Cirurgia “O problema começa quando a vontade de melhorar dá lugar ao desejo de parecer outra pessoa” By Revista Spot | Abril 14, 2026 Abril 20, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nem tudo o que chega à consulta é um pedido cirúrgico. Muitas vezes, é uma inquietação, uma comparação, uma ferida antiga ou uma expectativa construída a partir de imagens que pouco têm de real. Há a cirurgia que reconstrói depois da perda, a que corrige o que o tempo alterou e a que responde a um desconforto antigo com a própria imagem. Num tempo em que a imagem se tornou cada vez mais editada, comparada e consumida, importa regressar ao que separa a decisão séria do impulso. Duarte Salema Garção, cirurgião plástico, conhece bem essa fronteira. O seu percurso cruza reconstrução e estética, mas também urgência hospitalar e emergência pré-hospitalar. Essa travessia entre contextos tão distintos deu-lhe uma perspetiva invulgar sobre o corpo, a vulnerabilidade e o peso das decisões médicas. Talvez por isso fale de cirurgia com uma combinação rara de precisão e contenção. Nesta conversa, fala-se de imagem, tecnologia, identidade, pós-operatório e envelhecimento, mas também de limites, responsabilidade e da importância de perceber que, por vezes, o gesto mais seguro e mais ético é recusar intervir. O que é que muda no olhar de um cirurgião quando, na mesma semana, lida tanto com o trauma e a urgência como com decisões eletivas ligadas à imagem e à autoestima? Sempre me fascinou a ideia de ter uma profissão em que nenhum dia fosse igual ao outro. Desde cedo percebi que não me via num trabalho previsível, repetitivo, fechado numa rotina homogénea. Havia em mim um fascínio muito grande pela urgência, pelo pré-hospitalar, por esse lado mais intenso da medicina, onde tudo acontece depressa e onde a decisão tem de ser imediata. Mas também sabia que não queria fazer dessa exigência permanente o meu modo de vida, porque é um ritmo muito duro, com noites, muitas horas seguidas de trabalho e um desgaste inevitável. Ao mesmo tempo, atraía-me profundamente a cirurgia, essa possibilidade de intervir de forma concreta, de transformar ali, no momento, de tratar, corrigir, reconstruir. Foi isso que me levou à cirurgia plástica. Primeiro, pela reconstrução, sobretudo na área mamária, onde percebi o impacto real que uma intervenção pode ter na vida e na autoestima de uma pessoa. Depois, naturalmente, aproximei-me da cirurgia estética, levando comigo esse mesmo olhar: o de que melhorar a imagem pode também ser melhorar a qualidade de vida. Ter mantido a ligação ao INEM permite-me continuar a alimentar essa outra paixão. Duas ou três vezes por mês, saio do ambiente controlado do bloco operatório e entro num cenário completamente diferente, imprevisível, muitas vezes caótico. Trabalho com equipas diferentes, em contextos onde nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar. Essa realidade dá-me adrenalina, exige-me outra rapidez de pensamento e lembra-me uma dimensão muito crua e essencial da medicina. São universos muito distintos, mas talvez por isso se complementem tão bem. De um lado, a precisão, o detalhe, o planeamento; do outro, a decisão rápida, a urgência, a incerteza. Poder vestir esses dois “fatos” dentro da mesma profissão é, para mim, uma das coisas mais interessantes deste percurso. Quando alguém chega à consulta com referências tiradas do telemóvel, o que é que isso lhe diz hoje sobre a relação que estamos a construir com a própria imagem? Diz-me, antes de mais, que essa relação mudou muito. Quando comecei, há cerca de quinze anos, as pessoas chegavam à consulta com desejos mais próximos da sua própria realidade. Olhavam para o seu corpo, para aquilo que as incomodava concretamente, e pediam melhorias dentro desse contexto. Havia uma expectativa mais ajustada ao ponto de partida. Hoje, muitas vezes, os pacientes aparecem com fotografias de modelos, de influenciadoras ou de resultados cirúrgicos vistos nas redes sociais, na Turquia, nos Estados Unidos ou noutros contextos completamente diferentes. E muitas dessas imagens estão editadas, mostram pós-operatórios muito imediatos ou apresentam resultados que nem sequer são sustentáveis a longo prazo. Ou seja, partem de referências que já não são reais e, por isso, constroem expectativas difíceis, ou impossíveis, de cumprir. Isso nota-se no corpo, no rosto, em tudo. Os filtros alteram o volume dos lábios, afinam traços, melhoram artificialmente a pele, mudam a