OTORRINOLARINOLOGIA “Respirar bem é um pilar fundamental de saúde física, emocional e cognitiva“ By Revista Spot | Abril 2, 2026 Abril 2, 2026 Share Tweet Share Pin Email Respirar mal não é um detalhe. Dormir mal também não. E ouvir pior, viver com zumbidos, falar com esforço ou crescer com obstrução nasal crónica está longe de ser apenas um incómodo passageiro. Numa altura em que tantos sintomas persistentes continuam a ser banalizados, a Otorrinolaringologia assume um lugar cada vez mais central por tocar em dimensões decisivas da vida: sono, desenvolvimento, aprendizagem, equilíbrio, comunicação e bem-estar. É com esse olhar abrangente e atual que a otorrinolaringologista Sofia Sousa exerce a especialidade. Com formação em Portugal e no estrangeiro, contacto com diferentes realidades clínicas e uma sensibilidade particularmente apurada para a área pediátrica, alia exigência técnica, visão integrada e proximidade no acompanhamento. Nesta entrevista, ajuda-nos a perceber porque é que há sinais que não devem ser ignorados e como funções tão básicas como respirar, ouvir e dormir bem podem influenciar muito mais do que imaginamos. Quais são hoje as queixas que mais chegam ao seu consultório e o que é que isso revela sobre os hábitos e o estilo de vida atuais? Na minha prática clínica as situações que mais observo em idade pediátrica são sobretudo infeções respiratórias de repetição, com mais frequência a otite média aguda. Crianças com perdas auditivas com impacto negativo no desenvolvimento da linguagem, como também casos de obstrução nasal crónica associados a respiração oral, roncopatia e apneias do sono. Nos adultos, surgem cada vez mais queixas de zumbido, vertigem e alterações da voz. Mais do que sintomas isolados, estes sinais contam-nos uma história sobre o estilo de vida atual: vivemos mais tempo em ambientes fechados, com maior exposição a poluentes e alergénios, mais stress, mais problemas de voz num tempo em que estamos constantemente a comunicar, uso excessivo de auriculares, sobrecarga auditiva e zumbido. E há algo que se repete e me preocupa é a tendência para normalizar. Normaliza-se a criança que “respira sempre pela boca”, o adulto com “nariz sempre entupido” ou a rouquidão que “há-de passar”. Mas quando um sintoma persiste, deixa de ser um episódio e isso deve merecer a nossa atenção. Na infância, isto é particularmente importante. Uma criança que não respira bem também não dorme bem, e isso pode refletir-se no crescimento, na aprendizagem, no comportamento e até na forma como o rosto cresce. E muitas vezes, o problema não é evidente à primeira vista. A mensagem que deixo é simples: não normalizar o que é persistente. Respirar bem, ouvir bem e dormir bem são funções básicas, mas quando estão comprometidas, afetam tudo o resto. E, na maioria dos casos, quanto mais cedo se intervém, mais simples é a solução. Muitas pessoas desvalorizam sintomas como nariz constantemente entupido, zumbidos, rouquidão persistente ou tonturas. Que sinais de alerta nunca devem ser ignorados e exigem avaliação por um especialista? É muito comum desvalorizar sintomas “pequenos”, sobretudo quando vão e voltam ou quando já fazem parte da rotina. Alguns sintomas, quer pela sua persistência, quer pela sua intensidade, não devem ser ignorados e justificam avaliação pelo otorrinolaringologista. Nariz entupido todos os dias. A obstrução nasal crónica não é “normal”, pode estar associada a alergias, alterações anatómicas como o desvio do septo, pólipos nasais, sinusite crónica. Quando dura mais de três meses ou compromete o sono e a respiração, deve ser investigada. O zumbido não é apenas um incómodo, pode ser um sinal de perda auditiva, exposição excessiva ou prolongada a ruído, problemas vasculares ou até problemas no ouvido interno. Se é contínuo, se interfere com o sono ou se aparece de