Cirurgia “Os grandes casos reconstrutivos obrigam-nos a perceber que a cirurgia plástica é muito mais do que imagem” By Revista Spot | Março 2, 2026 Abril 8, 2026 Share Tweet Share Pin Email Entre a luz fria do bloco operatório e a luz mais íntima do espelho, o cirurgião plástico Ricardo Horta construiu um lugar raro. Foi Diretor do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital de São João, é atualmente professor na FMUP e desenvolve uma prática que cruza a reconstrução complexa com a cirurgia estética da face, da mama e do contorno corporal, com uma assinatura clínica que privilegia a subtileza, a proporção e a verdade anatómica. Antes do bisturi, há linhas desenhadas sobre a pele, planeamento rigoroso, medidas pensadas ao milímetro e a responsabilidade de decidir o que corrigir, o que preservar e o que devolver. Habituado à pressão dos grandes casos reconstrutivos, é também na cirurgia estética que afirma uma assinatura própria: resultados naturais, equilibrados e sem excessos, num tempo em que a imagem é tantas vezes tratada com leveza e pressa. Entre a formação médica, o internato e a escolha pela Cirurgia Plástica, houve um momento em que percebeu: “é aqui que posso fazer a diferença”? O que me atraiu na Cirurgia Plástica foi, desde cedo, a sua enorme diversidade de procedimentos e patologias, nas vertentes reconstrutiva e estética, e a possibilidade de intervir em diferentes áreas anatómicas. É uma especialidade em que cada doente representa um desafio próprio, exigindo uma abordagem individualizada, planeamento rigoroso e preparação prévia. É Professor Universitário na FMUP e dirigiu equipas em contexto hospitalar altamente exigente. De que forma é que a investigação influencia as decisões clínicas, os protocolos e até a maneira como avalia os resultados? Grande parte da investigação que eu e a minha equipa desenvolvemos nasce da própria prática clínica. O contacto com um elevado número de casos, muitos deles particularmente complexos ou singulares, permite-nos acumular experiência, aprofundar conhecimento e questionar continuamente a forma como fazemos melhor. Para além da atividade cirúrgica, temos procurado inovar ao nível da tecnologia, em articulação com a Universidade do Porto, nomeadamente com o i3S, no planeamento pré-operatório e na criação de ferramentas de apoio à cirurgia. Paralelamente, desenvolvemos também vários projetos na área da engenharia tecidular, em colaboração com a Universidade do Minho, através do 3Bs, e com a Universidade Católica do Porto. Numa fase ainda experimental, estes trabalhos procuram criar unidades tecidulares em impressão 3D que, no futuro, possam permitir reconstruções mais precisas e com menor morbilidade para o doente. Ao mesmo tempo, através de revisões sistemáticas, meta-análises e do trabalho conjunto com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, incluindo a orientação de alunos de mestrado e doutoramento, tentamos construir bases de conhecimento cada vez mais sólidas. A investigação não é uma dimensão paralela à prática clínica, é uma ferramenta essencial para sustentar decisões, afinar estratégias e oferecer aos doentes a melhor orientação possível. Que competências distinguem uma equipa de cirurgia reconstrutiva complexa, nomeadamente microcirurgia? A microcirurgia exige uma combinação rara de preparação técnica, experiência, resistência e verdadeiro trabalho de equipa. Estamos a falar de intervenções que implicam anastomoses de vasos de muito pequeno calibre, muitas vezes com menos de 2 milímetros, realizadas sob microscópio ou com lupas de aumento. Isso exige treino muito específico, quer em cursos práticos, quer em contexto real, ao longo da formação especializada e, muitas vezes, também em estágios ou fellowships dedicados. São procedimentos frequentemente necessários em transferências de tecidos de uma região anatómica para outra, como nos retalhos livres, ou em reimplantes, e envolvem cirurgias longas, exigentes e de enorme precisão. Por isso, além da destreza técnica, são fundamentais qualidades como a persistência, a