ORTOPEDIA “Os pés carregam a pressa do nosso tempo, mesmo quando lhes falta estrutura para a suportar” By Revista Spot | Março 5, 2026 Março 13, 2026 Share Tweet Share Pin Email Tudo começa no pé e no tornozelo, a base que nos sustenta. E, no entanto, poucas estruturas são tão desvalorizadas no discurso quotidiano sobre saúde. Um calcanhar que dói logo nos primeiros passos da manhã. Um tornozelo que nunca mais voltou a ser “o mesmo” depois de uma entorse. Um pé que se vai adaptando, em silêncio, até deixar de conseguir acompanhar o ritmo do corpo. Durante muito tempo, o pé e o tornozelo foram quase ignorados, como se só merecessem atenção quando a dor já sobe da base para os joelhos, ancas e coluna ou compromete a autonomia. Numa década de diferentes realidades, entre as corridas, os treinos intensos e o culto da performance, mas também o sedentarismo, o excesso de peso e o envelhecimento com mais carga acumulada, o pé e o tornozelo passaram a revelar, com cada vez mais nitidez, os excessos e fragilidades do modo como vivemos. É nessa área decisiva, onde a biomecânica se cruza com dor, função e qualidade de vida, que trabalha Marino Machado, médico ortopedista com foco no pé e tornozelo… O pé e o tornozelo são a base do corpo, mas continuam muitas vezes esquecidos. Na prática clínica, que queixas aparecem hoje com mais frequência e o que mudou na última década em função do estilo de vida? O pé e o tornozelo são, de facto, a nossa primeira interface com o chão. Tudo começa ali: equilíbrio, propulsão, adaptação ao terreno, absorção de impacto. Cada pé contém 26 ossos, 33 articulações e mais de uma centena de músculos, tendões e ligamentos, estruturados para combinar força e precisão. É ali que cada passo começa. Os arcos do pé comprimem-se e libertam-se, absorvendo o impacto e redistribuindo a força a cada passada, protegendo os joelhos, as ancas e a coluna. Os pés são também órgãos sensoriais. Milhares de terminações nervosas detetam pressão, textura e posição, enviando informação constante ao cérebro. O equilíbrio depende disso. A coordenação também. Adaptam-se de imediato. Terreno irregular, mudanças bruscas, variações de velocidade ou de direção, as correções acontecem antes mesmo de termos consciência delas. Os pés influenciam ainda a postura. O alinhamento ao nível do solo repercute-se em todo o corpo. Pequenas alterações nesta base podem refletir-se para cima e modificar, com o tempo, os padrões de movimento. Os pés respondem ao uso. O movimento fortalece-os. A imobilidade enfraquece-os. O hábito molda a sua estrutura. Apesar de suportarem o peso total do corpo, passam muitas vezes despercebidos até surgir um problema. E, no entanto, trabalham sem cessar, passo após passo, dia após dia. Os pés não servem apenas para andar. São a ligação do corpo com o chão, o lugar onde a força encontra a perceção e onde o movimento começa. A estabilidade e o progresso começam no solo. E talvez por isso sejam tão extraordinários do ponto de vista biomecânico. Ao mesmo tempo que têm de ser estáveis para suportar o peso do corpo, também têm de ser suficientemente flexíveis para caminhar, correr, saltar e mudar de direção. É uma estrutura muito sofisticada e basta uma pequena alteração para sentir fadiga ao fim do dia no joelho, na anca, na coluna, afetando a própria postura. Na consulta, as situações mais comuns são a dor no calcanhar, entorses mal recuperadas, instabilidade crónica do tornozelo, tendinopatias, sobretudo do Tendão de Aquiles, e dor associada a sobrecarga mecânica. E há várias mudanças que ajudam a explicar isso. Por um lado, temos uma população mais ativa, com mais pessoas a correr, a fazer ginásio, trilhos, padel ou treinos de fim de semana. Por outro, temos também mais sedentarismo, mais excesso de peso e uma população a envelhecer, tudo fatores que aumentam a carga sobre o pé e o