NUTRIÇÃO “Perder peso não é o mesmo que ganhar saúde” By Revista Spot | Maio 11, 2026 Maio 13, 2026 Share Tweet Share Pin Email E se o problema nunca tivesse sido a comida? Durante anos, ensinaram-nos a comer menos, a contar calorias, a resistir ao desejo, a compensar excessos e a caber num número. Mas o corpo não é uma tabela nutricional. É um sistema vivo, atravessado pelo cansaço, pela inflamação, pelas hormonas, pelo intestino, pelo stress, pela ansiedade e pelas emoções. Às vezes, aquilo a que chamamos fome é falta de sono. Aquilo que parece falta de disciplina pode ser stress crónico. E aquilo que vemos como peso a mais pode ser, na verdade, um corpo a tentar sobreviver em modo de alerta. Joana Pinho Vieira, nutricionista, olha para a nutrição funcional como uma mudança de pergunta. Não começa apenas por “quanto come?”, mas por “porque é que o corpo está a responder assim?”. Entre intestino, inflamação, micronutrientes, metabolismo, ansiedade, pele, energia e comportamento alimentar, esta entrevista ensina-nos a ver a alimentação como uma bússola para a vida e para uma saúde melhor. O que é que encontrou na nutrição funcional que não estava totalmente respondido numa abordagem mais convencional? Ainda durante a licenciatura, comecei a ter contacto com a nutrição funcional através de profissionais, sobretudo do Brasil, que traziam uma forma diferente de olhar para o alimento e para o corpo. Foi aí que percebi que a nutrição podia ir muito além da contagem de calorias ou da distribuição de macronutrientes. O que mais me fascinou foi esse olhar mais profundo sobre os micronutrientes, os compostos bioativos e o impacto que têm na inflamação, no stress oxidativo, na prevenção de desequilíbrios e na forma como a pessoa se sente no dia a dia. De repente, o alimento deixou de ser apenas energia e passou a ser informação para o organismo. Na faculdade, recebemos bases muito importantes em áreas como microbiologia, bioquímica, fisiologia ou histologia, mas muitas vezes só mais tarde percebemos como tudo isso se liga à prática clínica. A nutrição funcional permitiu-me fazer essa ponte: unir ciência, natureza e raciocínio clínico para construir estratégias verdadeiramente personalizadas. Cada plano alimentar deve responder à história, aos sintomas, às rotinas, aos objetivos e ao momento de vida de cada pessoa. O corpo dificilmente adoece de um dia para o outro; vai ficando vulnerável ao longo do tempo, através dos comportamentos, das circunstâncias, das exposições e dos desequilíbrios acumulados. Da mesma forma, recuperar saúde, energia e bem-estar também exige tempo, consistência e respeito pelo corpo. Foi isso que me apaixonou na nutrição funcional, perceber que ela não muda apenas o prato, mas, acima de tudo, a forma como a pessoa se sente, vive, trabalha, descansa e se relaciona consigo própria. Porque é que olhar apenas para calorias, peso e plano alimentar pode ser insuficiente? A nutrição funcional distingue-se precisamente pela profundidade. Não olha apenas para aquilo que a pessoa come, mas para tudo o que influencia a forma como o corpo recebe, digere, absorve, utiliza e responde aos alimentos. Somos aquilo que comemos, mas também aquilo que sentimos, aquilo que conseguimos digerir, a forma como dormimos, como gerimos o stress, como nos movimentamos e até como nos relacionamos com a comida. O comportamento alimentar é muitas vezes um reflexo do mundo interno da pessoa. Há quem coma mais quando está ansioso, há quem perca o apetite em momentos de tensão, há quem procure conforto na comida e há quem tenha dificuldade em reconhecer sinais reais de fome e saciedade. Olhar apenas para calorias é redutor. Uma imagem muito simples ajuda a explicar isto: 300 calorias provenientes de rebuçados não têm o mesmo impacto no organismo que 300 calorias provenientes de frutos oleaginosos. A energia pode ser semelhante, mas a informação metabólica é completamente diferente. Uns