Saúde Infantil “A relação da criança com a comida começa muito antes da primeira colher” By Revista Spot | Abril 8, 2026 Abril 8, 2026 Share Tweet Share Pin Email A alimentação infantil é, muitas vezes, lida à superfície. Mas, por trás de uma textura que desencadeia rejeição ou de uma refeição vivida em tensão, há quase sempre uma história mais complexa para compreender. Ilana Fux, Nutricionista Pediátrica especializada em autismo, PHDA, síndromes e seletividade alimentar, dedica-se precisamente a ler esses sinais com profundidade e sem simplificações. O seu percurso, que inclui também experiência em maternidade, neonatologia, banco de leite e nutrição na gravidez, reforça uma ideia central: a alimentação infantil começa cedo e não pode ser pensada de forma isolada. Entre a introdução alimentar, a seletividade, a obesidade infantil, a microbiota e os desafios do neurodesenvolvimento, defende uma nutrição mais individualizada, preventiva e integrativa. Nesta conversa, convida-nos a olhar para a mesa da infância como um espaço onde também se constroem saúde, vínculo, autonomia e segurança. Até que ponto a relação da criança com a comida começa muito antes da colher, ainda na gravidez, no aleitamento e nos primeiros meses de vida? Realmente, a alimentação infantil inicia-se antes do nascimento. Os estudos mostram que as preferências alimentares são influenciadas pela alimentação materna, tanto pela alteração do sabor através da placenta, que faz com que a criança já tenha experiência com sabores diversos, assim como por alterações epigenéticas na criança, ou seja, na expressão de genes que alteram as preferências alimentares, a composição corporal e até predisposições para doenças crónicas. O aleitamento materno também tem impacto nestas questões pelos mesmos motivos, tendo ainda um papel fundamental no sistema imunitário da criança. Hoje, muitos pais chegam à consulta depois de horas de pesquisa online. Sente que um dos grandes desafios atuais da nutrição infantil já não é apenas orientar, mas também desmontar ruído, recentrar prioridades e devolver tranquilidade às famílias? A internet e as redes sociais trouxeram muitos benefícios no acesso à informação, mas nem sempre as fontes são as mais adequadas e o excesso de informação também pode causar mais confusão. Uma vantagem é que os pais chegam à consulta mais questionadores, e temos oportunidade de explicar de forma mais aprofundada e fundamentada. Por outro lado, sinto que os pais estão com mais medo de errar e mais inseguros em situações corriqueiras da alimentação dos seus filhos, e na consulta precisamos de lhes devolver essa tranquilidade e segurança. A introdução alimentar continua a ser uma fase decisiva, mas também rodeada de ansiedade, comparação e excesso de regras. O que é que considera mais importante proteger nesse início: a nutrição, a autonomia da criança, a relação com a comida ou a tranquilidade dos pais? De preferência, todas elas. A introdução alimentar é realmente um momento muito stressante para os pais, e a primeira coisa é tranquilizá-los, para que o resto aconteça de forma leve. É preciso que os pais entendam que a introdução alimentar é um processo de aprendizagem e, portanto, deve ser divertido para a criança e para eles próprios. O foco não tem de estar no quanto a criança come, mas sim em oferecer oportunidades para explorar e conhecer os alimentos, criar uma boa relação com a comida e desenvolver competências. O comer é consequência. Mas claro que orientar sobre quais os melhores alimentos, texturas e cortes adequados faz parte do processo. A seletividade alimentar tornou-se um tema muito falado, mas continua, muitas vezes, a ser mal interpretado. Onde é que termina a fase expectável de uma criança “esquisita para comer” e onde é que começa um verdadeiro sinal de alerta? Apesar de muitas vezes a seletividade alimentar ser muito comum na primeira infância e ser um processo transitório, pode prolongar-se e até evoluir para um quadro mais sério. Quanto mais cedo esta família procura um profissional para a orientar, mais fácil será a resolução do problema. Alguns sinais podem servir de alerta: se a criança apresentar ganho de peso inadequado, dificuldade para fazer a evolução das texturas dos alimentos, excluir todos os alimentos de um grupo nutricional ou determinadas texturas, ou apresentar perturbações clínicas ou do desenvolvimento. À mesa, muitas famílias vivem hoje um desgaste silencioso, entre insistência, negociações, culpa, medo e estratégias de sobrevivência. O que é que vê mais frequentemente agravar a relação da criança com a comida sem que os pais se apercebam? Os pais de crianças com dificuldades alimentares normalmente sentem-se esgotados na tentativa de fazer o filho comer e acabam por alternar estratégias na esperança de que algo funcione. Às vezes usam a pressão, mesmo que insistindo apenas em mais uma colherada; outras vezes são mais permissivos e deixam que a criança escolha o que quer comer, mesmo que não sejam os alimentos mais adequados; e, noutros momentos, utilizam distrações com dispositivos eletrónicos para manter as crianças à mesa e fazê-las comer. E todas estas situações acabam por reforçar