Psicologia “Temos pais mais cansados, menos disponíveis e uma sociedade que exige produtividade e silêncio, mesmo à infância” By Revista Spot | Novembro 5, 2025 Novembro 5, 2025 Share Tweet Share Pin Email A parentalidade contemporânea vive entre o amor e a exaustão, entre o ideal e o possível. Nunca houve tanta informação e, paradoxalmente, nunca tantos pais se sentiram tão sozinhos. A Psicóloga Maria João Ribeiro traz uma voz necessária a este debate: a de quem escuta o que o ruído digital esconde. Especialista em saúde mental perinatal, sono infantil e parentalidade, acredita que o início da vida influencia não apenas o desenvolvimento do bebé, mas a saúde emocional de toda uma geração. “Antes de pedirmos autorregulação, precisamos de oferecer co-regulação”, diz. No centro do seu trabalho está a relação: o toque, o olhar, a resposta sensível. Fala de vínculos como quem fala de raízes, firmes, mas flexíveis, e lembra que cuidar de um bebé é, antes de tudo, cuidar de quem o cuida. A perfeição não cria vínculo. A presença, sim. E é nela que começa o futuro. Como é que se cruzou com a área da saúde? Desde muito pequena que sou completamente apaixonada pela área da saúde. Os meus pais e a minha avó trabalhavam todos no mesmo hospital, e foi ali, entre corredores apressados e salas de espera cheias de histórias, que cresci depois das aulas. Passava as tardes a observar o movimento da clínica, a curiosidade de quem chega, o cuidado de quem acolhe. Nos consultórios, quando me deixavam estar presente, via a ciência acontecer diante dos meus olhos, uma espécie de magia onde o saber e o cuidar se encontravam. Foi nesse ambiente que aprendi o valor da escuta, da presença e do olhar que vê a pessoa para além do sintoma. Desde então, soube que o meu caminho passaria por ali: pela possibilidade de contribuir para o bem-estar e para a qualidade de vida das pessoas. E houve alguma vivência pessoal ou profissional que a tenha levado a dedicar-se à área mental perinatal, ao sono infantil e ao acompanhamento de famílias? Entretanto iniciei o meu percurso na psicologia clínica com crianças e adolescentes, sempre com grande curiosidade pela parentalidade. Mais tarde, conciliei essa prática clínica com a gestão de recursos humanos, mas foi com o nascimento do meu primeiro filho que tudo ganhou novo sentido. A experiência desafiante com a amamentação e o sono, e a falta de apoio consistente, despertaram em mim o desejo de compreender profundamente essas áreas. Recordo-me de ler sobre métodos de treino de sono e sentir que nada daquilo fazia sentido para mim enquanto mãe e profissional que vê no respeito do outro e da relação a base de tudo. Com o nascimento do meu segundo filho, que esteve em internamento prolongado em contexto de neonatologia, senti renascer o meu olhar para a díade mãe-bebé para o impacto do contacto pele-a-pele, para o vínculo e para o quanto estes primeiros encontros moldam o desenvolvimento emocional. A partir daí, soube que o meu lugar era junto das famílias, apoiando-as nos momentos mais sensíveis e transformadores da vida. Acredito que este tenha sido o marco decisivo que me traz onde estou hoje. Atualmente, a saúde perinatal, a parentalidade e o sono infantil são o centro do meu trabalho e, mais do que uma escolha profissional, representam a minha missão pessoal. Acredito verdadeiramente que quando cuidamos da relação entre pais e bebés, estamos a cuidar da saúde emocional de uma geração inteira. A saúde mental perinatal ainda é um tema envolto em silêncio. Que sinais precoces podem ser um alerta de sofrimento emocional? Acho que é importante começar por mencionar que a saúde mental começa antes da gravidez e a ciência diz-nos que mulheres com história prévia de dificuldades emocionais, como ansiedade, depressão ou outros quadros psicopatológicos, têm maior vulnerabilidade para desenvolver sofrimento durante a gravidez e no pós-parto. Isto não significa que o desfecho seja inevitável, mas que uma atenção mais próxima e preventiva pode fazer toda a diferença. Durante a gravidez e o pós-parto, há, de facto, sinais que podem indicar sofrimento