REABILITAÇÃO ORAL/SAÚDE ORAL “O rosto não é um filtro. Não se redesenha como quem edita uma imagem num ecrã” By Revista Spot | Maio 14, 2026 Maio 14, 2026 Share Tweet Share Pin Email O rosto não é uma página em branco. É memória, expressão, movimento e história pessoal. Guarda o tempo, os gestos, os sorrisos, as tensões e aquilo que torna cada pessoa reconhecível. É a partir desta consciência que Mariana Winck constrói a sua prática em harmonização orofacial e estética dentária. Médica dentista, olha para cada rosto antes de qualquer intervenção: procura compreender a sua estrutura, a sua dinâmica, o seu equilíbrio e, sobretudo, a sua identidade. A sua abordagem não parte da vontade de transformar, mas de respeitar. Intervir menos, devolver harmonia, preservar traços. Nesta entrevista, falamos de perfil facial, rinomodelação, sorriso gengival, toxina botulínica, bioestimuladores, polinucleótidos, ATM, sono e formação de profissionais. Mas falamos, acima de tudo, de maturidade estética e da importância de reconhecer que, por vezes, preservar um traço é tão importante como dominar uma técnica. De que forma a sua base clínica influencia a leitura de proporções, tecidos, dinâmica muscular e equilíbrio facial? A medicina dentária continua a influenciar profundamente a minha forma de ler o rosto. A formação em medicina dentária obriga-nos desde cedo a desenvolver uma visão muito tridimensional da face, não apenas estética, mas funcional, estrutural e dinâmica. Trabalhamos constantemente com proporções, suporte ósseo, tecidos moles, oclusão, musculatura e equilíbrio facial, e isso acaba por criar uma sensibilidade muito específica para perceber como pequenas alterações podem impactar a harmonia global do rosto. Na harmonização facial, essa base clínica traduz-se numa abordagem muito analítica. Antes de pensar em produto ou técnica, penso em arquitetura facial: suporte, compensações musculares, qualidade dos tecidos, relação entre os terços faciais e forma como o rosto se movimenta. A estética, para mim, nunca está separada da anatomia nem da função. Quando observa um rosto pela primeira vez, o que é que analisa verdadeiramente antes de decidir se deve intervir, onde deve intervir e, sobretudo, onde não deve intervir? Quando observo um rosto pela primeira vez, o mais importante não é identificar o que “falta”, mas compreender o equilíbrio daquela face. Analiso muito a estrutura óssea, os pontos de suporte, a qualidade da pele, a dinâmica muscular, a forma como a pessoa sorri, fala e repousa. Muitas vezes, o que parece ser um problema isolado é apenas uma consequência de outra desarmonia estrutural. Também dou muita importância aos pontos de luz e às transições faciais. Um rosto harmonioso não é necessariamente um rosto perfeito; é um rosto coerente. E talvez uma das partes mais importantes do meu trabalho seja precisamente perceber onde não devo intervir. Nem tudo precisa de ser corrigido. Há caraterísticas que fazem parte da identidade da pessoa e há limites anatómicos e estéticos que devem ser respeitados. Saber dizer não é tão importante quanto dominar a técnica. A rinomodelação e a leitura do perfil ocupa um lugar importante no seu trabalho. O que é que torna o perfil facial uma das áreas mais exigentes da harmonização? O perfil facial é particularmente exigente porque funciona como um sistema integrado. O nariz nunca existe isoladamente. A projeção do queixo, o suporte labial e até a posição maxilar influenciam diretamente a perceção do nariz. Muitas vezes, um nariz aparentemente “grande” não é verdadeiramente um problema nasal, mas sim consequência de falta de suporte no mento ou de um desequilíbrio do terço inferior. Mas a rinomodelação é também um dos tratamentos mais exigentes e delicados da harmonização facial pela própria complexidade anatómica da região e pelo risco vascular associado. É uma zona pela qual tenho um enorme respeito clínico. Por isso, sou muito criteriosa na indicação. Só realizo este procedimento quando acredito verdadeiramente que existe uma boa indicação, condições anatómicas favoráveis e possibilidade de alcançar um resultado seguro e harmonioso. Nas redes sociais, muitos pacientes ainda chegam com a ideia de que harmonizar é acrescentar volume. Na sua prática, sente que o verdadeiro desafio está mais em criar continuidade, proporção e leveza do que em “mudar traços”? Sem dúvida. Acho que hoje o verdadeiro desafio da harmonização já não está em adicionar volume, mas em criar integração. O excesso de volume facilmente artificializa um rosto, porque rompe continuidade, apaga sombras naturais e elimina delicadeza anatómica. Na minha prática, procuro sobretudo restaurar suporte, melhorar transições e devolver equilíbrio sem alterar identidade. Gosto muito da ideia de “presença discreta”: o paciente parece mais descansado, mais elegante, mais harmonioso, mas continua claramente a ser ele próprio. A estética mais sofisticada é aquela que não denuncia intervenção. O sorriso gengival surge com destaque no seu trabalho e até em contexto científico. Porque é que esta questão está longe de ser um simples detalhe estético? O sorriso gengival está muito longe de ser apenas uma questão estética. É um tema extremamente multifatorial e que exige uma avaliação clínica cuidadosa, porque pode ter origem muscular, dentária, esquelética ou mista. Pode estar relacionado, por exemplo, com hiperatividade do lábio superior, excesso de osso maxilar, erupção passiva alterada, padrões de crescimento facial ou alterações da dinâmica muscular. E cada uma dessas causas exige uma abordagem completamente diferente. É precisamente aí que entra a importância do diagnóstico. Dois