CLÍNICAS DENTÁRIAS A saúde oral das crianças pode mesmo influenciar a aprendizagem? E será que o uso excessivo de ecrãs afeta a estrutura facial infantil? A odontopediatra Fadinha Flor confirma que sim. By Revista Spot | Junho 18, 2025 Junho 19, 2025 Share Tweet Share Pin Email Será que a saúde oral infantil pode mesmo influenciar a aprendizagem? E que o uso excessivo de ecrãs afeta não só a linguagem, mas também a estrutura facial das crianças? A resposta é um surpreendente sim. Nesta entrevista com a odontopediatra Fadinha Flor, mergulhamos em temas fascinantes como neurodesenvolvimento, genética, epigenética, sono, alimentação e o impacto real (e cada vez mais preocupante) dos ecrãs na saúde dos mais novos. O ambiente e o estilo de vida têm uma forte influência na saúde oral, que, por sua vez, está profundamente ligada ao equilíbrio físico, emocional e cognitivo da criança. Uma leitura imprescindível para pais, educadores e profissionais de saúde que acreditam numa infância mais consciente, saudável e verdadeiramente integrada. De que forma a mastigação influencia o desenvolvimento neurológico e motor da criança? A mastigação desempenha um papel fundamental no desenvolvimento neurológico e motor da criança. Este ato aparentemente simples envolve a ativação coordenada de diversos músculos da face e do pescoço, contribuindo para o fortalecimento da musculatura orofacial. Esse fortalecimento é essencial para funções vitais como a deglutição, a articulação da fala e a respiração adequada. Para além da vertente muscular, a mastigação estimula intensamente os recetores sensoriais da cavidade oral, o que promove uma maior integração sensorial e contribui para o amadurecimento do sistema nervoso central. Este processo é essencial para o desenvolvimento da coordenação motora global e fina, da atenção e da organização neurológica da criança. Qual é a importância da respiração nasal no desenvolvimento orofacial e cognitivo da criança? A respiração nasal é determinante para um desenvolvimento orofacial harmonioso e para o funcionamento cognitivo saudável da criança. Respirar pelo nariz promove a correta posição da língua no palato (céu da boca), o que, por sua vez, estimula o crescimento adequado dos maxilares e das vias aéreas superiores. Do ponto de vista neurológico e cognitivo, a respiração nasal favorece uma oxigenação mais eficaz do cérebro, essencial para um sono de qualidade. Um sono reparador está diretamente associado a melhorias na memória, atenção, regulação emocional e, consequentemente, no desempenho escolar. Já a respiração oral crónica pode ter consequências significativas, como alterações no crescimento facial, má oclusão dentária, distúrbios posturais, perturbações do sono e défices cognitivos. Além disso, pode estar associada a maior suscetibilidade a infeções respiratórias e dificuldades de aprendizagem. Como é que a postura da língua e dos maxilares pode afetar o equilíbrio postural e o desempenho escolar da criança? A posição da língua, tanto em repouso como durante a deglutição e a fala, influencia diretamente a estabilidade craniofacial e cervical da criança. Uma língua corretamente posicionada no palato ajuda a manter a postura ereta e a integridade do equilíbrio postural. Quando a língua permanece em posição baixa ou retraída, pode levar a um subdesenvolvimento dos maxilares e a alterações na mordida, originando compensações musculares no pescoço e ombros. Estas compensações desequilibram a postura corporal global, o que pode resultar em dores cervicais, fadiga, dificuldades de concentração e impacto negativo no rendimento escolar. Há uma ligação direta entre a função orofacial e o controlo postural, uma vez que o sistema estomatognático (lábios, língua, maxilares, palato e músculos associados) está integrado na cadeia miofascial do corpo. Assim, alterações na postura oral refletem-se no equilíbrio corporal, no bem-estar e nas capacidades cognitivas da criança. A genética determina inevitavelmente o destino dentário da criança ou existe margem para intervenção? A genética estabelece predisposições, mas não determina de forma absoluta o destino dentário da criança. Caraterísticas como o apinhamento dentário, alterações no crescimento maxilofacial ou a tendência para cáries podem ser influenciadas por fatores ambientais e comportamentais. Intervenções precoces, uma alimentação adequada, higiene oral rigorosa e o acompanhamento regular com um médico dentista ou odontopediatra permitem modificar trajetórias que, de outra forma, poderiam seguir padrões desfavoráveis. Além disso, a epigenética, ciência que estuda como os fatores externos influenciam a expressão dos genes, demonstra que o estilo de vida e o ambiente têm um papel ativo na saúde oral infantil, podendo atenuar ou intensificar determinadas expressões genéticas. De que forma fatores epigenéticos como a alimentação, o sono e o stress precoce influenciam o desenvolvimento dentofacial? Os fatores epigenéticos têm um impacto profundo no desenvolvimento dentofacial da criança. A alimentação, por exemplo, não afeta apenas a nutrição, mas também o estímulo mecânico necessário ao desenvolvimento adequado dos maxilares, alimentos excessivamente moles reduzem a necessidade de mastigação, o que pode comprometer o crescimento ósseo e a funcionalidade da arcada dentária. O sono de má qualidade, sobretudo em crianças com distúrbios respiratórios como apneia do sono, interfere com a produção de hormonas do crescimento e com processos de regeneração celular, podendo afetar negativamente o desenvolvimento craniofacial. Já o stress precoce influencia o tónus muscular, altera o padrão respiratório e pode desencadear comportamentos