expressão do olhar. Há pessoas que se habituam tanto a essa imagem filtrada que começam a sentir como defeito aquilo que, na verdade, não é defeito nenhum. E depois procuram na cirurgia ou na medicina estética uma forma de se aproximarem dessa versão irreal de si próprias. O problema é que a cirurgia plástica não faz magia. Trabalha com a anatomia real, com os limites do corpo, com aquilo que é possível melhorar de forma segura e coerente. Por isso, uma parte muito importante da consulta passa por ajustar expectativas. Às vezes, isso significa explicar com franqueza que determinado resultado não é possível. E, noutras situações, significa mesmo recusar o tratamento. Porque, se a expectativa estiver errada à partida, nem o melhor procedimento vai conseguir satisfazer verdadeiramente aquela pessoa. No fundo, mais do que operar ou tratar, é preciso perceber se a pessoa está à procura de uma melhoria real ou de uma imagem impossível de alcançar. Hoje, muitos pacientes já não chegam a pensar apenas em cirurgia, mas em prevenção, manutenção e envelhecimento mais harmonioso. Como é que olha para esta fronteira entre cirurgia plástica e medicina estética, e o que é que distingue um cuidado bem indicado de uma lógica de intervenção contínua sem verdadeiro critério? Essa fronteira é hoje cada vez mais relevante e, na minha perspetiva, a prevenção faz todo o sentido quando é bem orientada. A medicina estética, sobretudo em idades mais precoces, pode ter um papel importante na qualidade da pele, na bioestimulação e na preservação de um envelhecimento mais harmonioso. Quando comecei, tratava sobretudo mulheres a partir dos 50 anos. Hoje tenho pacientes de 25 ou 30 anos já a iniciar cuidados de medicina estética, e isso, quando é feito com critério, pode permitir chegar mais tarde com tecidos mais saudáveis e menos necessidade de intervenções mais agressivas. Mas isso só funciona quando existe bom senso. Porque não basta fazer tratamentos cedo; é preciso perceber quais fazem sentido, em que momento e com que objetivo. E aí entra também tudo o resto: os cuidados diários, a proteção solar, a qualidade do sono, a alimentação, os hábitos que aceleram ou travam o envelhecimento. Nenhum procedimento substitui isso. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que a medicina estética tem limites. Há situações em que já não consegue corrigir o que a pessoa pretende, e só a cirurgia pode ajudar. E também a cirurgia, por sua vez, tem os seus próprios limites. Nem tudo deve ser tratado, nem tudo precisa de ser corrigido, nem tudo beneficia com mais intervenção. É precisamente aí que entra o papel do médico: saber travar. Saber quando tratar, quando não tratar e quando propor menos do que aquilo que o paciente pede. Eu tendo a privilegiar resultados naturais e, por isso, quando sinto que uma proposta entra no exagero, seja na volumização do rosto, dos lábios ou em determinados procedimentos de rejuvenescimento, procuro recentrar o plano. Não gosto de resultados pesados, artificiais ou excessivos. Muitas vezes, o mais difícil não é fazer mais; é saber ficar aquém do exagero. Essa contenção também faz parte do cuidado. Porque tratar bem não é fazer tudo o que é possível. É fazer apenas aquilo que faz verdadeiramente sentido. Durante anos, a estética vendeu transformação; hoje fala-se muito mais de naturalidade. Sente que estamos finalmente a regressar à valorização da identidade? Acho que, de facto, hoje se fala muito mais de naturalidade, e isso é um sinal positivo. Há cada vez mais pessoas a procurar resultados discretos, harmoniosos, que respeitem a sua identidade e não criem aquela sensação de “rosto operado” ou de transformação excessivamente visível. Muitos pacientes perceberam que o exagero traz um estigma: chama a atenção, gera comentários e, muitas vezes, acaba por comprometer justamente aquilo que procuravam melhorar. Um resultado natural, pelo contrário, integra-se melhor na pessoa e tem frequentemente um impacto mais saudável na autoestima. Isso vê-se muito nas cirurgias de revisão, que hoje são cada vez mais frequentes. Há mulheres que colocaram implantes mamários muito grandes ou muito projetados há alguns anos, porque era essa a tendência da altura, e que agora procuram soluções mais proporcionadas, mais leves, mais ajustadas ao seu corpo. Perceberam, com o tempo, que a harmonia acaba por ser mais elegante e mais bonita do que o excesso. Também a cultura visual mudou um pouco. Nas figuras públicas, nas