alimentos nutrem, regulam e protegem; outros podem favorecer picos glicémicos, inflamação e maior desequilíbrio. Costumo dizer que o organismo precisa de macronutrientes e micronutrientes da mesma forma que um carro precisa de combustível (macronutrientes) e óleo (micronutrientes). Não basta ter energia para andar; é preciso que todo o sistema funcione bem. Ignorar a qualidade dos nutrientes, os horários, as combinações alimentares, os picos glicémicos, a digestão, a suplementação, quando necessária, e os gatilhos individuais é comprometer o sucesso do processo. A nutrição funcional procura dar autonomia à pessoa. Não se trata apenas de seguir um plano alimentar, mas de compreender o próprio corpo, identificar o que faz bem, perceber o que desequilibra e construir hábitos sustentáveis. É uma abordagem que procura otimizar o funcionamento das células, dos órgãos e, consequentemente, da energia, da disposição, da performance física, intelectual e emocional. Na sua prática entram fatores como o sono, stress, sintomas digestivos, contexto emocional, composição corporal e exames. O que é que esta leitura mais global permite perceber? Permite perceber que muitos sinais que as pessoas normalizam não são, na verdade, sinais de equilíbrio. Inchaço abdominal frequente, flatulência, dificuldade em evacuar, fezes muito duras, fragmentadas ou demasiado pastosas, eructação constante, má digestão ou sensação de desconforto depois de comer são mensagens do corpo. O problema é que muitas pessoas habituam-se a viver assim e deixam de reconhecer esses sinais como importantes. A nutrição funcional parte muito desta escuta. Tal como na medicina integrativa, não olho para um sintoma isolado nem para um órgão separado do resto do corpo. O que acontece no intestino não fica apenas no intestino. Pode ter impacto na pele, na energia, no humor, na imunidade, no metabolismo e até na forma como a pessoa dorme ou responde ao stress. O sistema digestivo é como uma linha de montagem. Se a primeira etapa falha, dificilmente teremos um bom resultado no final. Uma mastigação insuficiente, refeições feitas à pressa, stress elevado, baixa produção de ácido gástrico ou enzimas digestivas podem comprometer todo o processo de digestão e absorção. E, se os nutrientes não forem bem absorvidos, o corpo fica com menos matéria-prima para realizar as suas funções. Também por isso, os exames clínicos e bioquímicos são ferramentas fundamentais. São como um raio-X metabólico, permitem ver aquilo que não conseguimos avaliar apenas a olho nu. Através deles, conseguimos identificar défices nutricionais, alterações metabólicas, sinais inflamatórios, desequilíbrios hormonais, função tiroideia, resistência à insulina, entre outros aspetos relevantes. Isto é particularmente importante quando falamos de suplementação. Suplementar sem avaliar pode ser insuficiente, mas também pode ser irresponsável. A suplementação deve ter critério, contexto e objetivo. Só assim conseguimos desenhar uma estratégia segura, personalizada e eficaz para melhorar a saúde, a vitalidade e o bem-estar da pessoa. Porque é que a mudança alimentar falha tantas vezes não por falta de informação, mas por padrões de comportamento já muito instalados? Porque a informação, por si só, não muda o comportamento. Muitas pessoas sabem o que deveriam fazer, mas não sabem como aplicar esse conhecimento à sua rotina, ao seu corpo, à sua vida emocional e às suas circunstâncias reais. A mudança começa muitas vezes antes do plano alimentar: começa na decisão de querer fazer diferente. Quando uma pessoa procura acompanhamento, já existe ali uma vontade de mudar, uma consciência de que podia sentir-se melhor, viver com mais energia ou relacionar-se de forma mais saudável com o corpo e com a alimentação. Mas essa vontade precisa de ser guiada. Na consulta, há sempre uma negociação entre aquilo que eu sei que a pessoa precisa e aquilo que ela consegue, gosta