SAÚDE DA MULHER “Quantas mulheres vivem anos a normalizar sintomas no pavimento pélvico sem saber que há solução? Uma avaliação pode mudar tudo” By Revista Spot | Agosto 3, 2025 Agosto 5, 2025 Share Tweet Share Pin Email O pavimento pélvico é uma estrutura silenciosa, mas poderosa, que sustenta não só órgãos essenciais, como a bexiga e o útero, mas também a autonomia e a qualidade de vida de milhões de mulheres, no entanto é muitas vezes ignorado até ao aparecimento de sintomas. Tânia Monteiro, fisioterapeuta pélvica, regressou a Portugal após oito anos a trabalhar em França, trazendo consigo uma visão renovada sobre a importância deste tema, até então, pouco falado. Entre três gravidezes, desafios e isolamento da pandemia, Tânia percebeu que saúde pélvica é mais do que parto: é poder, consciência e prevenção de disfunções comuns, muitas vezes silenciadas por vergonha ou desconhecimento. “Cuidar do pavimento pélvico é empoderamento emocional, autonomia e qualidade de vida. O que parece invisível é, na verdade, a base do corpo e da alma feminina.”, sublinha. A sua missão passa por desmistificar este tema, tirando-o do silêncio e do estigma, destacando-o como uma prioridade ao longo de toda a vida da mulher. Depois de oito anos a exercer em França, o que a motivou a regressar a Portugal? Em França, fomos construindo a nossa vida e a nossa carreira de forma muito sólida. Eu e o meu marido, que também é fisioterapeuta, abrimos o nosso gabinete, comprámos casa e começámos a criar raízes. Entretanto, tivemos dois filhos que nasceram lá, o que tornou tudo ainda mais desafiador, especialmente porque estávamos longe de qualquer rede de apoio familiar. Viver num país estrangeiro sem familiares por perto é uma experiência muito exigente, sobretudo com bebés pequenos. Essa ausência de suporte fez-nos refletir profundamente sobre o tipo de ambiente em que queríamos que os nossos filhos crescessem. Para nós, era fundamental que eles tivessem contacto próximo com as suas raízes, a cultura portuguesa, e com a família, um fator que não conseguíamos garantir em França. Quem vive a experiência de emigração sabe que muitas vezes não nos sentimos plenamente pertencentes a nenhum dos países: já não somos de cá, porque andávamos sempre de fugida e não estávamos realmente e plenamente em nenhum dos lados. Por isso, em paralelo com a decisão de voltar a Portugal, tomei a decisão firme de aprofundar esta especialidade. Assim, decidimos que o melhor para o crescimento emocional e social dos nossos filhos seria regressar a Portugal, onde poderiam crescer perto da família e num ambiente mais familiar. Planeámos o regresso com calma, e só conseguimos concretizá-lo um ano depois de tomar essa decisão. Durante esse período, fiquei grávida do nosso terceiro filho, o que tornou a mudança ainda mais significativa. Acabámos por regressar no final de 2023, com o coração cheio de esperança e confiança num novo capítulo para a nossa família. O que a levou a especializar-se em fisioterapia pélvica e de que forma a sua própria experiência como mulher e mãe influenciou essa escolha? No início da minha carreira, em França, não queria limitar-me a uma única área; atendia pessoas com as mais diversas necessidades. No entanto, sentia que precisava de encontrar uma especialização que me apaixonasse verdadeiramente. Tive a oportunidade de acompanhar alguns casos relacionados com a saúde pélvica e rapidamente percebi que esta área despertava em mim uma enorme curiosidade e motivação para aprender mais. Decidi então iniciar uma formação específica. Foi precisamente durante a minha primeira gravidez, no ano do início da pandemia de Covid-19, que essa paixão se intensificou. O isolamento social obrigou-me a fazer muita mobilidade e treino pessoal, o que foi fundamental para preparar o meu corpo para o parto e para recuperar depois. Mas percebi que o conhecimento que tinha ainda não era suficiente para apoiar outras mulheres da forma que eu desejava. Por isso, ao regressar a Portugal, tomei a decisão firme de aprofundar esta especialidade. Iniciei uma jornada de formação e aprendizagem contínua que tem