Saúde Infantil “O que parece birra é, muitas vezes, uma criança em esforço” By Revista Spot | Abril 9, 2026 Abril 10, 2026 Share Tweet Share Pin Email Brincar, comer, dormir, tolerar mudanças, estar à mesa, pegar num lápis. A infância constrói-se em gestos aparentemente simples, mas é precisamente nesses pequenos momentos do quotidiano que se tornam visíveis muitas das dificuldades que os adultos nem sempre sabem ler. Joana Martins, Terapeuta Ocupacional Pediátrica, trabalha a partir dessa escala íntima e concreta da vida das crianças. Com um percurso que cruza Terapia Ocupacional Pediátrica, Integração Sensorial e DIRFloortime, olha para o desenvolvimento como um processo que não pode ser reduzido à dificuldade mais visível. No centro da sua intervenção estão a relação, o brincar, a autorregulação e a participação real da criança nos contextos em que vive. Mais do que corrigir comportamentos, interessa-lhe perceber o que está por trás deles. Numa infância cada vez mais acelerada, entre ecrãs, rotinas cheias e estímulos em excesso, olhar para uma criança exige atenção, escuta e a capacidade de reconhecer que, por trás de uma recusa ou de uma birra, pode existir um corpo em esforço, um sistema nervoso sobrecarregado ou uma forma diferente de sentir o mundo. O seu percurso cruza Terapia Ocupacional Pediátrica, Integração Sensorial e DIRFloortime. Em que momento percebeu que queria olhar para a criança não apenas a partir da dificuldade visível, mas da forma como sente, reage, brinca, comunica e participa no mundo? Ao longo do meu percurso na Terapia Ocupacional Pediátrica fui percebendo que, muitas vezes, aquilo que vemos à primeira vista, como por exemplo dificuldade em brincar ou em permanecer numa atividade, é apenas uma parte do que está a acontecer com a criança. Com a experiência e também através de formações em áreas como a Integração Sensorial e o modelo DIRFloortime comecei a olhar cada vez mais para a criança de forma mais global. Não apenas para a dificuldade em si, mas para a forma como sente o mundo à sua volta, como reage, como comunica e como se relaciona. Em muitos casos, o comportamento da criança é uma forma de comunicação, e quando começamos a olhar para isso dessa forma, muda completamente a forma como intervimos. Este foi um momento muito importante no meu percurso. Percebi que, antes de ajudarmos a criança a aprender algo novo, precisamos primeiro de a compreender melhor. E muitas vezes é através do brincar e da relação que isso acontece. Hoje, o meu trabalho passa muito por isso: entrar no mundo da criança, respeitar o seu ritmo e ajudá-la a participar com mais conforto, confiança e autonomia no seu dia a dia. Na prática clínica, sente que continuamos a interpretar demasiado depressa certas reações como “birras”, “falta de limites” ou “má educação”, quando muitas vezes o que existe é desregulação, sobrecarga sensorial ou dificuldade em organizar o corpo e as emoções? Sim, sinto que isso ainda acontece com alguma frequência. Muitas vezes olhamos para o comportamento da criança apenas pelo que vemos naquele momento e é fácil interpretar certas reações como birras ou falta de limites. Mas, na prática clínica, percebemos que muitas vezes há outras coisas a acontecer por trás. Algumas crianças estão em sobrecarga sensorial, outras têm dificuldade em regular as emoções ou em organizar o corpo para lidar com determinada situação. E quando isso acontece, o comportamento acaba por ser uma forma de expressar esse desconforto ou essa dificuldade. Por exemplo, às vezes uma criança pode começar a chorar ou a recusar-se a entrar num supermercado, e à primeira vista pode parecer apenas uma birra. Mas quando vamos perceber melhor, pode estar relacionada com o barulho, as luzes, a quantidade de estímulos ou até o cansaço acumulado ao longo do dia. Nem sempre a criança está a desafiar, muitas vezes está a tentar lidar com algo que ainda não consegue gerir sozinha. Por isso, uma parte muito importante do nosso trabalho é ajudar os adultos a olhar para o comportamento com mais curiosidade e menos julgamento, tentar perceber o que a criança pode estar a sentir ou a precisar naquele momento. Quando mudamos esse olhar, também mudamos a forma como apoiamos a criança e isso faz uma grande diferença no dia-a-dia das famílias e da criança. A expressão “integração sensorial” tornou-se mais conhecida, mas continua a gerar muitas dúvidas. O que é que ainda é mais mal compreendido pelas famílias e que sinais podem indicar que uma criança precisa de ser avaliada com mais atenção? A expressão Integração Sensorial tem sido cada vez mais falada, o que é positivo, mas ainda existe alguma confusão sobre o que realmente significa. Muitas