ORTOPEDIA Ricardo Sousa, o ortopedista que colocou Portugal no mapa internacional das infeções osteoarticulares By Revista Spot | Maio 4, 2026 Maio 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há médicos que mudam a forma como uma área inteira é pensada. Ricardo Sousa é um desses exemplos. Ortopedista no Hospital Lusíadas Porto, especialista em lesões do joelho e no tratamento de infeções osteoarticulares, construiu um percurso raro. Partiu da cirurgia do joelho, entrou no território difícil das complicações, da dor persistente e das infeções associadas a próteses, e transformou essa inquietação numa missão clínica, científica e organizacional. Past President da European Bone and Joint Infection Society e fundador do GRIP, ajudou a colocar Portugal no mapa internacional de uma área tão complexa quanto invisível. Nesta entrevista, fala-nos de diagnóstico rigoroso, inovação, equipas multidisciplinares e de uma medicina que não se mede apenas pelo domínio técnico da cirurgia, mas pela capacidade de esperar, investigar, fazer as perguntas certas e decidir melhor. Num tempo em que há cada vez mais pessoas ativas, mais prática desportiva recreativa e também mais desgaste articular associado ao envelhecimento, sente que o joelho se tornou uma espécie de espelho dos excessos e fragilidades da vida contemporânea? Há uma contradição interessante: vivemos mais, somos mais ativos, fazemos mais desporto e isso é bom. Mas o joelho tem limites biológicos que a motivação não consegue ultrapassar. O desporto moderado e adequado é protetor, reduz o risco de artrose, melhora a recuperação pós-cirúrgica, prolonga a função articular. O problema não é o desporto em si, é o excesso sem orientação, a falta de recuperação, e a ideia de que “mais é sempre melhor”. Um joelho desgastado num corredor de 55 anos que faz 60km semanais sem acompanhamento é tão frequente quanto o joelho sedentário do paciente com obesidade. Desmistificando, o desporto não cura a artrose instalada. Pode atrasar a progressão, melhorar a função muscular e reduzir a dor, mas não reverte a destruição cartilaginosa já presente. A mensagem que falta no discurso público é, atividade física sim, mas individualizada e supervisionada. O seu percurso tem-se afirmado em duas áreas particularmente exigentes da ortopedia, a patologia do joelho e as infeções osteoarticulares. O que é que o levou a dedicar-se de forma tão aprofundada a estas áreas e de que forma esse caminho influenciou o médico que é hoje? Comecei pelo joelho, especificamente pela artroplastia do joelho degenerativo, que é uma das cirurgias com maior impacto na qualidade de vida dos doentes. Com o tempo, fui percebendo que quando a artroplastia complicava, nomeadamente com infeção. Havia muito poucos profissionais preparados para saber o que fazer. Essa lacuna incomodou-me. E em medicina, aquilo que nos incomoda é frequentemente o que nos move. Iniciei então um percurso de investigação focado na infeção periprотésica, que culminou no doutoramento, com tese dedicada à profilaxia, diagnóstico e tratamento destas infeções. Esse aprofundamento levou-me naturalmente a ganhar conhecimento mais alargado em infeções osteoarticulares em geral: osteomielite, infeção associada a fraturas, infeções de tecidos moles. Percebi que havia uma necessidade real e uma escassez de profissionais dedicados a esta área e que havia um papel a desempenhar. Não foi um plano traçado desde o início. Foi um caminho que se foi construindo pela curiosidade, pela necessidade dos doentes e pela ausência de respostas organizadas no sistema. Foi presidente da European Bone and Joint Infection Society, depois de vários anos ligado à direção da sociedade. O que é que essa experiência lhe mostrou sobre o lugar de Portugal na ortopedia diferenciada e sobre aquilo que ainda precisa de mudar para estarmos mais próximos dos centros de referência internacionais? A minha relação com a EBJIS começou quase por acaso, fui a Barcelona para um congresso de artroplastia e descobri que havia uma reunião sobre infeção osteoarticular a decorrer em paralelo. Foi a primeira vez que senti que estava numa reunião que era verdadeiramente “a minha”, com pessoas que estudavam exatamente os problemas