forma súbita, deve motivar uma observação. Rouquidão que dura mais de três semanas. Profissionais que utilizam a voz como instrumento de trabalho, têm maior risco de desenvolver lesões, mas qualquer pessoa pode sofrer inflamação ou alterações nas cordas vocais. Rouquidão prolongada pode estar relacionada com refluxo, nódulos, pólipos ou, em casos mais raros, lesões mais sérias. Persistindo, merece sempre avaliação. Tonturas incapacitantes, vertigens com náuseas, desequilíbrio ao andar ou episódios que se repetem não devem ser atribuídos apenas a “stress”. O ouvido interno é um dos grandes responsáveis pelo equilíbrio, e alterações nessa área precisam de diagnóstico. Perda auditiva, mesmo que leve ou gradual. Muitos adultos ajustam-se à perda de audição sem perceberem. Mas atrasar o diagnóstico dificulta o tratamento e pode impactar a vida social, profissional e emocional. Ressonar, pausas respiratórias durante o sono ou sono não reparador. Estas alterações podem indicar apneia do sono, uma condição com impacto direto na saúde cardiovascular, no metabolismo e na qualidade de vida. A mensagem essencial é simples, se um sintoma persiste, incomoda, limita a rotina ou surge de forma repentina, desse ser avaliado. Na Otorrinolaringologia, o diagnóstico precoce faz toda a diferença, não só para tratar, mas para evitar que pequenas queixas se transformem em grandes problemas. Tem abordado a relação entre respiração, fala e mastigação nas crianças. De que forma uma criança que respira mal pode ver o seu desenvolvimento global afetado, muitas vezes sem os pais se aperceberem disso de imediato? A respiração é um dos grandes pilares do desenvolvimento infantil e, paradoxalmente, um dos mais ignorados. Quando uma criança respira mal, especialmente de forma crónica, o impacto não fica apenas pelo nariz entupido ou pelo cansaço, estende-se à fala, ao sono, ao comportamento, ao crescimento facial e até ao rendimento escolar. Muitas vezes, os pais não percebem de imediato porque os sinais são subtis e surgem lentamente. Mas a respiração oral crónica, por exemplo, pode desencadear uma série de adaptações que alteram a forma como a criança cresce, comunica e se relaciona com o mundo. Interfere com o desenvolvimento facial e dentário. Quando uma criança respira pela boca, a posição da língua muda e toda a musculatura facial se adapta. Com o tempo, isso pode levar a alterações na mordida, palato mais estreito, má oclusão e até diferenças na estética facial. Muitas destas mudanças só são reconhecidas anos depois. Impacto na qualidade do sono. Respirar mal significa dormir pior. E um sono fragmentado, mesmo sem a criança acordar completamente, traduz-se em irritabilidade, falta de concentração, maior impulsividade e dificuldade de aprendizagem. Muitas vezes, uma criança “agitada” durante o dia está simplesmente… cansada. Atrasos ou alterações na fala. A posição da língua, a tonicidade muscular e a coordenação orofacial dependem diretamente de uma boa respiração nasal. Crianças que respiram pela boca podem ter mais dificuldade com determinados sons, articulação menos precisa ou um discurso mais “nasalado”. Mastigação e alimentação. Respiração oral também interfere com a forma como a criança mastiga. Uma mastigação pouco eficiente ou unilateral pode afetar o desenvolvimento dos maxilares. Além disso, uma mastigação pouco eficaz aumenta o risco de engasgamento e pode tornar mais difícil a aceitação de novas texturas e alimentos, algo que os pais interpretam como “seletividade”, quando, na verdade, é uma consequência direta da má respiração. Maior predisposição para infeções. O nariz é o nosso filtro natural. Quando não funciona, as vias respiratórias ficam mais expostas, aumentando episódios de otites, rinites e sinusites. Impacto emocional e comportamental. Crianças cansadas, que respiram mal, ficam mais