e está disponível para fazer. O plano tem de ser eficaz, mas também tem de ser praticável, saboroso e ajustado à rotina. Se for demasiado rígido, distante da realidade ou vivido como uma dieta, dificilmente se mantém. Muitas dificuldades em mudar também podem estar ligadas a um corpo inflamado, cansado ou carente de micronutrientes. Quando a pessoa está sem energia, dorme mal, tem alterações hormonais, digestão comprometida ou vive em stress permanente, torna-se muito mais difícil ter motivação, disciplina e disponibilidade mental para cuidar de si. Além disso, os padrões alimentares começam muito cedo. Podem nascer na infância, nas memórias afetivas ligadas à comida, no ambiente familiar, na forma como fomos ensinados a comer, a compensar emoções ou a procurar conforto. Por isso, muitas vezes, o trabalho tem de ser multidisciplinar e envolver também psicologia ou outras áreas de apoio. A mudança alimentar falha quando é tratada apenas como dieta. Para ser duradoura, precisa de integrar corpo, mente, rotina, prazer, necessidades reais e autoconhecimento. Não basta saber o que comer; é preciso compreender porque se come, como se come e o que o corpo está realmente a pedir. Em momentos de maior ansiedade, muitas pessoas sentem cravings intensos por açúcar, gordura ou alimentos muito palatáveis. O que é que o corpo pode estar realmente a pedir? Quando falamos de fome emocional, temos primeiro de perceber que tipo de fome está realmente presente. A fome é sempre uma falta de alguma coisa. Pode ser falta de energia, mas também pode ser falta de pausa, de descanso, de segurança, de conforto, de amor-próprio ou até de espaço para sentir uma determinada emoção. Por isso, antes de rotularmos tudo como fome emocional, é importante perguntar: que emoção está aqui? De onde vem? O que é que esta pessoa está a tentar compensar ou silenciar através da comida? Na prática clínica, vejo muitas vezes que essa vontade intensa de comer pode ter várias origens. Pode estar associada a ansiedade, stress ou necessidade de recompensa rápida, mas também pode ter uma base fisiológica. Défices nutricionais, anemia, picos glicémicos, alterações hormonais, fases do ciclo menstrual, menopausa, privação de sono ou excesso de cortisol podem influenciar muito o apetite, a saciedade e a procura por determinados alimentos. Por exemplo, uma pessoa com défice de ferro pode sentir-se constantemente cansada, e o cérebro interpreta essa falta de energia como uma necessidade de ingerir mais alimentos, muitas vezes mais calóricos. Noutras situações, a pessoa pode procurar sal, açúcar ou gordura não por falta de força de vontade, mas porque o corpo está desregulado e tenta encontrar uma compensação rápida. O trabalho passa muito por desenvolver autoconhecimento. Costumo pedir ao paciente que quantifique essa vontade de comer: de zero a dez, quanto é esta fome? É fome física? É vontade de fazer uma pausa? É ansiedade? É tédio? É procrastinação? É necessidade de conforto? Essa consciência muda tudo, porque permite sair do automatismo. A pessoa deixa de se sentir dominada pelo impulso e começa a perceber o que está por trás dele. E, quando o metabolismo fica mais organizado, a alimentação ganha qualidade e o corpo volta a estar melhor nutrido, muitas dessas vontades intensas por alimentos hiperpalatáveis diminuem naturalmente. Também é muito importante quebrar o ciclo de culpa e compensação. Comer em resposta a uma emoção não deve ser motivo para punição. Deve ser motivo para escuta. A culpa só alimenta mais descontrolo, mais rigidez e mais sofrimento. Por isso, quando entram questões como autoimagem, ansiedade, vergonha ou compensação, muitas vezes o acompanhamento deve ser multidisciplinar, envolvendo nutrição, psicologia e outras abordagens que ajudem a pessoa a reconstruir uma relação mais segura com o corpo e com a comida. De que forma a nutrição funcional pode contribuir para a prevenção da doença e para