Cirurgia/SAÚDE OCULAR “Sentir que se vê bem não significa ter olhos saudáveis” By Revista Spot | Janeiro 30, 2026 Fevereiro 3, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há sinais de saúde que aparecem primeiro no olhar. Quem se habituou a levantar as sobrancelhas para ver melhor, a evitar a condução à noite ou a chegar ao fim do dia com ardor, lacrimejo e sensação de esforço pode estar, afinal, a compensar alterações das pálpebras ou do sistema lacrimal. Durante anos, estas queixas foram sendo normalizadas. Uma pálpebra que desce pode reduzir o campo visual; um bordo palpebral fora do lugar pode expor o olho, agravar o olho seco e inflamar; pestanas a raspar na córnea podem transformar um desconforto em lesão; uma via lacrimal obstruída pode tornar instável a visão e a rotina. Teresa Paínhas, médica oftalmologista especializada em cirurgia ocular, observa estas queixas todos os dias e insiste num ponto, “na região do olhar, não há espaço para fórmulas rápidas, seja numa blefaroplastia, numa cirurgia de catarata ou na prevenção de doenças silenciosas como o glaucoma. O que está em causa é, acima de tudo, o conforto, a proteção e a qualidade de vida.” Na sua consulta, quantas vezes a expressão “pareço cansado” é, antes de tudo, um pedido de devolução de conforto, expressão e presença? Na minha prática clínica, a frase “o meu olhar parece cansado” surge com muita frequência e, na maioria das vezes, não traduz apenas uma preocupação estética. É muitas vezes a forma que a pessoa encontra para expressar desconforto: sensação de peso nas pálpebras, esforço constante para manter os olhos abertos ou a percepção de que o olhar já não comunica energia e presença. A experiência em oculoplástica ensinou-me que, na região periocular, função e expressão estão intimamente ligadas. A anatomia e as características de cada pessoa influenciam a forma como o olho funciona e se expressa, e pequenas variações podem ter um impacto significativo no olhar. Por isso, a abordagem tem de ser sempre personalizada, com o objectivo de melhorar a função e o conforto, respeitando a expressão natural e a identidade de cada olhar. Para quem ainda associa oculoplástica a “cirurgia de pálpebras”, o que é que esta área resolve de forma concreta no dia-a-dia? A oculoplástica pode resolver problemas muito práticos que interferem com tarefas simples do dia a dia: dificuldade em trabalhar ao computador ou conduzir por limitação do campo visual, lacrimejo constante, ardor ocular ou sensação de olho exposto. São situações que obrigam a esforço contínuo e que muitas pessoas acabam por normalizar. Quando a pálpebra cai, quando a margem da pálpebra vira ou deixa de proteger corretamente o olho, o impacto já não é apenas visual, é funcional. A partir do momento em que há limitação do campo visual, fadiga ocular persistente ou desconforto diário, estamos perante uma indicação médica clara. A intervenção não visa “mudar” o olhar, mas restaurar função, proteção e conforto. A blefaroplastia pode devolver campo visual e leveza, mas também pode mudar a identidade do olhar. Como protege o doente da padronização e da pressa do resultado imediato? A blefaroplastia é uma cirurgia com resultados excelentes quando bem indicada, mas a zona periocular não tolera abordagens padronizadas. Cada pálpebra tem uma anatomia própria, uma dinâmica muscular e uma relação muito específica com o olho e com o rosto. Aplicar fórmulas universais é uma das formas mais rápidas de perder naturalidade. Como oftalmologista, sinto-me privilegiada por ter um conhecimento aprofundado do olho e das estruturas que o rodeiam, o que é essencial para intervir com segurança e respeito pela função. Para proteger o doente, o ponto de partida é sempre a avaliação detalhada e a definição clara do objetivo: aliviar peso, melhorar campo visual e preservar a expressão. A pressa pelo resultado imediato é outro risco, porque esta é uma região em que o tempo de adaptação e cicatrização faz parte do processo. O foco não é “quanto retirar”, mas quanto preservar para manter função, proteção ocular e um olhar reconhecível. Na cirurgia de catarata, o que é mais importante na conversa com o doente: a técnica e as medições, ou falar das expectativas de visão e qualidade de vida? A técnica cirúrgica e as medições atuais permitem resultados muito consistentes, mas nem todas as cataratas são iguais. Há olhos mais exigentes do ponto de vista cirúrgico, em que pequenos detalhes fazem a diferença e em que a técnica e a experiência são determinantes para a segurança do procedimento. A decisão cirúrgica, no entanto, não é automática. Para além da avaliação de cada olho, a conversa com o doente é essencial para perceber como a pessoa usa a visão no dia a dia e definir o objetivo visual mais adequado. É essa combinação entre técnica, avaliação e diálogo que orienta o plano final e influencia o resultado. Quando alguém com presbiopia e desejo de independência de óculos pergunta pela cirurgia refrativa do cristalino transparente, o que pesa mais na sua triagem? Na avaliação de um candidato à cirurgia refrativa do cristalino transparente, nenhum fator deve ser analisado isoladamente. A idade ajuda a enquadrar risco e benefício, mas as expectativas e o estilo de vida são determinantes para definir o objetivo visual. Uma pessoa que passa muitas horas no computador tem necessidades visuais diferentes