Medicina Estética “Prevenção não é fazer tudo cedo, é agir com critério no momento certo” By Revista Spot | Março 6, 2026 Março 7, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nem sempre é a ruga que entra primeiro na consulta. Por vezes, entra o cansaço, uma pele que “já não responde como antes”, um rosto que perdeu definição sem a pessoa saber explicar porquê, ou uma inquietação difusa alimentada por imagens perfeitas e resultados imediatos vendidos nas redes sociais. Matilde Teles, médica com Pós-Graduação em Medicina Estética, habituou-se a ler esse desconforto para lá do espelho. A medicina de emergência deu-lhe um treino que não perdeu: olhar para o doente inteiro, manter a calma, perceber que, mesmo num contexto estético, há história clínica, medicação, risco, cicatrização e contexto. Por isso, recusa olhar para um rosto por partes. Pele, estrutura óssea, ligamentos, volume e flacidez cruzam-se numa equação viva, diferente de pessoa para pessoa. Na sua prática, prevenir não é fazer tudo cedo, nem tratar depressa. É saber esperar, hierarquizar, construir base e explicar, com clareza, que até a beleza mais subtil exige critério, tempo e consentimento verdadeiramente informado. Quando diz que trabalha numa lógica de medicina estética 360, o que é que isso significa, na prática, numa primeira consulta? Significa que a pessoa não é vista como uma preocupação isolada, nem apenas a partir daquilo que identifica como “o problema” que a trouxe à consulta. A avaliação é sempre global e integrada. Mais do que olhar para o óbvio ou para uma queixa pontual, procuro perceber tudo o que pode estar a incomodar aquele paciente e de que forma diferentes fatores se relacionam entre si. A primeira consulta é, acima de tudo, um momento de leitura ampla da pessoa e não apenas de uma área específica do rosto ou do corpo. Tendo trabalhado em medicina de emergência, de que forma essa experiência influencia a sua forma de decidir e de trabalhar hoje? A medicina de emergência deu-me duas ferramentas que continuam a ser fundamentais no meu dia a dia: a capacidade de manter a calma perante qualquer intercorrência e um olhar mais abrangente sobre o paciente. Em medicina estética, continuo a ver cada paciente como um paciente médico, e não apenas como alguém que procura resolver uma questão estética. Essa experiência ensinou-me a decidir com prudência, a antecipar riscos e a nunca perder de vista a segurança clínica. Quais são os seus passos obrigatórios antes de qualquer procedimento? Antes de qualquer procedimento, há uma avaliação obrigatória e muito detalhada. Exploro antecedentes pessoais, medicação habitual, historial estético e tudo o que possa interferir com a segurança ou com o resultado do tratamento. O consentimento informado é essencial, mas não chega por si só. É importante estruturar o raciocínio clínico de forma rigorosa para garantir que cada decisão é tomada com o máximo de segurança. Muitas vezes, as pessoas não valorizam certas condições de saúde porque não as associam diretamente a um procedimento estético. Dizem que não têm problemas de saúde, mas depois percebemos que fazem medicação para a hipertensão, para o colesterol ou para outras situações que nem sempre reconhecem como relevantes. Algumas dessas condições podem não alterar a decisão terapêutica, mas outras podem ter impacto real na segurança, na cicatrização ou até no resultado final. E, por vezes, há pequenas pistas que surgem na conversa e que ajudam a perceber que existe algo mais por trás. A experiência em medicina de emergência também me treinou muito nesse olhar mais atento e nessa capacidade de aprofundar o que, à partida, parecia secundário. Quando observa um rosto, o que hierarquiza clinicamente? É sempre a combinação de diferentes fatores. Não consigo olhar para o rosto de forma isolada ou reduzir a análise a um único elemento. Tudo se relaciona: qualidade da pele, suporte ósseo, estrutura ligamentar, volume e flacidez. Se pensarmos em prioridades terapêuticas, acredito que o mais importante é começar por construir uma boa base. Primeiro, é preciso tratar o que sustenta o resultado; só depois faz sentido avançar para os detalhes. Como transforma essa leitura anatómica num plano por etapas, com prioridades e objetivos realistas, em vez de procurar “resolver tudo” numa sessão? O primeiro passo é gerir expectativas. Muitas pessoas chegam à consulta com a ideia de que é possível