SAÚDE “E se a saúde e a longevidade começassem ainda antes de nascermos?” By Revista Spot | Fevereiro 3, 2026 Fevereiro 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há famílias que vivem em modo de urgência sem se aperceberem. Manhãs a correr, lancheiras feitas à pressa, ecrãs como a pausa possível, noites curtas e uma criança que, sem estar “doente”, está claramente em desequilíbrio. Entre queixas digestivas, irritabilidade, sono leve, seletividade alimentar e dificuldades de atenção, cresce a sensação de que o corpo fala, mas ninguém tem tempo para o traduzir. Luísa Faria, farmacêutica e mãe de três filhos, dedica-se à saúde integrativa desde 2013. Com foco na saúde integrativa pediátrica e parental, muitas vezes ainda antes da conceção, parte de um princípio simples e exigente: ligar evidência científica e vida real. Sono, alimentação, movimento, gestão do stress, relações e contexto surgem, não como uma lista de “deveres”, mas como uma ponte prática para reequilibrar. Nesta conversa, fala-se de ciência e de quotidiano, dos primeiros mil dias, de culpa parental, do eixo intestino–cérebro, de inflamação silenciosa, e de como se constrói um wellness possível, sem extremismos. Porque, no fim, a saúde decide-se no modo como habitamos a nossa casa por dentro: o nosso corpo. Quando falamos de saúde integrativa, de que é que estamos realmente a falar e o que é que a levou a apaixonar-se por esta abordagem? Fiz o Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e terminei em 2010. Nesse ano, fui selecionada para uma bolsa de estudo que me permitiu passar seis meses no Brasil e foi uma experiência decisiva. O que me marcou foi a forma como, culturalmente, existe uma maior abertura para olhar para a saúde de forma mais ampla. Não apenas “o sintoma e o medicamento”, mas também o estilo de vida, o contexto emocional, os hábitos, a prevenção e as abordagens complementares, quando fazem sentido. Quando regressei e comecei a trabalhar, percebi outra coisa, a farmácia comunitária tem um potencial humano enorme. Muitas vezes é o primeiro lugar onde as pessoas procuram ajuda, antes de conseguirem consulta médica. Sempre me interessou essa relação de proximidade, ouvir, interpretar, orientar, acompanhar. Mas, com a transformação do setor e a pressão comercial, senti que, em muitos contextos, estava a perder-se o foco na individualidade da pessoa e no acompanhamento consistente. Ao mesmo tempo, comecei a fazer o meu próprio caminho de autoconhecimento e de saúde, perceber sinais do corpo, padrões, desequilíbrios, e tentar ir à causa, não apenas “silenciar” o que incomoda. Isso levou-me a uma pós-graduação em Medicina Natural, onde tive contacto com várias dimensões que hoje associamos à saúde integrativa: nutrição funcional e ortomolecular, estratégias de gestão do stress, mindfulness (atenção plena), intervenções comportamentais e ferramentas de autocuidado com impacto real no sistema nervoso. A maternidade foi também um ponto de viragem, primeiro por necessidade, querer decisões mais conscientes, e depois por evidência prática do que funciona quando há consistência. A certa altura, percebi que já não fazia sentido ficar apenas no balcão, porque eu queria desenvolver um trabalho diferente, de consulta, acompanhamento, educação para a saúde, mudança de hábitos, e uma abordagem centrada na pessoa. Para mim, saúde integrativa não é “alternativa” nem “contra” a medicina convencional. É uma ponte, juntar o melhor da medicina baseada na evidência, diagnóstico, segurança, terapêutica, com aquilo que muitas vezes fica subvalorizado no dia a dia clínico, como sono, alimentação, movimento, stress, relações, propósito e ambiente. É olhar para a pessoa como um todo, com método, com rigor e com bom senso. Quais são os pilares práticos de uma saúde integrativa, que realmente fazem diferença no dia a dia? A saúde