Cirurgia “A robótica deu-nos precisão. A maturidade é saber o que fazer com ela” By Revista Spot | Janeiro 26, 2026 Janeiro 27, 2026 Share Tweet Share Pin Email Num hospital moderno, o futuro instala-se em silêncio, no ecrã ao lado da mesa de operações. Durante anos, chamar “vanguarda” à cirurgia era falar de incisões mais pequenas, em 2026, o salto está na qualidade da decisão. Entre robótica, imagem avançada e fluorescência, o bloco operatório tornou-se um lugar onde dados e destreza se cruzam para evitar o que antes parecia inevitável: complicações, sequelas, perda de função. Na cirurgia digestiva, sobretudo no reto, operar com precisão em espaços anatómicos exigentes é, muitas vezes, a diferença entre curar e deixar marca, preservando continência, autonomia e qualidade de vida. O cirurgião geral Pedro Leão resume esta nova era numa frase, “A robótica deu-nos precisão. A maturidade é saber o que fazer com ela.” Por trás do robot há treino, auditoria de resultados e uma equipa inteira a operar. E há um tema fundamental: o acesso. “A inovação só vale quando chega a tempo e a todos”, garante o especialista. A cirurgia está a mudar de paradigma? O que significa hoje estar na vanguarda? Sim, a cirurgia está claramente a atravessar uma mudança de paradigma. Durante muitos anos, a inovação concentrou‑se sobretudo na técnica: incisões mais pequenas, menos trauma, recuperações mais rápidas. Hoje, porém, a verdadeira vanguarda está na qualidade da decisão cirúrgica. A cirurgia robótica representa um salto tecnológico relevante, mas o seu impacto mais profundo não está apenas nas ferramentas. Está na forma como nos permite operar de maneira mais previsível, mais controlada e mais ajustada a cada doente. Estar na vanguarda já não significa usar “mais tecnologia”; significa usar a tecnologia para decidir melhor, com maior rigor e maior responsabilidade. A robótica transformou a cirurgia digestiva? Transformou, e de forma particularmente evidente, a cirurgia do reto. Em oncologia colorretal, sobretudo nos tumores do reto médio e baixo, a cirurgia robótica permite uma dissecção mais precisa em espaços anatómicos muito exigentes, com melhor visualização dos planos e maior controlo dos gestos. Isso traduz‑se não só em bons resultados oncológicos, mas também numa preservação funcional superior. Na cirurgia do cólon, o impacto tem sido mais gradual, mas contínuo. À medida que a experiência das equipas aumenta e as plataformas evoluem, a robótica afirma‑se como uma ferramenta cada vez mais versátil, consistente e reprodutível. Como equilibra controlo oncológico e qualidade de vida? Esse é, hoje, um dos maiores desafios da cirurgia oncológica. O controlo da doença continua a ser absolutamente fundamental, mas deixou de ser o único indicador que importa. Continência, função urinária, sexualidade e autonomia são partes essenciais da vida de qualquer doente e têm de fazer parte da equação. A cirurgia robótica tem sido particularmente útil nesse equilíbrio: permite uma abordagem mais anatómica, mais precisa e mais protetora das estruturas nervosas, sem perder a exigência da radicalidade oncológica. No fundo, o objetivo não é apenas sobreviver ao cancro, é poder viver bem depois dele. Imagem avançada e fluorescência mudam decisões no bloco? Mudam e de forma muito concreta. A fluorescência é uma tecnologia discreta, mas com um impacto clínico muito significativo. A possibilidade de avaliar a perfusão em tempo real pode evitar complicações graves, como uma fístula anastomótica após a reconstrução. Quando integrada na plataforma robótica, esta informação acrescenta rigor à decisão imediata e obriga o cirurgião a manter abertura para ajustar o plano, caso os dados assim o indiquem. Isso não é sinal de hesitação; é sinal de maturidade clínica. O que mudou no papel do cirurgião com a robótica? Penso que mudou bastante. A robótica melhorou a ergonomia e reduziu a fadiga física, o que tem impacto direto na longevidade da carreira. Mas, ao mesmo tempo, aumentou a exigência cognitiva. O cirurgião passa a depender menos da força e muito mais do planeamento, da estratégia e da capacidade de tomar decisões informadas em tempo real. A tecnologia amplia o alcance e a precisão desses gestos, mas não substitui a decisão. No fundo, a robótica reforça aquilo que sempre foi central na cirurgia: o pensamento clínico. O que é que o doente raramente imagina sobre cirurgia robótica? O doente raramente tem noção de todo o trabalho invisível que existe antes de a cirurgia começar. Há horas de treino em simuladores, formação certificada, supervisão contínua e uma análise sistemática dos resultados. E há, sobretudo, o papel fundamental de equipas altamente especializadas de enfermagem e anestesia. A cirurgia robótica é, por natureza, uma cirurgia de equipa e esse é um dos maiores fatores de segurança que oferece. Como manter a humanização num ambiente altamente tecnológico? Com intenção e presença. Isso começa muito antes de ligar o robot: olhar o doente nos olhos, explicar o plano mas também as incertezas, ouvir as preocupações e estar verdadeiramente presente no pós‑operatório. A tecnologia não desumaniza por si só. Pelo contrário, quando é bem utilizada, permite cirurgias menos invasivas, recuperações mais rápidas e menos sofrimento. O essencial é não perder de vista que, no centro de tudo, continua a estar a pessoa e não a tecnologia. Converter para cirurgia aberta ainda faz sentido? Faz e continuará a fazer. A diferença é que, com a robótica, a conversão da cirurgia minimamente invasiva para a cirurgia aberta, tende a ser mais precoce, mais estratégica e baseada em dados objetivos. Converter não é falhar. É decidir com maturidade. E quando essa possibilidade é discutida de forma transparente com o doente, a confiança mantém-se. A robótica pode criar desigualdades no acesso? Pode, se não for bem organizada. Mas também pode ser um instrumento de equidade se integrada em centros de referência, com critérios claros de referenciação, avaliação rigorosa de resultados e um modelo de financiamento orientado para o valor humano. A inovação só faz sentido se servir mais pessoas, não apenas alguns. O que vem a seguir? Qual será o futuro da cirurgia? A robótica será, muito provavelmente, a plataforma central da cirurgia do futuro, progressivamente mais integrada com inteligência artificial, planeamento personalizado, sistemas de navegação e realidade aumentada. Caminhamos para uma cirurgia mais previsível, orientada por dados e ajustada à anatomia e ao perfil de risco de cada doente. O que mais me entusiasma é a possibilidade de errarmos menos. O que mais me preocupa é o risco de nos esquecermos de que, no centro de toda esta tecnologia, continuam a estar pessoas vulneráveis, com expectativas, medos e vidas muito maiores do que a sua doença. Instagram: @prof.pedro.leao “O evento tornou-se um produto emocional, uma narrativa que vai muito além do espetáculo” ASM TAPS inaugura novo showroom: o novo rosto de uma marca com quase 40 anos de história
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