SAÚDE “A partir dos 40, o corpo feminino atravessa uma reorganização metabólica profunda” By Revista Spot | Julho 10, 2026 Julho 10, 2026 Share Tweet Share Pin Email Passámos anos a medir a saúde em quilos. A balança decidia se uma semana tinha corrido bem, se uma dieta estava a resultar e, demasiadas vezes, até se uma mulher se sentia bem consigo própria. Entretanto, o conhecimento sobre o metabolismo evoluiu e começou a mostrar tudo aquilo que um número não consegue contar. Músculo. Gordura visceral. Sensibilidade à insulina. Saúde óssea. Sono. Hormonas. Inflamação. O corpo é mais complexo do que a soma das calorias que entram e saem. E o corpo feminino, atravessado por profundas alterações hormonais ao longo da vida, exige uma leitura ainda mais individualizada. Thaís Perlingeiro, médica com prática clínica em emagrecimento e saúde hormonal da mulher, defende precisamente esse olhar. Uma abordagem que não ignora o peso, mas que se recusa a vê-lo isoladamente. Porque envelhecer com saúde pode depender menos do número na balança e mais da saúde que estamos a preservar. O que é que a levou à Medicina e, em particular, a esta área onde o corpo, o peso, a energia e o equilíbrio hormonal se cruzam de forma tão profunda? O meu caminho começou pela experiência própria. Tive, na infância, vários problemas de saúde que ninguém conseguia desvendar, e foi essa vivência que fez nascer em mim uma empatia profunda por encontrar e tratar a verdadeira causa do sofrimento de quem me procura. Cedo me fascinei pelas hormonas: são os grandes maestros do corpo e há muitas doenças que começam, silenciosamente, num desequilíbrio hormonal. A minha grande paixão é unir o raciocínio hormonal aos pilares que sustentam um estilo de vida saudável: alimentação, atividade física, gestão do stress e uma escuta atenta de cada paciente. Nunca aceitei que o sofrimento de alguém tivesse de ser simplesmente suportado. Incomoda-me profundamente a dor do outro e, ainda mais, ver uma pessoa a viver sem vitalidade. Nos últimos anos, o peso tornou-se o maior desafio: a obesidade cresce, a energia diminui, a autoestima desaparece e é precisamente no acolhimento desse processo e na melhoria desta doença crónica que encontro o sentido do meu trabalho. O emagrecimento continua, muitas vezes, a ser tratado socialmente como uma questão de força de vontade. Enquanto médica, o que sente que ainda falta explicar às pessoas sobre obesidade, metabolismo e dificuldade em perder peso? A obesidade é uma doença crónica, de causas multifatoriais, que precisa de ser vista em toda a sua complexidade, da genética ao comportamento, da inflamação ao metabolismo. Tenho a certeza de que ninguém escolheria ser obeso, conhecendo as consequências para a saúde e as limitações que traz para o dia a dia. Por isso, reduzi-la a uma questão de força de vontade é injusto e, sobretudo, clinicamente errado. O metabolismo é muito mais complexo do que isso: envolve a microbiota, as hormonas, a predisposição genética e até as crenças que construímos em torno da comida. A obesidade merece ser tratada com o mesmo acolhimento com que trataríamos qualquer outra doença crónica. Estamos a avançar muito nos tratamentos, mas as crenças limitantes sobre os medicamentos que hoje temos para a combater continuam, infelizmente, muito enraizadas. Muitas pessoas chegam à consulta a dizer: “Faço dieta, treino, tento controlar-me e nada resulta.” O que pode estar por trás desta sensação de corpo bloqueado? As causas são quase sempre múltiplas e sobrepõem-se. Muitas vezes, encontramos padrões familiares, comportamentos repetidos ao longo de uma vida, assentes numa genética desfavorável que se expressa precisamente através desses hábitos. A isto somam-se causas genéticas no controlo da saciedade e a resistência à insulina, que pode, ela própria, estar associada a uma doença. Depois, há o terreno do estilo de vida: o sedentarismo, o sono que não repara, a alimentação rica em processados. E, por fim, as causas nutricionais e hormonais, que tantas vezes passam despercebidas. Quando uma mulher me diz “Faço tudo e nada resulta”, o meu trabalho é descobrir qual destas peças