integrativa parte de uma ideia simples, não dá para falar de saúde como se fosse apenas “o corpo” e, muito menos, como se saúde fosse só a ausência de doença. É uma abordagem que olha para a pessoa inteira, o físico, o mental, o emocional e o contexto em que vive, porque são esses fatores, em conjunto, que determinam se alguém melhora, mantém equilíbrio, ou se passa a vida a oscilar entre fases “boas” e fases de desgaste. É aqui que entra o modelo biopsicossocial: o que se passa no corpo, o que se passa na mente e no sistema nervoso, e o que se passa à volta, rotinas, trabalho, família, condições de vida, rede de apoio. Às vezes a pessoa até tem motivação e informação, mas está num contexto que a empurra todos os dias para o mesmo lugar. Nesses casos, ou se muda o contexto, ou se criam ferramentas reais para conseguir viver nele com mais estabilidade e menos desgaste. E esta ideia de “todo” não é nova. A psicologia já falava disso há décadas, Carl Jung, por exemplo, defendia que a integridade humana não se reduz a uma parte, e que há um trabalho de integração, do que sentimos, do que pensamos, do que reprimimos e do que vivemos, que influencia a nossa forma de estar no mundo. Trazendo isto para a saúde, é como dizer: não basta tratar o que dói; é preciso perceber o terreno onde aquilo cresce. Na prática, há bases que, para mim, são incontornáveis. A primeira é o sono, porque é no sono que o corpo recupera, regula hormonas, baixa inflamação, reorganiza o cérebro e “desliga” o modo de alerta. E aqui não basta falar de horas, importa a regularidade, a qualidade, o ritmo circadiano, a luz à noite, os ecrãs, a cafeína, a ansiedade, tudo isto mexe com a forma como o sistema nervoso descansa. Depois vem a alimentação, e eu sou muito defensora da dieta mediterrânica, sem extremismos, comida real, variedade, sazonalidade e equilíbrio. Só a redução de ultraprocessados e do excesso de açúcar já muda energia, humor, intestino e inflamação em muita gente. E também faz sentido, em alguns casos, aliviar um pouco a carga de refeições mais pesadas, introduzir mais refeições vegetais durante a semana e adaptar a alimentação à estação do ano, no inverno, por exemplo, muitas pessoas toleram melhor refeições quentes, sopas, legumes cozinhados, do que viver de saladas frias. O movimento entra como outro pilar essencial, não apenas como “atividade física”, mas como uma estratégia de saúde a sério: melhora o sono, regula o humor, reduz ansiedade, protege metabolismo, preserva massa muscular e saúde óssea. E a partir de uma certa idade isto torna-se ainda mais relevante, porque perdemos massa muscular e isso tem impacto direto na autonomia e na longevidade. Mas tudo isto fica muito mais difícil quando o sistema nervoso está constantemente em alerta, e por isso a gestão do stress não é um “extra”, é parte da base. Muitas pessoas não falham por falta de força de vontade; falham porque vivem há demasiado tempo em sobrecarga. Um corpo em modo de alerta não recupera bem, não dorme bem, não digere bem e não decide bem. Aí entram ferramentas simples, mas consistentes, como a respiração, pausas reais, técnicas de atenção plena, contacto com a natureza, apoio terapêutico quando é preciso, e sobretudo a repetição, porque a regulação faz-se mais por rotina do que por momentos. E há ainda uma dimensão que é muitas vezes subestimada: as relações e a sensação de pertença. Fala muitas vezes de cuidar da nossa “casa interna”… Sim, a saúde também depende de como está a nossa “casa” interna, eu costumo dizer que o corpo é a nossa primeira casa, e depois de como nos relacionamos com quem vive connosco, com a família, com amigos, com o trabalho. Quando a ordem está trocada e a pessoa tenta “aguentar” tudo sem base, mais cedo ou mais tarde o corpo dá sinais, como fadiga, irritabilidade, ansiedade, sintomas físicos difusos, doenças inflamatórias, ou