emocional e quanto mais cedo forem reconhecidos, melhor conseguimos intervir. Muitas vezes, o primeiro alerta (e o mais reconhecido pelos que rodeiam) é o humor: quando a tristeza e a sensação de vazio se mantêm por semanas, ultrapassando o que se espera do chamado baby blues, é importante parar e olhar para isso com atenção. “Ser mãe ou pai não apaga quem fomos, amplia quem somos” Outro sinal muito comum é a ansiedade constante, aquela sensação de estar sempre em alerta, com pensamentos repetitivos como “vai correr mal” ou “não vou conseguir”, dificuldade em relaxar e uma inquietude que parece não ter fim. Em algumas mães, essa ansiedade manifesta-se de forma mais intensa antes de determinados momentos, como sair de casa; noutras, surge na antecipação de rotinas que já são emocionalmente exigentes, como adormecer o bebé. A ansiedade perinatal continua a ser uma das formas de sofrimento mais frequentes e, ainda assim, das mais desvalorizadas. Também vale a pena estar atenta a alterações significativas no sono e no apetite que não se explicam apenas pelas exigências de cuidar de um bebé: insónias marcadas, sono muito fragmentado, perda de apetite ou o oposto, comer em excesso, sobretudo quando vêm acompanhadas de culpa ou da sensação de não conseguir verdadeiramente descansar. A relação com o bebé pode sair afetada? É neste espaço, na díade mãe-bebé, que observo grande parte das manifestações de sofrimento emocional em consulta. Quando existe dificuldade em estabelecer ou manter o vínculo, quando o cuidador parece emocionalmente mais distante ou evita o contacto direto, isso não é sinal de desinteresse, mas muitas vezes uma resposta de proteção diante da falta de recursos para lidar com o desafio, exaustão, sobrecarga emocional ou, muitas vezes, psicopatolgia perinatal. Na maior parte dos casos, a mãe está profundamente atenta e sensível ao bem-estar do bebé, mas sente-se tão sobrecarregada que não consegue dar resposta como gostaria, recorrendo ao outro cuidador ou afastando-se para conseguir aguentar. Também é comum emergirem sentimentos de culpa, inadequação ou pensamentos repetitivos como “não estou a ser boa mãe/pai”, “devia estar feliz”, “há algo de errado comigo”. Estes pensamentos não definem a relação, mas sinalizam o sofrimento interno de quem está a tentar fazer o melhor possível num momento de grande vulnerabilidade. Quando persistem e interferem com o dia a dia, merecem ser escutados com cuidado e sem julgamento. Todos estes alertas são válidos para a mãe mas também para o pai/cuidador de referência que esteja a viver estas fases com a grávida/puérpera. Muitas vezes a atenção é direcionada apenas à mulher, mas o outro lado também merece atenção, compreensão e colo, uma vez que está também a ajustar-se a muitas mudanças, tanto a nível das rotinas, das dinâmicas mas também a nível hormonal. Que outros fatores de risco merecem atenção? Há outros fatores de risco que merecem uma atenção especial, como perdas gestacionais anteriores, ausência de rede de apoio, isolamento social ou complicações no parto ou no bebé. Não são sinais em si, mas aumentam a vulnerabilidade emocional e justificam uma vigilância mais próxima. Em síntese, sempre que uma mulher ou um casal sente que “algo não está bem”, mesmo que pareça apenas cansaço, irritabilidade ou stress, é importante que esse mal-estar seja reconhecido. A gravidez e o pós-parto representam uma das fases de maior transformação física, hormonal e emocional da vida adulta, com impacto profundo na forma de sentir, pensar e relacionar-se. Procurar ajuda especializada não é sinal de fragilidade, mas um gesto de coragem e de cuidado com o próprio, com o bebé e com a relação. É mesmo fundamental entender que cuidar da saúde emocional no início da parentalidade é investir numa relação mais segura com o bebé e num futuro mais leve para toda a família. Há hoje uma romantização da maternidade nas redes sociais? Ao contrário das gerações anteriores, vivemos hoje num tempo em que a maternidade se tornou uma espécie de vitrine permanente e nem sempre fiel à realidade. Nas redes sociais, multiplicam-se imagens de famílias serenas, bebés que dormem “a noite toda”, casas imaculadas e mães/pais sempre disponíveis e sorridentes. Este retrato idealizado da parentalidade alimenta, muitas vezes de forma inconsciente, comparações automáticas: “Porque é que eu não estou assim?”, “Será que estou a falhar?”