transformar tudo de uma vez, influenciadas pelo que veem nas redes sociais ou em certas imagens muito pouco realistas. Mas isso não é exequível, nem desejável. Procuro explicar que os melhores resultados são construídos por etapas. Começamos pela base, aquilo que verdadeiramente sustenta a harmonia e a qualidade do resultado, e só depois avançamos para os detalhes. Tento manter sempre essa lógica. Naturalmente, há pacientes mais jovens, com poucas alterações estruturais, em que faz sentido trabalhar pequenos pormenores desde o início. Mas, sobretudo em pacientes mais velhos, tentar corrigir tudo numa só sessão, ou achar que tudo se resolve com preenchimentos de ácido hialurónico, tende a conduzir a resultados pouco naturais e pouco satisfatórios, tanto para o paciente como para mim. A medicina regenerativa tornou-se uma expressão muito usada. O que é que, hoje, considera ter evidência mais consistente e indicações mais claras, e o que permanece ainda numa zona cinzenta? É uma área em grande crescimento, mas em que ainda é preciso separar aquilo que já tem evidência robusta daquilo que, apesar de promissor, ainda precisa de mais tempo e mais estudos. No caso dos bioestimuladores de colagénio mais utilizados, como a hidroxiapatite de cálcio e o ácido poli-L-láctico, já existe evidência muito consistente e indicações clínicas bem estabelecidas. São produtos com vários anos de utilização e com resultados sustentados pela literatura. Depois há abordagens mais recentes que não deixam de ser interessantes, nem de mostrar bons resultados na prática, mas que ainda têm pouco tempo de mercado. Isso significa que ainda não existe volume suficiente de estudos para afirmar, com a mesma segurança, qual é o seu real lugar terapêutico. Os polinucleótidos são um bom exemplo: parecem muito promissores, mas ainda estamos numa fase em que a experiência clínica tem algum peso e a evidência científica, embora crescente, ainda não é tão robusta como nos bioestimuladores mais consolidados. Há uma tendência crescente para combinar injetáveis, tecnologias e tratamentos de pele e corpo. Como decide o que é essencial e o que é acessório, em cada caso? Que métricas usa para avaliar resultados e como gere expectativas para evitar a lógica das “micro-correções” sucessivas? Isto começa na gestão de expectativas desde a primeira consulta. Eu explico logo que não há milagres e que os resultados variam de pessoa para pessoa. O facto de alguém “ter feito e ter ficado X” não significa que outro paciente vá ficar igual. Temos biologias diferentes, formatos de rosto diferentes e anatomias diferentes. E depois há fatores do dia a dia que contam muito, como os cuidados de pele, exposição solar, poluição, hábitos e ambiente. Quanto às combinações, podem ser excelentes, mas até um certo ponto. Há um momento em que é preciso reconhecer quando estamos a sobrecarregar a pele. Se um paciente acabou de fazer um procedimento e ainda tem sinais inflamatórios ou a pele sensibilizada, é imprudente “empilhar” tratamentos, o risco de resposta abaixo do esperado, ou até anómala, aumenta. Em termos de métricas, hoje temos ferramentas como os skin analyzers, que ajudam bastante, mas a métrica mais útil continua a ser a fotografia padronizada, feita sempre nas mesmas condições, para comparar o antes e o depois. E, para evitar micro-correções, volto ao essencial: respeitar tempos, explicar limites e não ceder à pressa. Há resultados que precisam de tempo e isso tem de ficar claro. Num mercado com múltiplas tecnologias e lasers, que perguntas clínicas considera determinantes antes de indicar um tratamento? Depende muito da pessoa e do objetivo, por isso é inevitavelmente individualizado. Há, no entanto, uma base que não muda: respeitar contraindicações absolutas. Se um equipamento homologado tem contraindicações definidas pela marca, por alguma razão é e eu não arrisco “pisar” essa linha. Depois, a decisão é sempre uma combinação entre aquilo que a evidência, a marca e o dispositivo nos dizem, e aquilo que o paciente à nossa frente precisa e permite. Também varia consoante a tecnologia, a área a tratar e o tipo de resultado pretendido. Um bom protocolo nasce desta integração: indicação clínica, segurança, expectativa realista e adequação a cada pessoa e não da disponibilidade de uma máquina. Vemos cada vez mais pessoas jovens a procurar “prevenção”. Em que sinais clínicos considera que faz sentido intervir