pacientes podem apresentar um sorriso gengival visualmente semelhante e necessitar de tratamentos totalmente distintos. Por isso, reduzir esta condição a uma simples aplicação de toxina botulínica seria uma visão demasiado simplista. O que mais me interessa nesta área é exatamente essa interseção entre estética, função e análise clínica fina. A toxina botulínica continua a ser associada quase sempre às rugas, mas no seu perfil aparecem aplicações menos óbvias, como lip flip, sorriso gengival, DAO, queixo, ponta do nariz ou brow lift. O que é que estas indicações revelam sobre uma nova forma de pensar a harmonização facial, mais ligada à expressão e à dinâmica do rosto? A toxina botulínica hoje já não é apenas uma ferramenta para tratar rugas; tornou-se uma forma muito sofisticada de modular expressão, tensão muscular e equilíbrio facial dinâmico. Aplicações como lip flip, na zona do depressor do ângulo da boca, no mento, na ponta nasal ou para brow lift mostram precisamente essa evolução da harmonização facial para um território mais funcional e menos “pesado”. Estamos a trabalhar microdinâmicas do rosto, pequenas forças musculares que influenciam expressão, peso facial, postura labial ou até perceção emocional. Um rosto não é estático. O modo como sorri, repousa ou comunica altera completamente a forma como é percecionado. E a toxina botulínica, quando bem utilizada, permite suavizar tensões sem apagar identidade nem expressão. Para mim, a grande sofisticação está exatamente nesse equilíbrio. Numa altura em que há uma procura crescente por resultados discretos e inteligentes, que lugar têm hoje os bioestimuladores e os polinucleótidos na sua abordagem? Os bioestimuladores e os polinucleótidos representam muito esta nova fase da medicina estética: uma abordagem mais regenerativa, progressiva e biologicamente inteligente. Hoje há uma procura crescente por pele com qualidade, firmeza, luminosidade e textura saudável. Os bioestimuladores permitem trabalhar colagénio, suporte dérmico e flacidez de forma gradual e muito natural. Já os polinucleótidos acrescentam uma dimensão extremamente interessante de regeneração celular, hidratação profunda e melhoria da qualidade tecidular, por exemplo, em casos de marcas de acne. O mais interessante é que estas abordagens respeitam muito mais a fisiologia do envelhecimento. Em vez de simplesmente preencher, estamos a estimular o tecido a comportar-se melhor. E isso produz resultados mais subtis, mais elegantes e mais sustentáveis ao longo do tempo. Sente que estamos a entrar numa fase mais madura da harmonização facial, em que o paciente já valoriza mais regeneração, textura, naturalidade e qualidade de pele do que rostos excessivamente “tratados”? Acredito claramente que estamos numa fase mais madura da harmonização facial. Durante algum tempo houve uma tendência muito centrada em transformação visível e volume excessivo, mas hoje sinto que muitos pacientes procuram precisamente o contrário: naturalidade, frescura, qualidade de pele e envelhecimento inteligente. Existe uma valorização crescente da discrição. O paciente já não quer parecer “feito”; quer parecer bem. E isso obriga também os profissionais a evoluírem. Exige mais diagnóstico, mais sensibilidade estética e muito mais controlo técnico. Porque é bastante mais difícil criar um resultado impercetível e elegante do que produzir uma mudança evidente. A sua formação também cruza áreas como ATM/disfunção articular e medicina oral do sono. Até que ponto essa visão mais funcional do território orofacial ajuda a construir uma prática mais completa e menos superficial da estética facial? A formação em DTM e medicina oral do sono acabou por acrescentar uma dimensão mais funcional e integrativa à minha leitura do paciente. À primeira vista, podem parecer áreas distantes da estética facial, mas cruzam-se precisamente naquilo que hoje considero fundamental: a forma como função, estilo de vida e envelhecimento estão intimamente ligados. O sono, por exemplo, influencia diretamente processos de regeneração celular, inflamação, qualidade da pele, tónus muscular e envelhecimento facial. Da mesma forma, padrões de tensão muscular, respiração, postura mandibular ou hábitos parafuncionais acabam muitas vezes por refletir-se na dinâmica do rosto e na forma como os tecidos envelhecem. Para além da prática clínica, também forma profissionais há vários anos. Num setor em crescimento rápido, o que é que mais sente necessidade de transmitir às novas gerações: domínio técnico, capacidade de diagnóstico, sentido de proporção, prudência clínica ou coragem para dizer não? Formar profissionais fez-me perceber que a técnica, por si só, nunca é suficiente. Claro que o domínio técnico é fundamental, mas aquilo que mais procuro transmitir é capacidade de diagnóstico, pensamento crítico, sentido de proporção e prudência clínica. Hoje existe muito acesso a técnicas, mas nem sempre existe profundidade de análise. E a harmonização facial exige precisamente isso: saber observar antes de agir. Também acredito que é essencial ensinar os profissionais a terem coragem para dizer não. Nem tudo o que é possível deve ser feito. E essa maturidade clínica talvez seja uma das caraterísticas que mais distingue um profissional experiente. Instagram: @dra.marianawinck Marcações: linktr.ee/MarianaWinck “Nunca foi tão fácil comunicar e nunca tantas pessoas se sentiram tão sozinhas dentro da própria relação” Maio celebra a maternidade. Mas quem cuida de quem ainda espera? Cátia Santos, médica psiquiatra, lança projeto pioneiro para mulheres em experiência de infertilidade
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