Saúde Infantil “Sou pediatra, mas também sou mãe. Sei como é difícil manter a calma quando uma criança está abatida ou desconfortável” By Revista Spot | Julho 16, 2026 Julho 18, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nunca houve tantos pais a saber tanto sobre a infância. Conhecem janelas de sono, curvas de crescimento, métodos de introdução alimentar, sinais de desenvolvimento e recomendações sobre ecrãs. Ainda assim, chegam muitas vezes à consulta inseguros, cansados e com a sensação de que estão sempre a falhar em alguma coisa. A pediatra Sandra Silva vê este paradoxo todos os dias. Durante quase duas décadas, trabalhou em Neonatologia, junto de bebés que chegaram ao mundo cedo demais e de famílias obrigadas a lidar, de repente, com o medo, a exaustão e a incerteza. Foi aí que percebeu que ser pediatra não é apenas saber o que fazer. É saber explicar, acalmar, escutar e estar presente quando as respostas não são imediatas. Hoje, leva essa experiência para o consultório, onde se cruzam dúvidas sobre o sono, a alimentação, o desenvolvimento, os ecrãs e a forma certa de educar. E procura devolver aos pais aquilo que o excesso de informação tantas vezes lhes retira: confiança no próprio olhar. O seu percurso começou na Neonatologia, onde cada decisão pode fazer a diferença. De que forma essa experiência moldou a pediatra que é hoje? A Neonatologia transformou-me profundamente. Costumo dizer que foi aí que aprendi a ser médica, mas também a ser mais humana. Durante quase duas décadas acompanhei bebés que chegaram ao mundo demasiado cedo ou em circunstâncias muito delicadas. Ao lado deles estavam sempre os pais, assustados, exaustos, a viver uma montanha-russa emocional para a qual ninguém os prepara. Lembro-me muitas vezes da fragilidade daqueles primeiros dias de vida. Da força impressionante de bebés minúsculos. Dos silêncios dos pais. Dos olhares cheios de esperança. E também de momentos difíceis que nunca se esquecem. Quando olho para trás, não me recordo de uma experiência específica, foram centenas de histórias vividas que, pouco a pouco, moldaram a forma como vejo a Medicina e como cuido das crianças. Histórias diferentes, desafios distintos e emoções intensas que, juntas, moldaram profundamente a médica e a pessoa que sou hoje. Hoje, levo para o consultório essa combinação de conhecimento, experiência e proximidade que a neonatologia me ajudou a construir. Nunca houve tantas vacinas, tanto conhecimento científico e tanta prevenção. Apesar disso, a sensação é de que as preocupações em torno da infância nunca foram tão grandes. Como interpreta este paradoxo? Vejo este paradoxo todos os dias nas consultas. Temos mais conhecimento do que nunca e isso é extraordinário. Mas, ao mesmo tempo, sinto que muitos pais vivem com a sensação permanente de que estão a falhar em alguma coisa. Talvez porque hoje existe uma pressão enorme para fazer tudo certo. Há opiniões por todo o lado, conselhos contraditórios, listas intermináveis do que fazer e do que evitar. E os pais acabam muitas vezes por viver a parentalidade como se estivessem constantemente a ser avaliados. Confesso que, por vezes, sinto vontade de lhes dizer para respirarem fundo. Porque a infância não é um exame. Não é uma competição. Não é uma corrida para ver quem faz tudo da forma mais perfeita. Os momentos mais importantes da vida de uma criança raramente são os mais perfeitos. São aqueles em que os pais estão presentes, disponíveis, imperfeitos e verdadeiros. A Pediatria tornou-se uma especialidade mais próxima da vida quotidiana das crianças? Sem dúvida. E, para ser sincera, acredito que essa é uma das transformações mais bonitas da Pediatria. Quando as pessoas pensam num pediatra, imaginam muitas vezes alguém que trata febres, infeções ou doenças. Mas a verdade é que uma grande parte do meu trabalho acontece quando a criança está saudável. Muitas das consultas que mais me marcam não acontecem perante um diagnóstico difícil. Algumas começam com “É só uma dúvida rápida” e acabam por incluir sono, alimentação, ecrãs, birras, escola e o cão da família. Há adolescentes