a otimização do bem-estar geral? A nutrição funcional contribui sobretudo porque trabalha na base de muitos desequilíbrios: a inflamação, o stress oxidativo, a saúde intestinal, o equilíbrio hormonal, o metabolismo, a energia celular e a forma como o corpo responde ao ambiente. Hoje sabemos que muitos processos de doença não surgem de um dia para o outro. O corpo vai dando sinais, vai acumulando fragilidades, vai perdendo capacidade de resposta. A alimentação, o sono, o stress, a exposição a toxinas, o sedentarismo, os défices nutricionais e a saúde emocional têm impacto direto nessa trajetória. O meu trabalho passa por usar a alimentação de forma inteligente, mas também por avaliar o organismo com ferramentas objetivas. As análises clínicas são fundamentais, porque nos permitem perceber o que está a acontecer para além dos sintomas. Marcadores como a proteína C reativa ultrassensível, a hemoglobina glicada, o perfil lipídico, a função hepática, a função tiroideia, a relação entre neutrófilos e linfócitos, bem como níveis de vitamina D, ferro, zinco, selénio, vitamina B12 e outros nutrientes, ajudam-nos a perceber o estado metabólico e inflamatório da pessoa. Quando falamos de prevenção, falamos de criar melhores condições internas para o corpo funcionar. Isso pode ser importante em áreas muito diferentes: saúde cardiovascular, fertilidade, saúde hormonal, esteatose hepática, resistência à insulina, imunidade, envelhecimento, saúde da pele, composição corporal, energia, disposição e até saúde cognitiva. A suplementação, quando necessária, também pode ter um papel relevante, mas deve ser feita com critério. Não se trata de tomar suplementos por tendência, mas de perceber o que aquela pessoa precisa, naquele momento, com base na sua história, nos sintomas e nas análises. Para mim, otimizar o bem-estar é isto: ajudar o corpo a funcionar melhor antes de chegar à doença, ou antes de os sintomas se tornarem incapacitantes. A nutrição funcional não se limita a “tirar alimentos” ou a “dar um plano”. Procura devolver vitalidade, clareza, energia e autonomia ao paciente. Vivemos quase permanentemente em modo de alerta. Como é que esse estado influencia o corpo, o apetite e até a tendência para acumular gordura, nomeadamente através de mecanismos como o cortisol? Quando vivemos constantemente em modo de alerta, o corpo interpreta esse estado como uma ameaça. Mesmo que não estejamos perante um perigo real, o organismo ativa mecanismos de sobrevivência, nomeadamente o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que está muito ligado à produção de cortisol. O cortisol é uma hormona essencial, mas quando está cronicamente elevado ou desregulado pode ter impacto em vários sistemas. Pode influenciar a resistência à insulina, a captação de glicose pelo músculo, a produção de glicose pelo fígado, o apetite, a saciedade, o sono, a inflamação e a tendência para acumular gordura, especialmente gordura visceral. O stress crónico não afeta apenas a mente. Afeta o intestino, o fígado, o tecido adiposo, o sistema imunitário, o sistema cardiovascular, a massa muscular e até a produção de energia dentro das células. Quando o sistema nervoso está excessivamente ativado durante muito tempo, a pessoa pode sentir fadiga, falta de motivação, maior irritabilidade, pior digestão, mais cravings e menor capacidade de regular o comportamento alimentar. É também uma via de mão dupla. A ansiedade pode ser influenciada por experiências traumáticas, acontecimentos diários, privação de sono ou sobrecarga emocional, mas também por défices nutricionais, alterações hormonais, inflamação, desregulação intestinal ou instabilidade glicémica. Por isso, quando uma pessoa diz que não consegue controlar o apetite, que sente fome constante, que tem quebras de energia ou que acumula gordura apesar de tentar fazer tudo bem, temos de olhar para o contexto. Restrição alimentar e défice calórico não chega. É