. E, neste ponto, a ciência é clara: a exposição a estes estímulos e à comparação social pode aumentar significativamente a ansiedade, os sentimentos de inadequação e a culpa materna. Paralelamente, o pediatra e psicanalista Donald Winnicott introduziu o conceito de “mãe suficientemente boa”, lembrando-nos que a mãe não tem de ser perfeita, precisa apenas de ser sensível, disponível e de aceitar que nem tudo será controlável. Paradoxalmente, esta cultura digital tem vindo a distanciar-se deste modelo mais humano e realista, criando um fosso entre o ideal e o possível – não há também uma mudança social e falta de efeito comunidade na criação dos filhos que dantes havia? De que forma isto impacta o bem-estar emocional das mães e aumenta sentimentos de culpa e inadequação? Estudos recentes descrevem que a culpa e a vergonha no pós-parto nascem, muitas vezes, desta desconexão entre “como acho que deveria sentir-me” e “como realmente me sinto”. E esse desfasamento pode tornar mais difícil pedir ajuda. Muitas mães acabam por pensar “todas as outras conseguem”, “isto deve ser só cansaço” ou “não tenho motivo para me queixar”, invalidando por completo uma experiência que precisa, e merece, ser acolhida. Esta hesitação em pedir ajuda, tanto da rede de apoio, como de profissionais, acaba por prolongar o sofrimento e pode aumentar o risco de desenvolver ansiedade ou depressão perinatal. Por isso, enquanto profissionais e também enquanto sociedade, eu acredito que temos um papel essencial em desconstruir estas imagens irreais e devolver espaço à autenticidade. Mostrar que a maternidade é feita de amor, mas também de dúvida, ambivalência e imperfeição, é uma forma profunda de cuidar da saúde mental das mães e das famílias. A verdade é que a maternidade não precisa de ser perfeita para ser profundamente verdadeira, é na imperfeição que o amor se torna mais humano e real. O nascimento de um filho é também o nascimento de uma nova identidade para os pais? O nascimento de um filho é um momento de profunda reorganização interna, da forma como nos vemos, como nos relacionamos e como nos posicionamos no mundo. Muitos casais e, em particular, muitas mães em acompanhamento perinatal, chegam à consulta com a sensação de que “nunca mais vão ser como eram” ou de que “perderam quem foram”. E, embora essa vivência seja legítima, a verdade é que a identidade não se perde, transforma-se. Tal como ao longo da vida vamos assumindo diferentes papéis, profissional, filha, amiga, companheira, também o papel de mãe ou pai passa a integrar quem somos, sem anular o que existia antes. Continuamos a ser a mesma pessoa, com os mesmos valores, mas enriquecida por novas experiências, aprendizagens, ilusões e desilusões. A parentalidade, como qualquer processo de mudança significativa, expande a forma como nos entendemos e exige uma reorganização emocional e relacional. Como é que este processo de reorganização interna influencia a relação conjugal, a autoimagem e a saúde psicológica? Do ponto de vista conjugal, essa transformação individual encontra-se com a do outro, e nem sempre no mesmo ritmo. Há um reajuste inevitável: a relação de casal passa a incluir o papel de co-pais, as rotinas alteram-se, o tempo a dois reduz-se, e a intimidade assume novas formas. Quando o casal consegue olhar para esta transição com comunicação, empatia e sentido de equipa, a parentalidade pode fortalecer a relação. Quando não há espaço para partilhar vulnerabilidades, quando há problemas de comunicação, surgem mais facilmente distanciamento, frustração e sobrecarga emocional. É aqui que apanho, muitas vezes, os pais em consulta de acompanhamento parental. Também a nível psicológico individual, esta fase pode ser desafiante. O aumento das exigências, as alterações hormonais e o cansaço acumulado podem