que acompanho hoje e que conheci ainda bebés. Quando entram no consultório, quase sempre me lembro da primeira consulta, dos pais mais jovens, das preocupações da altura. Ver a pessoa em que se estão a transformar é um privilégio difícil de explicar. É talvez isso que me faz continuar apaixonada pela Pediatria todos estes anos depois. Entre aplicações que monitorizam tudo, pesquisas constantes na internet e uma enorme quantidade de informação disponível, será que os pais estão a perder a confiança na sua própria intuição? Por vezes, sim. A tecnologia trouxe-nos ferramentas incríveis e informação valiosa. Seria injusto negar isso. Mas também sinto que muitos pais deixaram de confiar naquilo que observam todos os dias: o seu próprio filho. Vejo famílias preocupadas porque uma aplicação diz que o bebé dormiu menos meia hora do que devia, ou porque uma pesquisa na internet sugere que determinado comportamento pode significar um problema. A infância não cabe numa tabela perfeita. Há crianças que falam mais cedo, outras mais tarde. Algumas são mais expansivas, outras mais observadoras. E muitas dessas diferenças fazem simplesmente parte da riqueza do desenvolvimento humano. Uma das coisas que mais procuro fazer em consulta é devolver confiança aos pais. Ajudá-los a perceber que, na maioria das vezes, conhecem os seus filhos melhor do que imaginam. Porque a ciência é fundamental. Mas a intuição, o olhar atento e a ligação construída todos os dias dentro de casa também têm um valor enorme. Como se promove o aleitamento materno com rigor científico, sem transformar essa recomendação num espaço de pressão, julgamento ou culpa? Este é um dos temas que mais emoções desperta e que me é particularmente querido. Ao longo dos anos, para além da prática clínica, tenho trabalhado na formação de conselheiras em aleitamento materno, o que me permitiu acompanhar de perto muitas mães, com realidades e desafios muito diferentes. E talvez o que mais me tenha marcado seja perceber o peso da culpa que tantas mulheres carregam. Sou uma defensora convicta do aleitamento materno e acredito nos seus benefícios. Mas também aprendi que promover não pode significar pressionar. Nunca conheci uma mãe que não quisesse dar o melhor ao seu filho. Aliás, se a dedicação das mães pudesse ser medida em horas de sono perdidas, os resultados seriam impressionantes. Por isso, quando uma mãe chega à consulta a sentir que falhou porque a amamentação não correu como imaginava, a minha primeira preocupação não é falar de recomendações. É acolher aquela dor. A maternidade já traz desafios suficientes. Não precisamos de acrescentar culpa. No final, aquilo que verdadeiramente importa é que exista um bebé cuidado, amado e uma mãe que também se sente cuidada e respeitada. A febre continua a ser um dos grandes motivos de preocupação das famílias. Ainda se recorre demasiado depressa às urgências, aos antibióticos ou à ideia de que é preciso “fazer alguma coisa”? A febre continua a assustar muito os pais. Há poucos aparelhos em casa com o poder de alterar tão rapidamente o humor de uma família inteira. Curiosamente, quando fiz um trabalho sobre a chamada “fobia da febre”, há cerca de vinte anos, já era assim. E continua a ser. Talvez porque a febre nos confronta com algo muito humano: o medo de vermos um filho doente e de não sabermos exatamente o que fazer. Compreendo essa ansiedade. Sou pediatra, mas também sou mãe. Sei como é difícil manter a calma quando uma criança está abatida ou desconfortável. O que procuro transmitir às famílias é que a febre, na maioria das situações, não é a doença. É um sinal de que o organismo está a reagir. Mais importante do que o número que aparece no termómetro é olhar para a criança. Como está? Brinca? Procura colo? Aceita líquidos? Interage? Quando os pais aprendem a observar estes sinais, ganham confiança e conseguem tomar decisões mais serenas e evitam idas desnecessárias às urgências ou o uso inadequado de antibióticos. Costumo dizer que devemos olhar primeiro para a criança e só depois para o termómetro. Muitas vezes, esse simples exercício muda completamente