corpo deve corresponder a padrões idealizados e que o desejo deve ser constante, mesmo quando estão cansadas ou stressadas. É importante lembrar que a sexualidade do casal e da pessoa flutua naturalmente ao longo da vida, e que o que muitas vezes vemos através do ecrã vem filtrado e idealizado, não refletindo a realidade. A pornografia e as redes sociais não são necessariamente negativas, podem despertar curiosidade, exploração de fantasias e diálogo sobre sexualidade mas precisam de ser bem escolhidas e compreendidas. Quando passam a ser referência de “como deve ser”, geram expectativas irreais, comparações negativas e ansiedade de performance. Os casais acabam por esquecer que o sexo real envolve intimidade, comunicação e cumplicidade, e não imagens ou estereótipos. A chave está em valorizar a experiência real, focar-se no que cada pessoa sente e aceitar a diversidade de corpos, desejos e ritmos. Não existe “sexo perfeito”, existe sexo significativo, prazeroso e adaptado a cada casal. Que perguntas simples usa para abordar sexualidade de forma segura e respeitosa? Para mim, falar de sexualidade deve ter a mesma naturalidade de qualquer outro tema da consulta. A forma como o assunto é introduzido faz toda a diferença. Não precisa de ser invasivo nem dramático. Muitas vezes começo com perguntas simples e abertas, como: “Como se tem sentido do ponto de vista sexual?” ou “Alguma mudança na sua sexualidade que esteja a preocupar?” Em contexto de doença crónica ou medicação nova, posso perguntar de forma ainda mais concreta: “Desde que iniciou este tratamento, notou alguma alteração no desejo, na ereção, na lubrificação ou no prazer?” Também é importante dar permissão para não responder. Dizer algo como “Se não se sentir confortável para falar agora, podemos retomar noutra altura” devolve controlo à pessoa e reduz a sensação de exposição. A sexualidade é íntima, e o ritmo da conversa deve ser definido por quem está do outro lado. Muitas vezes, não é preciso uma grande intervenção. Basta uma pergunta colocada com respeito para que alguém, que talvez estivesse há anos em silêncio, sinta finalmente que pode falar. A sexualidade não exige discursos longos; exige disponibilidade genuína e escuta sem julgamento. Quando isso acontece, a conversa flui de forma natural e fortalece a relação médico-doente. Qual é o papel do médico de medicina geral e familiar nas pessoas com incongruência de género? O médico de Medicina Geral e Familiar tem um papel absolutamente central no acompanhamento de pessoas com incongruência de género, porque é, muitas vezes, o primeiro profissional de saúde a quem a pessoa recorre e aquele que pode garantir continuidade, segurança e coordenação de cuidados ao longo do tempo. A incongruência de género não é, por si, uma doença. O sofrimento pode surgir do desalinhamento entre identidade de género e sexo atribuído à nascença, mas também do estigma social, da rejeição familiar ou da discriminação. Criar um espaço seguro, usar o nome e os pronomes escolhidos e adotar uma linguagem respeitosa são intervenções clínicas com impacto real na saúde mental e no bem-estar. Em segundo lugar, o médico de família avalia o estado global de saúde, incluindo saúde mental, fatores de risco cardiovascular, hábitos de vida e suporte social. Pode identificar ansiedade, depressão, ideação suicida ou outras situações que necessitem de intervenção precoce, assegurando referenciação adequada quando necessário. O acompanhamento próximo é particularmente importante em adolescentes e jovens adultos, fases em que a vulnerabilidade pode ser maior. Tem também um papel de coordenação de cuidados. Quando a pessoa manifesta desejo de iniciar um processo de afirmação de género, o médico de família pode orientar para consultas de endocrinologia, ginecologia, urologia, cirurgia geral, psiquiatria ou psicologia com experiência na área, garantindo uma abordagem multidisciplinar. Em alguns contextos, pode acompanhar ou colaborar no seguimento de terapêutica hormonal afirmativa de género, monitorizando parâmetros clínicos e analíticos, tal como faria noutras situações que envolvem terapêutica hormonal. Outro