e em que situações é precipitado ou até desnecessário? Eu não gosto de definir isto por uma idade. Faz sentido intervir quando existe um problema e a intervenção deve ser adequada ao contexto. Em pessoas muito jovens, por exemplo, pode surgir acne aos 12, 13, 14 anos. Aí, mesmo não sendo estritamente medicina estética, se o paciente nos procura, temos de saber orientar, encaminhar para Dermatologia quando se justifica e ajustar rotinas de cuidados de pele para prevenir agravamentos. E depois há uma realidade importante: há pessoas com 30 anos com peles incríveis porque sempre tiveram cuidados básicos consistentes, e há pessoas com 20 anos com pele já muito castigada. Por isso, para mim, faz sentido atuar quando há sinais objetivos e sempre com uma abordagem proporcional. Prevenção não é “fazer tudo cedo”; é agir com critério, no momento certo. No capítulo da skin quality, em que situações é que os peelings são realmente úteis e quando podem ser um erro? Os peelings são uma área muito delicada, e eu gosto muito deles, mas exigem uma coisa essencial: conhecer bem o paciente. Um peeling não é só o que acontece na consulta; exige “trabalho de casa”. Se a pessoa não cumprir cuidados em casa, pode correr mal e os resultados podem ficar muito longe do que pretendíamos. Por isso, mais do que escolher um peeling apenas pelo fotótipo, o ponto decisivo é a seleção do paciente e a capacidade real de cumprir o pós-procedimento. E aqui Portugal tem um desafio, mesmo no inverno, há exposição solar. Conseguir que a pessoa compreenda que tem mesmo de cumprir fotoproteção e cuidados é fundamental e nem sempre é fácil. É por isso que a consulta de avaliação tem de ser uma conversa séria e completa, perceber quem temos à frente, o nível de compromisso e o risco. Há procedimentos que podem ser ótimos num paciente e demasiado arriscados noutro e isso faz parte da responsabilidade clínica. Em que casos a toxina botulínica é uma prevenção bem indicada e em que casos é sobretudo correção? E quais são os mitos mais comuns? Não existe uma fórmula mágica “preventiva”. A toxina faz sentido quando há indicação, seja para reduzir contrações que favorecem rugas, seja para corrigir assimetrias, por exemplo em casos pós-paralisia facial. E a verdade é que vai muito além do “bloqueio”, pode ter impacto na qualidade da pele e, em certos contextos, é mesmo uma ferramenta excelente. Quando pode ser um erro? Quando não respeitamos a anatomia e a função. Eu, por exemplo, não faço toxina numa pessoa que já tenha o olhar muito “pesado” por excesso de pele palpebral e perda de força muscular. Bloquear mais pode agravar a queda e piorar o problema. Aí, temos de reconhecer limites e encaminhar para a especialidade indicada antes de qualquer procedimento. Quanto a mitos, ainda há muita confusão com preenchimentos. Muitos pacientes acham que a toxina “vai dar volume”, ou dizem que não querem “ficar com as bochechas grandes”. E outro mito comum é: “quando passar, vai ficar pior do que antes”. Na realidade, o que acontece muitas vezes é que a pessoa se habitua a ver a pele mais lisa e custa aceitar o regresso ao padrão natural quando o efeito termina e isso não é “piorar”, é retomar o curso normal. Daí a importância de explicar bem, orientar expectativas e fazer seguimento adequado. Passando para o ácido hialurónico, como decide quando faz sentido preencher e quando é que a melhor decisão é não preencher? Eu faço poucos preenchimentos e de forma muito pontual. A minha assinatura está mais na reestruturação e melhoria da pele “desde a base”. Para mim, o preenchimento é muitas vezes a cereja no topo do bolo, usado com critério, para pequenos ajustes: corrigir uma assimetria, compensar uma perda de volume muito evidente numa zona específica, harmonizar, sempre numa lógica conservadora e natural. E há um ponto que eu considero essencial, um preenchimento numa pele sem qualidade pode, paradoxalmente, evidenciar ainda mais os defeitos cutâneos. Se a pele não está bonita, uniforme, luminosa, o preenchimento não “resolve” isso e pode até chamar mais atenção para o problema. Primeiro trabalha-se a base; depois, se fizer sentido, faz-se um apontamento final. O que é que, no seu entender, define um bom resultado em medicina estética? É uma pergunta difícil, mas, para mim, um bom resultado é, antes de mais, um resultado saudável, natural e coerente com a pessoa que tenho à minha frente. Não se trata apenas