um cansaço que não passa. A partir daqui, conforme cada caso, podemos aprofundar temas como o ambiente em que a pessoa vive, a saúde intestinal, os ritmos hormonais e, sim, a suplementação, mas com um princípio: suplementos não substituem o básico. Idealmente, começamos por sono, alimentação, movimento e regulação do stress. Quando se suplementa, deve ser com critério, com objetivos claros, qualidade, dose adequada, atenção a interações e com noção de que “natural” não significa automaticamente “inofensivo”. No fundo, para mim, a saúde integrativa é isto, menos promessas rápidas e mais processos sustentáveis. É ajudar a pessoa a recuperar equilíbrio, não como um estado perfeito e permanente, mas como a capacidade de voltar ao centro e é isso que hoje faz a diferença entre “não estar doente” e estar, de facto, bem. No Wellness Atelier fala-se de saúde “biopsicossocial”, como é que isso se traduz numa consulta? Traduz-se, antes de mais, em tempo e em escuta. Numa consulta de saúde integrativa, eu preciso mesmo de ouvir o paciente como um todo, mas não como um “todo” apressado. É um “todo” mais profundo, que implica entrar em sintonia, perceber a pessoa e não apenas o sintoma. Por isso, muitas vezes, a consulta parece quase uma entrevista, uma anamnese mais personalizada, em que tento compreender a história do paciente, o que vem de trás, o que está a acontecer agora e até o que o está a preocupar em relação ao futuro. Esse mapa é essencial, porque a forma como alguém vive, pensa, sente e se organiza no dia a dia influencia diretamente o corpo. Na saúde convencional, sabemos que isto é muito mais difícil de acontecer, não por falta de competência, mas por falta de tempo e pelo próprio modelo. Muitas consultas são necessariamente curtas, sobretudo no Serviço Nacional de Saúde, e mesmo no privado, muitas vezes não passam dos 30 ou 40 minutos. E, nos dias de hoje, com o volume de queixas e a complexidade dos casos, é praticamente impossível explorar com profundidade todas as dimensões que podem estar a interferir. O modelo biopsicossocial, para mim, é precisamente isso: olhar para a dimensão biológica e física (o que está a acontecer no corpo, onde dói, como funciona, o que os exames mostram e o que não mostram), olhar para a dimensão psicológica e emocional (como é que a pessoa está, que tipo de stress vive, que padrões se repetem, se é algo recente ou crónico, se há sinais de ansiedade, exaustão, tristeza, irritabilidade), e olhar para a dimensão social e contextual, que muitas vezes é onde a saúde se decide sem ninguém dar por isso, o ambiente familiar, a relação consigo própria, o trabalho, o ritmo, as exigências, a rede de apoio, as conexões sociais. Às vezes a pessoa quer muito mudar, mas o contexto não permite; outras vezes o contexto é difícil, mas a pessoa pode ganhar ferramentas para se manter nele com mais equilíbrio. É esse enquadramento completo que me permite, depois, orientar com mais precisão. Quando fala de saúde integrativa, onde cruza o eixo sistema nervoso–sono–inflamação com o eixo metabólico? Eu começo quase sempre por ligar dois pontos que, na prática, nunca estão separados: o cérebro e o intestino. As pessoas já ouvem muito esta ideia do “segundo cérebro”, e faz sentido, porque existe uma ligação direta entre o sistema nervoso e o intestino, não é uma metáfora bonita, é fisiologia. O intestino tem uma rede nervosa própria e comunica com o cérebro de forma permanente, e isso ajuda a explicar uma realidade que eu vejo muitas vezes: aquilo que pensamos, aquilo que sentimos e a forma como vivemos pode somatizar-se no sistema digestivo. Não é por acaso que se fala tanto de cólon irritável, disbiose, intestino reativo, muitas vezes, há ali stress crónico, estado de alerta e um corpo que já vive “no limite”. E quando o sistema digestivo está assim reativo, não é só desconforto, até