concentração e a capacidade de entreajuda entre toda a equipa, tanto durante a cirurgia como no pós-operatório. Na microcirurgia, uma complicação como uma trombose arterial ou venosa pode comprometer, em pouco tempo, o resultado de muitas horas de trabalho, obrigando a uma reintervenção urgente. Há ainda a área da supermicrocirurgia, que trabalha com vasos ainda mais pequenos, entre 0,3 e 0,8 milímetros, incluindo estruturas linfáticas, por exemplo no tratamento do linfedema, o que exige um grau de precisão ainda maior e material cirúrgico altamente delicado. Num serviço com resposta permanente ao trauma, o que pesa mais na decisão clínica: a viabilidade biológica dos tecidos, a função que ainda é possível preservar, o contexto do doente ou a própria janela de tempo para intervir? O Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital de São João assegura resposta permanente, 24 horas por dia, 365 dias por ano, sendo o único da região Norte com equipas em presença física contínua. Intervimos em situações muito exigentes, como trauma da face, dos membros superiores e inferiores, reconstrução de feridas complexas com perda de substância, por exemplo, após mordeduras ou acidentes de trabalho, e no tratamento de queimados. Dentro destas situações, há casos em que o fator tempo é absolutamente decisivo. As amputações da mão ou dos dedos, em contexto de isquemia fria, e as revascularizações de segmentos não totalmente amputados, mas desvascularizados, em isquemia quente, têm prioridade máxima. Sempre que há indicação técnica, é necessário mobilizar rapidamente os recursos do bloco de urgência e uma equipa diferenciada para tentar o reimplante, num esforço que pode prolongar-se durante muitas horas. Noutros tipos de trauma, a abordagem pode ser diferida, o que permite um planeamento mais ponderado e estratégico da reconstrução. O Hospital de São João tem ainda centralizado o trauma pediátrico e dispõe de Unidade de Queimados para admissão de grandes queimados, incluindo queimaduras térmicas, elétricas e químicas. Em qualquer uma destas situações, a decisão clínica nunca depende de um único fator. Avaliamos sempre a viabilidade biológica dos tecidos, o potencial de recuperação funcional, o impacto estético, o estado geral do doente e o tempo disponível para agir. E, muitas vezes, isso obriga-nos também a comunicar decisões difíceis: a impossibilidade de uma correção plena, a inviabilidade de um reimplante ou a probabilidade de sequelas futuras. Mesmo nesses momentos, não podemos perder a dimensão humana da medicina. É essencial falar com clareza, mas também com empatia, preservando a esperança realista e promovendo uma abordagem multidisciplinar, com o envolvimento de outras especialidades e, sempre que necessário, de Psicologia ou Psiquiatria de ligação. Portugal continua a ter poucas Unidades de Queimados, e a do São João recebe doentes de vários pontos do país. Quais são, hoje, os maiores desafios clínicos e humanos nesta área? Os desafios são enormes e começam logo na fase aguda, marcada por um sofrimento físico muito intenso, que por vezes se prolonga durante semanas ou até meses de internamento. Mas a complexidade não termina aí. À dor e à exigência do tratamento juntam-se, muitas vezes, sequelas físicas profundas, bem como um impacto social, emocional e psicológico muito significativo. Cuidar de um grande queimado é, por isso, muito mais do que tratar uma lesão, é acompanhar uma pessoa num processo longo, duro e, muitas vezes, transformador da sua vida. Nesse percurso, os profissionais da Unidade fazem um trabalho extraordinário, frequentemente em contextos de grande exigência e com recursos limitados. Felizmente, esse empenho é reconhecido por muitos doentes, que acabam por manter uma forte ligação afetiva à equipa e à própria Unidade. Há exemplos públicos que mostram bem a dimensão desse caminho. Um deles é o de Ricardo Vidal que, apesar das sequelas físicas, construiu um percurso notável de superação: tornou-se coach motivacional, dá palestras, escreveu um livro, formou-se em Psicologia e