está a bloquear o corpo, porque raramente é apenas uma. Muitas mulheres só associam a menopausa à ausência definitiva da menstruação, mas as alterações podem começar anos antes. Que sinais continuam a ser demasiado normalizados? Os primeiros sinais, e os mais normalizados, costumam ser a falta de energia e de disposição e as alterações de humor. Esta queda hormonal pode começar já aos 35 anos e acentua-se, de forma mais rápida, a partir dos 40. Como são sintomas facilmente confundidos com o stress do dia a dia, muitas mulheres acabam por receber um diagnóstico de depressão ou ansiedade e por ser medicadas nesse sentido, sem que a verdadeira origem hormonal seja sequer investigada. É por isso que insisto tanto em olhar para a mulher como um todo. Reconhecer estes sinais a tempo muda por completo o rumo desta fase da vida. A terapêutica hormonal continua a gerar muitas dúvidas e opiniões contraditórias. Como é que se avalia, com segurança, quem pode beneficiar, quem não deve fazer e que tipo de acompanhamento é indispensável? É uma decisão que exige uma avaliação cuidadosa. Pondero sempre a história familiar de cancro da mama, do endométrio e do ovário, a história pessoal de suspeita de malignidade mamária e os riscos relacionados com trombose, AVC e distúrbios da coagulação. Essa avaliação faz-se com análises, exames de imagem, citologia cervical (Papanicolau) e uma leitura atenta da história de cada mulher, para perceber, com segurança, quem tem indicação e quem não deve avançar. Para as mulheres sem contraindicação, a terapêutica hormonal é muito mais do que um alívio dos sintomas: é uma grande protetora da saúde óssea, cardiovascular e cognitiva. O segredo está em individualizar, nunca em generalizar. Depois dos 40 ou 50 anos, muitas mulheres sentem que o peso aumenta, mesmo mantendo hábitos semelhantes. O que muda no metabolismo feminino nesta fase e porque é que emagrecer não pode ser reduzido apenas à restrição alimentar? A frase repete-se, quase palavra por palavra, em consulta: “Faço tudo igual e o peso não para de subir.” E, na maioria das vezes, não é falta de disciplina, é biologia. A partir dos 40, o corpo feminino atravessa uma reorganização metabólica profunda que muda a forma como armazena energia, como responde à comida e onde deposita a gordura. Com a descida do estrogénio, a gordura que antes se acumulava nas ancas e coxas migra para o abdómen, sob a forma de gordura visceral, metabolicamente ativa e promotora de inflamação e de resistência à insulina. Ao mesmo tempo, perde-se músculo e, como o músculo é o tecido que mais energia consome em repouso, o metabolismo abranda e a mesma refeição de sempre deixa de ser neutra. Junte-se o sono fragmentado pelos afrontamentos, que desregula a fome e a saciedade, e o cortisol elevado pelo stress, que favorece ainda mais a gordura abdominal e percebemos porque é que o corpo parece “trabalhar contra”. É também por isto que comer menos, isoladamente, costuma sabotar. Uma restrição agressiva acelera a perda de músculo, torna o metabolismo ainda mais lento e não toca nas verdadeiras alavancas desta fase: a sensibilidade à insulina, a qualidade do sono e o equilíbrio hormonal. O foco tem de mudar de comer menos para recalibrar o metabolismo, priorizar a proteína, fazer treino de força, estabilizar a glicemia, cuidar do sono e do stress e, quando indicada, ponderar a terapêutica hormonal ou o apoio farmacológico, sempre de forma individualizada. Trabalhar com o corpo, e não contra ele. É essa a mudança de perspetiva que devolve à mulher um metabolismo a funcionar a seu favor. Vivemos uma nova era dos medicamentos para a obesidade, como os agonistas do GLP-1. Que lugar devem ocupar estes tratamentos? Não são um milagre, mas também não são um atalho vergonhoso. São uma ferramenta clínica poderosa, e é assim que faço questão de os apresentar. A obesidade é uma doença crónica, com uma biologia própria que regula a fome, a saciedade e a forma como o corpo defende o peso. Os agonistas do GLP-1 atuam exatamente nessa biologia, naquilo que a força de vontade, sozinha, nunca conseguiu vencer. Por isso, são um avanço enorme e, para muitas