a perspetiva. O sono infantil e a alimentação são hoje temas muito discutidos e muitas vezes comercializados. O que é normal, o que merece atenção e onde começa o excesso de expectativas? Vivemos numa altura em que parece existir uma fórmula perfeita para tudo. O bebé deveria dormir determinado número de horas, comer certa quantidade e atingir metas muito específicas em datas exatas. Mas as crianças não leem manuais. Uma das maiores aprendizagens que a Pediatria me trouxe foi precisamente esta: cada criança tem o seu ritmo. Há bebés que dormem a noite inteira cedo. Outros demoram mais tempo. Há crianças que adoram experimentar alimentos novos e outras que precisam de semanas para aceitar algo diferente. E, muitas vezes, aquilo que vejo não é um problema da criança. É a ansiedade gerada pelas expectativas à sua volta. Claro que existem sinais de alerta que merecem atenção. Mas também existe uma enorme normalidade em muitos dos desafios que preocupam as famílias. Talvez uma das partes mais importantes do meu trabalho seja ajudar os pais a perceber que crescer não é uma corrida. É um processo. E que, muitas vezes, o melhor remédio é dar tempo ao tempo. O que é que uma criança nunca deveria perder durante a infância? Sem hesitar: o direito de brincar. Às vezes tenho a sensação de que estamos tão preocupados em preparar as crianças para o futuro que nos esquecemos de lhes permitir viver plenamente o presente. A infância não deveria ser uma agenda cheia de objetivos. Deveria ser um tempo de descoberta. As memórias mais felizes raramente nascem de atividades cuidadosamente planeadas. Muitas vezes nascem de caixas de cartão que acabaram por ser mais interessantes do que o brinquedo que estava lá dentro. Quando uma criança brinca, está a fazer muito mais do que passar o tempo. Está a construir a sua criatividade, a sua autonomia, a sua confiança e a sua forma de olhar para o mundo. Se pudesse pedir apenas uma coisa aos pais, seria esta: protejam espaço para a brincadeira. Porque a infância passa depressa e há coisas que não voltam. Num tempo em que se valoriza tanto a ciência, onde entram a escuta, a empatia e a relação construída entre médico, criança e família? Entram em tudo. A ciência é indispensável. É ela que orienta as nossas decisões e nos permite oferecer os melhores cuidados possíveis. Mas a Medicina nunca pode ser feita apenas de diagnósticos e protocolos. Ao longo da minha carreira percebi que as famílias raramente se recordam das palavras exatas que lhes dissemos. Lembram-se, isso sim, de como se sentiram. Sentiram-se ouvidas? Respeitadas? Acolhidas? Porque ninguém sai de uma consulta a dizer: “Que guideline extraordinária.” Mas lembram-se de como foram tratados. Para mim, uma boa consulta começa muito antes do exame físico. Começa quando alguém sente que pode falar sem medo de ser julgado. A ciência diz-nos o que fazer. A empatia ajuda-nos a decidir como fazê-lo. E acredito precisamente que esse equilíbrio que faz a diferença entre tratar uma doença e cuidar verdadeiramente de uma criança. E essa dimensão humana nunca poderá ser substituída por nenhuma tecnologia. Quando acompanha uma criança, olha apenas para o presente ou também para o adulto que ela poderá tornar-se? Olho sempre para os dois. É isso que torna a Pediatria tão especial. Temos o privilégio de assistir ao crescimento de uma pessoa. Muitas vezes recebo adolescentes no consultório e lembro-me perfeitamente de os conhecer ainda ao colo dos pais. O momento mais desafiante é quando eles já ultrapassaram a minha altura e eu continuo a vê-los como aquele bebé da primeira consulta. E nesses momentos é impossível não sentir uma certa emoção. Porque percebemos quanto caminho foi percorrido. A Pediatria é a especialidade do futuro. Em cada criança há um adulto em construção e, de certa forma, cada consulta é uma oportunidade para contribuir para esse futuro. E isso continua a ser um dos maiores privilégios da minha profissão. A Pediatria é, no fundo, a arte de cuidar do presente enquanto ajudamos a construir o futuro. 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