sido incrível e extremamente gratificante. É na fisioterapia pélvica que encontro a minha verdadeira “praia”. Quando estamos numa área que realmente nos motiva, o tempo passa sem darmos conta e é exatamente essa sensação que tenho quando trabalho com estas mulheres, ajudando-as a recuperar saúde, confiança e qualidade de vida. O pavimento pélvico é muitas vezes invisível até surgir um problema. Quais são os principais músculos envolvidos e qual a sua função durante a gravidez, parto e recuperação pós-parto? É muito comum as pessoas ouvirem falar do pavimento pélvico, mas nem sempre percebem verdadeiramente qual é a sua função. Eu, pessoalmente, gosto mais de usar o termo diafragma pélvico, porque o pavimento pélvico é apenas a parte mais “rígida” da estrutura, mas devemos sempre lembrar que esta região faz parte de um sistema integrado, que inclui também o diafragma torácico, os músculos abdominais e a musculatura das costas. Trabalhar o corpo de forma global é fundamental para um bom funcionamento. O diafragma pélvico é constituído por vários músculos, como o elevador do ânus (pubococcígeo, iliococcígeo e puborretal), o coccígeo, entre outros, que juntos formam uma espécie de “rede” muscular que suporta órgãos como a bexiga, o útero e o reto. A sua função é essencial para gerir a pressão intra-abdominal, sobretudo durante a gravidez, quando esta pressão aumenta significativamente. Durante a gravidez, uma boa preparação e fortalecimento desta musculatura ajudam a prevenir disfunções como a incontinência urinária, o prolapso de órgãos pélvicos e promovem uma melhor capacidade de adaptação do corpo ao parto, seja ele vaginal ou cesariana. Aliás, muitas pessoas pensam que a cesariana “salva” o pavimento pélvico, mas a verdade é que, sem uma preparação adequada, a recuperação pós-cesariana pode ser mais difícil e prolongada. Ter um corpo funcional, com boa mobilidade e consciência corporal, é fundamental para minimizar desconfortos e dores, que muitas vezes passam despercebidos porque as mulheres não associam esses sinais a uma possível disfunção do pavimento pélvico. É importante perceber que ausência de dor não significa ausência de problemas. Além disso, hoje em dia, passamos muito tempo sentados e pouco ativos, o que contrasta com estilos de vida anteriores, onde havia mais movimento natural. Essa falta de mobilidade prejudica a saúde do pavimento pélvico. No trabalho com as grávidas, costumo reforçar três pilares para o parto: mobilidade, conexão emocional (consigo mesma, com o bebé e o acompanhante) e respiração. A respiração é um recurso fundamental para controlar o medo e a ansiedade durante o trabalho de parto, quando as mulheres começam a sentir-se ansiosas, lembro-lhes destas três palavras para manterem o foco e a calma. No pós-parto, o cenário é semelhante: se tivermos fortalecido os músculos abdominais e pélvicos, e mantivermos uma boa consciência corporal, a recuperação será muito mais rápida e eficaz, ajudando a prevenir complicações e a recuperar a qualidade de vida. Preparamos não só o corpo, mas também a mulher e o casal para esta grande transformação que é a chegada do bebé, que naturalmente traz muitos desafios diários, especialmente quando é a primeira experiência parental. Portanto, investir nesta preparação é, acima de tudo, prevenção, um cuidado essencial para o bem-estar físico e emocional da mulher antes, durante e depois da gravidez. Na sua prática clínica, que abordagens têm mostrado maior eficácia na prevenção e tratamento da incontinência urinária no pós-parto? A incontinência urinária é um problema bastante comum no pós-parto e, embora não seja propriamente “normal”, é frequente porque muitas mulheres não têm acesso ou não fazem uma preparação adequada antes, durante e depois da gravidez. Aliás, é comum ouvir histórias em família, mães, avós, primas, que passaram por isso, o que mostra que é um problema frequente, mas não inevitável. Na minha prática clínica, as abordagens que têm demonstrado maior eficácia são as que promovem o fortalecimento integrado do pavimento pélvico aliado a uma boa funcionalidade da musculatura abdominal