participou recentemente como ator no filme Justa, de Teresa Villaverde, uma obra que vale a pena conhecer por retratar a complexidade da readaptação social de várias famílias após os incêndios de Pedrógão Grande, em 2017. O seu percurso é hoje uma referência de resiliência e uma fonte de inspiração para muitos doentes que sofreram queimaduras ou outros processos de desfiguração. Recorda-se de casos que o tenham marcado de forma especial? E como é que se protege emocionalmente numa profissão tão exigente, onde tantas decisões têm um peso tão grande? Houve muitos casos marcantes ao longo do meu percurso, sobretudo situações em que senti que a nossa intervenção podia ser verdadeiramente decisiva na vida de alguém. Um dos que mais me marcou foi a reconstrução de uma hérnia diafragmática numa criança com agenesia do diafragma, uma condição que impedia a separação adequada entre o tórax e o abdómen, com repercussões importantes no crescimento e na função respiratória. A cirurgia permitiu restabelecer essa separação, melhorar a capacidade respiratória e criar condições para um desenvolvimento mais saudável. Foi um caso muito impactante para mim. De forma geral, todos os casos em crianças me tocam particularmente, talvez por ser mais sensível a esse tipo de sofrimento. Mas houve muitos outros que me ficaram na memória: reconstruções complexas após trauma ou doença oncológica, correção de defeitos faciais e corporais, tratamento de malformações vasculares, ou situações de paralisia e desfiguração que mudam profundamente a vida de uma pessoa. Naturalmente, numa profissão como esta, nem todos os dias correm bem. Há momentos duros, casos mais pesados, cirurgias particularmente exigentes, nomeadamente em trauma, isquemia da mão ou reconstrução oncológica da cabeça e pescoço, que deixam marca. O médico também tem dias maus, noites mal dormidas e um nível de desgaste que nem sempre é visível. O importante é não ficar caído demasiado tempo: aprender, recuperar e seguir em frente com responsabilidade. Para me proteger emocionalmente, tento cuidar daquilo que me mantém equilibrado. Procuro dormir cedo, afastar-me de telemóveis e computadores à noite, brincar com as minhas filhas, estar com a família, ter momentos de lazer, cuidar da alimentação e manter alguma prática de exercício físico, sobretudo ao fim de semana, entre o atletismo e o ginásio. A disciplina, para mim, é uma base essencial. Se formos indisciplinados, seremos escravos das nossas paixões, vícios e disposições, como afirma o maior maratonista de todos os tempos (Eliud Kipchoge). É esse conselho que dou a muitos pacientes, especialmente aos que têm excesso de peso, para os motivar a fazer exercício mesmo que seja ao Domingo. Na reconstrução mamária e nas cirurgias da cabeça e pescoço, como se encontra o equilíbrio entre segurança oncológica, função e imagem? E, para si, o que define verdadeiramente um bom resultado? Nas situações oncológicas em que a Cirurgia Plástica intervém, nomeadamente na mama, na cabeça e pescoço ou na pele, a prioridade absoluta é sempre a remoção completa do tumor, com margens adequadas e segurança oncológica. Esse é o primeiro princípio e nunca pode ser comprometido. Mas a reconstrução tem, também, um papel decisivo. Não se trata apenas de encerrar um defeito cirúrgico, trata-se de restaurar função, preservar estrutura, respeitar a imagem corporal e, sempre que possível, devolver ao doente uma sensação de integridade. Isso exige que o cirurgião tenha permanentemente presentes critérios oncológicos, funcionais e estéticos. Um bom resultado é, por isso, aquele que alia controlo da doença à melhor recuperação funcional e à melhor reintegração possível do doente na sua vida pessoal, social e profissional. Quando conseguimos tratar com segurança, preservar qualidade de vida e ajudar a recuperar autoestima, estamos mais perto desse bom resultado. Durante muitos anos, o linfedema foi tratado quase apenas com contenção e fisioterapia. O que é que mudou com as abordagens microcirúrgicas e com as técnicas minimamente invasivas mais recentes? Em