aspeto relevante é a saúde preventiva. Pessoas trans continuam a necessitar de rastreios adequados aos órgãos que possuem independentemente da identidade de género. Cabe ao médico de família adaptar a comunicação e garantir que estes cuidados são realizados de forma respeitosa e informada. É importante lembrar que estas pessoas continuam a ser pessoas com toda a complexidade da saúde geral, necessitando de cuidados médicos que vão muito para além da reafirmação de género, e é aí que o médico de família se torna especialmente relevante. Finalmente, há um papel importante na literacia e no apoio às famílias. Muitas vezes, pais ou parceiros têm dúvidas e receios, e uma abordagem clara e baseada na evidência pode reduzir conflitos e aumentar o suporte à pessoa. O médico de Medicina Geral e Familiar não é apenas um ponto de referenciação técnica. É o profissional que acompanha, integra e humaniza o percurso, garantindo que a pessoa com incongruência de género é cuidada na sua globalidade, física, emocional e social com respeito, competência e continuidade. Nos temas que tem trabalhado publicamente sobre menopausa e sexualidade, qual é a queixa que mais destrói a intimidade por dentro? Entre os sintomas da menopausa, o que mais corrói a intimidade não é apenas físico, embora seja algo que motiva a procura de consulta. Penso que se prende sobretudo na perda de desejo, na sensação de que o prazer mudou e no receio do que isso trará para o casal. Secura vaginal, dor durante a relação, cansaço, sono alterado, alteração da autoimagem e oscilações de humor contribuem, mas é a perceção de que a conexão íntima diminuiu que realmente fragiliza a relação. Muitas mulheres vivem isso em silêncio, carregando frustração e vergonha, não partilhando durante muito tempo até com as pessoas com quem se relacionam. Em contexto de consulta o que faz diferença é uma abordagem individualizada e integral, papel importantíssimo do médico de família, fazendo compreender que mudanças no corpo e na sexualidade são frequentes. Para isto é fundamental avaliar sintomas físicos e emocionais; oferecer soluções personalizadas e estimular formas alternativas de prazer, comunicação aberta e intimidade que não dependa apenas da penetração. É essencial também considerar o contexto e as expectativas da mulher e do casal. Quando a mulher é ouvida e os seus sinais respeitados, os sintomas deixam de ser barreiras e a menopausa pode tornar-se uma fase de redescoberta do prazer e da conexão. Muita gente só ouve falar de pavimento pélvico tarde demais. Que sinais “subtis” a fazem suspeitar que o problema está ali e como explica, de forma simples, o caminho entre reconhecer o sintoma e recuperar conforto e prazer? Nos dias que correm o pavimento pélvico é muitas vezes esquecido, atrevo-me a dizer que há muita gente que ainda não sabe o que é. Na maioria das vezes só é valorizado quando há sinais e sintomas mais graves. Os sinais podem variar desde a alterações subtis como pequenos desconfortos pélvicos a sensações de peso ou pressão na região pélvica, pequenas perdas urinárias ao rir ou tossir, dor durante a relação sexual, sensação de que “algo está caído” ou dificuldade em contrair e relaxar os músculos e aí são sinais de alerta de que algo precisa de atenção. De forma simples, podemos pensar no pavimento pélvico como uma “rede” do corpo na base da região pélvica: quando ele enfraquece ou se torna tenso, o desconforto surge, afetando conforto, confiança e prazer sexual. Reconhecer os sintomas é o primeiro passo; procurar avaliação especializada permite identificar a causa e iniciar um plano personalizado. O caminho para recuperar conforto e prazer envolve exercícios específicos de fortalecimento ou relaxamento, técnicas de respiração, orientação postural, passando por acompanhamento fisioterapêutico e, em alguns casos, terapias complementares. Ouvir o corpo, agir cedo e de forma individualizada transforma o que antes era sinal de desconforto em oportunidade de reconectar corpo, prazer e bem-estar. Porque é que a dor sexual continua subdiagnosticada? Que “red flags” obrigam a acelerar investigação? A dor sexual continua