irritadas, menos pacientes e mais vulneráveis a dificuldades na escola, o que afeta autoestima e comportamento. A grande mensagem que quero transmitir é que a respiração não é apenas um ato automático, é uma base para o crescimento saudável. Observar como a criança dorme, mastiga, fala e respira pode revelar muito sobre o seu desenvolvimento global. Quais são os erros mais comuns que os pais cometem perante episódios repetidos de otite e quando é que deixa de ser “normal” e passa a merecer uma investigação mais aprofundada? As otites continuam a ser um dos motivos de maior preocupação na infância e, compreensivelmente. São dolorosas, afetam o sono, deixam as crianças mais irritadas e, quando se tornam frequentes, geram grande ansiedade nos pais. Ainda assim, há alguns erros comuns que podem aumentar o risco de repetição dos episódios ou atrasar o diagnóstico correto. Um dos erros mais frequentes é interromper o tratamento demasiado cedo. Quando a criança começa a melhorar, muitos pais tendem a suspender a medicação antes do tempo recomendado, o que pode fazer com que a inflamação não fique totalmente resolvida e a otite reapareça pouco depois. Outro erro comum é ignorar o nariz constantemente entupido. A maioria das otites tem origem precisamente na disfunção da trompa de Eustáquio (canal que liga o nariz ao ouvido) associados a constipações, alergias ou “ranhos” persistentes. Tratar apenas o ouvido sem tratar o nariz é resolver apenas metade do problema. Também é frequente que os pais assumam que toda a dor de ouvido é uma nova otite, quando nem sempre é o caso. Há dores referidas, desconforto ligado aos dentes, às amígdalas, ou até a pressão exercida pelo uso contínuo de auscultadores podem ser confundidos com otite. Mas afinal, quando é que deixa de ser “normal”? Considera-se que é importante iniciar uma investigação mais aprofundada quando a criança apresenta três ou mais episódios de otite em seis meses, ou quatro ou mais num ano. Outros sinais de alerta incluem: otite com efusão (“liquido no ouvido médio”) que persiste por mais de três meses; perda auditiva, mesmo que leve; atraso na fala ou dificuldade na comunicação; impacto no sono, no comportamento ou no rendimento escolar; sintomas que regressam sempre que a criança volta a ter constipações ou alergias. Nestes casos, pode existir um fator predisponente, como a hipertrofia de adenoides, alergias, alterações anatómicas ou inflamação crónica, que merece ser identificado e tratado. A boa notícia é que, com o acompanhamento certo e alguns cuidados simples, é possível reduzir o número de otites e melhorar muito o conforto e bem-estar da criança. Informação, vigilância e apoio médico são as melhores ferramentas para que estas situações deixem de ser um drama e passem a ser apenas mais um desafio comum da infância. A rinite alérgica e não alérgica é muitas vezes banalizada, mas pode ter impacto no sono, na aprendizagem, na energia e na qualidade de vida. Porque continua a ser tão subvalorizada e o que falta para ser encarada com maior seriedade? A rinite é uma das doenças respiratórias mais comuns e, paradoxalmente, uma das mais subvalorizadas. Talvez por não ser dramática, por não “doer” ou por ser associada a algo sazonal e passageiro, muitas pessoas convivem com nariz entupido, espirros, comichão e congestão como se fosse apenas um incómodo inevitável. Mas a verdade é que a rinite pode ter impacto profundo no sono, na aprendizagem, na energia e até no humor. Continua a ser tão subvalorizada, porque os sintomas surgem de forma gradual e a pessoa vai se “habituando ao mal-estar”. Habitua-se a respirar pior, dormir pior, concentra-se pior… mas a rotina continua. Os pais também tendem a normalizar o “nariz sempre entupido” nas crianças, atribuindo-o a constipações frequentes, quando muitas vezes é rinite não tratada. Além