fragilizar o equilíbrio emocional. É essencial que os pais se concedam espaço para a escuta do outro, mas também para o autocuidado, permitindo-se reconhecer que a parentalidade não apaga quem eram, mas acrescenta novas dimensões à sua identidade. Ser mãe ou pai não apaga quem fomos, amplia quem somos. É na integração dessas partes que nasce uma versão mais inteira de nós e, muitas vezes, uma relação mais verdadeira com quem amamos. É esta transformação, todas estas dinâmicas a acontecer que me faz realmente ser apaixonada pelo trabalho que faço com pais em consultório. Ainda circulam muitas ideias erradas sobre sono infantil, como “deixar chorar para aprender” ou “o bebé que dorme bem é o bebé perfeito”. O que diz atualmente a evidência científica sobre o desenvolvimento do sono nos primeiros anos de vida? Eu costumo começar sempre as minhas consultas de sono infantil por explicar que, nos primeiros anos de vida, o sono é profundamente relacional. Ele organiza-se com a maturação cerebral, ou seja, é resultado do desenvolvimento neurobiológico e da relação de co-regulação que o bebé estabelece com o cuidador. Para mim, esta é a base essencial para compreender tudo o que vem a seguir. Quanto às chamadas “necessidades médias de sono” por idade, é importante dizer que, embora exista alguma evidência nesse sentido, a literatura é muito clara quanto à enorme variabilidade entre bebés saudáveis, nos horários, nas latências e nos despertares ao longo do primeiro ano. Essa variabilidade é natural e esperada, mas, muitas vezes, esquecemo-nos disso quando comparamos constantemente o sono do nosso bebé com o de outros. É importante perceber que dormir não é uma competência que se ensina, os bebés já dormem ainda antes de nascer. Muitas vezes ouvimos dizer que o bebé “dorme sozinho” durante a gestação, mas isso não é verdade. No útero, o sono é profundamente co-regulado: o bebé é embalado, contido, está em contacto permanente, a ouvir o coração e a respiração da mãe. Se pensarmos de forma profunda, desde o início, o sono acontece num contexto de segurança fisiológica e emocional, nunca de isolamento. “O colo, o consolo e a resposta emocional não ‘estragam’, constroem” Por isso, mais do que “ensinar a dormir”, o que realmente importa é promover a regulação. A previsibilidade, o contacto, a resposta sensível às necessidades e as rotinas calmas ajudam o bebé a integrar gradualmente os seus próprios ritmos de sono e de vigília. Sabemos, pela neurociência do desenvolvimento, que o cuidador funciona exatamente como um verdadeiro co-regulador da homeostase do bebé, também na forma como este adormece e volta a adormecer. A ideia de que “deixar chorar para aprender” é um método respeitador do neurodesenvolvimento não tem suporte na evidência científica. E, do ponto de vista do vínculo, é fácil perceber porquê. O choro é o principal meio de comunicação do bebé, é assim que ele expressa desconforto, necessidade ou simplesmente procura de contacto e segurança. Quando esse sinal não encontra uma resposta sensível e previsível, o bebé pode acabar por deixar de chorar, não porque aprendeu a acalmar-se sozinho, mas porque desistiu de comunicar. Na prática, o que acontece é um mecanismo de adaptação ao desamparo: o bebé “aprende” que o seu pedido não será atendido e, por isso, deixa de o fazer. É uma forma de autopreservação, mas que tem um custo emocional e fisiológico. Há uma aparente calma, o bebé parece tranquilo, adormece sem chamar, mas internamente o corpo continua em alerta, com níveis elevados de cortisol, tal como vários estudos já observaram. Essa diferença entre o que se vê e o que o bebé realmente sente é o que nos deve fazer pensar: há uma grande distância entre adormecer exausto e adormecer em segurança. O sono do bebé não é uma fórmula mágica? De todo. Mais do que olhar para o sono como algo a treinar ou corrigir, é importante compreendê-lo como parte de um processo relacional de regulação e segurança. O foco deve estar na previsibilidade, na resposta sensível e na criação de um ambiente onde o bebé se sinta seguro para adormecer e acordar. Quando os pais me