CLÍNICAS OFTALMOLOGICAS “Os olhos dizem muito sobre a nossa saúde e a cirurgia oculoplástica é a arte de melhorar essa comunicação” By Revista Spot | Maio 16, 2025 Maio 16, 2025 Share Tweet Share Pin Email Num mundo cada vez mais atento à imagem, mas também à saúde e bem-estar, os olhos ganharam um protagonismo inegável. São o nosso principal canal de comunicação não verbal, refletem emoções, cansaço, vitalidade e são, muitas vezes, os primeiros a revelar os sinais do tempo. É nesse contexto que a cirurgia oculoplástica se torna cada vez mais relevante. Esta área especializada da oftalmologia cuida da saúde e da estética das pálpebras, das vias lacrimais e das estruturas em redor dos olhos, unindo precisão médica com sensibilidade estética. Mas o que é, afinal, a cirurgia oculoplástica e que tipo de problemas trata? Para além da blefaroplastia, frequentemente procurada por quem pretende rejuvenescer o olhar, há um vasto leque de condições funcionais que podem comprometer a visão, o conforto ocular e até a qualidade de vida. Nesta conversa com a cirurgiã oculoplástica Cátia Azenha, mergulhamos num universo onde a ciência e a arte se encontram, através de uma especialidade que pode ir muito além da aparência, devolvendo confiança, funcionalidade e bem-estar a quem já não se reconhece no espelho ou vê o mundo com desconforto. Para começar, o que é exatamente a cirurgia oculoplástica e qual é o papel de uma cirurgiã nesta especialidade? A cirurgia oculoplástica é a área da oftalmologia dedicada ao diagnóstico e tratamento — funcional e estético — das pálpebras, vias lacrimais e órbita. É uma área que exige um conhecimento profundo da anatomia e função não só ocular como de todas as suas estruturas ao redor dos olhos e face. Portanto, o cirurgião oculoplástico é um oftalmologista especialista que se diferenciou adicionalmente em Oculoplástica. O seu papel é garantir não só a saúde e função visual, mas também promover a harmonia e naturalidade da expressão do olhar e de toda a face. Ele domina as técnicas cirúrgicas bem como a resolução e prevenção de possíveis complicações que possam surgir. A sua grande particularidade prende-se com a necessidade de ter uma grande precisão técnica associada a uma sensibilidade estética apurada. E por isso o cirurgião oculoplástico encontra-se entre os profissionais mais capacitados para o tratamento desta área tão delicada. Quais são as patologias mais comuns que levam os pacientes a procurar uma cirurgiã oculoplástica? As razões que levam os pacientes a procurar-me são diversas. Do ponto de vista funcional, destacam-se a ptose: que é a queda da pálpebra superior; outras malposições palpebrais, como o entrópio ou ectrópio, em que as pálpebras enrolam para dentro ou para fora, respetivamente e causam muito mal-estar ocular; tumores das pálpebras, frequentemente malignos, que exigem uma abordagem oncológica exigente do paciente; alterações da órbita e obstruções do sistema lacrimal, que se manifestam geralmente com lacrimejo e infeções recorrentes, e que têm grande impacto na qualidade de vida. Em termos estéticos, a queixa que representa o volume mais significativo na minha prática clínica é a aparência cansada ou envelhecida do olhar. Queixas que motivam a procura de intervenções como a blefaroplastia – a cirurgia estética das pálpebras – e de outros procedimentos minimamente invasivos rejuvenescedores da região periocular. Existem sinais de alerta a que as pessoas devam estar atentas em relação às pálpebras ou à zona periocular? Sim. Os mais preocupantes são os sinais que podem estar relacionados com patologia tumoral. Como a área periocular é tão delicada e tem uma grande exposição solar, é frequentemente afetada por tumores de pele. Assim, lesões com crescimento, que não cicatrizam, úlceras, crostas, com sangramento, perda de pestanas e vasos sanguíneos visíveis são sinais de alerta. Podem parecer lesões pequenas, mas na área dos olhos cada milímetro conta e o mais importante é a prevenção e o diagnóstico precoce. Por isso, estes sinais de alarme devem motivar a procura de um oftalmologista diferenciado em Oculoplástica o mais rapidamente possível. Outras alterações como inchaço persistente, vermelhidão, alterações na posição das pálpebras, queda progressiva ou assimetrias do olhar devem ser também avaliadas. É importante não desvalorizar sintomas subtis, pois podem refletir problemas estruturais ou mesmo patologias mais graves. A blefaroplastia (cirurgia das pálpebras) é um dos procedimentos mais procurados. O que deve ser considerado antes de optar por esta intervenção? O olhar é a área do nosso rosto que mais comunica: transmite emoções, intenções e é muito reveladora sobre o nosso estado de descanso e disposição, para além de “dar pistas” sobre a nossa idade. É também a área do rosto que mais precocemente mostra sinais de envelhecimento. Não é raro vermos pessoas que têm o rosto muito jovem, mas à volta dos olhos terem uma aparência mais envelhecida e cansada, de forma desproporcional com o resto do rosto. A blefaroplastia, ou cirurgia estética das pálpebras, é um procedimento extraordinário, porque tem um impacto enorme no