que doentes fazem sentido e como se definem expectativas realistas de melhoria? O linfedema continua a ser uma patologia complexa e uma área em que ainda há muito por desenvolver em Portugal. Resulta de um desequilíbrio entre a produção de líquido linfático e a capacidade de transporte do sistema linfático, levando à acumulação de um líquido rico em proteínas na derme e no tecido celular subcutâneo. Pode ser congénito, mas surge muitas vezes de forma adquirida, por exemplo após cirurgia oncológica, esvaziamento ganglionar, radioterapia, traumatismos ou infeções. Durante muito tempo, o tratamento assentou quase exclusivamente em medidas conservadoras, como drenagem, contenção elástica e fisioterapia. Essas abordagens continuam a ser fundamentais, mas a evolução da microcirurgia veio abrir novas possibilidades em doentes selecionados. Em 2017, realizámos no Centro Hospitalar Universitário de São João a primeira transferência ganglionar microvascularizada em Portugal, do pescoço para a mão. A partir daí, seguiram-se outros procedimentos, como reconstrução mamária associada a transferência de tecido ganglionar, transferências de gânglios gastroepiploicos e anastomoses linfático-venosas. Alguns elementos do serviço dedicaram-se de forma particular a esta área, permitindo ganhar diferenciação e experiência. Mais recentemente, realizámos também um tratamento pioneiro em Portugal para o linfedema do membro superior, com recurso a uma scaffold de colagénio reabsorvível, associada aos gânglios linfáticos supraclaviculares do mesmo lado. Esta tecnologia, implantada por via subcutânea através de uma técnica simples e minimamente invasiva, permite criar uma rede de nanofibras de colagénio que favorece a drenagem intersticial e orienta a regeneração natural do sistema linfático, num processo de linfangiogénese direta. Pode ser usada isoladamente ou em associação com outras técnicas cirúrgicas, incluindo vibrolipoaspiração. Em termos de indicação, a cirurgia faz sobretudo sentido em doentes que, apesar de um plano bem conduzido de drenagem e contenção, mantêm limitação funcional importante, episódios repetidos de infeção ou um impacto significativo na qualidade de vida. Ainda assim, é importante sublinhar que a intervenção ideal deve acontecer, sempre que possível, numa fase mais precoce da doença, quando ainda existem canais linfáticos funcionantes. As expectativas também têm de ser definidas com realismo. Nem sempre falamos de cura, mas muitas vezes de melhoria: reduzir volume, diminuir infeções, aliviar sintomas, melhorar mobilidade e qualidade de vida. E, nessa área, isso já pode representar uma diferença muito relevante na vida do doente. Com o aumento das perdas ponderais significativas, impulsionadas pela cirurgia bariátrica, mas também por novos fármacos, tem crescido a procura por cirurgias reconstrutivas de contorno corporal. O que é que esta realidade está a mudar na prática clínica? O aumento muito expressivo das cirurgias bariátricas e, mais recentemente, das perdas ponderais associadas a terapêuticas farmacológicas, tem levado a um acréscimo claro dos pedidos de referenciação para cirurgia de contorno corporal. É uma realidade cada vez mais visível na prática clínica. Dito isto, o combate à obesidade não se pode esgotar nestas vias. Pela sua dimensão e impacto, exige também um investimento muito maior na prevenção e na promoção de hábitos de vida saudáveis, nomeadamente ao nível da alimentação e da atividade física. Isso é particularmente importante porque tanto a perda de peso por cirurgia como por fármacos pode deixar sequelas físicas relevantes, e porque sabemos, inclusive através de investigação que estamos a desenvolver na FMUP, que existem múltiplos fatores associados à dificuldade em manter a estabilidade ponderal a longo prazo e ao eventual reganho de peso. Ainda assim, importa sublinhar que a cirurgia bariátrica continua a ser, em muitos casos, uma ferramenta fundamental. Nos últimos anos, temos recebido um número crescente de referenciações, a nível regional e nacional, de Norte a Sul