CRIANÇAS/GO BRAGA Precisa-se de um adulto que goste de ler By Revista Spot | Junho 4, 2021 Junho 7, 2021 Share Tweet Share Pin Email Com o livro também se pode e deve brincar, logo nos primeiros meses de vida. O mercado livreiro, aliás, não é indiferente a esta necessidade de fomento do gosto pelos livros e pela leitura desde tenra idade por via do prazer. A edição contemporânea para a infância tem primado por um cariz deliberadamente experimental, fruto de uma especial atenção concedida à materialidade do livro, aproximando-o da aceção de brinquedo. A oferta é, hoje, ampla e surge a um ritmo avassalador, apelando a um consumo e a uma leitura, muitas vezes, do tipo descartável e “comprimida”. Grande parte destes volumes, ainda que anatomicamente sedutores ao olhar e apetecíveis ao toque, não fogem à já longa relação entre livros e instrução, sendo imensas as propostas assentes numa lógica de racionalidade e de eficácia mesmo para pré-leitores. Mas esta forte aposta na sedução do leitor e dos pais (em muitos casos, verdadeiros consumidores) por via da valorização do design do objeto livro, materializada num grande número de obras que correspondem a versões condensadas, frívolas, de aparência monótona e superficial, frequentemente de contos ancestrais, por natureza, de leitura inesgotável, não resulta (sempre) em falta de qualidade. A intensa estetização do livro infantil advém, na realidade, de uma longa metamorfose, iniciada ainda no século XVIII, que permitiu, também, o surgimento de obras desafiantes, enigmáticas, nas quais a exploração acentuada do suporte valoriza a complexidade prazerosa do processo de leitura e põe à prova, inclusivamente, o próprio conceito de livro. Dotado de propriedades emocionais, que apelam a experiências de leitura memoráveis, alguns ilustradores e escritores contemporâneos para a infância dão provas de que a dimensão estética do livro não passa apenas pela euforia visual descartável, mas também pela exploração demorada e a contrarrelógio em relação ao ritmo dos dias a que a criança é sujeita, motivada pela fixação da beleza dos pequenos momentos e pela sensibilização do leitor pela paixão do Belo e do Bom. Cabe, portanto, ao adulto colocar a tónica nesta segunda via e promover o culto da arte e uma especial sensibilização para a palavra literária, apresentada, não raras vezes, de mãos dadas com outras expressões estéticas, como a ilustração ou o design. Rui Torres Photography: O contador de memórias Um dia no Externato Paulo VI
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