que eu enfrentava no dia a dia e para os quais havia poucas respostas em Portugal. A EBJIS foi um oásis, encontrei mentores, aprendi de forma estruturada, e percebi que a infeção osteoarticular era uma área com identidade própria e que merecia dedicação exclusiva. Um desses mentores foi Alex Soriano, de Barcelona, que anos mais tarde foi também quem me encorajou a integrar a direção da sociedade. O percurso dentro da EBJIS foi gradual: membro, membro da direção, e finalmente presidente, um processo de crescimento que levou mais de uma década. A presidência mostrou-me que Portugal chega mais longe do que a maioria imagina. O GRIP, o grupo que fundei no Porto dedicado exclusivamente a infeções osteoarticulares, é hoje uma referência nacional e um centro internacionalmente reconhecido nesta área. Recebemos fellows de vários países, participamos na definição dos critérios de diagnóstico utilizados em todo o mundo, e lideramos estudos multicêntricos europeus. Não é modéstia mal disfarçada, é um facto verificável. O exemplo mais concreto desse reconhecimento acontece em setembro de 2026: o Porto vai acolher o congresso conjunto EBJIS–MSIS, a maior conferência mundial dedicada à infeção osteoarticular, que pela primeira vez reúne a sociedade europeia e a norte-americana no mesmo evento. Que esse congresso aconteça em Portugal, e no Porto especificamente, não é coincidência, é o resultado de anos de trabalho, credibilidade construída e relações internacionais sólidas. Mas também ficou claro o que falta: sistemas organizados, centros certificados, dados registados de forma consistente. Portugal tem bons profissionais; o que precisa é de estrutura que os suporte e visibilidade que os projete. No seu percurso há um foco muito claro na prótese do joelho dolorosa e na necessidade de um estudo estruturado e sequencial da dor. Porque é que continua a haver tantos casos em que se trata cedo demais, ou até mal, aquilo que ainda não foi bem diagnosticado? O meu caminho para a prótese do joelho dolorosa foi, curiosamente, pela porta da infeção. Sendo reconhecido como especialista nessa área, comecei a receber referenciações de colegas com doentes que tinham próteses do joelho com dor inexplicada. A infeção é sempre parte do diagnóstico diferencial numa prótese dolorosa, tem de ser excluída em todos os casos, mesmo quando a probabilidade parece baixa. Mas rapidamente percebi que a infeção não era a causa na maioria desses doentes. Havia muitas outras causas: problemas de posicionamento dos implantes, instabilidade, fibrose, patologia dos tecidos moles, causas extra-articulares. Isso obrigou-me a desenvolver competências mais alargadas no diagnóstico e tratamento de todas as causas de prótese dolorosa, não apenas da infeção. O erro mais comum é tratar a dor sem primeiro perceber de onde vem. É como tomar antibiótico sem saber se há infeção. É necessário um protocolo de investigação estruturado e sequencial, que elimine causas uma a uma antes de qualquer decisão terapêutica. O maior risco é regressar à sala de operações sem diagnóstico claro. Uma revisão cirúrgica desnecessária ou prematura pode transformar um problema gerível numa situação muito mais complexa. A segunda opinião especializada é muitas vezes o primeiro passo racional, não é desconfiança no médico, é responsabilidade do doente pela sua própria saúde. As infeções osteoarticulares aparecem muitas vezes no discurso público como um tema quase invisível, mas na prática incluem realidades muito diferentes, como infeção de prótese, infeção após fratura e osteomielite. O que é que muda verdadeiramente entre estas situações e porque é que essa distinção é tão decisiva para o prognóstico? As infeções osteoarticulares são três apresentações clínicas distintas de uma mesma família de doenças e perceber as diferenças entre elas é decisivo para escolher o tratamento certo. O denominador comum a todos os cenários é o seguinte: quando há um implante metálico, seja uma prótese ou material de osteossíntese como placas e parafusos, as bactérias têm a capacidade de aderir à sua superfície e formar biofilme, uma espécie de “escudo” biológico que as protege dos antibióticos e do sistema imune. Sem intervenção cirúrgica, é