a absorção pode ficar comprometida. A pessoa pode comer “bem” ou até suplementar, mas se o intestino não está funcional, a capacidade de absorver os macro e micronutrientes fica aquém do esperado. É uma das razões pelas quais, em alguns casos, faz sentido usar suplementação não como atalho, mas como apoio, inclusive para melhorar digestão e absorção, enquanto se trabalha a base. Depois entra o sono, porque o sono é um regulador central. Quando o sono falha e não há regeneração, o corpo começa a entrar numa microinflamação: não é ainda a inflamação “visível” da doença instalada, mas é um estado de baixa intensidade, silencioso, que vai minando o equilíbrio. Hoje fala-se muito de inflamação silenciosa como terreno comum de muitos problemas, e a resistência à insulina encaixa aí com muita frequência. Há pessoas com glicemias aparentemente “normais”, mas quando fazemos uma avaliação mais abrangente e olhamos para marcadores específicos de resistência à insulina, percebemos que já há um padrão a construir-se, a pessoa fica ali na tangente, com picos e oscilações, e a longo prazo aquilo pode evoluir para diabetes. E é aqui que eu também alerto para uma coisa: quando o corpo começa a dar sinais e nós não ouvimos, ele não desiste, muda de linguagem. Primeiro dá um aviso subtil; depois dá outro; e, se continuarmos a ignorar, aparecem mais sinais, mais sintomas, mais “coisas” para tratar. Muitas vezes não é castigo nenhum, é o corpo a tentar ser ouvido. O sono influencia diretamente este eixo metabólico, porque durante a noite há uma regulação hormonal crucial. Hormonas ligadas ao apetite e ao metabolismo, como a leptina e a grelina, e a própria sensibilidade à insulina, sofrem com noites curtas, fragmentadas ou com um ritmo circadiano desorganizado. Há pessoas que lutam com peso, fome emocional, falta de saciedade ou dificuldade em emagrecer, e parte do problema pode estar simplesmente no sono, não apenas na força de vontade. E quando eu falo em regular o sistema nervoso, não falo só “à noite”, é durante o dia que começamos a preparar o sono. Em alguns casos, recomendo fitoterapia com adaptógenos, precisamente porque não são uma “pílula para adormecer”; funcionam como moduladores. Se a pessoa está em stress e hiperativação, podem ajudar a baixar esse estado de alerta; se está mais esgotada e sem energia, podem ajudar a estabilizar e a suportar melhor o dia. Ao modular o sistema nervoso durante o dia, aumenta a probabilidade de, à noite, o corpo conseguir entrar num sono mais reparador. E isto liga-se ao ritmo biológico, ao fim da tarde, o organismo deveria começar a preparar-se para produzir melatonina; durante o dia, queremos serotonina em bom funcionamento. Se vivemos sempre acelerados, com excesso de cortisol e stress até tarde, o corpo não “vira a página” como devia. E sem melatonina suficiente e sem um sono profundo consistente, como é que o corpo vai apagar os focos de microinflamação, reparar tecidos, regular metabolismo e acalmar o intestino? Por isso é que eu digo que não dá para mexer numa peça sem mexer nas outras: sono, sistema nervoso, inflamação, intestino e metabolismo estão interligados. E é também por isso que, na saúde integrativa, a pessoa tem de ser vista como um todo mental, emocional e biopsicossocial, porque, na prática, é assim que o corpo funciona. Estamos a falar de viver mais anos ou de um healthspan, isto é, viver melhor durante mais tempo, com autonomia, energia e prazer real no dia a dia? Para mim, saúde e longevidade não são sinónimos. Longevidade não é apenas somar anos, é manter capacidade de viver a vida. Uma pessoa com 70 anos que consegue fazer uma caminhada, que tem mobilidade, curiosidade, relações, propósito e autonomia, está a viver um envelhecimento com qualidade. Já alguém que chega aos 70 “apenas para estar cá”, sentada o dia todo, sem vitalidade, presa a