subdiagnosticada por uma razão simples: muitas pessoas acreditam que é “normal”, que faz parte da adaptação ao corpo, à idade ou à relação. A dor nunca deve ser normalizada. Quando alguém diz “tenho dor”, seja na penetração, sob a forma de ardor, sensação de corte ou dor pélvica profunda, isso deve ser sempre valorizado. O primeiro passo é perceber que tipo de dor está em causa. A dor à entrada da vagina, logo no início da penetração, pode estar associada a hipertonia do pavimento pélvico, frequentemente descrita como vaginismo, a dor vulvar crónica como a vulvodínia, a alterações hormonais, por exemplo no pós-parto ou na menopausa, ou a infeções. Já a dor profunda, sentida no interior da pélvis durante ou após a relação, levanta suspeitas diferentes, como endometriose, doença inflamatória pélvica ou outras causas ginecológicas. É igualmente fundamental avaliar o contexto emocional e relacional. Experiências de trauma, ansiedade antecipatória da dor ou história de relações dolorosas anteriores podem perpetuar um ciclo de tensão muscular e dor, mesmo quando já não existe uma causa orgânica ativa. Na maioria dos casos, a dor sexual tem uma componente multifatorial e exige uma abordagem integrada. Existem, no entanto, sinais que obrigam a acelerar a investigação. Dor súbita e intensa, febre, sangramento anormal fora do período menstrual, corrimento com odor desagradável, dor pélvica persistente que não melhora com o tempo ou dor associada a sintomas urinários ou intestinais relevantes devem motivar avaliação célere. Mas a realidade mais frequente é outra: dor crónica, silenciosa, que se arrasta durante meses ou anos, muitas vezes vivida com vergonha e evicção da intimidade. É aqui que a subvalorização acontece, tanto por parte de quem sente como, por vezes, do próprio sistema de saúde. A ausência de sinais “graves” não significa ausência de impacto. Se a dor condiciona a vida íntima, gera sofrimento ou interfere na relação, merece avaliação estruturada. Com uma escuta cuidadosa, exame adequado e, quando necessário, articulação com ginecologia, fisioterapia pélvica ou saúde mental, é possível identificar a causa e intervir de forma eficaz. O objetivo não é apenas retirar a dor, mas devolver conforto, confiança corporal e liberdade na vivência da sexualidade. Porque dor sexual não é destino, é um sintoma e sintomas investigam-se. Nas infeções urinárias de repetição, o que é comum e o que não é “normal”? As infeções urinárias são frequentes entre as mulheres, mas quando se repetem várias vezes ao ano deixam de ser só extremamente incómodas e tornam-se um sinal de alerta. Consideram-se infeções urinárias recorrentes quando uma mulher tem três ou mais episódios num ano ou dois ou mais nos últimos seis meses. Na prática, é comum que se repitam ciclos de antibiótico sem se investigar a causa. Entre os erros mais frequentes estão a automedicação sem análise de urina, a interrupção precoce do tratamento, a falta de avaliação de fatores anatómicos ou hormonais e não adaptar a prevenção à fase de vida da mulher, como a menopausa. É aqui que o médico de família tem um papel fundamental. Em consulta consegue avaliar a história clínica completa, identificar fatores de risco, orientar exames quando necessários e definir prioridades de intervenção de forma individualizada. É também o profissional que consegue integrar a prevenção no dia a dia da mulher, considerando idade, hábitos, saúde vaginal e fatores hormonais. Quando se fala em prevenção, é importante distinguir o que tem evidência científica do que é mito. Entre as medidas comprovadas estão manter boa hidratação, urinar após a relação sexual, tratar a atrofia vaginal ou alterações hormonais da menopausa e, quando indicado, recorrer a profilaxias antibióticas sob orientação médica. Entre os mitos estão a higiene excessiva ou duches vaginais, mudanças frequentes de roupa íntima ou truques caseiros sem fundamento científico, que não previnem infeções. O essencial é perceber que infeções urinárias de repetição não devem ser ignoradas. Com a avaliação e acompanhamento adequados pelo médico de família, é possível quebrar o ciclo de recaída, reduzir