disso, há a ideia errada de que “é só alergia”, como se alergia não tivesse peso clínico real. O que falta para a rinite ser levada mais a sério? Falta sobretudo consciência do impacto real na qualidade de vida. A rinite não tratada fragmenta e diminui a qualidade do sono; interfere com a oxigenação e com o ritmo respiratório; reduz a concentração e o rendimento escolar/profissional; favorece respiração oral, alterações faciais e problemas na mastigação em crianças; aumenta o risco de sinusites, otites e complicações associadas; pode agravar crises de asma. Quando se entende que a rinite não é apenas um desconforto nasal, mas uma condição inflamatória crónica com repercussões no corpo inteiro, o olhar muda. O que falta, no fundo, é informação e valorização do bem-estar respiratório. Respirar bem é um requisito básico para viver bem, quando o nariz não funciona, tudo o resto funciona pior. Tratar a rinite é investir em energia, concentração, crescimento saudável e qualidade de vida. Uma das vantagens de trabalhar num Hospital como o Trofa Saúde Gaia é que trabalhamos numa lógica multidisciplinar, e por isso os doentes são referenciados entre as diferentes especialidades médicas procurando sempre a melhor resposta para quem nos procura. A rinite é um dos exemplos que beneficia com a estreita articulação entre a Imunoalergologia, Pneumologia, MGF e Otorrinolaringologia, as nossas equipas médicas sabem como e quando referenciar entre si a cada momento. Numa era em que se fala tanto de cansaço, irritabilidade e falta de concentração, até que ponto problemas respiratórios, obstrução nasal ou perturbações do sono podem estar por trás de sintomas que muitos atribuem apenas ao stress? Vivemos o momento em que quase tudo é explicado pelo “stress”, o cansaço que não passa, a irritabilidade sem motivo aparente, a dificuldade em manter o foco. Mas, muitas vezes, o corpo tenta dar sinais de que algo mais está a acontecer e nem sempre olhamos para o lado certo. Problemas respiratórios, como obstrução nasal crónica, alergias mal controladas, rinossinusite crónica ou mesmo perturbações do sono, são causas muito mais comuns do que se imagina para sintomas que muitos adultos já consideram “normais”. A verdade é que respirar mal cansa. O corpo trabalha mais para garantir o mesmo aporte de oxigénio e isso reflete-se no humor, na energia e até na produtividade. A má qualidade do sono, por sua vez, está diretamente ligada a dificuldade de concentração, irritabilidade, baixa tolerância ao quotidiano e sensação de cansaço permanente. E não falamos apenas de problemas graves. Algo tão simples como congestão nasal pode ser suficiente para fragmentar o sono e comprometer o descanso. No dia seguinte, é natural que a pessoa se sinta mais lenta, menos tolerante e com dificuldade em se manter concentrado. Por isso, quando estes sintomas se tornam frequentes ou começam a afetar a qualidade de vida, é importante olhar além do stress e considerar uma avaliação respiratória ou do sono. Em muitos casos, melhorar a respiração muda completamente a forma como se vive o dia a dia: a energia sobe, o humor estabiliza, a produtividade aumenta e o sono ganha qualidade. Respirar bem é um pilar fundamental de saúde física, emocional e cognitiva, tantas vezes esquecido. A vertigem e os distúrbios do equilíbrio têm impacto em quem os sente. Como distinguir uma tontura passageira de um problema que pode ter origem no ouvido interno e que exige avaliação especializada? A vertigem e os distúrbios do equilíbrio têm um impacto emocional enorme. Mesmo quando duram apenas alguns segundos, a sensação de que “o mundo está a rodar” ou que o chão está instável, gera ansiedade e leva as pessoas a temerem algo mais grave. Mas nem toda a tontura tem a mesma origem, e distinguir um episódio passageiro de um problema que precisa de avaliação