rotinas que a desligam do mundo, pode estar a viver muitos anos, mas não está necessariamente a viver longevidade no sentido pleno. E isso levanta a pergunta incómoda: ficar mais tempo aqui para não usufruir… vale a pena? O objetivo desta abordagem é ajudar, sim, a que a pessoa dure mais, mas sobretudo a que dure com qualidade de vida. Claro que o envelhecimento traz mudanças e há “coisas típicas da idade” que vão aparecer; a questão é que, mesmo quando não conseguimos evitar tudo, muitas vezes conseguimos modular: atrasar, atenuar, melhorar função, reduzir sofrimento e manter autonomia. Só que há um risco grande quando isto é vivido como uma performance. Há pessoas que fazem “tudo certo”, mas fazem-no em esforço: exercício em exagero, alimentação extremista, disciplina rígida. E muitas vezes não é por amor a si próprias; é por culpa. Fazem para não se sentirem culpadas. E depois aquilo não vem com alegria, nem com propósito, são pessoas revoltadas, tristes, pouco comunicativas, sem sentido para a vida. Trabalham, cumprem, produzem, mas vivem desligadas de um “para quê”. E isso, para mim, é um paradoxo, querem saúde, mas estão a construir a saúde em cima de tensão. A grande viragem, muitas vezes, começa por dentro, a pessoa parar e perguntar “o que é que se está a passar comigo?”. E quando começamos a perceber o que se passa, há quase sempre uma emoção por trás. Porque se a pessoa não está bem consigo, se não dormiu, e mesmo assim se obriga a ir treinar às sete da manhã… como é que aquele corpo aguenta, realmente? Há pessoas que só conseguem treinar à noite, depois do trabalho, e eu compreendo a realidade. Mas também sinto que muita gente não tem noção do que está a fazer quando treina às nove ou dez da noite, ou sai do trabalho em stress e vai “acelerar” ainda mais o corpo. Nessa hora, o organismo já está a pedir o contrário: desacelerar. Estamos a ir contra o ritmo biológico. E depois aparece a contradição prática: se eu chego ao fim do dia em estado de alerta, com cortisol alto, e ainda estimulo o corpo com treino intenso, como é que vou sintetizar melatonina a sério? E no fim, a pessoa diz: “eu quero mais saúde”, mas está a construir os pilares todos em esforço. E isto, para mim, é uma chave, healthspan não é perfeição; é alinhamento. É fazer o básico bem feito, com consistência, e com um sentido interno que sustente o processo. Trazendo isto para a infância e para a parentalidade, como é que se trabalha saúde integrativa em família sem culpa e sem cair no perfeccionismo? E por que é que, no seu trabalho, isto começa tão cedo, por vezes ainda antes da gravidez? Eu começo mesmo muito cedo, sim. Trabalho desde a primeira infância, mas dependendo de quem me chega, às vezes começo ainda antes, desde a pré-concepção. Acompanho pessoas com dificuldade em engravidar e isso é muito interessante, porque há casos em que a medicina olha para certos valores como “normais”, dentro dos intervalos de referência, mas nós percebemos que estão na tangente e que, para aquela pessoa específica, podem ser decisivos. E então o trabalho é exatamente esse: perceber o que é que aquela “casa”, o corpo, precisa para conseguir fecundar, sustentar uma gravidez saudável e favorecer um desenvolvimento bom para a mãe e para o bebé. E, muitas vezes, o pai também acaba por beneficiar, porque quando uma pessoa muda, o ambiente muda, a dinâmica, o stress da casa, os hábitos e até o vínculo. Quando eu entrei nesta área, há cerca de uma década, falava-se muito em anti-aging. Ainda não se usava tanto a palavra wellness como hoje. E eu sinto que esta mudança é mais do que semântica, wellness remete-nos mais para estilo de vida e até para uma certa ancestralidade, para o simples, o consistente, o que nos organiza por dentro. O anti-aging, muitas vezes, ficou colado a uma ideia de “cuidar”, mas com uma pressão de perfeição e de estética