profunda, especialmente o transverso do abdómen. Esta continuidade entre o diafragma pélvico e o “core” é fundamental para garantir a estabilidade da região e o controlo da pressão intra-abdominal. Mas é importante esclarecer que não se trata de fazer qualquer exercício: é essencial que as mulheres desenvolvam uma consciência corporal profunda, aprendendo a ativar corretamente os músculos mais internos, que promovem suporte e equilíbrio, em harmonia com os músculos mais externos, que favorecem a mobilidade e a funcionalidade global. Exercícios de fisioterapia pélvica baseados na contração e relaxamento do pavimento pélvico, quer voluntários ou através de sinergias musculares, combinados com treino respiratório e exercícios funcionais que simulam as exigências do dia a dia, têm mostrado resultados muito positivos tanto na prevenção como na recuperação da incontinência urinária. Além disso, a educação para evitar comportamentos que prejudicam o pavimento pélvico, como esforços físicos exagerados, excesso de impacto ou posições incorretas, também faz parte da intervenção eficaz. Qual a importância do trabalho de consciência corporal e do treino do pavimento pélvico, não só na preparação para o parto, mas também na recuperação emocional e física da mulher? O trabalho de consciência corporal e o treino do pavimento pélvico são pilares essenciais, não só para preparar o corpo para o parto, mas também para apoiar a mulher na sua recuperação física e emocional pós-parto. Esta dimensão emocional é muitas vezes descurada, quando na verdade é tão fundamental quanto o cuidado físico. Eu desenvolvi um curso chamado Jornada Gravidez Informada, onde incluo sempre o acompanhante da mulher. É essencial que o parceiro compreenda o que acontece no corpo da grávida, o que esperar durante o parto e qual a sua dinâmica hormonal e física. O parto é um processo complexo e imprevisível, mas conhecer o que é “expectável” ajuda a criar um ambiente de apoio emocional que é vital para a mulher. Este suporte não só influencia diretamente a experiência do parto, facilitando o equilíbrio hormonal e diminuindo o stress, como tem um impacto profundo no pós-parto, incluindo na amamentação. Muitas vezes, quando se pensa que a mulher “não tem leite”, na verdade, o problema está relacionado com a falta de suporte emocional ou com perturbações como a depressão pós-parto, que afetam o equilíbrio hormonal e a produção de leite. Quando a mulher se sente segura, compreendida e emocionalmente apoiada, o seu corpo responde melhor, o sistema hormonal funciona de forma mais harmoniosa, o que melhora a recuperação física, a ligação com o bebé e o sucesso da amamentação. Além disso, o treino do pavimento pélvico e a consciência corporal ajudam a mulher a perceber e controlar melhor o seu corpo, reduzindo o medo e a ansiedade relacionados com o parto e a recuperação. Este empoderamento físico é também um suporte psicológico que fortalece a autoestima e a resiliência. Portanto, integrar o trabalho físico com o apoio emocional cria um ciclo virtuoso, essencial para a saúde integral da mulher durante a gravidez, parto e pós-parto. Que sinais e sintomas podem indicar uma disfunção do pavimento pélvico e que muitas vezes são normalizados ou silenciados pelas mulheres? Existem vários sinais e sintomas que indicam possíveis disfunções do pavimento pélvico e que, infelizmente, são frequentemente normalizados ou silenciados pelas mulheres. Entre os mais comuns estão as perdas involuntárias de urina (incontinência urinária), a dor durante as relações sexuais, a sensação de peso ou pressão na região vaginal, e mesmo desconfortos durante a menstruação. A dor durante a relação sexual é um sintoma muito importante que, infelizmente, é muitas vezes encarado como “normal”, quando na realidade indica um problema que merece atenção. Também a incontinência urinária é muito normalizada, muitas mulheres não admitem logo que têm perdas, acabam por relatar “uma pinguinha” ao espirrar, a correr ou ao fazer exercício físico. Esta falta de reconhecimento atrasa a procura de ajuda e tratamento eficaz. A sensação de instabilidade