especializada é essencial. Uma tontura passageira costuma surgir em situações pontuais: levantar-se demasiado rápido, longos períodos sem comer, desidratação, calor excessivo ou uma descida momentânea da tensão arterial. São episódios rápidos, que melhoram ao sentar, beber água ou descansar um pouco. Não se repetem com frequência e, sobretudo, não vêm acompanhados de outros sintomas auditivos ou neurológicos. Já quando a tontura tem origem no ouvido interno, onde estão os nossos sensores de equilíbrio, os sinais tendem a ser diferentes e mais marcados. A chamada vertigem verdadeira provoca a sensação de que tudo roda ou se desloca à nossa volta, frequentemente acompanhada de náuseas, vómitos, suores frios ou dificuldade em manter o equilíbrio. Pode surgir após movimentos da cabeça, durar minutos a horas e deixar a pessoa completamente prostrada. Outro sinal de alerta, é a presença de sintomas associados, como perda auditiva ou sensação de ouvido tapado, zumbidos, pressão ou desconforto num dos ouvidos. Nestes casos, é mais provável estarmos perante um problema vestibular, como vertigem paroxística posicional benigna (vulgarmente conhecida como vertigem dos cristais), labirintite, neuronite vestibular ou doença de Ménière, situações que justificam claramente de uma avaliação especializada. Uma regra simples ajuda a orientar. Se a tontura é intensa, repetida, incapacitante ou vem acompanhada de sintomas no ouvido, deve ser avaliada. Se provoca quedas, insegurança ao andar e não melhora ao longo dos dias, não deve ser ignorada. Na maioria dos casos existe tratamento eficaz e, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais rápida é a recuperação e menor o impacto na qualidade de vida. O zumbido é uma queixa cada vez mais frequente. Estamos a viver pior com o ruído, com os auscultadores e com a sobrecarga sensorial do dia a dia? Que conselhos considera essenciais para proteger a audição a longo prazo? O zumbido tornou-se, de facto, uma queixa cada vez mais presente nas consultas. E não é por acaso. Vivemos rodeados de ruído, muitas vezes de forma contínua e quase invisível: trânsito, obras, espaços comerciais barulhentos, auscultadores sempre ligados, notificações digitais a toda a hora e um ritmo de vida que raramente permite silêncio. Os auscultadores, em particular, usados durante horas para trabalhar, treinar, fazer chamadas ou simplesmente “desligar do mundo”, tornaram-se um dos maiores responsáveis pelo aumento do zumbido nas camadas mais jovens. A combinação de volume elevado, uso prolongado e falta de pausas cria um ambiente de stress contínuo para o ouvido interno. Tudo isto vai contribuindo para uma sobrecarga das células sensoriais do ouvido interno, que ao longo dos anos, pode traduzir-se em perda auditiva e aparecimento de zumbido. Há também um componente emocional importante, vivemos num ritmo acelerado, e o zumbido tende a agravar-se com stress, ansiedade e noites mal dormidas. A boa notícia é que há muito que podemos fazer para proteger a audição a longo prazo. Pequenos gestos do dia a dia podem fazer uma diferença real. Começa logo no volume dos auscultadores: há uma regra simples que ajuda a perceber quando está demasiado alto, se outra pessoa consegue ouvir a música sem estar a usar os auscultadores, o som já ultrapassou o ideal. Sempre que possível, o melhor é manter o volume abaixo dos 60% da capacidade máxima. Também é importante dar descanso aos ouvidos. Usar auscultadores durante muitas horas seguidas aumenta o risco de dano auditivo, por isso faz sentido fazer pausas regulares, por exemplo de 10 minutos por cada hora de utilização. Além disso, convém evitar exposições prolongadas a ruído intenso, como acontece em concertos, discotecas ou ginásios com música muito alta. Quando isso não é possível, os protetores auriculares são uma forma eficaz de reduzir