que nem sempre é saudável. Ao mesmo tempo, não vamos negar a genética, cada um traz uma carga genética. Mas depois há a epigenética, que é o meio onde a pessoa vive, os fatores todos à volta, aquilo que ativamos ou desativamos com hábitos, sono, stress, alimentação, ambiente. E foi aqui que para mim fez todo o sentido não olhar para saúde integrativa e longevidade apenas a partir da meia-idade, como se fosse um “projeto tardio”. Porque estamos a ver crianças com dificuldades muito reais e cada vez mais frequentes: alterações do neurodesenvolvimento, como se fala no autismo e no défice de atenção, intolerâncias alimentares, queixas digestivas, alterações do intestino, padrões de inflamação e sintomas em que, muitas vezes, os exames vêm “todos bem”, mas a criança está mal. É, portanto, na infância, que tudo começa? Sem dúvida. Há coisas que são claramente do domínio médico e têm de ser vistas por quem as acompanha e há outras onde eu aprofundo e acompanho de uma forma que complementa, porque estudei para isso e porque tenho prática. E depois há também a experiência de casa. Eu tenho três filhos e isso ensina-nos imenso: percebemos o que faz sentido, o que não faz, o que resulta em cada idade, e como tudo muda com a fase de desenvolvimento. E aqui entra um ponto que para mim é central, os primeiros mil dias. É um conceito forte, que eu também estudei, porque é um período que “desenha” muito do terreno da criança e crianças de hoje são adultos de amanhã. São o nosso futuro, e até os nossos cuidadores. Os pilares, no fundo, são os mesmos do adulto, mas adaptados à criança. O sono é absolutamente decisivo, com necessidades muito diferentes conforme a idade, porque a criança está em desenvolvimento. A alimentação também é crítica, e aqui vemos erros comuns: crianças que vão para a escola sem pequeno-almoço, pouca variedade, lancheiras cheias de embalados, processados, porque é mais fácil e mais rápido. E às vezes acontece uma coisa curiosa, nós, adultos, comemos melhor do que eles, quando deveria ser ao contrário. Só que a vida real empurra-nos para o prático e as crianças também pedem, também têm desejos, também são humanas. A saída não é perfeccionismo; é consistência e exemplo, porque os pais são espelhos. E depois há o contexto social. Nas crianças, antes de falarmos de amigos e escola, eu preciso de perceber a família, como funciona aquela dinâmica, como se vive em casa, como se gere stress, limites, emoções. Mais tarde, claro que o ambiente escolar, os amigos e os professores contam muito. Uma criança num ambiente mais agitado tende a replicar; num ambiente que cultiva calma e rotinas, a probabilidade de equilíbrio é maior. Em casa, o trabalho é parecido, descodificar emoções dá trabalho. Quando o miúdo chora, fica irritado, explode, muitas vezes aquilo é um alerta e uma chamada de atenção e às vezes é um espelho. Há filhos que, através de um berro ou de uma frase, nos mostram exatamente aquilo que nós não queremos ver. E nós temos de aprender a traduzir. Muitas vezes é sentar, “anda comigo”, “vamos perceber o que se está a passar”. Trabalhar com a energia da criança pode ser exigente, sobretudo quando o caso é pesado, mas é impressionante ver como, com o acompanhamento certo, os resultados aparecem e são visíveis. E isto também é preparar futuro, uma criança não tem de ser protegida da vida como se nunca fosse chorar. Proteger não é apagar emoções. É ensinar que elas existem, que vêm, que passam, e que há formas de as atravessar, sem educar pelo medo. E depois há os dilemas modernos que nos deixam incoerentes, não deixamos a criança brincar na rua, não lhe ensinamos autonomia básica, não sabe atravessar uma passadeira, mas damos um telemóvel para a mão. Queremos que sejam wellness, mas estamos a construir medo e dependência. Por isso, mesmo quando é um adolescente, eu gosto de reservar sempre 