de alguém que passa grande parte do dia ao ar livre. A avaliação anatómica do olho também é central. A superfície ocular, a córnea, a pupila, a retina e o nervo óptico condicionam a qualidade de visão que pode ser alcançada. Em olhos míopes, por exemplo, é essencial ponderar o risco retiniano a longo prazo. A presença de alterações maculares iniciais ou de risco de glaucoma pode limitar o benefício da cirurgia ou mesmo contraindicar o procedimento. Por isso, o mais importante é perceber se a cirurgia responde verdadeiramente à queixa da pessoa. Há casos em que pode oferecer uma autonomia visual significativa, e outros em que a melhor decisão é não operar. Reconhecer esse limite faz parte da boa prática médica e é, muitas vezes, a forma mais segura de proteger o doente. As lentes intraoculares premium permitem reduzir a dependência de óculos? As lentes intraoculares premium permitem reduzir a dependência de óculos, mas não oferecem a mesma experiência visual a todas as pessoas. Cada tipo de lente implica compromissos que devem ser explicados de forma clara antes da cirurgia, nomeadamente em termos de contraste, condução noturna e adaptação. A experiência clínica mostra que o perfil refrativo de partida também influencia essa adaptação. Hipermetropes, emetropes e míopes chegam à cirurgia com expectativas diferentes e percebem a mudança de forma distinta. O resultado depende sempre do enquadramento global do olho e das expectativas da pessoa incluindo a aceitação de algumas contrapartidas visuais. A escolha passa por adequar a lente ao olho e ao estilo de vida, e não por uma solução universal. Na sua experiência, qual é a versão honesta da frase “deixa de usar óculos”? Em que situações é realista e em que situações é preferível falar de “reduzir” em vez de “eliminar”? Quando alguém fala em “deixar de usar óculos”, é importante perceber exatamente o que isso significa. É possível alcançar uma autonomia visual muito significativa, dependendo do tipo de cirurgia, da lente escolhida e das caraterísticas de cada olho. Na prática clínica, é muitas vezes mais honesto falar em reduzir a dependência de óculos. Muitas pessoas ficam independentes para a maior parte do dia a dia; outras podem continuar a precisar de óculos em tarefas específicas, como leitura prolongada ou determinadas condições de luz. Enquadrar isto desde o início faz toda a diferença na forma como o resultado é vivido. A cirurgia começa antes do bloco? Muitas vezes, o que condiciona o resultado não é o momento da cirurgia, mas tudo o que acontece antes dela. A avaliação pré-operatória e a escolha da lente são complementares: uma boa lente só cumpre o seu papel quando assenta em medições fiáveis e numa leitura correta de cada olho. Superfície ocular instável, olho seco não tratado ou astigmatismo mal caraterizado são detalhes que fazem diferença. Evitar estes desvios passa por tempo, método e atenção ao detalhe. Estabilizar a superfície ocular antes de medir, confirmar dados sempre que necessário e enquadrar expectativas de forma clara fazem parte do processo. É por isso que a cirurgia começa muito antes do bloco operatório. Como é que dá urgência a doenças silenciosas como o glaucoma, num tempo em que tantas pessoas adiam exames porque “veem bem”? O glaucoma é um bom exemplo de como sentir que se vê bem não significa, necessariamente, ter olhos saudáveis. É uma doença que pode evoluir de forma silenciosa durante anos, sem sintomas perceptíveis, e quando a pessoa se apercebe, o dano visual já pode ser irreversível. É aqui que a literacia em saúde é fundamental: explicar que há doenças incómodas, que afetam conforto e qualidade de vida, e há doenças silenciosas que precisam de ser detectadas antes de causarem dano. É por isso que as consultas de rotina são tão importantes. Mesmo na ausência de queixas, permitem detectar alterações precocemente e atuar antes que haja perda de visão. Tem abordado inteligência artificial na saúde ocular. Onde é que a IA já ajuda de forma concreta e onde é que ainda é um slogan? E que papel continua a ser insubstituível: o olhar clínico ou a conversa com o doente? Na oftalmologia, a inteligência artificial já é útil em tarefas muito específicas, sobretudo na análise de imagem e na triagem. Em exames como retinografias ou OCT, pode ajudar a sinalizar alterações suspeitas e a comparar exames ao longo do tempo, facilitando o acompanhamento e a deteção precoce de doença. Na cirurgia da catarata, está também presente no apoio às medições pré-operatórias, no desenvolvimento de fórmulas cada vez mais precisas para a escolha da lente e na otimização de alguns sistemas cirúrgicos. Onde a IA ainda não substitui o médico é na decisão clínica. Interpretar esses dados, perceber a sua relevância naquele olho concreto, naquele momento da vida do doente, e explicar opções e limites continua a exigir julgamento humano. A tecnologia pode apoiar, mas o olhar clínico e a forma como comunicamos com empatia, risco, incerteza e expectativas, continua, na minha opinião, a ser insubstituível. Marcações: linktr.ee/dra.teresapainhas Facebook: Dra. Teresa Paínhas Instagram: @dra.teresapainhas “Na Síndrome do Intestino Irritável, a dieta Low FODMAP é um protocolo, não um regime alimentar definitivo” “A missão da Therapy Viana é acompanhar a mulher em todas as fases da vida”
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