preciso perceber se o corpo está inflamado, se dorme bem, se digere bem, se está nutrido, se há resistência à insulina, se há desequilíbrio hormonal, se há stress crónico ou se existe uma sobrecarga emocional que precisa de ser trabalhada. O corpo não separa stress emocional de stress metabólico. Para ele, tudo comunica. E, quando essa comunicação entra em caos, o metabolismo também perde eficiência. O que é que já sabemos sobre a ligação entre intestino, inflamação de baixo grau, bem-estar emocional e risco de doença silenciosa? Hoje sabemos que o intestino tem um papel central na saúde global. Não é apenas um órgão digestivo. É um órgão metabólico, imunitário, neurológico e hormonal. Aquilo que acontece no intestino pode influenciar a pele, o cérebro, a tiroide, o fígado, o sistema imunitário, o metabolismo e até a forma como nos sentimos emocionalmente. Quando existe desequilíbrio intestinal, seja por disbiose, má digestão, permeabilidade intestinal aumentada, crescimento bacteriano excessivo ou inflamação de baixo grau, a absorção de nutrientes pode ficar comprometida. E, se o corpo não absorve bem aquilo de que precisa, começa a faltar matéria-prima para produzir energia, hormonas, neurotransmissores, enzimas e mecanismos de reparação. O chamado eixo intestino-cérebro é hoje muito falado, mas existem também outras ligações importantes: intestino-pele, intestino-fígado, intestino-tiroide e intestino-sistema imunitário. O intestino comunica com todo o organismo através de metabolitos, hormonas, sinais inflamatórios, neurotransmissores e da própria microbiota. Por isso, quando a microbiota está desequilibrada, não interessa apenas saber que bactérias estão presentes, mas também aquilo que estão a produzir. Esses metabolitos podem contribuir para saúde ou para inflamação. Podem apoiar a barreira intestinal, modular a imunidade e favorecer o equilíbrio, ou, pelo contrário, alimentar processos inflamatórios silenciosos. A permeabilidade intestinal aumentada, muitas vezes chamada de “leaky gut”, pode facilitar a passagem de moléculas que não deveriam atravessar a barreira intestinal, ativando o sistema imunitário e contribuindo para inflamação sistémica. Essa inflamação de baixo grau pode estar associada a alterações metabólicas, problemas de pele, fadiga, alterações digestivas, resistência à insulina, alterações hormonais e maior vulnerabilidade a várias doenças crónicas. Também é importante lembrar que o intestino participa na eliminação e metabolização de substâncias, em conjunto com o fígado e os rins. Quando esse processo está comprometido, podem surgir alterações no metabolismo hormonal, no trânsito intestinal, na retenção de toxinas e no equilíbrio geral do organismo. Por isso, trabalhar o intestino é muitas vezes uma prioridade. Não porque ele seja a resposta para tudo, mas porque é uma das grandes portas de entrada para restaurar equilíbrio. Cuidar do intestino é cuidar da forma como o corpo digere, absorve, elimina, regula a inflamação, comunica com o cérebro e sustenta a saúde a longo prazo. Continua a existir muita confusão entre perder peso e perder gordura. E o que é que ainda se subestima quando falamos do papel da massa gorda na inflamação e na saúde metabólica? Essa diferença é fundamental, porque perder peso não significa necessariamente perder gordura. Muitas vezes, a pessoa vê o número da balança descer, mas pode estar a perder massa muscular, água ou glicogénio, e não propriamente tecido adiposo. E isso muda completamente o impacto metabólico do processo. O objetivo não deve ser apenas pesar menos, mas melhorar a composição corporal. A massa muscular é uma espécie de poupança-reforma do organismo, quanto mais a cultivamos ao longo da vida, maior é a nossa reserva de saúde, autonomia, força, equilíbrio metabólico e capacidade de envelhecer melhor. Já o tecido adiposo, sobretudo quando está em excesso, não é apenas uma reserva de energia. É um