10 a 15 minutos com os pais. Estamos muito desenvolvidos em informação, mas ainda há muito trabalho a fazer na forma como se vive, se regula e se educa, com verdade, com equilíbrio e sem culpa. A sua experiência em oncofarmacoterapia dá-lhe um lugar muito particular. Como é que a saúde integrativa entra no cuidado oncológico sem cair em promessas perigosas e sem interferir com o tratamento? O primeiro passo, para mim, é perceber o que é que a pessoa está realmente à procura naquela fase. Mesmo quando já está a fazer tratamentos, eu preciso de entender a expectativa: “O que é que espera de estarmos aqui?” Essa pergunta é quase uma entrevista inicial, porque a saúde integrativa não pode ser aplicada “por receita”, tem de ser alinhada com a fase da doença, com o protocolo em curso e com a realidade daquela pessoa. Há doentes que chegam e dizem: “Eu nem sei bem o que tenho, venho aqui porque estou perdido.” E isso, por si só, já me diz muito, antes de falarmos de suplementos, temos de organizar pilares. Autoconhecimento, sim, mas também estrutura, orientação, e um plano que ajude a pessoa a sentir-se menos à deriva. Na oncofarmacoterapia, a minha função é, muitas vezes, aliviar a carga dos efeitos secundários dos fármacos, sobretudo da quimioterapia, para melhorar qualidade de vida. Porque uma pessoa que faz um pós quimioterapia muito pesado em casa pode passar dias sem vitalidade, com náuseas, vómitos, mal-estar generalizado. Há coisas que são “esperadas”, mas a intensidade pode, muitas vezes, ser reduzida. E quando diminuímos a intensidade, não estamos só a mexer no corpo, estamos a mexer no emocional, na capacidade de recuperar, na forma como a pessoa atravessa a semana, no sentido de controlo e de esperança que consegue manter. Ao mesmo tempo, este é um terreno delicado. Nós sabemos que a quimioterapia destrói células tumorais, mas também atinge células saudáveis. E é aqui que a saúde integrativa tem de ser inteligente e prudente, não “entusiasmada”. Por exemplo, a questão dos antioxidantes, em determinados contextos e em doses elevadas, pode haver risco teórico e clínico de diminuir a eficácia de terapias que dependem de stress oxidativo para lesar as células tumorais. Por isso, durante quimioterapia e/ou radioterapia, a regra é cautela, articulação e bom senso, não é “tomar por tomar”, nem é “proibir tudo”, é avaliar caso a caso, fase a fase, sempre em coordenação com a equipa assistente. Depois do tratamento, aparecem frequentemente sequelas que o doente nem sempre estava à espera de nomear: a “névoa mental” (dificuldade de concentração e memória), esquecimentos, parestesias, os “formigueiros”, e sinais de neuropatia periférica, entre outros. Muitas vezes, estes efeitos ficam mais marcados quando não houve suporte durante o processo, também por medo. Há ainda muitos mitos, inclusive vindos de profissionais bem-intencionados, do género: “Não pode tomar nada, com isto só pode tomar um analgésico.” Só que não é bem assim. Há, sim, substâncias que podem interferir; há outras que podem ser úteis; e há decisões que precisam de delicadeza e segurança. O objetivo não é substituir medicina convencional, eu não sou contra a saúde convencional. Quando a situação exige terapêutica farmacológica, ela é necessária. A saúde integrativa, aqui, entra como suporte sério, não como alternativa salvadora. Quando é que os suplementos e biohacks ajudam, quando atrapalham e quando podem mesmo fazer mal? Uma das primeiras coisas que pergunto logo no início é: o que é que está a tomar, tanto de medicação como de suplementos? Porque um suplemento não é inocente. Pode ser útil, pode ser neutro, ou pode complicar, dependendo da situação clínica, da dose e do contexto. Há uma coisa que eu avalio sempre: como estão os órgãos de metabolização e eliminação. Tudo o que entra no corpo tem de ser absorvido, metabolizado (com