tornozelo. Além disso, o calçado evoluiu muito e hoje protege mais, mas também alterou a forma como o pé trabalha, o que em alguns casos mascara limitações de mobilidade, encurtamentos ou défices de força que só aparecem quando há dor. O que mudou, no fundo, foi isto: hoje temos mais exigência funcional sobre pés que nem sempre estão preparados para a vida que lhes pedimos. E isso vê-se tanto no atleta como em quem passa horas em pé, em quem ganhou peso, em quem mudou de rotina ou em quem, simplesmente, acumulou anos de carga sem cuidar da base. Nas entorses do tornozelo, que sinais o fazem suspeitar de instabilidade crónica, lesão ligamentar relevante ou mesmo dano da cartilagem? E a partir de que momento é que já não basta “gelo e repouso”? As entorses do tornozelo são das lesões músculo-esqueléticas mais frequentes, dentro e fora do desporto. São tão comuns que quase toda a gente já teve uma, ou conhece quem tenha tido. E isso, paradoxalmente, é parte do problema, como são frequentes, muitas vezes são banalizadas. A maioria evolui bem, é verdade, mas uma parte nada negligenciável deixa sequelas, sobretudo quando a recuperação é apressada ou incompleta. As guidelines atuais lembram precisamente isso, a reabilitação incompleta é uma das principais razões para a evolução para instabilidade crónica, e cerca de 40% das pessoas podem manter sintomas compatíveis com esse problema após uma entorse lateral. O sinal que mais valorizo nem é necessariamente a dor. É a frase que muitos doentes dizem quase da mesma maneira: “eu não confio neste tornozelo”. Essa sensação de que o pé pode falhar a qualquer momento, de que torce com facilidade, de que incha com pequenos esforços ou em terrenos irregulares, é muito típica de instabilidade crónica. Se, além disso, há episódios repetidos de “instabilidade”, dificuldade em retomar a atividade normal, limitação funcional, sensação de bloqueio, dor profunda dentro da articulação ou sintomas que persistem para lá de 4 a 6 semanas, já não estamos a falar de uma lesão banal que se resolve sozinha. Aí é importante avaliar bem, porque pode haver lesão ligamentar relevante, lesão osteocondral, dano condral ou outras lesões associadas. Há ainda um ponto muito prático: numa entorse aguda, se a pessoa não consegue suportar carga, se há dor óssea bem localizada ou suspeita de fratura, devem aplicar-se regras clínicas como as Ottawa Ankle Rules para perceber se é preciso fazer radiografia. E se os sintomas persistem ou a história não bate certo com uma entorse “simples”, a imagem passa a ser parte do diagnóstico. Gelo e repouso ajudam no imediato, mas não substituem reabilitação, treino propriocetivo e recuperação da estabilidade. Na dor no calcanhar, continua a haver muita confusão entre fasceíte plantar e “esporão”. O que é mito, o que é real e qual deve ser o plano mais eficaz nas primeiras duas a três semanas? A dor plantar no calcanhar é outra das queixas mais comuns na consulta. A história típica é muito caraterística: dor nos primeiros passos da manhã, ou quando a pessoa se levanta depois de estar sentada algum tempo. Na maioria dos casos, isso aponta para fasceíte plantar. O grande mito continua a ser o “esporão”. Muita gente olha para a radiografia e acha que aquele bico de osso é o culpado. Hoje sabemos que, na maior parte dos casos, não é a causa da dor, é antes uma consequência dos gémeos e do tendão de Aquiles mantida ao longo do tempo. Há até muitas pessoas sem dor nenhuma que têm esporão na radiografia. No tratamento da fasceíte plantar, a ciência e a prática clínica convergem para uma conclusão clara: o sucesso da recuperação nas primeiras três semanas depende de uma abordagem simples, mas rigorosamente consistente. Não existem soluções mágicas, mas sim uma estratégia em duas frentes que ataca tanto a manifestação da dor como a sua origem mecânica. Numa