SAÚDE “Rejuvenescer não devia significar descaraterizar” By Revista Spot | Abril 3, 2026 Abril 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Durante demasiado tempo, o corpo foi sendo dividido em especialidades, técnicas e respostas parciais, como se cuidar pudesse acontecer por compartimentos. Talvez por isso haja percursos que dizem mais do que um currículo. O de Liliana Sousa Valente começou na Fisioterapia, passou pela formação em Medicina na República Dominicana e encontrou, mais tarde, continuidade entre a Medicina Geral e Familiar e a Medicina Estética. Não como uma soma de áreas, mas como a construção de um olhar mais amplo sobre a pessoa. Um olhar que recusa a pressa, desconfia do excesso e que resiste à ideia de confundir beleza com padronização. Numa altura em que a Medicina Estética oscila entre a sofisticação clínica e a banalização nas redes sociais, Liliana Sousa Valente defende uma prática mais serena, ética e informada. Fala de envelhecimento, de naturalidade e de autoestima sem promessas fáceis. No fundo, acredita que a linguagem da Medicina é só uma e isso diz tudo. Fez inicialmente o curso de Fisioterapia, tirou Medicina, fez especialização em Medicina Geral e Familiar e formação em Medicina Estética. Em que momento percebeu que precisava de construir um percurso mais amplo e diferenciador? Percebi isso quando trabalhava como fisioterapeuta. Sentia que podia fazer mais pela saúde das pessoas, mas também pelo meu próprio bem-estar e realização profissional. Em Portugal, a formação em Fisioterapia é muito completa e exigente. Ainda assim, na minha perspetiva, a prática clínica nem sempre é devidamente reconhecida e valorizada, nomeadamente ao nível da remuneração. Foi de forma gradual que surgiu a curiosidade pela Medicina, precisamente por ser uma área que permite uma intervenção mais ampla na saúde e no bem-estar global do paciente. Essa vontade de evoluir como profissional levou-me a tomar a decisão de estudar Medicina na República Dominicana, fazer depois a especialidade de Medicina Geral e Familiar e, mais tarde, complementar o percurso com formação em Medicina Estética. Queria construir um caminho que refletisse uma visão mais completa da saúde de cada pessoa, sem ficar limitada a uma única perspetiva. O que é que a levou a formar-se e a trabalhar na área da Medicina Estética? Foram vários os motivos. Desde o início, senti-me atraída por ser uma área que conjuga conhecimento médico com uma dimensão artística, sempre aliada à ciência, à saúde e ao bem-estar. Tenho também um interesse particular pelo processo de envelhecimento e pela forma como a Medicina Estética pode ajudar a torná-lo mais leve, harmonioso e vivido com maior confiança. Além disso, é uma área em constante evolução, muito desafiante, com novas técnicas e tecnologias que permitem alcançar resultados cada vez mais naturais e seguros. É também, sem dúvida, um setor com elevada procura e com um grande potencial de crescimento, estabilidade e progressão profissional. Quando falamos de envelhecimento, defende uma abordagem mais serena, ética e informada. De que forma olha para este processo e qual pode ser o papel da Medicina Estética? Defendo uma abordagem que valorize a naturalidade, o cuidado informado e o respeito pela individualidade de cada pessoa. Envelhecer é um processo natural da vida, mas nem sempre é vivido de forma simples. Muitas vezes, implica uma aceitação difícil, porque traz mudanças não só no corpo, mas também na forma como nos vemos a nós próprios e como sentimos que somos vistos pelos outros. Vivemos numa sociedade que valoriza muito a juventude e a aparência, o que faz com que os sinais de envelhecimento sejam frequentemente encarados de forma negativa. Isso pode afetar a autoestima, a confiança e até a própria identidade. A Medicina Estética pode ter aqui um papel importante, ajudando a gerir e a lidar com o envelhecimento ao atenuar alguns dos seus sinais mais visíveis, como rugas, flacidez, perda de volume ou manchas na pele. Pode também ter uma vertente preventiva, com procedimentos que ajudam a preservar uma aparência natural e harmoniosa ao longo do tempo. Na consulta de avaliação, considero muito importante falar sobre o verdadeiro segredo da longevidade, que passa por preparar o envelhecimento desde cedo, mas também por trabalhar expectativas realistas, segurança e prevenção. Nunca atuo com promessas irreais. Tendo uma base sólida em Medicina Familiar, sente que ainda persiste a ideia errada de que a Medicina Estética vive desligada da Medicina? Sim, essa ideia ainda existe. Muitas pessoas continuam a associar a Medicina Estética apenas à aparência, quando, na realidade, se trata de uma área médica que exige conhecimentos sólidos de anatomia, fisiologia e patologia. Só essa base permite realizar procedimentos minimamente invasivos com segurança, rigor e foco não apenas na imagem, mas também na saúde física, no bem-estar psicológico, na autoestima e, consequentemente, na qualidade de vida do paciente. Um médico que trabalhe nesta área tem de estar preparado para avaliar doenças sistémicas, alergias, medicação habitual, antecedentes clínicos e outras condições que possam interferir com os tratamentos. Tem também de saber como atuar perante eventuais complicações. Sem essa formação médica global, não é possível garantir segurança nem resultados verdadeiramente adequados. No seu perfil, fala de “quiet beauty”. O que considera importante devolver à conversa pública sobre Medicina Estética? Acredito que a Medicina Estética deve valorizar o que cada