como o bruxismo, afetando a estrutura dentária e a oclusão. Em conjunto, estes fatores moldam o desenvolvimento dentofacial de forma significativa, reforçando a importância de uma abordagem preventiva e holística desde os primeiros anos de vida. Na sua prática, como integra os conhecimentos genéticos e ambientais numa abordagem preventiva e personalizada? Numa abordagem integrativa e preventiva, é fundamental realizar uma avaliação global da criança, considerando não apenas os antecedentes familiares e genéticos, mas também o estilo de vida, os hábitos funcionais e o contexto psicossocial. A intervenção inicia-se muitas vezes ainda na primeira infância, com aconselhamento sobre o aleitamento materno, a introdução alimentar com estímulo mastigatório adequado, a higiene do sono, e a eliminação precoce de hábitos nocivos como a sucção digital ou o uso prolongado de chupeta. Este modelo de acompanhamento é, por definição, interdisciplinar, envolvendo pediatras, terapeutas da fala, otorrinolaringologistas, ortodontistas e outros profissionais de saúde. Ao integrar os conhecimentos genéticos e epigenéticos, conseguimos não apenas prevenir alterações estruturais e funcionais, mas também promover o desenvolvimento saudável e equilibrado da criança. Existe evidência de correlação entre o uso excessivo de ecrãs e o aumento de disfunções orofaciais, como a respiração oral ou o bruxismo? Sim, há evidência crescente que aponta para uma correlação entre o uso excessivo de dispositivos digitais e o surgimento de más posturas orofaciais. A posição prolongada com a cabeça projetada para a frente, típica durante o uso de tablets e smartphones, altera a dinâmica postural cervicofacial, comprometendo a posição da mandíbula e favorecendo a respiração oral. Esta má postura influencia negativamente o equilíbrio muscular da região orofacial e cervical, podendo contribuir para disfunções como o bruxismo, disfunção temporomandibular e alterações na deglutição. Adicionalmente, a menor consciência corporal e a redução da atividade física global diminuem o tónus muscular e comprometem o desenvolvimento funcional adequado. Crianças que passam muito tempo em frente a ecrãs têm maior probabilidade de desenvolver problemas como má oclusão ou atraso na linguagem? Porquê? Sim, crianças expostas de forma excessiva aos ecrãs apresentam maior risco de desenvolver alterações orofaciais, nomeadamente má oclusão, devido à manutenção prolongada de posturas inadequadas e à redução do estímulo funcional necessário ao crescimento equilibrado dos maxilares. Além disso, o tempo de ecrã reduz as oportunidades de interação verbal e social, cruciais para o desenvolvimento da linguagem. A falta de estimulação da musculatura orofacial, associada à menor articulação verbal, pode atrasar a aquisição da fala e comprometer a clareza da articulação dos sons. Estas alterações têm impacto direto no desenvolvimento neurolinguístico e nas competências comunicacionais da criança. Para além das consequências físicas, que impacto tem o uso excessivo de ecrãs nos hábitos de vida que influenciam a saúde oral, como a alimentação e o sono? O tempo excessivo em frente a ecrãs interfere de forma significativa nos hábitos de vida das crianças. A exposição prolongada à luz azul, especialmente ao final do dia, afeta a produção de melatonina, dificultando o adormecer e comprometendo a qualidade do sono, fator essencial para o crescimento, a regulação hormonal e o desenvolvimento cerebral. Em termos alimentares, o uso de dispositivos durante as refeições ou em momentos de distração leva frequentemente a padrões de alimentação desatentos, com maior ingestão de alimentos ultraprocessados e açucarados. Esta combinação de fatores aumenta o risco de cáries, obesidade infantil, alterações metabólicas e desequilíbrios no microbioma oral e intestinal. Como podem os pais equilibrar o uso da tecnologia com práticas que favoreçam o desenvolvimento saudável da boca e do rosto das crianças? Os pais desempenham um papel fundamental na promoção de hábitos que favoreçam o desenvolvimento orofacial saudável. Para equilibrar o uso da tecnologia, é essencial estabelecer limites claros e adequados à idade da criança, promovendo o uso consciente e supervisionado dos dispositivos digitais. Devem ser incentivadas atividades ao ar livre e em grupo, que estimulem o movimento, a respiração nasal, a socialização e a comunicação verbal, todas fundamentais para o desenvolvimento neuromotor, orofacial e emocional. A realização de refeições em família, sem presença de ecrãs, permite não só o fortalecimento dos vínculos, mas também o estímulo da mastigação adequada, da postura correta à mesa e do contacto visual, todos importantes para o desenvolvimento funcional da face. É igualmente importante garantir uma boa higiene do sono: horários regulares, ambiente tranquilo e ausência total de ecrãs pelo menos uma hora antes de dormir. O sono de qualidade tem impacto direto no crescimento, na regulação hormonal e na saúde neurológica. Por fim, o acompanhamento regular com profissionais como o odontopediatra, terapeuta da fala e, quando necessário, otorrinolaringologista ou ortodontista funcional, permite uma abordagem preventiva, integrativa e personalizada, capaz de detetar e intervir precocemente em alterações do desenvolvimento orofacial. Facebook: Fadinha Flor Instagram: @fadinha_flor www.fadinhaflor.com “Para mim, maquilhar não é transformar, mas sim revelar as diferentes versões que existem em cada pessoa” “Envelhecer naturalmente é um privilégio e cuidar da aparência ao longo desse processo é um ato de autocuidado, não de negação da idade”
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