primeira fase, o foco deve incidir na gestão do impacto e no alívio dos sintomas. Para quem sofre desta condição, pequenos ajustes no quotidiano fazem uma diferença abismal. É fundamental evitar andar descalço em superfícies duras e privilegiar calçado que ofereça suporte real. Medidas como a aplicação local de gelo, o uso de analgésicos adequados e a utilização de calcanheiras, que elevam o calcanhar e reduzem a tensão imediata na fáscia, quase como um “salto” protetor, são essenciais para acalmar o processo inflamatório. Contudo, tratar apenas o sintoma é como silenciar um alarme sem apagar o fogo. A evidência mais recente sublinha que a verdadeira mudança ocorre quando atacamos a causa: a falta de flexibilidade e a tensão excessiva no complexo gastrocnémio-sóleo (os músculos da “barriga da perna”) e na própria fáscia plantar. É aqui que o alongamento dirigido, eventualmente apoiado por terapia manual, se torna o protagonista do tratamento. A chave do sucesso, porém, não reside na intensidade do exercício, mas na sua frequência. Estes alongamentos só produzem resultados reais se forem integrados na rotina diária com a mesma naturalidade com que lavamos os dentes. As ortóteses e outras ajudas técnicas podem ser complementos úteis, mas nunca devem substituir o compromisso individual com o exercício terapêutico. Só transformando estes cuidados num hábito diário é que conseguiremos, finalmente, caminhar sem dor. No tendão de Aquiles, quais são hoje os principais fatores de risco e como é que conduz a decisão entre insistir no tratamento conservador e avançar para cirurgia? O tendão de Aquiles tem várias patologias possíveis, desde a tendinopatia crónica até à rutura, e convém distingui-las porque a abordagem não é a mesma. Na tendinopatia, os grandes fatores de risco passam por aumentos bruscos de carga, mudanças de treino, desportos com impulsão e aceleração, idade, excesso de peso, algumas doenças metabólicas ou inflamatórias, e também certos medicamentos, nomeadamente fluoroquinolonas e corticoterapia, que aumentam o risco de lesão tendinosa e até de rutura. Além disso, a zona média do tendão tem menor vascularização, o que ajuda a explicar porque é tão vulnerável. Na prática, vejo muito esta combinação: pessoas que durante a semana quase não treinam, mas ao fim de semana exigem do corpo como se estivessem em plena forma. É aí que aparecem muitos quadros de Aquiles. E depois há a biomecânica: encurtamento da cadeia posterior, rigidez do tornozelo, défices de força do tríceps sural, alterações do pé e um calçado que nem sempre respeita o que aquele tendão precisa. Na tendinopatia, a primeira linha continua a ser conservadora: ajustar carga, modificar atividade, corrigir fatores mecânicos e fazer exercício de carga progressiva para o tendão, porque é isso que tem melhor evidência para dor e função. A cirurgia, neste contexto, entra normalmente apenas quando houve um programa conservador bem feito, durante meses, e a pessoa continua limitada, em muitas referências, só depois de cerca de seis meses sem melhoria relevante. Se falarmos de rutura, a decisão muda. Pequenas ruturas ou algumas lesões parciais podem responder bem a tratamento não cirúrgico com imobilização funcional e reabilitação. Já em ruturas completas, a escolha entre operar ou não depende muito do contexto: idade, nível de atividade, profissão, exigência desportiva, risco cirúrgico e objetivos do doente. Em atletas competitivos ou em pessoas cuja vida depende muito da impulsão e da força de arranque, a cirurgia é mais facilmente considerada. Mas não há uma resposta automática, é sempre uma decisão clínica e pessoal, feita caso a caso. O hallux valgus, ou joanete, é muitas vezes desvalorizado como uma questão estética. Em que momento é que esta deformidade passa a ser, sobretudo, um problema funcional? Os joanetes são