atrizes, nas modelos, sente-se uma maior valorização de corpos e rostos menos artificiais. Já não há o mesmo fascínio pela magreza extrema ou por volumes exagerados que, durante algum tempo, dominaram o imaginário estético. Mas esse movimento não é absoluto. Continua a existir uma corrente muito influenciada por certos padrões mais exuberantes, associados a outras culturas e a referências muito mediáticas, como a imagem Kardashian. Ainda há quem procure ancas mais volumosas, cinturas muito marcadas, glúteos mais projetados, traços que muitas vezes não correspondem à estrutura corporal mais comum da mulher portuguesa. E isso cria uma tensão entre identidade e imitação. Por isso, diria que estamos, sim, a assistir a um regresso da naturalidade, mas convivemos ainda com duas tendências em paralelo: uma que valoriza a harmonia individual e outra que continua a perseguir modelos externos. O desafio está precisamente em ajudar cada pessoa a perceber onde termina a inspiração e onde começa a perda da própria identidade. Na cirurgia mamária, raramente se fala apenas de volume, forma ou simetria. Que lugar ocupa a mama na forma como muitas mulheres vivem a identidade, a intimidade, a doença e a reconciliação com o próprio corpo? Falamos, de facto, de várias dimensões ao mesmo tempo. Existe a vertente estética, mas existe também a vertente da doença e da reconstrução. E, para mim, essa separação nem sempre é assim tão nítida. Muitas vezes perguntam-me como é que consigo conciliar cirurgia estética e cirurgia reconstrutiva, mas a verdade é que, na essência, estamos a falar da mesma base: devolver forma, harmonia e proporção a uma parte do corpo com um peso muito profundo na vivência de muitas mulheres. Na reconstrução, procuramos recriar aquilo que foi retirado, muitas vezes na sequência de um cancro. Na cirurgia estética, procuramos corrigir ou harmonizar algo que nunca se desenvolveu como a mulher desejava, ou que se alterou ao longo do tempo. Em ambos os casos, estamos a trabalhar a forma, sim, mas também algo muito mais íntimo do que isso. A mama tem um peso simbólico, emocional e identitário muito forte. Está ligada à feminilidade, à autoestima, à sexualidade, à forma como a mulher se vê ao espelho, como vive a intimidade e até como se move no espaço público. Num país como o nosso, com uma grande exposição do corpo em contexto social, no verão, na praia, isso também ganha expressão. Naturalmente, cada mulher vive isto à sua maneira. Há quem tenha esta relação mais resolvida e para quem a mama não ocupa um lugar central. E isso é perfeitamente legítimo. Mas, para muitas outras, a perda, a ausência ou a deformação mamária representam uma ferida real na forma como se sentem no próprio corpo. Quando a cirurgia plástica consegue dar uma resposta a isso, não estamos apenas a mudar uma forma, estamos, muitas vezes, a devolver bem-estar, confiança e qualidade de vida. E essa é, talvez, uma das partes mais gratificantes da nossa profissão. O chamado “mommy makeover” ganhou enorme visibilidade. Como é que se fala de cirurgia neste contexto sem alimentar a ideia de que a maternidade obriga a uma recuperação estética rápida ou a um regresso a uma versão anterior de si própria? Essa é uma questão muito importante, porque é fácil cairmos numa lógica injusta para com a mulher. A gravidez e a amamentação trazem transformações reais ao corpo, e a maior parte das mulheres percebe isso como parte de um processo maior, ligado à maternidade. São mudanças naturais, esperadas, e que não devem ser vividas como uma falha ou como uma obrigação imediata de “corrigir” o corpo. Ao mesmo tempo, também é verdade que algumas dessas alterações podem ter impacto na forma como a mulher se vê, na sua autoestima, na intimidade e até na forma como volta a olhar para a sua feminilidade. E isso não deve ser desvalorizado. Há mulheres que ficam bem com essas mudanças e não sentem necessidade de fazer nada. Há outras que, passados anos, sentem que chegou o momento de cuidar de si e de recuperar alguma harmonia corporal. E isso também é legítimo. O chamado “mommy makeover” acabou por ganhar nome porque existe, de facto, uma procura muito frequente deste tipo de correções, sobretudo na zona mamária e abdominal, que são as áreas mais marcadas pela gravidez e pela amamentação. Mas eu acho que é importante falar disto com equilíbrio, não como uma exigência de voltar ao corpo “de antes”, nem como uma resposta apressada à pressão estética, mas