praticamente impossível erradicar a infeção apenas com antibióticos. Nas infeções sem implante, como a osteomielite, o equivalente ao biofilme é o sequestro, osso morto e desvitalizado que serve de refúgio às bactérias e que tem igualmente de ser removido cirurgicamente para que o tratamento seja eficaz. A infeção periprotésica, ocorre em torno de uma prótese articular, anca, joelho, ombro e é a mais frequente no meu trabalho. Pode surgir semanas após a cirurgia ou anos depois, muitas vezes com sinais subtis que passam despercebidos. Há sinais que médicos não ortopedistas devem reconhecer num doente com prótese, como uma cicatriz que não fecha bem ou que volta a abrir; dor persistente sem causa mecânica clara; valores inflamatórios (PCR, VS) cronicamente elevados; febre baixa recorrente sem foco óbvio. Qualquer destes deve motivar referenciação para avaliação especializada, não é necessário ser ortopedista para suspeitar. Já a infeção associada a fratura, ocorre após cirurgia de fixação de fraturas com placas, parafusos ou cavilhas. É frequentemente mais agressiva e de diagnóstico mais direto, mas igualmente dependente de cirurgia para controlo da infeção. A osteomielite, por sua vez, é a infeção do osso, com ou sem implante. Pode ser aguda ou crónica; a forma crónica é particularmente traiçoeira, pode estar silenciosa durante anos e reativar em qualquer momento. O tratamento destes cenários segue princípios comuns: o desbridamento cirúrgico radical, a colheita microbiológica rigorosa, a gestão do espaço morto, a estabilidade mecânica e antibioterapia dirigida e prolongada. A diferença está na sequência e nas especificidades de cada decisão, que dependem da presença ou ausência de implante, da cronicidade da infeção e do agente causador. Por essa razão, o tratamento nunca deve ser uma decisão isolada, requer obrigatoriamente uma equipa multidisciplinar que integre ortopedia, infecciologia e microbiologia e por vezes cirurgia plástica, medicina interna e outras especialidades. É essa articulação que determina o prognóstico. O GRIP (Grupo de Infeção Osteoarticular do Porto) apresenta-se como uma equipa multidisciplinar de referência nacional e internacional, com intervenção em infeção ortopédica e cirurgia de revisão protésica. Numa medicina que ainda funciona muitas vezes por especialidades isoladas, o que é que o trabalho em equipa muda, na prática, no destino clínico destes pacientes? As infeções osteoarticulares são frequentemente descritas como uma “epidemia silenciosa”, têm um impacto enorme na vida dos doentes e nos sistemas de saúde, mas raramente aparecem no discurso público. A mortalidade associada a uma infeção periprотésica ultrapassa os 20% aos cinco anos, um número que rivaliza com alguns dos cancros mais temidos. Isto por si só justifica uma abordagem tão estruturada e dedicada quanto a que existe em oncologia. A analogia com a oncologia não é casual. Tal como as decisões em oncologia são tomadas em consultas multidisciplinares e isso está provado que muda o prognóstico, o mesmo princípio aplica-se aqui. A infeção osteoarticular é complexa demais para ser gerida por um único especialista, por melhor que seja. Com uma equipa multidisciplinar dedicada o doente tem um plano único, coerente e personalizado, não opiniões fragmentadas de especialistas que raramente comunicam entre si. O papel de cada especialidade é insubstituível, o ortopedista lidera o processo e toma as decisões cirúrgicas; o infeciologista é determinante na escolha do antibiótico certo, na dose certa, durante o tempo certo, incluindo fármacos com atividade anti-biofilme; o microbiologista garante que as amostras são colhidas e processadas corretamente; o internista co-gere as comorbilidades do doente. No GRIP, cada caso é discutido em equipa semanalmente. As decisões cirúrgicas e antibióticas são interdependentes, o ortopedista não decide sozinho quando operar, e o infecciologista não decide sozinho quando parar o antibiótico. É trabalho de equipa real, não apenas consulta pontual entre especialistas. A evidência internacional confirma-o: estudos comparativos em vários países europeus demonstram que centros multidisciplinares dedicados alcançam taxas de cura superiores, com