extremamente frequentes e, embora possam surgir tanto em homens como em mulheres, são claramente mais comuns no sexo feminino. Isso parece resultar de uma combinação de fatores: predisposição genética, maior laxidez ligamentar em algumas pessoas, determinadas caraterísticas biomecânicas do pé e, claro, a influência do calçado, sobretudo quando a parte da frente é estreita e comprime os dedos. O problema é que, durante muito tempo, se olhou para o hallux valgus como se fosse apenas um “osso saído”, quando na verdade estamos perante uma deformidade progressiva do antepé, que altera a mecânica da primeira articulação metatarsofalângica, redistribui cargas e pode acabar por comprometer a marcha, o equilíbrio do antepé, a escolha do calçado e a qualidade de vida. A partir do momento em que há dor, dificuldade em caminhar, incapacidade em usar calçado confortável, sobrecarga sob o segundo raio ou progressão da deformidade com repercussão nos outros dedos, deixa de ser uma questão de imagem e passa a ser, claramente, uma questão funcional. Quanto ao que atrasa a progressão, é importante ser honesto, a medicina ainda não encontrou uma solução não cirúrgica capaz de “corrigir” de forma consistente um joanete estabelecido. Sapatos mais largos, adaptações no calçado, separadores, ortóteses ou talas podem aliviar sintomas em alguns doentes, e há sinais de que programas combinando exercício, mobilização e alguns suportes externos possam ajudar a reduzir dor e, em casos selecionados, ter pequenos efeitos na deformidade. Mas a evidência continua limitada, heterogénea e, muitas vezes, com resultados modestos. Ou seja, estas estratégias podem ser úteis para aliviar, adaptar e talvez atrasar, mas não substituem a cirurgia quando há dor persistente ou falência do tratamento conservador. A cirurgia continua a ser o tratamento mais eficaz quando o joanete dói e interfere realmente com a função. E há uma regra que continua a fazer todo o sentido: não se deve operar um joanete apenas por motivos estéticos. A exceção é a deformidade claramente progressiva, em que se percebe que o antepé está a entrar em desequilíbrio e que esperar pode significar tratar um problema maior mais tarde. Em que casos é que a cirurgia percutânea e minimamente invasiva do pé e tornozelo faz verdadeiramente a diferença? A cirurgia minimamente invasiva no pé e tornozelo não é apenas uma tendência, é um avanço real. Mas, como quase tudo na medicina, não é uma solução mágica nem universal. A grande vantagem destas técnicas é reduzir a agressão sobre os tecidos moles. Incisões mais pequenas significam, em muitos casos, menos dor pós-operatória precoce, menor agressão cutânea, cicatrizes mais discretas e uma menor probabilidade de problemas de ferida. No pé e tornozelo isso tem particular importância, porque são zonas em que a cobertura cutânea e a vascularização são menos generosas do que noutras regiões. Nos joanetes, por exemplo, as técnicas minimamente invasivas mais modernas conseguiram resultados radiográficos e clínicos que, em muitos estudos, são comparáveis à cirurgia aberta, com recuperação inicial potencialmente mais favorável. Mas também é verdade que a literatura continua a mostrar alguma heterogeneidade e não confirma uma superioridade absoluta da via percutânea sobre a aberta em todos os cenários. Por isso, o critério mais importante não é “eu faço esta técnica”, mas sim “esta técnica serve este pé”. Em deformidades ligeiras a moderadas, sem instabilidade proximal relevante e com boa indicação anatómica, a via percutânea pode ser uma excelente escolha. Já em deformidades mais severas, em casos com instabilidade importante da primeira articulação tarsometatársica, necessidade de correção mais proximal ou arquitetura mais complexa do antepé, pode continuar a ser mais sensato optar por uma abordagem aberta, ou por uma técnica aberta