do país, uma situação também agravada pela rutura de resposta nalguns centros hospitalares e hospitais distritais. Naturalmente, a nossa capacidade não é ilimitada. Se estes doentes não forem, sempre que possível, encaminhados prioritariamente para hospitais da sua área com menor grau de diferenciação, isso pode comprometer a resposta aos utentes da nossa área de referenciação, tanto em tempo útil como nos padrões de segurança e qualidade que procuramos assegurar. Importa também lembrar que este serviço, para além da elevada produtividade assistencial, assegura cirurgias altamente diferenciadas e inovadoras, sendo hoje uma referência regional e nacional em várias áreas reconstrutivas, nomeadamente oncologia da cabeça e pescoço e da pele, microcirurgia, reconstrução dos membros superiores e inferiores, queimados, reconstrução mamária, torácica e perineal, bem como cirurgia nervosa, por exemplo do plexo braquial. Por isso, o crescimento desta procura está também a obrigar a uma gestão cada vez mais exigente de prioridades e recursos. Há procedimentos estéticos com impacto claramente funcional e reconstruções que exigem um olhar estético muito rigoroso. Onde é que, para si, a estética entra ainda como medicina e onde é que deixa de o ser? Que critérios éticos pesam na decisão de recusar um pedido? A fronteira entre cirurgia estética e cirurgia reconstrutiva é, muitas vezes, mais ténue do que parece. Um bom exemplo é a mamoplastia de redução, que pode trazer benefícios funcionais, estéticos e até oncológicos, ao contribuir para a diminuição de risco em determinados contextos. Isto mostra que a dimensão estética não está desligada da medicina, em muitos casos, faz parte integrante do bem-estar físico, psicológico e social da pessoa. As cirurgias estéticas podem ter um impacto muito relevante na autoestima, na confiança e na forma como o doente se relaciona consigo próprio e com os outros. Tenho, por exemplo, várias pacientes muito jovens a procurar mamoplastia de aumento, por vezes aos 18 anos, embora isso seja mais frequente após a maternidade, noutras fases da vida. Em determinados casos, quando existe um sofrimento real e persistente, esse pedido não deve ser automaticamente desvalorizado, porque pode ter repercussões profundas no bem-estar emocional, na integração social e até no percurso escolar ou profissional. Mas é precisamente aqui que a avaliação ética e clínica se torna essencial. Nem todos os pedidos devem ser aceites. Há doentes com expectativas irreais, ou com uma relação desajustada com a sua imagem corporal, nomeadamente em contextos de perturbação dismórfica corporal, em que todo o sofrimento é projetado sobre uma determinada zona do corpo, muitas vezes sem fundamento objetivo. Nestes casos, bem como em situações de patologia psiquiátrica agudizada ou não controlada, a cirurgia não deve avançar sem uma avaliação muito criteriosa. Recusar um pedido pode, por isso, ser também uma forma de cuidar. O critério ético passa por perceber se a cirurgia tem potencial para ajudar verdadeiramente aquela pessoa, ou se, pelo contrário, corre o risco de alimentar um sofrimento mais profundo que o bisturi, por si só, nunca conseguirá resolver. Dentro da cirurgia estética, uma área hoje cada vez mais vasta e diversificada, que procedimentos realiza com maior frequência? E o que é que essa procura lhe revela sobre aquilo que está a mudar na forma como as pessoas olham para a estética? Realizo um leque muito amplo de procedimentos estéticos, mas, neste momento, os mais procurados continuam a ser as cirurgias de contorno corporal, como a abdominoplastia e a lipoaspiração, as cirurgias mamárias, quer de aumento quer de redução, e algumas intervenções faciais, como o lifting facial e a blefaroplastia. Nos homens, os procedimentos mais procurados incluem a lipoaspiração, a otoplastia, a blefaroplastia e a correção da ginecomastia. Ao mesmo tempo, a procura tornou-se hoje bastante mais abrangente e inclui também procedimentos como lipofilling, por exemplo na região glútea, cirurgia genital ou mentoplastia. Além