CLÍNICAS DENTÁRIAS/SAÚDE ORAL “Os dentes podem ser o último capítulo de uma história que começou na respiração, no sono e na postura” By Revista Spot | Julho 19, 2026 Julho 20, 2026 Share Tweet Share Pin Email Antes de uma criança abrir a boca, o corpo já começou a responder. A forma como entra na sala, o modo como se senta, os lábios que não chegam a fechar, a respiração que se faz pela boca, o cansaço depois de uma noite aparentemente inteira de sono. Joana Luísa Matos aprendeu a ler estes sinais. médica dentista com pós-graduações em Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares e criadora do Método Integralis, olha para os dentes como o último capítulo de uma história que começa no desenvolvimento, na função e nos hábitos diários. Porque alinhar um sorriso pode ser importante. Mas compreender por que razão ele cresceu daquela forma pode mudar todo o tratamento. Nesta entrevista, explica por que razão alinhar dentes está longe de ser suficiente. Porque, quando a boca é compreendida como parte de um sistema maior, uma consulta pode deixar de mudar apenas um sorriso e começar a mudar um futuro. O que mudou mais na Medicina Dentária desde que começou e o que continua exatamente igual? Eu completo este ano 29 anos de carreira na medicina dentária e, contando com a licenciatura, já são mais de 30 anos que ela está na minha vida. E, nesses 30 anos, muita coisa mudou. Para além da evolução tecnológica, que nos permite fazer diagnósticos mais rápidos e mais apurados, bem como tratamentos de melhor qualidade e menos invasivos, as pessoas também mudaram: estão mais informadas e, sobretudo, mais cientes da importância da saúde oral para o seu bem-estar geral. E, felizmente, eu também mudei! Não há evolução sem abraçar o novo! Mas, curiosamente, a minha evolução voltou-se para dentro, não apenas através do meu autoconhecimento, mas também pela observação atenta do indivíduo. O meu olhar voltou-se para a fisiologia e o desenvolvimento humano e percebi como a boca é uma peça fundamental nessa engrenagem. O que não mudou? As relações humanas, o afeto, a empatia e a amizade criada durante todos estes anos. Tenho pacientes que acompanho há mais de 25 anos e orgulho-me de dizer que fiz muitos amigos ao longo da jornada Quando observa uma criança ou adulto em consulta, o que procura perceber antes de olhar apenas para os dentes? Como já disse anteriormente, durante todos estes anos fui evoluindo, tanto a nível pessoal como profissional. E, para se evoluir, tem de haver uma dúvida, um incómodo. E havia algo que me incomodava: por que razão os casos que eu recebia já tratados não tinham estabilidade? E por que é que, nas crianças, aprendemos a famosa frase: “Vamos esperar que cresçam e mudem os dentinhos para depois tratar”? Isso incomodava-me e tornou-se quase uma obsessão na procura de respostas para essas questões. Atualmente, a minha consulta começa, por vezes, ainda antes de o paciente entrar no gabinete, quando vou buscá-lo à sala de espera. Observo a forma como anda, como se senta, se tem selamento labial, como dorme, como respira, como mastiga… enfim, tantos outros aspetos até chegarmos à boca e, no final, ao dente. A posição dos dentes é a resposta a uma série de estímulos funcionais! De forma não intencional, acabei por desenvolver uma metodologia muito própria, à qual dei o nome de “Integralis”, e que se aplica tanto a crianças como a adultos. Temos o” Método Integralis Adulto” e o” Método Integralis Crescimento”. Ambos assentam em três pilares: desenvolvimento, função e estabilidade. No adulto, procuro compreender como o sistema se desenvolveu, como funciona e, se algo não está bem, como o corrigir para alcançar a tão necessária estabilidade. Já na criança, o objetivo é guiar o desenvolvimento, identificar sinais precoces de desequilíbrio e orientar a função, de forma a evitar tratamentos invasivos e instáveis no futuro Hoje fala-se cada vez mais da relação entre dentes, respiração, postura, sono e desenvolvimento facial. Ainda olhamos pouco para a boca como parte de um sistema maior? Embora a minha formação tenha em comum os primeiros três anos da Faculdade de Medicina, com um currículo muito completo de anatomia, fisiologia, bioquímica, genética, entre outras áreas, a boca foi-me apresentada como uma “caixinha” à parte. E o que me assusta é