vezes as famílias associam apenas a questões como a criança gostar ou não de certos estímulos, mas na verdade tem a ver com a forma como o cérebro recebe, organiza e responde às informações que vêm do corpo e do ambiente. Quando esse processo não acontece de forma tão eficiente, a criança pode ter mais dificuldade em lidar com determinadas situações do dia a dia. Por exemplo, pode reagir de forma muito intensa a barulhos, evitar certos tipos de roupa ou texturas, ter dificuldade em estar em ambientes com muitos estímulos ou, pelo contrário, parecer procurar constantemente movimento ou atividades mais intensas. Muitas vezes não é uma questão de vontade ou de comportamento, mas sim a forma como o corpo e o cérebro estão a processar o que acontece à volta. E isso acaba por ter impacto na forma como a criança participa nas atividades do dia a dia, no brincar, nas rotinas ou até na escola. Às vezes não é que a criança não queira participar, mas simplesmente aquele contexto está a ser demasiado desafiante para ela naquele momento. Vale a pena olhar com mais atenção para essas reações quando estas começam a interferir de forma consistente no dia a dia, por exemplo na hora de vestir, nas refeições, nas transições entre atividades, no brincar com outras crianças ou na participação em contexto escolar. Nesses casos, uma avaliação pode ajudar a compreender melhor o que está a acontecer e a encontrar estratégias que apoiem a criança e a família no dia-a-dia. Numa infância cada vez mais apressada, estimulada e programada, que lugar continua a ter o brincar no desenvolvimento? E o que é que se perde quando o brincar deixa de ser visto como necessidade essencial e passa a ser tratado quase como tempo acessório? O brincar continua a ter um papel absolutamente central no desenvolvimento da criança. Na verdade, para a criança, brincar não é apenas um momento de diversão, é a forma como aprende, experimenta, regula emoções, constrói relações e descobre o mundo à sua volta. Hoje sentimos muitas vezes que a infância está mais apressada e muito organizada em atividades e estímulos constantes e previsíveis. E, apesar de muitas dessas experiências serem positivas, às vezes falta espaço para o brincar mais livre e espontâneo, aquele em que a criança pode explorar, imaginar, tentar, falhar e voltar a tentar. Por exemplo, quando uma criança está no chão a construir uma torre com blocos, a inventar uma história com bonecos ou simplesmente a correr e a experimentar o corpo no espaço, está a desenvolver muitas competências ao mesmo tempo, desde a motricidade à atenção, à criatividade e à forma como lida com frustração quando algo não corre como espera. O brincar não é uma pausa no desenvolvimento, é o próprio desenvolvimento a acontecer. Quando o brincar começa a ser visto como algo secundário ou apenas como tempo livre, perdemos oportunidades muito importantes para a criança desenvolver autonomia, criatividade, regulação emocional e capacidade de resolver problemas. E, muitas vezes, é também no brincar que a criança nos mostra quem é, o que sente e do que precisa. Por isso, no meu trabalho, o brincar não é apenas uma ferramenta, é mesmo a base da intervenção e da relação com a criança. Vivemos rodeados de ecrãs e excesso de estímulos. Em consulta, sente que está a surgir um novo tipo de dificuldade infantil, menos ligada a uma causa isolada e mais a um quotidiano que deixa muitas crianças cansadas, reativas, pouco reguladas e com baixa tolerância à frustração? Sim, em consulta vou sentindo algumas mudanças no dia a dia das crianças. Muitas vezes não se trata de uma única causa, mas de vários fatores que acabam por se somar: rotinas mais aceleradas, muitos estímulos ao longo do dia, menos tempo para descanso e para brincar de forma livre. As crianças estão expostas a muita informação e a muitos contextos diferentes, e nem sempre têm tempo suficiente para processar tudo isso. Isso pode fazer com que cheguem mais cansadas, mais reativas ou com mais dificuldade em regular as emoções e lidar com frustração. Por exemplo, às vezes vemos crianças que passam um dia muito cheio, entre escola, atividades, deslocações e muitos estímulos, e quando chegam a casa têm mais dificuldade em parar, em aceitar uma mudança de rotina ou em lidar com algo simples que não corre como esperavam. Às vezes não é que a criança tenha mais dificuldades, é mesmo o ritmo do mundo à sua volta que está a ser demasiado exigente para ela. Também noto que, quando há pouco espaço para pausa, movimento livre e brincar, o corpo e o sistema nervoso da criança acabam por ter menos oportunidades para se organizar e recuperar ao longo do dia. Por isso, muitas vezes o meu trabalho passa também por