ou desconforto pélvico ao saltar ou realizar determinados movimentos também é um sinal de que algo pode não estar bem. Eu costumo dizer que toda a mulher devia fazer uma avaliação pélvica, porque é provável que a maioria encontre alguma alteração ou disfunção que possa ser prevenida ou tratada a tempo. Outro sintoma comum, mas pouco valorizado, é a dor menstrual intensa ou persistente. Muitas vezes, esta dor é encarada como normal, mas a verdade é que deve ser investigada. O controlo e o conhecimento do ciclo menstrual são essenciais para perceber o que se passa no corpo. O uso indiscriminado da pílula para “normalizar” sintomas menstruais pode, na verdade, mascarar sinais importantes, já que interfere com o ciclo hormonal natural. É fundamental que as mulheres tenham consciência do seu ciclo para poderem identificar quando algo não está bem. A falta de informação e a ausência de trabalho multidisciplinar entre profissionais de saúde contribuem para que estes sinais sejam negligenciados. Se houvesse maior colaboração e orientação, as mulheres beneficiariam muito mais, prevenindo e tratando estas disfunções mais cedo. Outro momento importante é a menopausa, que muitas vezes é encarada com medo ou como o “fim da vida”. No entanto, esta é uma etapa natural, tão rica e importante como qualquer outra fase da vida. Com autoconhecimento e autoconsciência, esta fase pode ser vivida de forma plena e saudável. Muitas vezes é na menopausa que as mulheres descobrem em si uma força interna até então desconhecida. Por isso, é urgente que as mulheres se informem, que saibam identificar estes sinais e que procurem ajuda adequada. A prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento são fundamentais para garantir qualidade de vida em todas as fases. Como é feita uma avaliação pélvica numa consulta de fisioterapia especializada? Na minha prática, realizo sempre uma avaliação muito completa e individualizada, pois o pavimento pélvico faz parte de um sistema complexo que envolve não só a musculatura local, mas também o alinhamento postural, a respiração e os hábitos de vida da pessoa. O processo começa com uma história clínica detalhada, onde procuro perceber vários aspetos importantes: a alimentação, o nível de hidratação, a qualidade do sono, a prática de exercício físico, os hábitos urinários e intestinais, assim como a dinâmica sexual. Compreender o dia a dia e os padrões da pessoa é fundamental para avaliar o impacto que estes fatores podem ter no pavimento pélvico. Seguidamente, faço uma avaliação física externa global, que inclui a observação da postura, tensão muscular, alinhamento da coluna, e análise de zonas como a mandíbula e o trapézio, porque a tensão nestas áreas pode influenciar a função do diafragma e, consequentemente, do pavimento pélvico. A respiração é um ponto-chave nesta avaliação, pois muitas pessoas utilizam músculos compensatórios para respirar e não o diafragma propriamente dito, que é o principal músculo respiratório e está intimamente ligado ao funcionamento do pavimento pélvico. Depois da avaliação externa, passo à avaliação interna, que só é realizada se a pessoa se sentir confortável e com total consentimento. É fundamental criar um ambiente de confiança e segurança, pois esta é uma área muito íntima e delicada. Muitas vezes, esta avaliação interna não é feita logo na primeira consulta, o mais importante é que a pessoa sinta que está a ser respeitada e que tem controlo sobre o processo. Mesmo antes da avaliação interna, é possível que a pessoa note melhorias apenas com a alteração de hábitos, a prática de exercícios respiratórios e pequenas mudanças posturais, o que reforça a importância do trabalho multidimensional. Em casos de prolapso genital ou incontinência fecal, quais são as estratégias de reabilitação mais eficazes atualmente? O prolapso genital e a incontinência fecal são problemas que têm um impacto muito grande na qualidade de vida e na autoestima das pessoas. Infelizmente, a maioria das mulheres demora, em média, cerca de sete anos a procurar ajuda, muitas vezes por vergonha, falta de informação ou porque normalizam os