mulheres, verdadeiramente libertador. O erro está em pensá-los como uma solução isolada. Um medicamento que reduz o apetite, sem que se cuide da massa muscular, da proteína, do sono, do comportamento e da relação com a comida, corre o risco de fazer perder peso à custa de músculo e de abrir a porta à recuperação do peso perdido. Uso-os sempre dentro de um plano: com acompanhamento, com treino de força, com nutrição adequada e com escuta ativa. A minha função é tratar a doença com a mesma seriedade e o mesmo acolhimento com que trataria qualquer outra e ajudar a mulher a desfazer a crença de que precisar de um medicamento é uma fraqueza. Não é. É medicina. Fala-se muito de perder gordura, mas talvez se fale pouco de ganhar ou preservar massa muscular. Que importância têm a força, a proteína, o exercício, a saúde óssea e a composição corporal no envelhecimento saudável da mulher? Falamos muito de perder gordura e pouco daquilo que verdadeiramente decide a qualidade do envelhecimento: o músculo. Gosto de dizer que o músculo é o órgão da longevidade. É ele que sustenta o metabolismo, a sensibilidade à insulina, a força, o equilíbrio e a autonomia de que vamos precisar daqui a vinte ou trinta anos. Uma mulher que preserva massa muscular está, literalmente, a investir na sua independência futura. O osso conta a mesma história. Com a queda do estrogénio, o risco de osteoporose aumenta de forma silenciosa e, muitas vezes, só damos por ele quando surge a primeira fratura. O treino de força, a proteína suficiente, a vitamina D e, quando indicada, a terapêutica hormonal são grandes protetores da saúde óssea. Por isso, peço às minhas pacientes que deixem de olhar apenas para o número da balança e comecem a olhar para aquilo de que esse peso é feito. Ganhar ou preservar músculo depois dos 40 não é vaidade, é vitalidade, é saúde e é liberdade. A sua abordagem valoriza uma visão integrativa do organismo. Como distingue uma medicina verdadeiramente personalizada, baseada em avaliação clínica, exames e ciência, de modas, suplementação excessiva ou promessas rápidas de transformação? Para mim, medicina integrativa não é o oposto da ciência. é ciência aplicada à pessoa inteira. É olhar para a genética, o metabolismo, as hormonas, o estilo de vida e as emoções em conjunto, porque o corpo não funciona em gavetas separadas. Mas há uma linha que não abdico de traçar: tudo o que proponho nasce da avaliação clínica, dos exames e da evidência. A personalização a sério constrói-se sobre dados, análises, exames de imagem, história clínica, genética, metabolómica e não sobre um protocolo igual para toda a gente. É aí que distingo medicina de moda. Quando vejo o mesmo suplemento receitado a todos, promessas de transformação rápida ou listas intermináveis de comprimidos sem indicação, desconfio. A boa medicina é humilde, atualiza-se, trata as causas e só intervém quando há razão para intervir. O resto é ruído, por vezes bem embrulhado, mas ruído. A minha bússola é sempre a mesma: ciência atual, individualização e escuta ativa daquilo de que aquela mulher, em concreto, precisa. Que mensagem deixaria a uma mulher que se sente cansada do próprio corpo, perdida entre tanta informação e sem saber por onde recomeçar? Diria, antes de mais, que ela não está a falhar. A exaustão que sente não é fraqueza, é o resultado de anos a tentar, sozinha, resolver algo que nunca foi apenas uma questão de esforço. As redes sociais vendem corpos ideais, dietas, jejuns, injeções e fórmulas mágicas, e o que sobra, no fim, é culpa e paralisia: informação a mais e caminho nenhum. O que lhe peço é que baixe o volume desse ruído e regresse ao essencial. Não precisa de fazer tudo, nem de correr atrás da próxima tendência. Precisa de uma avaliação honesta do seu corpo e de dar um passo de cada vez, com alguém que a acompanhe de verdade. Nunca aceitei que o sofrimento de uma mulher tivesse de ser aguentado em silêncio e o cansaço com o próprio corpo é uma forma de sofrimento que merece cuidado, não julgamento. Recomeçar é sempre possível. E, quase sempre, faz-se melhor acompanhada. 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