menos cirurgias, internamentos mais curtos e menor mortalidade. Em Portugal, esta realidade ainda é a exceção e não a regra, a maioria dos doentes é tratada de forma autónoma pelo cirurgião responsável, sem cooperação interdisciplinar sistemática. O GRIP foi criado precisamente para mudar este paradigma no nosso contexto. O modelo que defendemos prevê três níveis de cuidados: o ortopedista geral para infeções agudas que necessitam de tratamento urgente; equipas multidisciplinares para infeções subagudas e crónicas; e centros de referência para os casos mais complexos, com falências de tratamento prévio ou necessidade de reconstruções cirúrgicas de grande envergadura. Tudo isto permite ao doente não estar sozinho num processo longo, incerto e frequentemente assustador. Há uma equipa que acompanha, que comunica, e que toma decisões com base na melhor evidência disponível. Vivemos numa era de grande confiança na tecnologia, nos biomarcadores, nos protocolos e até em ferramentas de apoio à decisão. Até que ponto a inovação está realmente a mudar o diagnóstico e o tratamento das infeções associadas a próteses e implantes? Sim está a mudar, mas com nuance. A inovação está a mudar o diagnóstico mais rapidamente do que o tratamento, e é importante distinguir o que já é realidade do que ainda é promessa. Antes de falar de tecnologia, vale a pena reconhecer que criar uma equipa multidisciplinar dedicada exclusivamente a infeções osteoarticulares foi, em si mesmo, um ato de inovação no contexto português, numa área em que a norma continuava a ser cada médico tratar as suas próprias complicações de forma isolada. O GRIP foi pioneiro nesse modelo em Portugal, e continua a sê-lo. A nível de inovação diagnóstica, os novos biomarcadores no líquido sinovial, como a PCR sinovial, a adenosina deaminase e a alfa-2-macroglobulina, melhoram significativamente a capacidade de confirmar ou excluir infeção antes da cirurgia, com testes simples e acessíveis que o nosso grupo ajudou a validar e a implementar. A sonicação de implantes removidos permite libertar e identificar bactérias em biofilme que as culturas convencionais não conseguem detetar, especialmente relevante quando o doente já foi medicado com antibióticos antes da colheita. As técnicas de sequenciação genética vão ainda mais longe, identificam o agente causador mesmo em culturas negativas. Participamos em estudos que exploram estas tecnologias no contexto clínico real. O estudo SOLARIO, em que o GRIP participa, investiga precisamente quanto tempo de antibiótico é realmente necessário, uma questão aparentemente simples, mas com implicações enormes para os doentes e para a resistência antimicrobiana. No tratamento, a cirurgia continua a ser indispensável na grande maioria dos casos. Não há antibiótico que substitua a remoção cirúrgica do biofilme, isso não mudou, e é importante dizê-lo claramente. Os modelos preditivos baseados em IA conseguem hoje identificar, antes da cirurgia, quais os doentes com maior risco de falência do tratamento. Na imagiologia, os algoritmos de IA auxiliam já na deteção precoce de sinais subtis de infeção. Mas há um benefício da IA que raramente se discute e que me parece igualmente importante: a capacidade de reduzir a carga administrativa e burocrática que hoje consome uma parte desproporcional do tempo do médico, como os registos, relatórios, pesquisa de informação clínica, preparação de consultas. Recuperar esse tempo não é um ganho de eficiência abstrato. É tempo devolvido ao que verdadeiramente importa: estar presente na consulta, explicar um diagnóstico difícil com calma, ouvir o doente e a família, acompanhar um percurso que é frequentemente longo e assustador. A tecnologia, bem utilizada, pode devolver essa presença. No caso das próteses articulares, fala-se pouco do medo de complicações, da recuperação longa e do impacto psicológico de uma infeção ou de uma revisão cirúrgica. A ortopedia ainda subestima a dimensão emocional destes percursos? Honestamente, sim e não é exclusivo da ortopedia. A medicina em geral ainda trata muito o órgão e pouco a pessoa. A pressão assistencial, a escassez de tempo e a cultura de objetividade clínica que nos é incutida desde a formação contribuem