como uma possibilidade para a mulher que, no seu tempo, decide olhar novamente para si. Muitas vezes, estas pacientes chegam-nos dez ou quinze anos depois de terem sido mães. Dizem-nos, com muita honestidade, que durante esse tempo estiveram muito focadas nos filhos, na família, nas exigências da vida, e que se foram deixando para segundo plano. Quando finalmente procuram ajuda, o que estão muitas vezes a dizer não é apenas “quero mudar o meu corpo”; é “agora também quero voltar a cuidar de mim”. E esse desejo de reconexão consigo própria merece ser ouvido com respeito, sem juízos e sem pressa. Os homens estão a procurar mais a cirurgia plástica? Sim, essa realidade está claramente a mudar. Durante muito tempo, a preocupação com a imagem foi culturalmente mais associada à mulher. A mulher foi educada, ao longo da história, para prestar mais atenção ao corpo, à apresentação, à estética. O homem, por outro lado, foi durante muito tempo colocado num lugar onde esse cuidado quase parecia incompatível com a masculinidade. Hoje isso está a mudar de forma bastante visível. Há uma maior liberdade para o homem cuidar de si, preocupar-se com a imagem e procurar procedimentos estéticos ou cirúrgicos sem o estigma que existia antes. Aquilo que durante décadas foi visto como “vaidade feminina” deixou de estar preso a essa divisão tão rígida. Na prática, vemos cada vez mais homens a recorrer à cirurgia plástica e à medicina estética. Muitas vezes, esse primeiro contacto acontece até porque a mulher já fez um procedimento, teve uma boa experiência, e o homem percebe que também pode beneficiar desse tipo de cuidado. Há uma normalização crescente, e isso é importante. No caso dos homens, a cirurgia mais procurada é frequentemente a lipoaspiração, sobretudo para remover gordura localizada e, em alguns casos, usar essa gordura para definir melhor zonas como o peitoral ou o abdómen, criando um aspeto mais tonificado. Mas também há procura por procedimentos menos invasivos, como toxina botulínica ou preenchimentos, sempre com a preocupação de manter naturalidade. Acho que, no fundo, deixámos de ver o cuidado com a imagem como um território exclusivamente feminino. Hoje percebemos melhor que querer sentir-se bem com a própria aparência não tem género. Tem a ver com autoestima, bem-estar e com a forma como cada pessoa escolhe viver a sua imagem. Entre a cirurgia e o resultado existe um intervalo que muitos doentes subestimam: o corpo inflamado, a cicatriz, o edema, o desconforto, a espera. Porque é que ainda há tão pouca literacia sobre essa fase, quando é precisamente aí que o resultado começa verdadeiramente a ser construído? Essa fase é absolutamente fundamental e, de facto, continua a ser muito subestimada. Muitas pessoas chegam à cirurgia muito focadas no “antes e depois”, mas com pouca noção de que, entre uma imagem e outra, existe um processo. E esse processo nem sempre é fácil. Antes de melhorar, muitas vezes o corpo parece piorar, há edema, inflamação, desconforto, cicatrizes ainda recentes, assimetrias transitórias. Tudo isso faz parte da recuperação. Por isso, uma das mudanças mais importantes que fomos fazendo nos últimos anos foi reforçar muito o acompanhamento no pós-operatório. Hoje sabemos que o resultado final não depende apenas do ato cirúrgico. Depende também da forma como o corpo recupera e de tudo aquilo que é feito nessa fase. Damos cada vez mais importância às drenagens linfáticas, que podem ser decisivas em muitos casos, à nutrição no pós-operatório, aos cuidados com a cicatrização, aos medicamentos, aos alimentos que ajudam a controlar a inflamação e a favorecer a recuperação. Também acompanhamos o regresso ao exercício físico, porque manter o resultado e consolidar a mudança faz parte do processo. Muitas vezes, a cirurgia acaba por ser também um ponto de viragem na vida da pessoa. Não apenas pela mudança física imediata, mas porque funciona como um gatilho para alterações mais profundas no estilo de vida. Há pessoas que deixam de fumar, que começam a cuidar melhor da alimentação, que passam a treinar, que ganham uma motivação nova para se manterem bem. Ou seja, a cirurgia muda a forma, mas o pós-operatório pode mudar hábitos, rotinas e até a relação da pessoa consigo própria. No fundo, o resultado não aparece de um dia para o outro. Vai sendo construído, pouco a pouco, nessa fase de espera, de cuidado e de compromisso com a recuperação. E é precisamente por isso que ela merece muito mais atenção