mais moderna, dirigida à verdadeira origem do problema. Outro ponto que raramente se diz com frontalidade suficiente é este: a cirurgia minimamente invasiva tem curva de aprendizagem. Há dados que sugerem que são necessárias dezenas de casos para atingir uma fase de maior estabilidade técnica. Ou seja, não basta a técnica ser boa; é preciso que esteja bem indicada e bem executada. A decisão certa continua a ser individualizada, feita caso a caso, e baseada menos na sedução da palavra “minimamente invasiva” e mais na pergunta essencial: qual é a técnica que melhor corrige este problema, com mais segurança e previsibilidade, neste doente concreto? Entre raio-X, ecografia, TAC e ressonância magnética, como encontra o equilíbrio entre pedir o que é necessário e evitar o excesso? E como explica ao doente que nem tudo o que aparece num exame é, de facto, a causa da dor? Esse equilíbrio começa antes do exame, começa na história clínica e no exame objetivo. Nenhuma imagem substitui uma boa observação do doente. No pé e tornozelo, cada exame responde a perguntas diferentes. A radiografia continua a ser o verdadeiro cavalo de batalha da ortopedia, porque mostra alinhamentos, deformidades, fraturas, sinais indiretos de artrose e, sobretudo, permite perceber a arquitetura óssea e articular em carga. A ecografia é particularmente útil quando suspeitamos de tendões, ligamentos, bursites ou lesões superficiais, além de permitir uma avaliação dinâmica em alguns contextos. A ressonância é mais valiosa quando queremos olhar com maior detalhe para estruturas osteocondrais, medula óssea, cartilagem, ligamentos profundos, tendões ou dor persistente sem explicação clara na radiografia. E a TAC entra sobretudo quando precisamos de maior detalhe ósseo, planeamento cirúrgico ou reconstrução tridimensional de deformidades mais complexas. As recomendações do American College of Radiology seguem precisamente essa lógica: radiografia primeiro em muitos contextos, e depois ressonância, ecografia ou TAC conforme a suspeita clínica. O segundo ponto, talvez ainda mais importante, é explicar ao doente que ver não é o mesmo que provar causa. A imagem mostra alterações; quem lhes dá sentido é o contexto clínico. Sabemos, por exemplo, que ressonâncias de tornozelos sem sintomas podem revelar alterações ligamentares ou tendinosas incidentais. Ou seja, há pessoas sem dor e sem queixa que já têm “achados” em exames. É por isso que pedir exames em excesso pode mais confundir do que esclarecer, corre-se o risco de tratar uma imagem em vez de tratar uma pessoa. Eu costumo pensar assim: só vale a pena pedir um exame se a resposta puder mudar o diagnóstico, o prognóstico ou o plano terapêutico. Se o resultado não vai alterar aquilo que vou propor ao doente, então provavelmente ainda não é o exame certo, ou não é o momento certo para o pedir. Nas lesões desportivas do pé e tornozelo, o que vê mais vezes falhar na recuperação? E que indicadores usa para autorizar um regresso ao desporto com segurança? O erro mais frequente continua a ser confundir melhoria com recuperação. A dor baixa, o inchaço diminui, a pessoa já consegue caminhar ou até correr em linha reta, e conclui que está pronta para voltar. Muitas vezes não está. Nas lesões do pé e tornozelo, sobretudo nas entorses laterais, o que mais falha é uma recuperação incompleta da função: falta força, falta controlo neuromuscular, falta proprioceção, falta confiança, e a carga de treino é reintroduzida depressa demais. É aí que nascem muitas recidivas. A literatura mostra que o regresso prematuro aumenta o risco de nova entorse e de evolução para instabilidade crónica, e que a reabilitação deve incluir não apenas controlo da dor e mobilidade, mas também força, equilíbrio, treino sensório-motor e progressão funcional orientada. Na prática, eu não autorizo o regresso ao desporto