ajudar as famílias a ajustar pequenas coisas na rotina, como por exemplo criar momentos de maior previsibilidade, reduzir estímulos em alguns momentos do dia e garantir tempo para brincar de forma mais tranquila e espontânea. Pequenas mudanças podem ter um impacto muito grande na forma como a criança se sente e se regula. Tem vindo também a dar atenção às dificuldades no processo da escrita. Numa altura em que tantas crianças chegam à escola sob pressão para “acompanhar”, o que é que os adultos tendem a desvalorizar antes de existir uma boa escrita, desde a motricidade fina à postura, coordenação, atenção e regulação? Sim, tenho dado cada vez mais atenção a essa área, porque muitas vezes a escrita é vista apenas como o resultado final, a letra no papel, e esquecemo-nos de tudo o que precisa de estar preparado antes disso. A escrita é um processo muito mais amplo e começa bastante antes disso. A escrita começa muito antes do lápis tocar no papel. Para uma criança conseguir escrever com conforto e segurança, existem várias bases importantes: a motricidade fina, a estabilidade do corpo e da postura, a coordenação entre o que vê e o que faz com as mãos, a atenção e até a capacidade de regular o esforço e a frustração quando algo não sai como espera. Muitas dessas competências começam a desenvolver-se em experiências muito simples da infância. Por exemplo, quando uma criança está no chão a construir com blocos, a desenhar, a brincar com plasticina ou a manipular pequenos objetos, está a fortalecer competências importantes que mais tarde vão ajudar no processo da escrita. Por vezes encontramos crianças que se cansam muito rapidamente a escrever, que fazem muita força no lápis ou que evitam tarefas de escrita. E isso nem sempre está relacionado com falta de esforço ou de treino, mas com algumas destas bases que ainda precisam de ser consolidadas. Antes de pedir “mais escrita”, muitas vezes é importante olhar para o corpo da criança, para a forma como está sentada, como segura o lápis, como coordena o movimento da mão e até para as experiências que teve ao longo do tempo a brincar e a explorar diferentes materiais. Quando fortalecemos essas bases, a escrita tende a surgir de forma mais natural e com menos frustração para a criança. No seu trabalho académico sobre sono em crianças com perturbação do espetro do autismo, encontrou dados que mostram como este é um tema muitas vezes subestimado. Porque é que o sono continua a ser tão desvalorizado quando pode afetar comportamento, aprendizagem, participação e bem-estar em toda a rotina da criança? No meu trabalho académico sobre o sono em crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), percebi ainda mais como este é um tema que muitas vezes acaba por ser desvalorizado no dia a dia. Muitas vezes olhamos para dificuldades de comportamento, atenção ou aprendizagem sem parar para pensar se a criança está realmente a descansar o suficiente e com qualidade. O sono tem um impacto muito grande na forma como o corpo e o cérebro da criança se organizam. Quando uma criança dorme mal ou dorme menos do que precisa, é natural que durante o dia tenha mais dificuldade em regular as emoções, em manter a atenção, em lidar com frustração ou em participar nas atividades. Por exemplo, uma criança que chega ao final do dia já muito cansada, depois de um dia cheio de estímulos, pode ter mais dificuldade em acalmar o corpo, em adormecer ou em gerir as emoções em momentos simples da rotina, como a hora de jantar, de tomar banho ou de se preparar para dormir. Não podemos olhar para o sono como sendo apenas descanso, mas sim como uma base essencial para o desenvolvimento e para o equilíbrio da criança ao longo do dia. No caso de muitas crianças com PEA, sabemos que as dificuldades de sono são bastante frequentes, mas este é um tema que também deve ser olhado com atenção em qualquer criança, porque acaba por influenciar toda a rotina familiar. Por isso, cada vez mais faz sentido olhar para o sono como parte do desenvolvimento da criança e não apenas como uma questão de rotina noturna. Quando conseguimos melhorar a qualidade do sono, muitas vezes vemos mudanças muito positivas também no comportamento, na participação e no bem-estar da criança e da família. A escola continua a ser um dos contextos onde muitas dificuldades se tornam mais visíveis. O que é que professores e educadores deviam compreender melhor sobre autorregulação, processamento sensorial, motricidade e participação, para conseguirem distinguir uma criança “desafiadora” de uma criança que, na verdade, está em esforço? A escola é, de facto, um contexto onde muitas dificuldades se tornam mais visíveis, porque exige às crianças várias competências