órgão endócrino ativo, capaz de produzir moléculas inflamatórias e interferir com várias funções metabólicas. Pode contribuir para resistência à insulina, inflamação crónica de baixo grau, alterações hormonais, maior risco cardiometabólico, risco de cancro e menor vitalidade. Por isso, acumular massa gorda não é apenas uma questão estética. É criar um ambiente interno mais propício ao desequilíbrio. Ao contrário, o músculo tem um papel muito protetor, ajuda a regular a glicose, melhora a sensibilidade à insulina, contribui para um metabolismo mais eficiente e tem um efeito anti-inflamatório importante. A atividade física também influencia positivamente a microbiota intestinal, o humor, a energia e o funcionamento global do organismo. Por isso, quando falamos de emagrecimento saudável, temos de falar de gordura, músculo, inflamação, intestino, metabolismo e estilo de vida. A balança mostra um número, mas não conta a história toda. Recentemente fez uma pós-graduação em Nutrição Estética. Onde é que se cruzam a saúde e a estética? Durante algum tempo, confesso que olhei para a nutrição estética com alguma resistência, talvez por a associar a algo mais superficial. Sempre me interessei muito pela área clínica, pela prevenção de doença, pelos desequilíbrios metabólicos e melhoria das patologias. Mas, ao aprofundar esta área, percebi que a base é exatamente a mesma: equilíbrio nutricional, equilíbrio metabólico, controlo da inflamação, redução do stress oxidativo e correção de défices nutricionais. A estética também é um parâmetro do estado nutricional. A pele, o cabelo, as unhas, a cicatrização, a celulite, a flacidez, o brilho da pele ou a queda de cabelo podem ser sinais externos de algo que está a acontecer internamente. Um organismo inflamado, oxidado ou com deficiências nutricionais, manifesta-se por fora. O que vemos por fora não está separado do que acontece por dentro. A pele é o maior órgão do corpo e pode refletir alterações digestivas, hormonais, inflamatórias, nutricionais e até emocionais. Da mesma forma, cabelo fraco, unhas frágeis, acne, dermatite, psoríase, pele sem luminosidade ou alterações na cicatrização podem ser pistas clínicas importantes. E há outra dimensão que também considero relevante: muitas pessoas não começam a mudar a pensar na saúde, começam porque querem sentir-se melhor ao espelho. E isso não deve ser desvalorizado. A autoestima influencia a forma como a pessoa se cuida, se apresenta, se movimenta e se relaciona consigo própria. A nutrição estética mostra precisamente isso: beleza e saúde não devem ser vistas como áreas separadas. Quando cuidamos do organismo por dentro, muitas vezes o resultado também se torna visível por fora. Onde é que estética e doença se encontram? Encontram-se na base fisiológica. Muitos dos mecanismos que estão envolvidos no envelhecimento da pele, na perda de colagénio, na má cicatrização, na celulite, na queda de cabelo ou na flacidez são também mecanismos relevantes na prevenção de doença: inflamação, stress oxidativo, défices nutricionais, resistência à insulina, alterações hormonais, disfunção intestinal e menor eficiência mitocondrial. Um exemplo muito claro é o pré e pós-operatório. Antes de uma cirurgia, estética ou não, o estado nutricional do paciente deveria ser sempre avaliado com cuidado. Uma cirurgia implica agressão tecidular, inflamação, necessidade de reparação, cicatrização e produção de novo tecido. Para isso, o corpo precisa de matéria-prima. Se a pessoa estiver anémica, com défice de ferro, défice de vitamina C, défice de zinco, vitamina D baixa, glicemia desregulada ou stress oxidativo elevado, a recuperação pode ficar comprometida. A cicatrização pode ser pior, a inflamação pode ser mais difícil de controlar e o resultado final pode não ser o ideal. Outro exemplo é a glicação. Quando há alterações glicémicas persistentes, como uma hemoglobina glicada elevada, isso não tem impacto apenas