disso, o aumento das perdas ponderais, seja por iniciativa própria, por terapêutica farmacológica ou após cirurgia bariátrica, tem levado a uma procura crescente de cirurgias remodeladoras. Esta evolução diz-nos várias coisas sobre o presente da estética. Por um lado, há uma procura cada vez maior por resultados naturais, tanto no rosto como no corpo. No lifting facial, por exemplo, os doentes querem rejuvenescer sem ficarem com os estigmas clássicos de uma cirurgia evidente. Na mamoplastia de aumento, é cada vez mais frequente o desejo de um peito mais discreto, harmonioso e compatível com um resultado funcionalmente confortável. Por outro lado, há também uma aposta crescente em tratamentos complementares não cirúrgicos, como lasers, radiofrequência microagulhada, fillers e outras tecnologias, bem como numa lógica mais preventiva e de envelhecimento saudável. Quando fala de um resultado “natural”, o que é que isso significa realmente na prática clínica? Que peso têm hoje o planeamento e a medição e até que ponto são as decisões menos visíveis as que acabam por determinar um resultado elegante, seguro e duradouro? Um resultado natural é, antes de mais, aquele que respeita a individualidade da pessoa. Não significa ausência de mudança, mas sim uma mudança que não apaga os traços essenciais, que preserva identidade e que melhora de forma subtil, equilibrada e adequada. No fundo, trata-se de intervir sem desfigurar, respeitando a harmonia facial e corporal. Naturalmente, o planeamento e a medição têm um papel muito importante. São fundamentais para definir proporções, prever limites e tomar decisões com segurança. Mas há uma parte do processo que não se esgota na técnica nem nos números. Existem decisões mais discretas, quase invisíveis para quem está de fora, que fazem toda a diferença no resultado final: a quantidade exata a corrigir, o que preservar, o que não exagerar, o momento certo para parar, a leitura global do rosto ou do corpo. É aí que entram também a experiência do cirurgião, a repetição, o treino, o aperfeiçoamento contínuo e uma certa intuição clínica que só a prática sustenta. Mais do que qualquer simulador, que pode, aliás, criar expectativas irrealistas e nunca consegue reproduzir todas as variáveis de uma cirurgia real, são essa sensibilidade e essa capacidade de decisão, construídas ao longo do tempo, que mais contribuem para um resultado elegante, estável e seguro. No rejuvenescimento facial, há uma linha muito fina entre rejuvenescer e “uniformizar” rostos. Como decide quem beneficia verdadeiramente de cirurgia e quem deve seguir uma abordagem mais conservadora? E como se preserva a identidade, numa altura em que tantos pedidos partem de referências irreais? Os procedimentos de rejuvenescimento facial podem fazer uma diferença muito significativa e, quando bem indicados e bem executados, conseguem devolver frescura e atenuar sinais de envelhecimento de forma muito expressiva. Em regra, a partir dos 55 ou 60 anos, a cirurgia tende a oferecer benefícios mais consistentes, mas essa decisão nunca pode ser tomada apenas com base na idade. Depende sempre da anatomia, da qualidade dos tecidos, do grau de flacidez, da perda de volume e, claro, das expectativas do doente. Muitas pessoas optam por soluções menos invasivas, seja pelo custo de uma cirurgia, pelo receio da anestesia, das cicatrizes ou de uma mudança demasiado evidente. Em determinadas fases, essas abordagens podem ser úteis e trazer melhorias visíveis. No entanto, é importante ser honesto, há alterações estruturais do envelhecimento, como a descida gravitacional dos tecidos ou a perda de suporte, que não são corrigidas de forma adequada por procedimentos mais superficiais e que, a médio prazo, acabam por revelar os seus limites. Algumas soluções, como os fios tensores, podem ser dispendiosas sem resolver verdadeiramente o problema de base. Preservar a identidade é absolutamente essencial. O objetivo não é criar um rosto novo, mas devolver harmonia ao rosto que já existe. Muitas vezes, basta pedir à doente que mostre com as