procuram à espera de estratégias milagrosas ou de soluções “one-size-fits-all”, como tabelas de vigílias, treinos de sono ou planos rígidos, explico sempre que essa não é a minha abordagem. O sono não se impõe; constrói-se na relação. Cada bebé é um bebé, e cada família tem o seu próprio ritmo, as suas necessidades e o seu contexto. O meu papel é precisamente ajudar cada família a encontrar o equilíbrio possível dentro da sua realidade, e não a tentar encaixar-se num ideal que, muitas vezes, só gera mais frustração e culpa. Digo isto muitas vezes em consulta a quem me procura para consulta do sono: o bebé não adormece porque aprendeu a estar só, mas porque aprendeu que há sempre alguém lá e é essa segurança que o faz dormir. A privação de sono é um dos maiores fatores de stress no pós-parto? O burnout parental é uma condição específica da parentalidade e não apenas “muito cansaço”. Surge quando, durante demasiado tempo, as exigências ultrapassam claramente os recursos de que os pais dispõem: sono, tempo, apoio, energia, saúde emocional. E o pós-parto é claramente um terreno fértil para isso acontecer. A privação de sono é um dos principais fatores de vulnerabilidade nesta fase. Sabemos, pela investigação, que o sono fragmentado e a redução das horas de descanso estão diretamente associados a maior irritabilidade, menor capacidade de regulação emocional e maior risco de patologia perinatal. Por isso, proteger o sono, seja através de turnos com o outro cuidador, de pequenas sestas durante o dia ou de algum apoio extra nas madrugadas, é um dos pilares de prevenção mais importantes. Quando estas estratégias não são possíveis ou não resultam é fundamental procurar ajuda neste sentido, sabendo a importância do descanso para o burnout parental. Quais são os sinais de burnout parental e como preveni-lo? Os sinais desta síndrome são bastante caraterísticos: uma exaustão que não melhora com o descanso, a sensação de estar “em piloto automático”, uma irritabilidade constante, sentimentos de culpa ou inadequação e, por vezes, um certo distanciamento emocional, não por falta de amor, mas por pura falta de energia. Quando estes sinais se prolongam e começam a interferir com a relação com o bebé, o trabalho ou o bem-estar geral do indivíduo e/ou da família, é fundamental pedir ajuda especializada. Prevenir o burnout passa muito por repor o equilíbrio entre exigências e recursos. Isso implica ajustar expectativas, partilhar responsabilidades, aceitar ajuda prática e emocional, e lembrar que cuidar de si é parte essencial de cuidar do bebé. Um bom ponto de partida é entender que o burnout não é uma falha, é um sinal de desequilíbrio. E reconhecer esse limite é o primeiro passo para restaurar o bem-estar da família. Muitos pais sentem que têm de “ensinar a dormir” ou “ensinar a comer”. Mas será que as funções naturais se ensinam? Eu costumo dizer que há uma diferença muito grande entre ensinar e aprender. Quando pensamos em funções naturais como dormir ou comer, a ideia de que o adulto “ensina” parte do pressuposto de que, sem essa intervenção, o bebé não saberia fazê-lo. Mas isso não é verdade. Um bebé já dorme no útero, já sabe mamar e sinalizar as suas necessidades, o que ele precisa é de um ambiente que favoreça e sustente essas aprendizagens ao longo do tempo. A nossa cultura tende a colocar o adulto no centro do processo, como se a criança fosse uma folha em branco à espera de ser ensinada. E é aqui que tudo se confunde. O papel do adulto não é o de “ensinar”, mas o de proporcionar: proporcionar presença, previsibilidade, segurança e um ambiente emocional estável. Quando essas condições estão reunidas, o bebé desenvolve naturalmente competências como adormecer, comer, comunicar e faz isso ao seu ritmo, no tempo que é dele e não no tempo que os pais ou a sociedade estipula e espera. A tão falada “autonomia do sono”, por exemplo, não é algo que se ensine. É uma conquista ligada à autorregulação, e essa capacidade nasce do vínculo e da confiança que o bebé tem de que será atendido quando precisar. É nesse contexto de segurança e resposta sensível que ele