porque “já não dói muito”. Autorizo quando o tornozelo ou o pé recuperaram critérios que façam sentido para aquele gesto desportivo. O enquadramento mais útil, hoje, é pensar em cinco áreas: dor, défices do tornozelo, controlo sensório-motor, perceção/confiança do atleta e desempenho funcional e específico da modalidade. É o que o consenso internacional resumiu no modelo PAASS. Isso significa olhar para amplitude articular, força, resistência e potência; testar equilíbrio e controlo dinâmico; perceber se o atleta confia verdadeiramente na articulação; avaliar saltos, mudanças de direção, agilidade e a capacidade de completar um treino inteiro sem agravamento. E aqui entra uma verdade pouco glamorosa, o sucesso não depende apenas da cirurgia ou do diagnóstico. Depende muito da qualidade da reabilitação. Sem isso, o regresso ao desporto é muitas vezes apenas um intervalo curto entre lesões Palmilhas, ortóteses, sapatilhas “técnicas”, calçado minimalista, há hoje muita oferta e muito marketing à volta do pé. Na prática clínica, o que é que tem realmente evidência, em que situações recomenda palmilhas, e por quanto tempo, e que erros mais comuns encontra na escolha do calçado do dia a dia? As palmilhas podem ser uma ferramenta muito útil, mas não são uma solução mágica e esse é talvez o primeiro ponto a esclarecer. O seu valor não está no material “xpto”, no gel ou no silicone por si só; está, acima de tudo, na capacidade de responder a um problema concreto. Uma palmilha serve para redistribuir carga, melhorar conforto, apoiar determinadas estruturas ou compensar uma disfunção biomecânica. Por isso, mais importante do que perguntar “de que material é feita?” é perguntar “para que problema foi pensada?”. A evidência mais sólida sugere que as ortóteses podem ajudar em alguns quadros dolorosos, sobretudo como parte de um tratamento mais amplo, por exemplo, na dor plantar do calcanhar, onde podem reduzir a dor a curto ou médio prazo, mas a prova de benefício é bem menos robusta noutras situações, como o pé plano flexível, especialmente quando falamos de uso generalizado e indiscriminado. E também convém dizer isto com frontalidade, em várias situações, as ortóteses personalizadas não mostram vantagem clara sobre opções prefabricadas mais simples, sobretudo quando o problema é plantar fasciopatia. Na prática, eu prescrevo palmilhas quando espero que elas mudem alguma coisa importante: a dor, a distribuição de carga, a tolerância ao calçado ou a função. Não as prescrevo “porque sim”, nem como resposta automática a qualquer pé plano ou a qualquer pé cansado. E o tempo de utilização depende muito do objetivo. Há pessoas que beneficiam durante alguns meses, numa fase aguda ou de transição; outras precisam de um apoio mais prolongado, porque têm uma alteração estrutural ou uma patologia crónica. O erro é transformar as palmilhas numa muleta eterna sem reavaliar se ainda fazem sentido. Sempre que possível, devem entrar como parte de uma estratégia maior: ajustar carga, trabalhar mobilidade, reforçar o pé e o tornozelo e escolher melhor o calçado. Porque uma palmilha bem feita pode ajudar muito; uma palmilha mal indicada ou mal desenhada é apenas um objeto caro dentro do sapato. Quanto ao calçado, o erro mais frequente continua a ser escolher pela aparência, pela moda ou pela sensação imediata, e não pelo ajuste real ao pé. Vejo muita gente com sapatos demasiado estreitos na frente, demasiado rígidos, ou comprados sem respeitar a largura do antepé. E isso tem consequências, como o aumento de pressão, atrito, dor, agravamento de deformidades como o hallux valgus e pior tolerância à marcha. A regra mais simples continua a ser esta: o calçado deve respeitar a forma do pé e a função para que vai ser usado. “Acolchoado” não é sinónimo de adequado, tal como “minimalista” não é automaticamente melhor. O chamado