mãos aquilo que gostaria de melhorar, e o gesto é muito elucidativo: procura-se redefinir o contorno mandibular, corrigir as jowls, melhorar a flacidez do pescoço e suavizar certos sulcos. É precisamente essa leitura que nos ajuda a perceber o que deve ser tratado. Idealmente, o rejuvenescimento facial deve ser pensado de forma global, articulando o terço inferior com o médio e o superior da face, por vezes em associação com procedimentos como a blefaroplastia, e complementado, quando faz sentido, com tratamentos que melhoram textura, consistência e uniformidade da pele, como os lasers. O mais importante é nunca perder de vista a individualidade. Rejuvenescer não é uniformizar, é respeitar traços, expressão e identidade, evitando exageros e referências artificiais que, muitas vezes, nada têm a ver com a pessoa concreta que temos à frente. Na cirurgia estética da mama e do contorno corporal, o público tende a fixar-se no “antes e depois”. Mas quais são, na realidade, as decisões mais críticas para garantir um resultado seguro, duradouro e não apenas fotogénico? A decisão mais importante começa muito antes da cirurgia, na consulta. É aí que se constrói a base de um bom resultado. O médico deve dedicar tempo a explicar, com detalhe e clareza, em que consiste o procedimento, quais são as cicatrizes expectáveis, como será a recuperação, que alternativas existem e que limites devem ser compreendidos à partida. Só assim o doente pode tomar uma decisão verdadeiramente informada. Essa fase é tanto mais importante quanto sabemos que a imagem pública da cirurgia estética é, muitas vezes, moldada por fotografias selecionadas e por resultados apresentados de forma parcial ou até excessivamente trabalhada. Foi precisamente nesse contexto que desenvolvemos recentemente um livro, em formato Infinitebook, pensado para aproximar a análise fotográfica do verdadeiro consentimento informado. Trata-se de uma ferramenta prática, reutilizável e pedagógica, com ilustrações dos procedimentos plásticos e reconstrutivos mais frequentes, sobre as quais o cirurgião pode desenhar incisões, padrões de excisão, tipos de retalho e cicatrizes prováveis, ajudando o doente a perceber melhor aquilo que vai ser feito. Depois, em bloco operatório, há um conjunto de decisões invisíveis para quem vê apenas o resultado final, mas absolutamente determinantes para a sua qualidade e longevidade. É fundamental respeitar a morfologia do doente, compreender bem as suas motivações e agir com sensatez, sem ceder à tentação do excesso. No caso da cirurgia mamária, por exemplo, a durabilidade do resultado depende de escolhas muito concretas, como a qualidade e o volume dos implantes, a seleção do plano anatómico mais adequado e o recurso, quando necessário, a técnicas de ancoragem fascial ou muscular. No contorno corporal, aplica-se o mesmo princípio: não basta criar um resultado que fotografe bem; é preciso construir um resultado que funcione bem no corpo real, em movimento, ao longo do tempo. No fim, um bom resultado não é apenas aquele que impressiona no imediato. É aquele que respeita o corpo, protege a segurança do doente, envelhece bem e continua a fazer sentido meses e anos depois. E isso depende, acima de tudo, da experiência, do treino, da capacidade de planeamento e da sensibilidade clínica do cirurgião. Tem trabalho e interesse em áreas como a engenharia de tecidos, a bioimpressão 3D e a reconstrução de defeitos complexos. O que é que imagina que poderá estar “normalizado” nos próximos cinco a dez anos? E que pergunta gostava que os doentes fizessem antes de pedirem um simples “antes e depois”? Daqui a alguns anos, é provável que deixemos de precisar de retirar um osso da perna para reconstruir uma mandíbula, de colher enxertos cutâneos para cobrir uma ferida ou de reconstruir totalmente uma orelha com cartilagem retirada das costelas. A bioimpressão 3D, aliada a técnicas avançadas de engenharia de tecidos, poderá permitir criar em laboratório unidades tecidulares compostas e vascularizadas, ajustadas ao defeito a reconstruir, com maior precisão