o uso desnecessário de antibióticos e melhorar a qualidade de vida da mulher. Que critérios usa para distinguir variações normais da vida de disfunções sexuais que merecem avaliação estruturada? O desejo sexual não é estático nem linear. Varia naturalmente ao longo da vida e é influenciado por múltiplos fatores, como stress, cansaço, alterações hormonais, gravidez, pós-parto, doenças ou acontecimentos emocionais marcantes. Nessas fases, é expectável que o interesse sexual diminua temporariamente e, na maioria dos casos, o desejo tende a recuperar quando o contexto estabiliza. Nem toda a diminuição do desejo corresponde a uma disfunção. A diferença começa a desenhar-se quando a alteração deixa de ser transitória e passa a ser persistente, intensa ou geradora de sofrimento. Dor sexual contínua, perda marcada e mantida de desejo, dificuldades consistentes de ereção ou ejaculação, ausência de orgasmo ou qualquer mudança que provoque angústia individual ou impacto significativo na relação são sinais que justificam uma avaliação estruturada. Mais do que a frequência da atividade sexual, o critério fundamental é o grau de desconforto e interferência na qualidade de vida. Na prática clínica, valorizo três aspetos: a duração do sintoma, a sua intensidade e o impacto emocional e relacional. Uma variação que surge num período de maior sobrecarga e melhora em poucas semanas é diferente de uma alteração que se mantém durante meses, que provoca evitamento da intimidade ou conflito no casal. Quando a sexualidade deixa de ser vivida com espontaneidade e passa a ser fonte de frustração ou ansiedade, merece ser olhada com atenção. O papel do médico de família é precisamente integrar todas estas dimensões: física, hormonal, psicológica e relacional, para distinguir uma fase expectável de um quadro que necessita de intervenção. Muitas disfunções sexuais têm solução mais linear quando identificadas precocemente. A medicação para doenças crónicas tem impacto na intimidade? Quando falamos de doenças crónicas como a Diabetes Mellitus, a Hipertensão arterial ou mesmo a depressão, é fundamental lembrar que a saúde não se resume a exames médicos sem alterações ou a valores tensionais controlados. A intimidade e a função sexual fazem parte do bem-estar global e não devem ser encaradas como um detalhe secundário. No entanto, continuam a ser um dos temas menos abordados em consulta. Na diabetes e na hipertensão, as alterações da função sexual são frequentes e têm, muitas vezes, uma base orgânica. A diabetes pode afetar os nervos e os vasos sanguíneos, condicionando disfunção erétil no homem e diminuição da lubrificação ou dor na mulher. A hipertensão, ao comprometer a saúde vascular, também pode reduzir o fluxo sanguíneo genital e interferir com a resposta sexual. Para além disso, alguns medicamentos utilizados no controlo da tensão arterial podem contribuir para diminuição da libido ou dificuldades de ereção. Nenhuma destas situações deve ser desvalorizada ou aceite como inevitável. O equilíbrio passa, em primeiro lugar, por otimizar rigorosamente o controlo da doença de base, porque uma glicemia ou tensão mal controladas têm impacto direto na função sexual. Sempre que existe uma relação clara com a medicação, é possível ajustar doses ou optar por alternativas com melhor perfil nesse contexto. Muitas vezes, ao melhorar o controlo metabólico e vascular, melhora também a intimidade. No caso da depressão e da ansiedade, o impacto pode ser ainda mais complexo. A própria doença pode reduzir o desejo, a energia e a autoestima, afetando profundamente a vivência da sexualidade. Por outro lado, alguns antidepressivos, podem associar-se a diminuição da libido, atraso ou ausência de orgasmo e disfunção erétil. Aqui, o equilíbrio é particularmente delicado. O que procuro fazer é informar antecipadamente sobre possíveis efeitos secundários, ajustar doses quando clinicamente seguro e, se necessário, considerar alternativas com menor impacto na função sexual. É igualmente importante avaliar fatores hormonais, relacionais e emocionais que possam estar a contribuir, porque a sexualidade é multifatorial e raramente existe