sintomas. Este atraso prolonga o sofrimento e dificulta a recuperação. Se conseguíssemos identificar e intervir nestes casos logo no início, o ganho em qualidade de vida seria enorme. A reabilitação pode fazer uma diferença incrível, mesmo em situações mais avançadas. O prolapso corresponde à descida ou protrusão dos órgãos pélvicos (como a bexiga, útero ou reto) devido ao enfraquecimento do sistema que os sustenta, uma combinação de estruturas ligamentares, musculares e fasciais que cedem perante uma má gestão da pressão intra-abdominal. Para tratar eficazmente, é essencial avaliar o corpo como um todo. Muitas vezes, a causa está ligada a um défice funcional do músculo transverso do abdómen, que funciona em sinergia com o pavimento pélvico. Também devemos olhar para os adutores e para a musculatura do glúteo (posterior e lateral), que influenciam a estabilidade pélvica e lombar. A abordagem passa por libertar tensões musculares e articulares quando existentes, melhorar a postura e sobretudo reforçar a musculatura profunda que promove estabilidade e controlo da pressão abdominal. No caso da incontinência fecal, o processo é semelhante: é necessária uma avaliação cuidada para perceber onde está a falha, pode estar no controlo do esfíncter anal, na coordenação muscular ou no suporte dos tecidos. Depois, a reabilitação centra-se no treino muscular específico, treino da coordenação e também na educação postural e respiratória. Em todos os casos, o exercício terapêutico é a base da reabilitação. Mas não basta fazer qualquer exercício: a pessoa precisa de desenvolver uma autoconsciência corporal, perceber como funciona o seu corpo, e encontrar uma atividade que lhe dê prazer e que possa manter de forma consistente, idealmente, duas a três vezes por semana. Este compromisso transforma a vida das pessoas de forma incrível, ajudando não só a recuperar a função, mas também a autoestima, autonomia e bem-estar geral. Condições como vaginismo, vulvodínia ou dor pélvica crónica afetam profundamente a qualidade de vida. Como se diferencia cada uma e qual o papel da fisioterapia na abordagem destas dores complexas? Estas condições, apesar de distintas, têm em comum o impacto significativo que causam na qualidade de vida das pessoas, afetando não só a saúde física, mas também o bem-estar emocional e social. O vaginismo é caraterizado por uma tensão involuntária e excessiva do diafragma pélvico, a musculatura que envolve a entrada da vagina, que torna a penetração impossível ou muito dolorosa. Esta tensão pode ser uma resposta automática ao medo ou ansiedade associada à relação sexual ou a outras causas. O vaginismo está fortemente ligado a componentes emocionais e musculares, e a fisioterapia pélvica tem um papel fundamental no ensino de técnicas de relaxamento muscular, treino de controlo e reeducação da musculatura, promovendo a consciência corporal e o alívio da tensão. A vulvodínia, por outro lado, é uma condição crónica que se manifesta como dor ou desconforto na região da vulva (a parte externa da vagina) por um período superior a três meses, sem uma causa clara identificável. A sua origem é multifatorial e pode estar associada a alterações neurológicas, inflamação local ou sensibilização dos tecidos. Muitos estudos sugerem que hábitos alimentares podem influenciar os sintomas, especialmente o consumo de alimentos inflamatórios como trigo, açúcar e laticínios. Reduzir esses alimentos pode ajudar a diminuir a inflamação e melhorar os sintomas, embora a abordagem seja sempre personalizada. Dor pélvica crónica é uma dor persistente na região pélvica que pode afetar tanto mulheres como homens e pode envolver várias estruturas, músculos, nervos, órgãos internos e tecidos conjuntivos. Esta dor é complexa e está frequentemente associada a fatores físicos, emocionais e psicossociais. O papel da fisioterapia nestas condições é holístico e multidisciplinar. Começa por uma avaliação detalhada da pessoa, considerando não só os sintomas físicos, mas também o contexto emocional, hábitos de vida, postura e padrão respiratório. Sabemos que a saúde pélvica está profundamente ligada