para isso. Mas na minha área de atuação específica, esta dimensão é particularmente crítica e ignorá-la tem consequências reais no tratamento. Os doentes que chegam ao GRIP não são, na maioria dos casos, doentes de primeira linha. São frequentemente pessoas que já passaram por uma ou várias cirurgias, que viram o seu problema complicar quando esperavam uma solução, que perderam mobilidade, autonomia e qualidade de vida, e que chegam à nossa consulta com expectativas destruídas e, muitas vezes, com profunda desconfiança no sistema. Tratar esta desconfiança é parte do tratamento. Um doente que não compreende o que se passa, que não confia na equipa ou que não acredita que existe um plano, tem piores resultados, isso não é intuição, há evidência que o suporta. O impacto psicológico de uma infeção periprоtésica é enorme: ansiedade, depressão, isolamento social, perda de autonomia, medo do futuro. E um percurso que pode durar meses ou anos exige acompanhamento emocional, não apenas técnico. A minha função não é apenas resolver a infeção. É sentar-me com o doente e a família, explicar o que está a acontecer em linguagem que faz sentido para eles, ser honesto sobre o que é possível e o que não é, e garantir que não se sentem sozinhos. É precisamente aqui que a ligação com o que disse sobre inteligência artificial se torna concreta. Se a tecnologia me liberta de tarefas administrativas e burocráticas, esse tempo é investido aqui. Na consulta, na conversa difícil, no acompanhamento que a pressão assistencial tende a eliminar, mas que, nesta área, é insubstituível. A comunicação clara, honesta é parte integrante do tratamento. E uma equipa multidisciplinar como o GRIP tem também esta vantagem, o doente não depende apenas de uma pessoa. Há uma rede de profissionais que o acompanha, e isso por si só é tranquilizador. Também disponibiliza segunda opinião médica especializada para patologia do joelho e casos cirúrgicos. Num tempo em que os doentes chegam à consulta carregados de informação, medo e, por vezes, opiniões contraditórias, quando é que procurar uma segunda opinião deixa de ser hesitação e passa a ser um ato de responsabilidade? A segunda opinião tem má fama, é frequentemente interpretada como desconfiança no médico ou como hesitação do doente. Não é nenhuma das duas coisas quando bem enquadrada. É um ato de responsabilidade sempre que haja dúvida genuína sobre o diagnóstico, sobre a indicação cirúrgica, ou sobre os resultados após uma cirurgia que não correu como esperado. Há situações concretas que a justificam, como a dor persistente após artroplastia sem explicação clara; a proposta de nova cirurgia de revisão sem investigação prévia aprofundada; a suspeita de infeção que não está a ser investigada de forma estruturada; ou simplesmente a sensação de que não há um plano coerente. Quero desmistificar dois equívocos que persistem, um do lado do doente, outro do lado dos médicos. Quando um médico refere um doente para uma segunda opinião especializada, não o está a despachar nem a lavar as mãos do problema. Está a fazer precisamente o oposto, está suficientemente preocupado com aquele doente para reconhecer que existe uma equipa com diferenciação específica que pode dar uma resposta melhor. É um ato de cuidado, não de abandono. Do lado dos médicos, ainda persiste em alguns colegas a ideia de que não se deve referenciar as próprias complicações para outro médico, que isso seria embaraçoso ou uma admissão de falha. Esta ideia prejudica os doentes. Nós existimos precisamente para dar essa resposta, e ficamos genuinamente satisfeitos quando os colegas confiam em nós para ajudar. No GRIP, na esmagadora maioria dos casos, mantemos uma ligação regular com o médico referenciador, mantemo-lo informado sobre a evolução do doente e sobre as decisões que vamos tomando. Nunca criticamos o trabalho feito anteriormente, acreditamos que cada colega fez o melhor que conseguiu com os meios e o conhecimento que tinha disponíveis. O que nós temos é um grau de diferenciação muito específico numa área muito particular, construído ao longo de anos de dedicação exclusiva e volume de casos que a maioria dos serviços não consegue acumular. Esta parceria entre o médico referenciador