no risco metabólico. Também pode interferir com a qualidade do colagénio, com a firmeza da pele e com o processo de envelhecimento cutâneo. O mesmo acontece com o fígado e o intestino. Se estes órgãos não estiverem a funcionar bem, a metabolização hormonal, a eliminação de toxinas, a absorção de nutrientes e a regulação inflamatória podem ficar comprometidas. E isso pode ter expressão tanto na saúde como na estética. Por isso, nutrição estética não é olhar apenas para a aparência. É perceber que muitas alterações visíveis podem ser sinais de desequilíbrios internos que merecem investigação e acompanhamento. Em que condições estéticas a nutrição funcional pode fazer diferença? Pode fazer diferença em várias situações, sobretudo quando existe uma componente inflamatória, hormonal, circulatória, intestinal ou nutricional associada. A celulite, o lipedema, a retenção de líquidos, a flacidez, alopecias, as unhas frágeis, o envelhecimento cutâneo, a acne, as alterações na cicatrização e o acompanhamento pré e pós-cirúrgico são alguns exemplos. No caso da celulite e do lipedema, por exemplo, é importante perceber que não estamos a falar da mesma condição. O lipedema é uma doença crónica, com uma fisiopatologia própria, muitas vezes associada a dor, inflamação, alterações do tecido adiposo e impacto na qualidade de vida. A celulite, embora muito comum, tem outro enquadramento e pode envolver circulação, tecido conjuntivo, retenção de líquidos, inflamação local, composição corporal e fatores hormonais. A nutrição funcional permite olhar para estes processos de forma mais personalizada. Avaliamos o estado inflamatório, a saúde intestinal, a função hepática, o equilíbrio hormonal, a qualidade da alimentação, o consumo de proteína, os défices de micronutrientes, a hidratação, o sono, o stress e até a resposta ao exercício. No caso da pele e da cicatrização, há nutrientes que têm um papel muito importante, como a proteína, a vitamina C, o ferro, o zinco, o cobre e outros cofatores envolvidos na produção de colagénio e na regeneração tecidular. Mas é importante sublinhar que não existe “um nutriente milagroso” para uma função. Existe, sim, uma função biológica que depende de vários nutrientes, de um bom metabolismo e de um organismo capaz de os utilizar. Também no acompanhamento cirúrgico, o estado nutricional é determinante. Uma pessoa com bons níveis de ferro, boa ingestão proteica, bom controlo glicémico e menor inflamação terá, à partida, melhores condições para cicatrizar e recuperar. A grande vantagem desta abordagem é juntar estética, saúde e fisiologia. Não tratamos apenas aquilo que se vê. Tentamos compreender porque é que aquilo está a acontecer e que sistemas do corpo precisam de ser trabalhados para melhorar o resultado de forma mais consistente. Instagram: @joanapinhovieira_nutriresorrir Site: joana-pinho-vieira-nutrir-e-sorrir.mailchimpsites.com Marcações: linktr.ee/joanapinhovieira_nutriresorrir Maio celebra a maternidade. Mas quem cuida de quem ainda espera? Cátia Santos, médica psiquiatra, lança projeto pioneiro para mulheres em experiência de infertilidade “Durante a jornada oncológica, há uma pergunta silenciosa: quem sou eu neste corpo?”
NUTRIÇÃO “Qual é a relação entre líbido e alimentação? Quando o corpo está em défice, o desejo é uma das primeiras coisas a desaparecer” Quando uma pessoa perde a líbido, raramente perde apenas o desejo. Muitas vezes, perde energia, confiança, leveza, ligação ao corpo…
NUTRIÇÃO “A alimentação começa na barriga da mãe, nas escolhas da família, nos ritmos da casa, nas crenças que se repetem à mesa” “À mesa, uma criança aprende muito mais com o que vê do que com o que lhe é dito” Primeiro…
NUTRIÇÃO “Muitas mulheres vivem em guerra com a comida sem perceberem que estão presas a uma dependência silenciosa” Uma mulher na menopausa, uma mulher no pós-parto e uma empresária sujeita a elevada pressão mental podem até partilhar o…