o impacto do ruído. Escolher auscultadores de qualidade, idealmente com cancelamento de ruído, também ajuda, sobretudo em transportes públicos ou ambientes muito concorridos, porque permite ouvir bem sem necessidade de aumentar demasiado o volume. Ao mesmo tempo, é importante tratar atempadamente problemas auditivos e nasais, já que otites mal resolvidas, alergias ou obstrução nasal podem contribuir para o aparecimento de zumbido. Tal como se vigia a visão ou a tensão arterial, a audição também merece atenção regular, sobretudo em pessoas que vivem ou trabalham expostas a ruído no dia a dia. E não menos importante é o descanso geral do organismo: dormir bem, gerir o stress e reduzir os estímulos ao final do dia são medidas que ajudam diretamente a diminuir a hipersensibilidade auditiva. Proteger a audição não é apenas evitar o zumbido, é preservar a qualidade da nossa comunicação, relações e bem-estar. Pequenas mudanças hoje podem evitar problemas irreversíveis amanhã e devolver algo que faz cada vez mais falta: silêncio e clareza no meio do ruído do quotidiano. Também acompanha áreas como a voz e a laringe. Num tempo de exposição constante, chamadas, reuniões, redes sociais e profissões de grande exigência vocal, estamos a cuidar mal da voz? Que hábitos a estão a prejudicar silenciosamente? A voz tornou-se mais do que nunca, uma ferramenta central do nosso dia a dia. Entre chamadas intermináveis, reuniões virtuais, apresentações, vídeos nas redes sociais e profissões que dependem da comunicação constante, estamos a usar a voz de forma intensa… mas nem sempre de forma saudável. A verdade é que estamos a cuidar pouco da voz, muitas vezes por desconhecimento. E são exatamente os pequenos hábitos, aqueles quase invisíveis, que mais a prejudicam ao longo do tempo. Alguns hábitos silenciosos prejudicam a voz sem que nos apercebamos Falar demasiado alto, sobretudo em ambientes barulhentos como escritórios, ginásios ou ruas movimentadas, obriga a um esforço constante que cria tensão nas cordas vocais. O mesmo acontece quando a voz é usada durante muitas horas sem pausas, algo frequente em professores, cantores, formadores, vendedores e outros profissionais que dependem dela para trabalhar. Esse uso contínuo vai provocando uma fadiga vocal acumulada que nem sempre é valorizada a tempo. Há também gestos que parecem inofensivos, mas que são agressivos para a voz, como pigarrear ou limpar a garganta repetidamente, já que esse movimento favorece a irritação e a inflamação. A desidratação é outro fator importante. Ambientes climatizados, tanto no verão como no inverno, deixam a mucosa das cordas vocais mais seca e vulnerável, e beber pouca água agrava ainda mais essa fragilidade. Falar durante constipações, crises alérgicas ou episódios de refluxo também é um erro frequente, porque nessa fase as cordas vocais já estão inflamadas e o esforço adicional pode aumentar o risco de lesões. A isso soma-se ainda o uso prolongado de auscultadores e o multitasking vocal: falar ao telefone enquanto se caminha, se cozinha ou se trabalha com ruído de fundo leva muitas vezes a elevar a voz sem dar conta, aumentando a sobrecarga. Para quem usa a voz como instrumento de trabalho, há ainda um cuidado muitas vezes esquecido: a necessidade de aquecer e desacelerar a voz. Tal como um atleta prepara e recupera o corpo, a voz também beneficia muito de exercícios simples antes e depois de um uso mais intenso. O resultado de todos estes hábitos pode ser rouquidão persistente, fadiga vocal e, em casos mais graves, lesões nas cordas vocais. A boa notícia é que, com hidratação adequada, pausas regulares, atenção à postura, diminuição do volume quando possível e acompanhamento especializado quando necessário, é possível proteger a voz e prolongar a sua qualidade ao longo da vida. No fundo, a voz é um instrumento precioso