uma única causa para a alteração. Também a contraceção hormonal pode ter um impacto variável. Em algumas mulheres, pode associar-se a diminuição do desejo ou alterações da lubrificação, enquanto noutras melhora a vivência sexual por reduzir o medo de uma gravidez não planeada. Quando existem queixas persistentes e claramente relacionadas com o método utilizado, é possível ajustar a formulação hormonal ou ponderar métodos alternativos. A decisão deve ser sempre individualizada e enquadrada no contexto clínico e pessoal de cada pessoa. A mensagem central é que tratar uma doença crónica não implica abdicar da intimidade. Hoje dispomos de múltiplas opções terapêuticas que permitem proteger a função sexual sem comprometer o controlo da condição de base. O verdadeiro problema não é a existência de efeitos secundários, mas sim o silêncio à volta deles. Muitos doentes não abordam o tema por vergonha ou por acreditarem que é “normal” ou “faz parte da idade”. Não é. A sexualidade é um indicador de saúde física e emocional e, tal como qualquer outro sintoma, merece ser escutada, avaliada e tratada com a mesma seriedade. Se pudesse escolher três mudanças estruturais para a saúde sexual deixar de ser um tema “à parte” em Portugal, na formação médica, no tempo de consulta, na referenciação, no acesso a fisioterapia pélvica ou sexologia e saúde mental, quais seriam? Se queremos que a saúde sexual deixe de ser um tema “à parte” em Portugal, precisamos de a integrar verdadeiramente no sistema, e não apenas reconhecê-la em teoria. Se pudesse escolher três mudanças estruturais, começaria pela formação, passaria pelo modelo de consulta e terminaria no acesso efetivo a cuidados diferenciados. A primeira mudança teria de acontecer na formação médica e dos restantes profissionais de saúde. A saúde sexual não pode ser abordada apenas de forma pontual ou opcional. Deve estar integrada de forma transversal ao longo do curso e da formação pós-graduada, não só do ponto de vista biológico, mas também psicológico e relacional. É fundamental que futuros médicos, enfermeiros e outros profissionais se sintam confortáveis a perguntar sobre função sexual com a mesma naturalidade com que perguntam sobre sono ou alimentação. A literacia começa dentro do sistema. Quando o profissional evita o tema, o doente interpreta esse silêncio como um sinal de que não deve falar. A segunda mudança prende-se com o tempo e a estrutura das consultas. Enquanto a prática clínica estiver excessivamente centrada em indicadores laboratoriais e metas numéricas, continuará a faltar espaço para dimensões como a intimidade. A saúde sexual deve ser incorporada de forma rotineira nas consultas. Não é necessário transformar cada consulta numa sessão de sexologia, mas é essencial criar uma pergunta aberta, simples e legitimadora, que autorize o doente a falar. Muitas vezes, basta essa porta entreaberta para que surja uma conversa que estava adiada há anos. A terceira mudança é garantir vias claras de referenciação e acesso multidisciplinar. A saúde sexual raramente é exclusivamente orgânica ou exclusivamente psicológica. Precisamos de facilitar o acesso a fisioterapia pélvica, sexologia clínica e saúde mental, reduzindo listas de espera e barreiras financeiras. A referenciação deve ser simples, ágil e integrada, evitando que o doente circule entre especialidades sem orientação clara. Finalmente, a mensagem para quem está a sofrer em silêncio é clara: não está sozinho, e o que está a sentir não é irrelevante nem “fútil”. A vergonha é um dos maiores obstáculos à procura de ajuda, mas o sofrimento silencioso tem impacto real na autoestima, nas relações e na saúde no seu global. A saúde sexual não é um luxo nem um capricho. É parte integrante da saúde e merece ser tratada como tal. Instagram: @dra.marciacostaferreira Marcações: trofasaude.pt/corpo_clinico/marcia-da-costa-ferreira-dra “O envelhecimento não acontece à flor da pele” “Ao longo de quase dez anos ligado ao alto rendimento como médico, nunca vi o infortúnio superar, de forma consistente, uma base sólida de sono, alimentação e treino”
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