do que aquela que ainda lhe é dada. Num setor onde tudo parece surgir embrulhado em promessa, novidade e tecnologia, que sinais distinguem um avanço real de uma tendência bem promovida? Hoje em dia isso é, de facto, uma questão central. Há muitos pacientes que chegam à consulta porque ouviram falar de um determinado procedimento, de uma máquina “revolucionária” ou de uma tecnologia apresentada quase como milagrosa. E esse entusiasmo é compreensível, porque a comunicação à volta destes tratamentos é muitas vezes muito apelativa. Mas a verdade é que a tecnologia, por si só, não resolve tudo. E nem tudo o que é novo é, automaticamente, eficaz. Há tecnologia com resultados comprovados, estudada, validada, e há outra que vive muito mais do marketing do que da evidência. Por isso, é fundamental saber distinguir uma coisa da outra. Na nossa prática, temos esse cuidado. Quando investimos numa nova tecnologia, não o fazemos porque está na moda ou porque toda a gente está a falar dela. Fazemo-lo porque fomos perceber como funciona, que resultados apresenta, que base científica tem, que experiência existe à volta daquela ferramenta. Muitas vezes, isso implica sair, aprender com outros profissionais, observar, estudar e só depois decidir. Na cirurgia, por exemplo, a evolução tecnológica trouxe mudanças muito reais. Basta olhar para a lipoaspiração, o que fazíamos há dez anos não é o que fazemos hoje. Atualmente, temos tecnologias que ajudam a destruir gordura de forma mais eficaz, a aspirar com mais precisão e até a melhorar a retração cutânea. Isso traduz-se em resultados diferentes e, em muitos casos, melhores. Portanto, a inovação existe e é importante. Mas tem de ser séria. No meio de tanta oferta, eu diria que o mais importante continua a ser a confiança no profissional. As pessoas devem saber quem as está a tratar, que formação tem, que experiência tem e se está habilitado para indicar, ou não, determinado procedimento. A tecnologia certa faz diferença, mas só quando está nas mãos certas e ao serviço de uma decisão clínica responsável. Ao fim de anos a operar pessoas que querem corrigir, reconstruir ou transformar partes do corpo, o que é que aprendeu sobre o momento certo para dizer “sim” a uma cirurgia e, sobretudo, sobre a importância ética e clínica de saber dizer “não”? Aprendi, acima de tudo, que saber dizer “não” é uma parte essencial da prática cirúrgica. No início, tinha mais dificuldade em fazê-lo. Talvez porque, quando alguém chega à consulta motivado, confiante, com vontade de avançar, não seja fácil travar esse impulso. Mas com o tempo percebi que um “sim” dado no momento errado pode transformar-se num problema sério, para o doente e para o médico. Hoje, digo “não” com muito mais convicção quando sinto que não estão reunidas as condições certas. Digo “não” quando existem expectativas irreais, quando a pessoa acredita que a cirurgia vai resolver problemas que não são cirúrgicos, quando há questões psicológicas importantes por estabilizar, quando existem patologias que aumentam o risco ou hábitos, como o tabagismo, que comprometem claramente a segurança e a recuperação. Também digo “não” quando sinto que a pessoa está a depositar na cirurgia uma espécie de salvação emocional, como se aquele procedimento fosse salvar um casamento, curar uma tristeza profunda ou mudar radicalmente a sua vida. Isso não é justo nem seguro. Na cirurgia estética, esta responsabilidade é ainda maior, porque estamos a intervir em pessoas saudáveis. Não estamos, na maioria dos casos, a tratar uma doença no sentido clássico. Estamos a operar alguém que está bem e que quer melhorar algo. E isso significa que a margem de exigência é muito alta. Um mau resultado, aqui, tem um peso diferente, porque parte de alguém que estava funcionalmente bem e que pode sair pior daquilo que entrou. Por isso, a conversa inicial é tudo. É nesse momento que se constroem as bases da decisão. Avaliar bem, perceber motivações, gerir expectativas e ter a coragem de travar quando é preciso faz parte da ética da profissão. E, muitas vezes, dizer “não” é a forma mais séria de proteger o paciente e também de respeitar a cirurgia. Instagram: @duartesg_cirurgiaplastica Facebook: DuarteSG CirurgiaPlástica Site: duartesalemagarcao.com “A saúde não se improvisa, constrói-se todos os dias” “Muitas mulheres vivem em guerra com a comida sem perceberem que estão presas a uma dependência silenciosa”
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