que usamos para trabalhar, comunicar e nos relacionarmos. Cuidar dela é cuidar de nós. Se tivesse de deixar uma mensagem simples, mas transformadora, para que as pessoas cuidassem melhor da sua saúde otorrinolaringológica, em adultos e crianças, qual seria? Respirar bem, ouvir bem e dormir bem não são luxos, são os pilares silenciosos da nossa qualidade de vida, quando falham, afetam tudo. Cuidar do nariz, dos ouvidos, da voz e do sono, em adultos e crianças, é no fundo, cuidar da energia com que vivemos, da forma como nos relacionamos e do nosso bem-estar diário. Não normalizar sintomas persistentes. Cuidar cedo é sempre mais simples do que tratar tarde. Que momentos, escolhas ou áreas de formação foram mais decisivos para construir a visão abrangente com que hoje olha para a Otorrinolaringologia? Ao olhar para o meu percurso, houve vários momentos e escolhas que foram verdadeiramente estruturantes na forma abrangente como hoje encaro a Otorrinolaringologia, não apenas como uma especialidade cirúrgica, mas como uma área profundamente humana e integrada. A escolha da especialidade não foi feita de forma súbita. Desde cedo, durante a formação na Faculdade de Medicina de Lisboa, senti uma forte atração pelas especialidades cirúrgicas. A Otorrinolaringologia destacou-se por reunir essa vertente técnica com uma enorme diversidade clínica, permitindo acompanhar o doente em diferentes fases da vida. Desenvolvi a minha tese de mestrado na área, fui percebendo que me identificava com esta especialidade pela sua precisão, mas também pela proximidade com o doente. Um momento particularmente decisivo foi o estágio de Otorrinolaringologia, durante o ano comum. A qualidade do serviço, a liderança inspiradora e o espírito de equipa que encontrei tiveram um impacto profundo na minha escolha. Foi aí que percebi o tipo de médica que queria ser e o ambiente profissional onde me revia. Os estágios que realizei, tanto em Portugal como no estrangeiro, foram também fundamentais para alargar horizontes. O estágio no House Ear Clínic em Los Angeles, o estágio no Instituto Paraneanse de Otorrinolaringologia em Curitiba, o contacto com realidades distintas no IPO- Porto e o estágio em otorrinolaringologia pediátrica no Hospital Dona Estefânia, enriqueceram não só o meu conhecimento técnico, mas também a minha sensibilidade cultural e clínica. Trouxeram-me diferentes perspetivas sobre a prática médica, a organização dos serviços e, sobretudo, sobre a relação com o paciente. Ser mãe de duas crianças trouxe-me uma sensibilidade diferente, sobretudo na área pediátrica. Hoje, não vejo apenas a criança, vejo a família, o contexto, as emoções envolvidas. Isso mudou a forma como comunico, como explico e como acompanho. O meu dia a dia também é muito marcado pelo trabalho em equipa e por uma rede multidisciplinar que me permite olhar para cada pessoa de forma integrada e personalizada. No fundo, a minha forma de olhar para a Otorrinolaringologia nasce deste equilíbrio entre rigor técnico, experiências que me desafiaram e uma dimensão humana que se foi tornando cada vez mais central, dentro e fora da medicina. Instagram: @dra.sofia_sousa LinkedIn: Sofia Almeida Sousa Marcações: trofasaude.pt/gaia/corpo_clinico/sofia-sousa-dra/ “Um banco de leite materno pode salvar vidas. Existem atualmente dois em Portugal” “Ensinar profissionais de diferentes países mostrou-me que, apesar de toda a inovação tecnológica, a boa ortodontia continua a não admitir atalhos”
Cirurgia / OTORRINOLARINOLOGIA “Há quem passe anos habituado ao cansaço, ao sono fragmentado e à falta de energia, até descobrir o que é voltar a respirar bem” Respirar tornou-se, para muitas pessoas, uma dificuldade silenciosa, normalizada durante anos, escondida atrás de frases como “é só rinite”, “sempre…
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