de “melhorar” uma imagem, mas de respeitar a identidade do paciente e de alcançar um resultado com o qual ele se sinta bem, sem perder a sua expressão, a sua harmonia e a sua autenticidade. Claro que a satisfação do paciente diz-nos muito sobre a qualidade do resultado, mas essa satisfação também começa muito antes do procedimento. Começa na seleção do paciente e no alinhamento de expectativas. Se alguém me procura à procura de um resultado que eu considero exagerado, artificial ou desalinhado com a forma como trabalho, então provavelmente não sou a profissional certa para esse caso. E também é minha responsabilidade dizê-lo com honestidade. Acredito muito que um bom resultado depende tanto da execução técnica como da capacidade de reconhecer quando não devemos avançar. Às vezes, o melhor ato clínico é precisamente dizer: “não é esta a minha abordagem” ou “não vou conseguir entregar-lhe um resultado com o qual me identifique e com o qual fique verdadeiramente satisfeito”. Isso também é cuidar bem. O que considera continuar subvalorizado no setor quando se fala de segurança em medicina estética? Continuamos, muitas vezes, a subvalorizar a seriedade destes procedimentos. Instalou-se uma ideia perigosa de banalização, como se hoje qualquer pessoa pudesse fazer tudo, quando na verdade estamos a falar de atos que acarretam riscos reais e, em alguns casos, graves para a saúde. Quando se fala em complicações, muitas pessoas pensam apenas no hematoma ou num resultado esteticamente mal conseguido. Mas essa é, muitas vezes, a parte mais visível e menos grave do problema. Um preenchimento mal executado pode causar complicações sérias, como embolização vascular, necrose tecidular, cicatrizes incapacitantes e, em situações extremas, cegueira ou até eventos neurológicos graves. E isso obriga-nos a recentrar a conversa: medicina estética é medicina, e não pode ser tratada como algo leve ou inócuo. A face tem uma vascularização extremamente rica e uma anatomia complexa, com variações individuais importantes. Isso significa que não basta conhecer a técnica; é fundamental compreender profundamente a anatomia, respeitar os planos de segurança e saber reconhecer limites. Porque mesmo quando não se injeta diretamente num vaso, a simples compressão provocada pelo produto pode comprometer a circulação e ter consequências devastadoras. E isto não se aplica apenas aos preenchimentos. Todos os procedimentos, sem exceção, têm riscos. Os lasers podem provocar queimaduras, os peelings podem originar lesões químicas, cicatrização anómala ou hiperpigmentação, e até a toxina botulínica tem efeitos adversos possíveis, como a ptose palpebral. O problema não está em existirem riscos, porque eles existem em qualquer área da medicina, está em fingir que não existem ou em comunicá-los de forma vaga. Por isso, considero que o consentimento informado continua a ser uma das dimensões mais subvalorizadas. Não basta entregar um papel para assinar. O consentimento tem de ser verdadeiramente livre e esclarecido e a parte do esclarecimento exige tempo, clareza e frontalidade. O paciente tem o direito de saber o que pode acontecer, mesmo que a complicação seja rara. Não se trata de alarmismo; trata-se de honestidade clínica e respeito pela autonomia da pessoa. Explicar bem não é perder tempo, é ganhar tempo, segurança e confiança. Um paciente bem informado decide melhor, adere melhor e também compreende melhor o procedimento, os seus limites e os seus riscos. E essa literacia é parte essencial de uma prática ética. Facebook: Dra. Matilde Teles Instagram: @dra.matildeteles Marcações: linktr.ee/Dramatildeteles WhatsApp: +351 913 348 289 “Mudamos pelo que fazemos. O estoicismo moderno é a arte de escolher onde investir a nossa energia” “O envelhecimento não acontece à flor da pele”
Medicina Estética “Rejuvenescer já não significa mudar o rosto, mas recuperar a inteligência biológica da pele” Durante anos, falou-se sobretudo de rugas, volume e correção. Hoje, o foco desloca-se para a qualidade dos tecidos, a capacidade…
Medicina Estética “Há cirurgias que mudam vidas” A Cirurgia Plástica cruza-se com a oncologia, as queimaduras, a paralisia facial, as cicatrizes, a reconstrução mamária, as grandes perdas…
Medicina Estética “O maior risco da Medicina Estética é esquecer-se de que é Medicina” A Medicina Estética tem hoje mais ciência do que nunca. O risco começa quando se esquece de que é Medicina….