e menor morbilidade para o doente. O grande desafio estará em fazer a ponte entre a investigação experimental e a aplicação segura em seres humanos, porque essa transição continua a levantar obstáculos técnicos, científicos e regulamentares importantes. Em paralelo, estamos também a desenvolver a ideia de um banco de pele de dador vivo, recorrendo a excedentes cutâneos resultantes de dermolipectomias abdominais, de braços ou de coxas, realizadas em cirurgias de contorno corporal. Esse tecido poderá ser utilizado na cobertura de feridas complexas, como queimaduras, úlceras venosas, erisipelas ou outras lesões extensas, reduzindo a necessidade de autoenxertos, de cicatrizes adicionais e de dor, e aumentando o conforto e a qualidade de vida dos doentes. Mais do que pedirem um “antes e depois”, gostava que as pessoas perguntassem: qual é a melhor solução para o meu caso, com segurança, função e qualidade de vida a longo prazo? Porque a cirurgia reconstrutiva e estética não se esgota no resultado visual imediato. Enquanto membro da Direção do Colégio da Ordem dos Médicos nesta área, o que é que considera que devia ser absolutamente obrigatório para alguém exercer cirurgia estética com segurança? E que sinais de alerta devem fazer desconfiar de quem vende estética como se fosse um produto de consumo? Infelizmente, enquanto membro da direção do Colégio, somos por vezes chamados a pronunciar-nos sobre casos graves. Uma das maiores preocupações prende-se com o facto de, naquilo a que muitas vezes se chama “medicina estética”, existirem procedimentos realizados por pessoas sem a habilitação adequada, médicas e não médicas. Tratando-se, muitas vezes, de atos não cirúrgicos e altamente lucrativos, estes procedimentos proliferam com facilidade, surgem em contextos pouco regulados, são praticados em espaços improváveis e apresentados ao público através de uma comunicação muito agressiva, fortemente apoiada nas redes sociais, na imagem e em campanhas patrocinadas. Tudo isso pode ser profundamente enganador. É fundamental que o doente saiba exatamente quem o está a tratar, que formação tem essa pessoa, que produto vai ser utilizado e quais são os riscos associados. Mesmo no caso dos fillers e de outros materiais injetáveis, nem todos os produtos são equivalentes, e alguns podem provocar efeitos adversos relevantes. Importa também esclarecer uma ideia essencial: embora a Cirurgia Plástica seja frequentemente associada quase exclusivamente à vertente estética, essa é apenas uma das áreas da especialidade. A Cirurgia Plástica Reconstrutiva abrange um campo muito mais vasto e exige preparação para responder a situações cirúrgicas altamente complexas. Nesse contexto, a cirurgia estética é apenas uma parte de uma formação muito mais ampla. Em rigor, não existe em Portugal a especialidade de “cirurgia estética”. O que existe é a especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, reconhecida pela Ordem dos Médicos. A formação implica seis anos de curso de Medicina, um ano de internato geral e, depois, seis anos de formação específica, num total de 13 a 14 anos, muitas vezes complementados com estágios internacionais e, nalguns casos, com percurso académico paralelo, como doutoramento. É uma especialidade com poucas vagas anuais e um acesso altamente competitivo, o que também reflete o seu grau de exigência. Por isso, algumas red flags são bastante claras: linguagem excessivamente comercial, promessas fáceis, banalização do risco, foco exclusivo no preço, ausência de explicação clínica, pressão para decidir depressa, promoção excessiva do “antes e depois” e pouca transparência quanto à formação de quem realiza o procedimento. Quando a estética é apresentada como um produto de consumo rápido, e não como um ato médico com critérios, limites e responsabilidade, o doente deve desconfiar. Instagram: @ricardohorta_phd Site: ricardohorta.pt “Estar presente no digital por si só não chega” “A boca é, muitas vezes, o primeiro local onde o corpo manifesta desregulação”
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