ao mesmo tempo: estar sentadas durante algum tempo, manter a atenção, lidar com estímulos à volta, organizar o corpo para escrever, participar em grupo e gerir emoções ao longo do dia. Aquilo que às vezes acontece é que, quando uma criança tem dificuldades nestas áreas (na autorregulação, no processamento sensorial ou na organização motora), o comportamento acaba por ser o que se vê primeiro. E esse comportamento pode ser facilmente interpretado como oposição, distração ou falta de interesse, quando na verdade a criança está a fazer um grande esforço para acompanhar. Por exemplo, uma criança que se levanta muitas vezes da cadeira pode não estar simplesmente a desafiar o adulto. Pode estar a precisar de movimento para conseguir organizar o corpo e manter a atenção. Outra criança pode tapar os ouvidos, distrair-se facilmente ou ficar mais reativa porque o ambiente da sala tem muitos estímulos ao mesmo tempo (sons, conversas, luzes, movimento). Muitas vezes, o que parece desinteresse ou desafio é, na verdade, esforço. Quando professores e educadores começam a olhar para estes sinais com essa perspetiva, torna-se mais fácil ajustar o ambiente, dar pequenas pausas de movimento, apoiar a organização da tarefa ou adaptar a forma como a atividade é apresentada. E, muitas vezes, pequenas mudanças fazem uma grande diferença na participação da criança e na forma como se sente na escola. Na Terapia Ocupacional fala-se muito em participação e autonomia no quotidiano. Porque é que áreas aparentemente simples, como comer, vestir, dormir, brincar, tolerar transições, estar à mesa, acompanhar rotinas, são tão decisivas para a qualidade de vida da criança e da família? Na Terapia Ocupacional olhamos muito para o dia a dia da criança, porque é aí que o desenvolvimento acontece de forma real. Atividades que parecem simples, como vestir-se, comer, brincar, lidar com mudanças de rotina ou participar nos momentos da família, são, na verdade, fundamentais para a autonomia e para o bem-estar da criança. Quando uma criança tem dificuldade nestas áreas, o impacto não se sente apenas naquele momento específico. Pode afetar a forma como começa o dia, como participa na escola, como vive os momentos em família e até a confiança que vai construindo em si própria. Por exemplo, uma rotina da manhã que se torna constantemente difícil (vestir, sair de casa, lidar com transições) pode gerar muito stress tanto para a criança como para os pais. O mesmo acontece com momentos como estar à mesa, adormecer ou acompanhar o ritmo do dia. É nesses pequenos momentos repetidos todos os dias que a criança vai ganhando autonomia, segurança e capacidade de participar no mundo à sua volta. Por isso, na Terapia Ocupacional, muitas vezes trabalhamos exatamente aí: nas rotinas reais da criança e da família. Quando essas atividades começam a tornar-se mais fluídas e menos difíceis, o impacto sente-se não só na criança, mas em toda a dinâmica familiar. Entre o discurso de que “cada criança tem o seu tempo” e a ansiedade atual de detetar tudo cedo, onde é que deve estar o equilíbrio? Que sinais merecem atenção sem alarmismo e o que é que pode realmente mudar quando a intervenção acontece no momento certo? Acredito que o equilíbrio está em observar com atenção, mas sem pressa em rotular. Cada criança tem o seu ritmo de desenvolvimento, mas isso não significa que devamos ignorar sinais que se vão repetindo ou dificuldades que começam a interferir no dia a dia da criança. Mais do que olhar para um momento isolado, faz sentido olhar para padrões ao longo do tempo. Por exemplo, quando uma criança demonstra muita dificuldade em participar em brincadeiras, em lidar com mudanças de rotina, em regular o corpo e as emoções, em usar as mãos para tarefas do quotidiano ou quando parece estar constantemente em esforço para acompanhar o que lhe é pedido. Observar cedo não é apressar a infância, mas sim criar mais oportunidades para apoiar a criança. Quando a intervenção acontece no momento certo, muitas vezes conseguimos ajudar a criança a desenvolver competências que vão facilitar a participação na escola, nas brincadeiras e nas rotinas. E isso também traz mais tranquilidade para a família, porque começam a compreender melhor o que está a acontecer e como podem apoiar. No fundo, o objetivo não é “corrigir” a criança, mas criar condições para que ela se sinta mais segura, mais capaz e mais envolvida no mundo à sua volta. Instagram: @joanamartins.to Marcações: linktr.ee/to.joanamartins18 “As redes sociais aproximaram-nos da imagem, mas afastaram-nos da identidade” “A relação da criança com a comida começa muito antes da primeira colher”
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