aprende sozinho que é seguro dormir e voltar a adormecer. E o mesmo acontece com a alimentação, com o brincar ou com o explorar o mundo. As verdadeiras aprendizagens acontecem quando o bebé está pronto, não quando o adulto decide que é hora. O nosso papel é dar-lhe espaço, contexto e apoio para que isso aconteça. No fundo, nós somos o ponto de partida. O ponto de chegada é sempre deles, uma conquista única, que cabe a nós apenas acompanhar, testemunhar e celebrar. Como explicar que antes de pedir autorregulação a uma criança, precisamos de oferecer co-regulação? Eu costumo dizer muitas vezes que não podemos pedir a uma criança algo que nem nós, adultos, conseguimos fazer sozinhos. Quando estamos irritados, frustrados ou tristes, dificilmente conseguimos acalmar-nos se o outro à nossa volta estiver também desregulado, zangado ou sem paciência. Com as crianças é exatamente o mesmo e esta regulação do outro é ainda mais importante porque o cérebro delas está ainda em desenvolvimento. Do ponto de vista neurobiológico, as áreas cerebrais responsáveis pela autorregulação (como o córtex pré-frontal) são imaturas durante os primeiros anos de vida. Isso significa que as crianças não têm ainda os recursos internos necessários para se acalmarem sozinhas. É através da relação com o adulto, do colo, da presença, do tom de voz, do olhar e da previsibilidade das respostas, que o seu sistema nervoso aprende, pouco a pouco, o que é segurança e como voltar a um estado de equilíbrio. A isto chamamos co-regulação: o cuidador ajuda a criança a reorganizar o seu estado interno. Em termos neurobiológicos, o adulto atua como um regulador externo temporário, mostrando de forma repetida à criança um modelo estável de segurança e equilíbrio. Com o tempo, e através da repetição destas experiências, a criança vai internalizando esse modelo e desenvolvendo gradualmente as suas próprias capacidades de autorregulação. O colo, a resposta emocional e o apego seguro constroem autonomia? Sem dúvida. O colo, o consolo e a resposta emocional não “estragam”, constroem. São eles que preparam a criança para, no futuro, conseguir acalmar-se sozinha, tolerar a frustração e desenvolver autonomia emocional. A autonomia não nasce da ausência de ajuda, mas da experiência repetida de ter sido acalmada por alguém. No fundo, antes de pedirmos autorregulação, temos de oferecer co-regulação. É essa presença estável e sensível do adulto que ensina o corpo e o cérebro da criança que é possível voltar à calma depois da tempestade. Punimos crianças por não estarem quietas ou caladas. Estamos a exigir comportamentos que não correspondem ao seu desenvolvimento natural? Vivemos num tempo em que se espera que as crianças estejam sempre calmas, sentadas e focadas, mas esquecemo-nos de que o cérebro infantil precisa de movimento, de brincar e de curiosidade para se desenvolver. O movimento não é um comportamento a corrigir, é uma necessidade biológica. É através do corpo, da experimentação e da exploração ativa que a criança organiza o seu sistema nervoso, aprende a regular-se, a conhecer o mundo e a ganhar confiança nas suas próprias capacidades. Muitas vezes ouvimos dizer que as crianças de hoje são mais irrequietas, menos concentradas ou mais difíceis. Mas acredito que não é disso que se trata. O que mudou, em grande parte, foi o mundo adulto: temos pais mais cansados, menos disponíveis emocionalmente, e uma sociedade que exige produtividade e silêncio, mesmo à infância. As expectativas tornaram-se desajustadas, esperamos que as crianças se comportem como adultos, quando, na verdade, precisam de tempo e espaço para serem crianças. No tempo dos nossos avós, mesmo quando já havia escola, ainda havia tempo para brincar, correr, explorar o mundo e estar na rua. Hoje, pelo contrário, fechamos as nossas crianças entre quatro paredes, habituando-as a invalidar as suas necessidades fisiológicas e naturais de movimento e descoberta. E quando, por fim, têm liberdade, deparam-se com pais muitas vezes ausentes ou emocionalmente indisponíveis, adultos exaustos, sobrecarregados e desconectados, que também procuram