rejuvenescimento facial de uma forma global, sem descaraterizar a identidade da pessoa. E é por isso que sou apaixonada por esta cirurgia. A decisão de realizar uma blefaroplastia, como qualquer cirurgia plástica estética do rosto, deve ser sempre ponderada com seriedade e responsabilidade. É um procedimento muito delicado que deve ser sempre precedido de uma avaliação clínica detalhada e realizado por um cirurgião experiente e diferenciado em pálpebras. É necessário ouvir com atenção o que realmente incomoda o paciente e que impacto essas alterações têm no seu bem-estar: a sensação de peso à volta dos olhos, queixas de olheiras, outras pessoas interpelarem a questionar se se está cansado ou triste, quando na verdade não se está. Na avaliação física, não se valoriza apenas o excesso de pele ou gordura palpebral, mas também a dinâmica do movimento, o tónus muscular, o posicionamento das sobrancelhas e a qualidade da pele, etc. Cada olhar é único, e a abordagem cirúrgica deve respeitar a individualidade anatómica e expressiva do paciente. Naturalidade, segurança e equilíbrio são os pilares fundamentais que valorizo e respeito em cada pessoa que me procura. De que forma a oculoplástica contribui não só para a estética, mas também para a qualidade de vida e saúde ocular dos pacientes? Para além do impacto visual e estético, que é o mais visível e óbvio, muitas alterações palpebrais interferem com a saúde ocular — seja através da obstrução do campo visual, do aumento da evaporação lacrimal ou da exposição da superfície ocular. Corrigir estas alterações melhora não apenas a estética, mas também o conforto, a visão e, frequentemente, a qualidade de vida do paciente. A oculoplástica é, por isso, uma especialidade que serve simultaneamente a função e a forma. Que avanços tecnológicos ou técnicas inovadoras mais marcaram a oculoplástica nos últimos anos? Os últimos anos trouxeram inovações muito relevantes. Entre elas, a blefaroplastia inferior transconjuntival (sem cicatriz visível), o uso de tecnologias laser para renovação da pele, enxertos de gordura autóloga, e mais recentemente a introdução de terapias regenerativas promissoras, como o PRP (plasma rico em plaquetas), em que ainda se está a estudar os seus potenciais benefícios. Todas estas abordagens permitem resultados mais completos, naturais e com tempos de recuperação reduzidos, respondendo à procura por intervenções eficazes, mas seguras e subtis. Mais do que os avanços nas técnicas e tecnologias, o maior progresso ao longo das décadas verificou-se na filosofia e na abordagem da cirurgia estética do olhar. Deixou-se para trás uma postura marcada por procedimentos agressivos, centrados na remoção de pele, músculo e gordura — intervenções que, hoje se reconhece, contribuíam para um envelhecimento precoce e descaraterizavam o rosto. O paradigma mudou para uma abordagem mais respeitadora da anatomia e da harmonia facial. A filosofia atual já não passa por “remover” estruturas nobres, mas sim por “esculpir e moldar” o olhar de forma subtil e natural. Que impacto têm os seus procedimentos no bem-estar psicológico dos pacientes? Para quem está de fora o impacto estético dos procedimentos no olhar é, sem dúvida, o mais visível, mas as transformações vão muito para além do olhar e da forma como os outros nos veem. O impacto emocional é muito significativo. O olhar é um dos principais veículos de comunicação não verbal, como se diz “é o espelho da alma”, e qualquer alteração pode afetar profundamente a forma como a pessoa se vê e é vista. Muitos pacientes referem uma sensação de rejuvenescimento emocional após a cirurgia, pela coerência entre o que sentem internamente e o que o espelho lhes devolve. Mas para além disto, assisto com os meus pacientes a toda uma transformação: no autoconceito e na satisfação em cuidarem de si, em voltarem a fazer exercício físico, deixarem de fumar, alimentarem-se melhor e a gerirem o stress, etc. A cirurgia, muitas vezes, representa apenas o gatilho de um processo de transformação para uma vida mais intencional e construtiva do seu próprio bem-estar. E é um orgulho e um privilégio poder assistir e fazer parte desta jornada. Vivemos numa era digital, de ecrãs e exposição constante. Nota alguma relação entre o estilo de vida moderno e o aumento de certas condições oculoplásticas? Sem dúvida. O uso prolongado de ecrãs está associado ao aumento de queixas como fadiga ocular, olho seco, edema palpebral e acentuação de olheiras — sintomas que, cada vez mais, conduzem os pacientes à consulta de oculoplástica. Recomendo sempre moderação. As tecnologias não se podem vilanizar porque são ferramentas muitíssimo úteis de trabalho e lazer. Como vê a influência das redes sociais e da cultura da imagem na procura de cirurgias estéticas na zona dos olhos? As redes sociais contribuíram para uma maior visibilidade da estética facial. A exposição contínua às câmaras e à autoimagem em tempo real, quer através de videochamadas, quer nas redes sociais, contribuiu para uma maior consciência — e, por vezes, insatisfação — relativamente à aparência da zona periocular. Um reflexo claro desta realidade é a proliferação