e uma equipa especializada é o modelo que defendemos para o futuro da organização dos cuidados em Portugal, semelhante ao que já existe em oncologia e noutros países europeus. Para o doente, há ainda uma dimensão emocional relevante: muitos dos que chegam à nossa consulta referem que foi a primeira vez que sentiram que alguém ouviu o seu problema com atenção, sem pressa e com um plano. Isso por si só tem valor terapêutico. Na era da informação online, o problema não é o excesso de informação, é a falta de contexto para a interpretar corretamente. A segunda opinião especializada dá exatamente isso: contexto, clareza e um caminho. Quando olha para o futuro da ortopedia, especialmente nas áreas do joelho e da infeção osteoarticular, o que é que acredita que vai mudar mais nos próximos anos: a precisão do diagnóstico, a personalização do tratamento, a organização das equipas ou a forma como o próprio doente participa nas decisões? Tudo vai mudar, mas a velocidades diferentes, e é importante ter expectativas realistas sobre o que a inovação pode e não pode fazer. O diagnóstico vai ser o mais transformado, com biomarcadores cada vez mais precisos, sequenciação genética acessível na prática clínica corrente, e inteligência artificial aplicada à imagiologia e à análise de dados clínicos vão permitir identificar infeções mais cedo, com mais certeza e com menos intervenções desnecessárias. O tratamento vai tornar-se mais personalizado, com antibioterapia ajustada ao perfil genómico da bactéria e às caraterísticas específicas do doente, implantes com propriedades antibacterianas incorporadas, e regimes cirúrgicos cada vez mais refinados com base em evidência acumulada por grupos como o nosso. A organização dos cuidados vai ter de evoluir, com centros de referência especializados, com certificação, protocolos auditados e dados registados de forma sistemática, à semelhança do que existe em oncologia e do que já acontece noutros países europeus. Em Portugal, este caminho está a começar, e o GRIP é parte dessa mudança. A inteligência artificial vai libertar tempo clínico da burocracia e devolvê-lo ao que realmente importa: estar presente com o doente, explicar, acompanhar, decidir em conjunto. Não é tecnologia pela tecnologia, é tecnologia ao serviço da medicina humana. A participação do doente é o fator mais subestimado de todos: um doente informado, que compreende o seu diagnóstico, que confia na equipa e que participa ativamente nas decisões, tem melhores resultados. Isso está documentado e é também uma responsabilidade nossa garantir que essa informação chega de forma clara e honesta. Gostaria de deixar uma mensagem final para os doentes: se têm uma prótese dolorosa, uma infeção associada a um implante, ou uma situação que não está a evoluir como esperavam, procurem uma equipa especializada. Não esperem. Quanto mais cedo chegarem, mais opções temos para ajudar. Confiem no processo, confiem na equipa, e não se isolem num percurso que não têm de fazer sozinhos. E também mensagem para os colegas médicos: referenciem sem hesitar. Estamos aqui para isso. Tratamos o doente como se fosse nosso, mantemos a ligação convosco, e devolvemo-lo com um plano claro. Não é concorrência, é colaboração. Dito isto, e com toda a honestidade: não fazemos milagres. Temos taxas de sucesso que nos orgulham e que a evidência sustenta, mas não há casos infalíveis nesta área. Há infeções muito difíceis, doentes muito fragilizados, e situações em que o melhor que conseguimos é controlar a doença e preservar qualidade de vida, não necessariamente curar. Essa honestidade faz parte do respeito que devemos a cada doente e é também o que distingue uma equipa séria de uma promessa fácil. Morada: Av. da Boavista 117, 4º Piso – Sala 409, Porto Contacto: 936 703 288 (Chamada para a rede móvel nacional) Facebook: Ricardo Sousa Ortopedia Instagram: @ricardosousaortopedia Site: ricardosousaortopedia.pt “Estar sempre bem não é sinónimo de estabilidade emocional. É, muitas vezes, mais uma forma de pressão” “A nova medicina estética defende a prevenção, a naturalidade e a qualidade da pele. O MF Signature Regeneration Program nasce desta nova visão”
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