ainda mais essas dificuldades. No acompanhamento de crianças com autismo, PHDA e outras perturbações do neurodesenvolvimento, o que é que continua a ser mais ignorado por quem encara a alimentação de forma simplista, como se tudo se resolvesse com regras gerais ou “truques” universais? O primeiro ponto é que nenhuma criança é igual a outra, independentemente do diagnóstico, e, portanto, não existem receitas prontas para nenhuma delas. Outro ponto importante é que, à luz das pesquisas mais recentes, conseguimos perceber a relação direta da alimentação e nutrição no funcionamento cerebral, no eixo intestino cérebro, na microbiota intestinal, e na forma como o metabolismo e as necessidades nutricionais podem variar de acordo com o perfil genético. O seu trabalho toca também áreas como a síndrome de Down, a síndrome de Williams e síndromes raras. O que é que estas realidades mostram, de forma particularmente clara, sobre a necessidade de uma nutrição verdadeiramente individualizada e sobre os limites das abordagens padronizadas? Em síndromes genéticas, mesmo quando falamos de microdeleções ou duplicações, percebemos como isso impacta não só o cromossoma e os genes da área afetada, mas o organismo como um todo, numa reação em cadeia. Além do mais, mesmo em indivíduos com a mesma condição genética, encontramos situações clínicas muito diferentes umas das outras e não é possível uma conduta padronizada baseada somente no diagnóstico. Quando se fala de nutrição infantil, o debate centra-se muitas vezes na criança que “não come”. Mas há também a criança que come em excesso, come de forma desregulada ou já apresenta sinais de risco metabólico muito cedo. Sente que ainda falamos pouco de obesidade infantil com a seriedade, a prevenção e a sensibilidade que o tema exige? Sim. A obesidade é uma doença e tem que ser encarada como tal, e é um problema de saúde pública. A questão é que a obesidade infantil ainda é vista como uma fase, que passará quando a criança crescer. Porém os estudos mostram que uma criança obesa tem maior probabilidade de se tornar um adulto obeso e com complicações cardiometabólicas. A prevenção deve começar ainda na gravidez, quando o ganho de peso excessivo da grávida altera a expressão genética da criança predispondo-a à obesidade. Além disso, o aleitamento materno tem efeito protetor e deve ser estimulado. Já a fase de introdução da alimentação complementar, ensina sobre a escolha e aceitação de alimentos saudáveis e o desenvolvimento da relação positiva com a alimentação, que devem ser mantidas por toda a infância, com consumo de alimentos in natura, baixa ingestão de açúcares e alimentos ultraprocessados. Fala-se cada vez mais da ligação entre intestino, cérebro, comportamento, sono e regulação emocional. A sua experiência diz-lhe que estamos finalmente a olhar para a nutrição infantil de forma mais integrada ou ainda há demasiado entusiasmo pouco rigoroso à volta de conceitos como microbiota, inflamação e nutrição funcional? Esses conceitos ainda estão muito aquém do que deveriam ser falados, principalmente no que diz respeito à nutrição infantil. Assim como nos adultos, é preciso olhar para as crianças de forma mais integrativa, e propiciar-lhes o ambiente ideal para se desenvolverem de forma plena, com todo o seu potencial de saúde, neurodesenvolvimento, e regulação emocional. Para isso, torna-se cada vez mais importante valorizar e procurar uma abordagem individualizada e preventiva, que tenha em conta os aspetos nutricionais e emocionais, a qualidade do sono e a saúde no seu todo. Num tempo em que muitos pais chegam já focados em análises, défices, vitaminas e suplementos, como se distingue uma avaliação clínica séria da tentação de medicalizar em excesso a alimentação infantil ou de transformar qualquer dificuldade numa corrida a exames e suplementação? Pelo contrário, essa realidade ainda não chegou de forma tão significativa à nutrição infantil, e muitos pais ainda chegam à consulta sem nunca terem realizado análises aos seus filhos. Os exames não substituem uma avaliação clínica detalhada, mas são ferramentas fundamentais para uma avaliação mais completa e adequada em diversas situações. Hoje, com todo o conhecimento que temos da individualidade bioquímica, não é possível avaliar o real estado de saúde e nutrição da criança, pois não é só sobre o que a criança come, mas como ela faz a digestão e a absorção desses nutrientes e quais são as necessidades do seu organismo. A suplementação também entra na mesma lógica e apesar de não substituir a alimentação saudável, não deve ser vista como uma forma de medicalização, e sim como um apoio e adequação das necessidades nutricionais da criança. Além do mais, em quadros específicos como o PHDA por exemplo, alguns nutrientes e fitoterápicos podem ser utilizados com o intuito de melhorar os sintomas e reduzir o uso de medicações. Facebook: Nutricionista Ilana Fux Instagram: @nutricionistainfantil.pt Site: ilanafux.com “O que parece birra é, muitas vezes, uma criança em esforço” “Ser Cirurgião Pediátrico é operar sem nunca perder de vista o adulto que ali começa a formar-se”
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