pessoa já tem de melhor, em vez de transformar, exagerar ou padronizar. Num contexto em que as redes sociais muitas vezes promovem excessos, filtros e padrões irreais, é importante trazer esta conversa de volta para o terreno da ética, da ciência e da individualidade. A beleza, para mim, deve ser subtil, harmoniosa e respeitadora da identidade de cada rosto. O foco não deve estar na reprodução de tendências passageiras ou resultados artificiais, mas sim no bem-estar, na confiança e na naturalidade. É isso que faz sentido preservar. Hoje, uma das maiores necessidades parece ser a literacia estética. Que erros ou formas de desinformação encontra com mais frequência em consulta? Encontro muitas vezes pessoas com expectativas irrealistas, muito influenciadas por conteúdos online que prometem resultados rápidos, perfeitos e sem riscos. Essa ideia é particularmente perigosa, porque banaliza procedimentos que exigem avaliação médica, critério e acompanhamento. Por outro lado, também circula muita informação sem base científica, que gera medo, confusão e até preconceito em relação à Medicina Estética. Há conteúdos que distorcem completamente a realidade, seja por excesso de promessas, seja por alarmismo. Neste contexto, o meu papel passa por esclarecer, informar e orientar cada pessoa para opções seguras, personalizadas e realistas, ajudando-a a tomar decisões conscientes, sem comprometer a saúde nem a naturalidade do resultado. A Medicina Estética tem evoluído de forma muito rápida. Até que ponto a formação contínua é, hoje, uma exigência ética? Para mim, a formação contínua não é um complemento, é uma exigência ética incontornável. Surgem constantemente novos produtos, novas técnicas e nova evidência científica, e um médico que trabalhe nesta área tem de acompanhar essa evolução para garantir segurança, eficácia e resultados naturais. Quem não investe na atualização profissional arrisca-se a aplicar práticas desajustadas ou ultrapassadas, colocando em causa não só a qualidade do resultado, mas também a saúde do paciente. A experiência é importante, mas não substitui a necessidade de aprendizagem contínua. Numa área em permanente transformação, estar atualizado é uma responsabilidade para com quem nos procura. A sua formação cruza áreas muito diferentes. Isso torna-a mais prudente na avaliação de quem procura um procedimento estético? Sem dúvida. A diversidade da minha formação fez-me perceber que cada intervenção deve ser cuidadosamente ponderada e que cada pessoa deve ser acompanhada com rigor, empatia e sensibilidade. Antes de qualquer tratamento, nunca banalizo a avaliação clínica, o historial do paciente, os riscos envolvidos e a importância de transmitir informação clara antes de qualquer decisão. Considero fundamental que a decisão sobre os procedimentos a realizar seja partilhada, consciente e ajustada aos objetivos, às necessidades e às caraterísticas de cada pessoa. Essa prudência não limita a prática. Pelo contrário, permite-me exercer com maior responsabilidade, segurança e respeito pela individualidade de quem me procura. O seu percurso não foi o mais óbvio nem o mais linear. O que é que essa travessia lhe ensinou sobre o corpo, a saúde e a forma de cuidar de uma pessoa? Ter passado por diferentes países, culturas e áreas da saúde ensinou-me que cuidar de uma pessoa vai muito além de fazer um diagnóstico ou realizar um procedimento. Cada corpo é único e cada pessoa traz consigo uma história, experiências, fragilidades e expectativas próprias. A Fisioterapia ensinou-me a olhar para o corpo com maior consciência e atenção ao movimento. A Medicina Familiar deu-me uma visão global do paciente, integrada no seu contexto de vida. Já a Medicina Estética mostrou-me a importância de conciliar ciência, beleza e bem-estar de forma equilibrada e responsável. No fundo, todas estas experiências reforçaram em mim a convicção de que cuidar verdadeiramente de alguém exige conhecimento técnico, mas também escuta, empatia e uma atenção genuinamente personalizada. Viver e estudar fora transforma inevitavelmente quem regressa. Que novo olhar trouxe consigo, enquanto médica e enquanto mulher? Regressar à Europa e a Portugal trouxe-me um olhar mais aberto, mais flexível e também mais consciente, tanto no plano pessoal como no profissional. A experiência internacional e o contacto com diferentes realidades clínicas ensinaram-me a valorizar perspetivas diversas, a adaptar-me a contextos distintos e a respeitar ainda mais a história e a individualidade de cada pessoa. Enquanto médica, aprendi a conciliar ciência e sensibilidade, técnica e escuta. Enquanto mulher, cresci com cada desafio e percebi a importância da reinvenção, da resiliência e da persistência. Hoje sinto que essa travessia me tornou mais empática, mais humana e mais atenta à complexidade de cada pessoa que acompanho. Ao regressar a Portugal, que marca gostaria de deixar na forma como exerce Medicina? Mais do que resultados visíveis, quero que cada pessoa leve consigo uma experiência de confiança, consciência e bem-estar. Quero que os meus pacientes sintam que foram verdadeiramente ouvidos nos seus objetivos, nas suas dúvidas e nos seus receios, e que foram acompanhados com respeito, rigor e uma visão integral da sua saúde. O meu objetivo é contribuir para o bem-estar e para a autoestima de cada pessoa através de uma Medicina Estética humana, segura e personalizada, que respeite a individualidade e valorize a beleza subtil de cada rosto, sem excessos nem artificialismos. 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