grande participação hepática) e eliminado (muitas vezes com carga renal). Se eu tenho um doente com historial de alterações hepáticas ou insuficiência renal, tenho de pensar de outra forma. Nesses casos, muitas vezes, “menos é mais”, em vez de doses altas, prefiro doses mais baixas, consistentes e seguras, porque o risco de sobrecarregar um órgão frágil pode ser maior do que o benefício pretendido. E, mesmo quando a pessoa “precisa muito”, às vezes a melhor estratégia é a continuidade e não o excesso. Depois há a questão da seleção e da qualidade. Os suplementos têm enquadramento legal próprio, em Portugal, muitos são considerados géneros alimentícios e têm regras e mecanismos de notificação e fiscalização diferentes dos medicamentos. Isso não significa “vale tudo”, significa que o consumidor tem de estar mais informado e o profissional tem de estar mais atento. E existe uma zona cinzenta que baralha toda a gente, a fronteira entre suplemento e medicamento pode depender da substância, da dose, da forma farmacêutica e das alegações. Dou um exemplo muito concreto, que as pessoas reconhecem: a melatonina. Em Portugal, existe a melatonina que até 1,9 mg é considerada suplemento, a partir de 2mg já é considerada medicamento. Outro exemplo típico é a vitamina D: o problema não é “ser vitamina”, é a dose e o contexto. Para termos noção, 200 microgramas correspondem a 8.000 UI (unidades internacionais). Se uma pessoa, por impulso ou conselho das redes, começa a somar doses e a subir para valores muito elevados sem monitorização, pode entrar em terreno de risco, sobretudo se houver suscetibilidades individuais ou outras medicações em simultâneo. E aqui entra um ponto cultural que eu considero central, vivemos num mundo em que “tomar coisas” se tornou sinónimo de cuidado. Há uma narrativa de “suplementos essenciais a partir dos 40” que aparece nas redes, nas tendências e nas influencers. E isto tem um lado bonito, porque pode abrir portas à literacia e ao autocuidado, mas tem um reverso perigoso: marketing mascarado de saúde. Um wellness falsificado, onde se vende perfeição e se alimenta ansiedade. E depois as pessoas vivem com a sensação de que estão sempre a falhar, só porque não fazem “tudo certinho”. A verdade é simples: o perfeito não existe. Se tivesse de deixar uma “bússola” para 2026, quais são os três hábitos com maior impacto para um wellness real, sem extremismos e sem ilusões? Para mim, o primeiro é o autocuidado como ato de amor próprio. Parece simples e até cliché, mas não é, é olhar para si e assumir “eu cuido da minha casa”. É gostar de si o suficiente para fazer escolhas que não dependem da validação dos outros. Muitas pessoas são extraordinárias a amar fora, organizam-se, esforçam-se, fazem tudo pelo outro, mas esquecem-se de se incluir. Depois, duas palavras que eu acho que vão ser chave em 2026 são persistência e paciência. Persistência para manter o caminho; paciência para aceitar que o corpo tem ritmo, e que nós não fomos desenhados para viver sempre no limite. Há uma aceleração permanente a puxar-nos para fora, mas o equilíbrio pede-nos o oposto. mais dentro, mais coerência, mais continuidade. E, por fim, eu incluo a espiritualidade, não como etiqueta, mas como pilar de propósito. Seja vivida de uma forma mais religiosa ou mais íntima, a verdade é que nós precisamos de sentido. Ter intenção, ter fé (no que cada um entender por fé), ter um lugar interior que nos sustente, torna o processo mais leve, mais bonito e mais possível. Para mim, isto é wellness real, menos performance, mais presença; menos excesso, mais consistência; menos promessa, mais caminho. Instagram: @draluisa.health “A obesidade é uma doença, não uma questão de falta de força de vontade” “O problema não é a falta de força de vontade. É o sistema nervoso em alerta”
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