refúgios, por exemplo nos ecrãs. Perante esta ausência de ligação e modelo, as crianças acabam por reproduzir o mesmo padrão: procuram no mundo digital a distração, o alívio e o afastamento que veem nos próprios adultos. “Esperamos que as crianças se comportem como adultos, quando, na verdade, precisam de tempo e espaço para serem crianças” O movimento, o brincar e a curiosidade são necessidades fundamentais do cérebro infantil? Não podemos esquecer que a aprendizagem na infância acontece, em grande parte, por modelagem. À parte do tempo em que as queremos conter, esperamos que depois as crianças saibam também brincar, explorar, ter curiosidade e presença, mas como é que o vão fazer, se nunca foram educadas a poder ser livres? Se nunca viram os seus próprios cuidadores… em liberdade? Quando exigimos silêncio, imobilidade ou contenção, é importante estarmos conscientes de que estamos a pedir um comportamento que não corresponde ao seu desenvolvimento natural. A investigação é clara: a exploração motora ativa nos primeiros anos está fortemente associada a melhores competências sociais, cognitivas e motoras mais à frente. E a curiosidade espontânea, esse desejo interno de explorar o ambiente, é essencial para o desenvolvimento das funções executivas e para a capacidade de adaptação ao mundo. Quando coibimos estas necessidades, colocando a criança horas sentada, quieta ou a comportar-se de forma “adulta”, esquecendo o brincar e o movimento, limitamos a sua oportunidade de explorar, praticar, experimentar e aprender. Lamentavelmente, esta continua a ser uma realidade no sistema de educação em Portugal. Em termos simples: a criança perde o treino natural de “testar” o mundo, de aprender pelos erros e de perceber as suas próprias capacidades. A longo prazo, isso pode traduzir-se em menor confiança motora, menor autonomia exploratória e impacto emocional, mais frustração, menos autoeficácia. Um dos autores que mais admiro nesta área, o Dr. Eduardo Sá, relembrou recentemente numa entrevista que o brincar deveria ser elevado “a património da humanidade”. Ele sublinha que não estamos a estragar a criança quando lhe damos espaço para se mover, explorar, equilibrar e experimentar, estamos, na verdade, a permitir-lhe tornar-se quem é. Por isso, sim, muitas vezes exigimos às crianças comportamentos que não se alinham com o seu desenvolvimento natural. E longe de “estragar”, quando lhes permitimos brincar, mover-se e ser curiosas, estamos a dar-lhes as condições de que precisam para crescer. O papel do adulto não deve ser o de conter, mas o de facilitar: criar contextos seguros, previsíveis e estimulantes, onde o movimento e a curiosidade possam florescer. É nesse espaço de liberdade e relação que a aprendizagem, e a infância, verdadeiramente acontecem. Hoje as famílias perdem-se num mar de informação? Vivemos uma era em que há mais informação do que nunca, sobre sono, alimentação, parentalidade, desenvolvimento infantil. Os pais leem, pesquisam, seguem especialistas… e, ainda assim, sentem-se perdidos. A informação, que deveria servir para apoiar, muitas vezes acaba por gerar culpa, comparação e autoexigência. Como refere a alguém que admiro, a Dra. Laura Sanches, o que falta às famílias não é informação, é conexão. E isso é profundamente verdadeiro. Hoje temos acesso a dados, mas não a tempo. Temos teorias, mas faltam relações que nos façam sentir seguros para errar, aprender e ajustar. Fica mais fácil perceber isto se entendermos que a parentalidade não se constrói no excesso de informação, mas na presença real: olhar para o filho, escutá-lo, perceber o que precisa naquele momento e também olhar para si próprio com a mesma compaixão. A ciência tem mostrado que os ideais de perfeição parental estão associados a níveis mais elevados de stress, ansiedade e burnout. Pelo contrário, pais que cultivam auto-compaixão e aceitação realista do erro sentem-se mais eficazes, mais disponíveis e mais tranquilos e isso reflete-se na relação com a criança. Como encontrar uma parentalidade possível, com limites, mas sem culpa, ansiedade, nem constante autoavaliação? Encontrar