ao funcionamento do diafragma torácico e à respiração. Muitas vezes, a tensão muscular na zona pélvica relaciona-se com a dificuldade em respirar adequadamente, o que pode gerar sensações de peso no peito, ansiedade e até perturbações digestivas. A fisioterapia ajuda a restaurar a função muscular, a melhorar a consciência corporal, a ensinar técnicas de relaxamento e controlo da dor, e a promover hábitos de vida saudáveis que contribuem para a redução da inflamação e do desconforto. Além disso, é fundamental reconhecer que as disfunções pélvicas têm sempre uma componente psicológica associada, a dor, o medo e a ansiedade influenciam e são influenciados pela condição física. Portanto, a abordagem deve ser sempre multifatorial, integrando cuidados físicos, emocionais e educativos, para que a pessoa consiga recuperar qualidade de vida, autonomia e bem-estar. A saúde pélvica é muitas vezes vista apenas no contexto do parto. O que pode (e deve) ser feito ao longo da vida para manter um pavimento pélvico funcional e saudável? A verdade é que a saúde do pavimento pélvico deve ser uma preocupação constante ao longo de toda a vida, para mulheres, homens e até crianças, porque todos temos pavimento pélvico, mesmo que só se fale mais no contexto feminino. O primeiro passo é o autoconhecimento. Conhecer o nosso corpo, os seus sinais e necessidades é fundamental. Recomendo sempre uma avaliação pélvica especializada, mesmo em fases da vida em que não existem sintomas aparentes, pois a prevenção é a melhor estratégia. Um dos grandes problemas atuais é a falta de educação sobre esta área, desde a infância. Falta informação nas escolas, por exemplo sobre o desfralde, que é uma etapa determinante para a saúde pélvica futura. Forçar ou apressar o desfralde pode levar a problemas como obstipação, que tem impacto direto no pavimento pélvico. Também é importante escutar o corpo no dia a dia: respeitar sinais como a necessidade de urinar e não adiar, manter uma boa hidratação, cuidar da alimentação, e promover bons hábitos posturais. Um exemplo simples: muitas pessoas fazem “chichi preventivo”, ou seja, urinam por hábito e não por necessidade, o que pode alterar o funcionamento da bexiga. Costumo pedir às minhas pacientes para fazerem um diário miccional para perceberem a frequência e a quantidade de urina, pois assim tomam consciência do que é normal e do que pode ser alterado. Além disso, manter uma postura correta no dia a dia, sem cruzar as pernas em excesso, com um alinhamento neutro da coluna e com a ativação natural da musculatura profunda, é essencial para a saúde pélvica. Este alinhamento promove o equilíbrio muscular e reduz tensões que, com o tempo, podem levar a disfunções. O exercício físico regular e adequado incluindo sempre o fortalecimento do “core” é também fundamental. A preparação e o cuidado contínuo ao longo da vida previnem sintomas comuns na gravidez, pós-parto e na menopausa. Posso partilhar a minha experiência pessoal: após três gravidezes relativamente próximas, consegui manter o meu pavimento pélvico funcional graças ao reforço muscular, à osteoetiopatia e ao trabalho contínuo de autoconsciência e alinhamento postural que tento fazer diariamente. Graças a todo este trabalho contínuo neste momento não tenho sintomas ou dores significativas. A saúde pélvica não é algo que se cuida só num momento, é um processo de longo prazo, com impacto direto na qualidade de vida, autonomia e bem-estar geral. Por isso, é fundamental falar abertamente sobre o tema, educar desde cedo e incentivar práticas que promovam esta saúde, retirando o estigma e a vergonha que ainda rodeiam muitas destas questões. Morada: Rua Sra. Aparecida 310, 4905-031 Balugães Contacto: 918 570 298 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @taniamonteirofisio “A relação com a comida é, muitas vezes, o reflexo da relação que a pessoa tem consigo própria” “A estética médica está cada vez mais integrada nas práticas clínicas, complementando áreas como a dermatologia, endocrinologia, nutrição, saúde mental e medicina preventiva”
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