dos filtros digitais, que promovem caraterísticas faciais idealizadas e muitas vezes irreais. E, apesar de esta evolução tecnológica ser indiscutivelmente fascinante, não é isenta de riscos. Pessoas mais sugestionáveis ou menos seguras da sua beleza natural podem desenvolver expectativas desajustadas, procurando procedimentos com o objetivo de se tornarem semelhantes ao filtro do Instagram ou a determinada figura pública ou influenciadora Este fenómeno tem levado a um aumento significativo da procura por intervenções minimamente invasivas, e até aí, tudo certo. Paralelamente, temos assistido à normalização de determinados padrões estéticos que promovem uma certa uniformização facial — aquilo a que alguns autores chamam de sameness. A diversidade de traços, expressões e caraterísticas que compõem o rosto humano é algo que me apaixona, e que procuro sempre respeitar e valorizar. Acredito que a beleza não reside na cópia de um ideal, mas na autenticidade e na harmonia de cada olhar com a identidade da pessoa. Como médica, considero fundamental orientar os pacientes para decisões informadas, equilibradas e individualizadas, afastadas de modismos. Acredito profundamente que a verdadeira sofisticação estética reside na individualidade e naturalidade — num resultado que valoriza o rosto sem o transformar. Existe uma idade ideal para certos procedimentos ou tudo depende do caso clínico? A resposta é previsível: depende sempre. Mais do que a idade cronológica, importa avaliar a indicação clínica, a estrutura anatómica e as expectativas do paciente. Há alterações genéticas que se manifestam precocemente e, por outro lado, pessoas que mantêm uma boa arquitetura palpebral até idades mais avançadas. Cada caso deve ser avaliado com sensibilidade e rigor. Que conselhos dá para manter a saúde da zona ocular e prevenir problemas estéticos e funcionais? A prevenção passa por pequenos gestos diários. Em primeiro lugar, e o principal, é proteger a pele do sol. A exposição solar é um dos principais fatores de envelhecimento precoce e deve ser combatida com o uso diário de protetor solar e óculos de sol. A utilização de dermocosméticos adequados, com produtos específicos para a zona periocular, ajuda a preservar a elasticidade da pele e a atrasar o aparecimento de linhas finas e rugas. Não esfregar os olhos, tratar patologias dos olhos e das pálpebras como a blefarite, alergia, lesões palpebrais. Paralelamente, é importante garantir uma boa qualidade de sono, pois o descanso insuficiente potencia olheiras, inchaço e uma aparência mais envelhecida. Evitar o tabaco, moderar o consumo de álcool e manter uma alimentação equilibrada são igualmente fatores cruciais — não apenas para a saúde geral, mas para a vitalidade da pele. A redução do tempo em frente a ecrãs e adotar pausas regulares (a chamada “regra dos 20-20-20”: a cada 20 minutos, olhar durante 20 segundos para algo a 20 pés de distância), ajuda a prevenir a fadiga ocular e o olho seco. Por fim, aconselho a realização de avaliações oftalmológicas periódicas, sobretudo a partir dos 40 anos, de forma a detetar alterações oftalmológicas que muitas vezes evoluem de forma silenciosa e irreversível. Cuidar da zona dos olhos não é apenas uma questão de estética — é, acima de tudo, um investimento na saúde ocular e no bem-estar geral. O olhar é uma das expressões mais fortes da nossa identidade, e merece ser tratado com atenção e respeito. Percurso académico e profissional: Cátia Azenha completou o Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em 2011. Em 2017 obteve o grau de especialista em Oftalmologia, no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, local onde prosseguiu a sua diferenciação adicional em Oculoplástica nos dois anos seguintes. Desde então dedica-se praticamente em exclusivo a esta área, tendo feito estágios adicionais de Oculoplástica e Medicina Estética nos centros de referência mundiais mais reputados com os melhores cirurgiões na área: Espanha (Instituto Internacional de Órbita e Oculoplástica do Centro Oftalmológico Moreiras, Santiago de Compostela; Hospital Universitário HLA Moncloa), Alemanha (Hospital Universitário de Essen), Holanda (Hospital Universitário de Amesterdão), Inglaterra (Hospital de Cromwell, Londres) e Brasil (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Está envolvida no ensino de alunos de Medicina da Universidade do Minho, Médicos Internos de Especialidade de Oftalmologia e participa regularmente em Congressos e Cursos na sua área. É membro da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia e da Sociedade Portuguesa de Medicina Estética. Trabalha atualmente no Hospital de Braga, onde é responsável pela secção de Oculoplástica, exercendo também funções no Hospital Lusíadas Braga, no Instituto CUF, na Clínica Oftalmológica do Minho e no Instituto Médico da Face.” Instagram: @dracatiaazenha Marcações:https://linktr.ee/dracatiaazenha “A hipnose clínica reprograma hábitos e emoções com base na neurociência e na epigenética” “Ser mãe também é sentir medo, exaustão e insegurança, para lá do conto de fadas que nos contam”
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