uma parentalidade possível passa por aceitar que não existe a fórmula certa, nem o manual perfeito. Há o que é possível em cada família, naquele contexto. Os limites continuam a ser importantes, mas não precisam de rigidez, precisam de coerência, sensibilidade e, acima de qualquer outra coisa, empatia. Na parentalidade não existe perfeição. O que verdadeiramente importa é a relação e a intenção que colocamos nas nossas ações. Porque é essa base segura que permite reparar quando erramos, reajustar quando nos afastamos e reconstruir quando algo falha. Ser um bom pai ou uma boa mãe não é nunca sobre acertar sempre, é sobre estar presente, querer compreender e cuidar da relação, mesmo nos dias em que nada parece correr bem. Hoje muitas famílias criam filhos em isolamento, sem rede de apoio. Que papel deveriam ter escolas, profissionais e comunidade na proteção da saúde mental familiar? Vivemos hoje uma realidade em que muitos pais se tornam pais sem rede de apoio, longe da família, com rotinas profissionais exigentes e sem tempo para partilhar o quotidiano com outros cuidadores. Mas há também outro tipo de solidão, menos visível e igualmente difícil: a de quem tem rede, mas não tem sintonia. Pais que, mesmo com a família por perto, sentem que as suas escolhas parentais são constantemente questionadas ou invalidadas. Que ouvem “estás a habituar mal o bebé”, “no meu tempo não era assim”, e acabam por se sentir sozinhos nas suas convicções. Essa falta de reconhecimento é, também ela, uma forma de não ter rede, porque uma rede que julga, em vez de amparar, não protege. Sabemos hoje que o apoio social, não só o prático, mas o emocional, é um dos fatores mais protetores da saúde mental familiar. Os pais que se sentem apoiados tendem a relatar menos sintomas de depressão e ansiedade e maior confiança no seu papel. Por isso, o papel das escolas, dos profissionais de saúde e da comunidade é essencial. As escolas podem e devem ser espaços de acolhimento e partilha, onde o foco não é apenas o comportamento ou o rendimento, mas o bem-estar da criança e da família. Os profissionais, por sua vez, têm a responsabilidade de escutar sem julgamento e criar pontes entre famílias e recursos. E a comunidade, vizinhos, amigos, outras mães e pais, precisa de recuperar o sentido de pertença e solidariedade que se foi perdendo. Que mensagem deixa aos pais que se sentem exaustos ou em silêncio? Aos pais que se sentem exaustos ou em silêncio, diria: Não precisam de estar sempre bem, nem de saber tudo. Procurar ajuda não é fraqueza; é um gesto de coragem e de cuidado. A parentalidade não é uma prova de resistência, é uma travessia, e ninguém devia atravessá-la sozinho. E talvez a mensagem mais importante seja esta: a perfeição não cria vínculo, é a presença que o faz. Mesmo nos dias em que tudo parece demasiado, o simples gesto de olhar, de ouvir e de tentar outra vez é, em si, o que constrói uma relação segura. Porque, no fim, não são as respostas certas que marcam uma infância, é o amor que se faz sentir, mesmo quando há dúvidas. Instagram: @mariajoao.psicologia Facebook: Maria João Ribeiro – Psicóloga Clínica “A dor, física ou emocional, é muitas vezes a voz daquilo que ficou por dizer ou por sentir” “A pele é o órgão mais honesto do corpo, revela tudo o que tentamos esconder”
Psicologia Bárbara Fonseca, psicóloga perinatal, lança “Bebé a Caminho”: um jogo de cartas com 180 perguntas para casais que acham que já falaram de tudo…até chegar um bebé Há ideias que nascem de estudos, outras de tendências e depois há as que nascem da vida real. Este promete…
FISIOTERAPIA / Osteopatia / Psicologia “Na maternidade, no envelhecimento, na lesão ou no cansaço silencioso dos dias, a FisioMov cuida das histórias que o corpo conta” A FisioMov trata pessoas em movimento. Cátia Sousa percebeu cedo que a saúde não é uma soma de técnicas, mas…
Psicologia “O trauma é vivido no corpo. São respostas que ficam bloqueadas no sistema nervoso muito depois do acontecimento” Há traumas que nunca chegam a ser ditos, mas deixam marca no rosto. Antes de serem história, são emoção comprimida,…