barefoot ou calçado minimalista pode ter interesse em algumas pessoas e pode favorecer adaptações musculares, mas a transição brusca está associada a maior risco de dor e lesão. Se alguém quiser fazer essa mudança, deve fazê-lo de forma gradual e idealmente acompanhada de trabalho muscular do pé e da perna. O conselho mais útil, no dia a dia passa por escolher sapatos com espaço suficiente à frente, adequados ao uso real, confortáveis desde o início, sem esperar que “cedam” e lembrar que o melhor calçado do mundo não compensa um pé fraco, rígido ou sobrecarregado. Vivemos na era do conselho viral, do “resultado rápido” e das soluções vendidas em 30 segundos. Que ideias lhe parecem hoje mais perigosas quando se fala de dores no pé e no tornozelo? E, se tivesse de resumir cinco regras simples para ganhar anos de mobilidade, que regras seriam essas? Acho que uma das ideias mais perigosas que circulam hoje é a procura constante de soluções rápidas para problemas que quase nunca se resolvem rapidamente. No pé e tornozelo, como noutras áreas do corpo, há muita gente à espera de uma resposta imediata: uma palmilha milagrosa, um sapato específico, um exercício viral, uma dica da internet que resolva tudo. E a verdade é que as coisas raramente funcionam assim. Se tivesse de resumir o que me parece mais importante para ganhar anos de mobilidade, eu começaria por dizer uma coisa muito simples, é preciso mexermo-nos. Mexermo-nos de forma regular, ativa e com intenção. Durante muito tempo falou-se muito da meta dos passos diários, e caminhar continua a ser melhor do que estar parado, sem dúvida. Mas hoje percebemos cada vez melhor que, para qualidade de vida, autonomia e envelhecimento com mais capacidade física, não basta caminhar. É muito importante preservar e trabalhar a massa muscular. Isso implica fazer exercício que desafie o corpo de outra forma, reforço muscular, treino de mobilidade, elasticidade, equilíbrio. E é por isso que eu costumo dizer que caminhar é o mínimo. É importante, claro, mas é o mínimo. Quando falamos de exercício para envelhecer bem, temos de falar de mais do que isso. Por isso, duas coisas que me parecem fundamentais são força e mobilidade. A força porque protege as articulações, melhora a função e ajuda-nos a lidar melhor com a carga do dia a dia. A mobilidade e a elasticidade porque mantêm o corpo mais preparado, mais adaptável e menos vulnerável à rigidez e à perda de função. Nesse sentido, atividades como yoga ou Pilates podem ser muito úteis, precisamente porque trabalham controlo, amplitude, consciência corporal e estabilidade. Outra regra importante é não negligenciar o pé. O pé é muitas vezes esquecido, mas é ele que suporta o corpo e faz a ligação ao solo. Se os pés estão fracos, rígidos ou mal condicionados, isso vai refletir-se mais acima. E, por isso, faz sentido olhar para o pé não apenas quando dói, mas também numa lógica de prevenção. A quarta ideia é que o calçado conta, e conta muito. Durante muitos anos normalizámos calçado apertado, rígido ou pouco respeitador da forma natural do pé. Isso está a mudar, lentamente, e ainda bem. O conforto não devia ser visto como um detalhe, devia ser um critério central. E a última regra, talvez a mais importante de todas, é a consistência. Ganhar mobilidade, preservar função e envelhecer bem não depende de um gesto isolado nem de uma moda passageira. Depende de trabalho regular, ao longo do tempo. É menos apelativo do que uma promessa rápida, mas é isso que faz verdadeiramente a diferença. Facebook: Marino Machado Ortopedia Instagram: @marinomachadoortopedia LinkedIn: Marino Machado “A menopausa não começa no espelho, mas muitas vezes é aí que a mulher percebe que o corpo mudou” “Quem cresce com saúde oral é muito mais feliz. E a felicidade é o maior selo de beleza”
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