que, atualmente, a formação continua assim: muito voltada para a mecânica e pouco para a função e a fisiologia. Imagine um móvel com muitas gavetas, cada uma estanque, sem se relacionarem umas com as outras. A boca era isso: um mundo à parte! E ela tem tanto para falar e dizer, e não apenas no sentido literal do termo. A boca pode indicar-nos se a pessoa respira bem e, como consequência, se dorme bem, como estão os seus níveis de ansiedade. Pode dar-nos pistas sobre questões digestivas e sobre a forma de mastigar, que altera tanto a postura do corpo. Como é que um sistema tão preciso, que apresenta recetores que enviam sinais para o cérebro, porque detetam algo com a espessura de um fio de cabelo, não pode ser importante para a saúde geral e continua tão ignorado? É precisamente para fazer chegar esta informação ao maior número de pessoas que me empenho diariamente Na Ortopedia Funcional dos Maxilares, muitas vezes não se trata apenas de “alinhar dentes”. O que é que esta área permite prevenir ou transformar, sobretudo nas crianças? Eu diria mais: a Ortopedia Funcional dos Maxilares não é, de todo, “alinhar dentes”. A principal premissa da Ortopedia Funcional dos Maxilares é guiar o crescimento e o desenvolvimento das estruturas através do estímulo e da introdução de funções corretas. Se a função estiver correta, as estruturas ósseas desenvolver-se-ão corretamente e os dentes terão o seu espaço criado, sem forçar, sem empurrar e conseguindo a tão falada estabilidade, pedra basilar do “Método Integralis”. Esta especialidade, que pode ser muito eficiente em adultos, nomeadamente em casos de disfunção temporomandibular e bruxismo, é de um valor incalculável na infância. Na infância, atua predominantemente na prevenção de problemas futuros, promovendo saúde e corrigindo as funções. Por exemplo, numa criança em que se deteta precocemente uma respiração predominantemente oral, se corrigirmos essa situação e a criança passar a respirar pelo nariz, temos de concordar que essa criança terá condições para ser muito mais saudável na vida adulta. Outro exemplo: uma criança de quatro anos que apresenta uma mordida cruzada para o lado direito desvia a mandíbula para esse lado. Vamos deixá-la crescer com este desvio? Vamos esperar que mude os dentes e permitir que esse desvio se torne esquelético, podendo já estar associado, por exemplo, a uma alteração postural? Ou vamos tratá-la precocemente? Descobrir a Ortopedia Funcional dos Maxilares foi, sem dúvida, o ponto de viragem na minha carreira, e agradeço todos os dias a descoberta desta especialidade tão apaixonante Que sinais devem alertar os pais antes de pensarem que “é normal da idade”? Na infância, há sinais que muitas vezes passam despercebidos aos pais e educadores, porque estes pensam que são apenas uma fase do crescimento. No entanto, são frequentemente sinais de alerta que o corpo dá e que não devem ser desvalorizados! Respirar pela boca, ressonar durante a noite, comer de boca aberta, mastigar muito rápido ou muito lentamente, deglutir de forma forçada, manter hábitos como chuchar no dedo, apresentar alterações na fala, ter dentes desalinhados ou um queixo recuado são alguns dos sinais que podem indicar alterações no crescimento e desenvolvimento das crianças. E não falo apenas em alterações do crescimento e desenvolvimento das estruturas faciais. Falo no possível comprometimento da saúde geral da criança. Quanto mais cedo estes sinais forem identificados, mais simples e eficaz poderá ser a intervenção. A prevenção e o diagnóstico precoce fazem toda a diferença, e esse é precisamente o propósito do meu trabalho e da metodologia que criei. Como se constrói uma relação positiva entre uma criança e o dentista, sobretudo quando muitos adultos ainda carregam memórias de medo da consulta? Aí está algo que, em 30 anos, não mudou, apesar de todo o avanço tecnológico! Constrói-se com amor, com empatia, com carinho e alguma dose de magia… uns pozinhos de perlimpimpim. Acima de tudo, percebendo que não estamos a lidar com pessoas pequeninas. Estamos a lidar com seres humanos com caraterísticas muito próprias e tudo tem de ser adaptado para eles, desde a linguagem e a postura até às brincadeiras. Pode-se brincar sem perder o rigor científico, mas também não acho que seja necessário transformar o ambiente do consultório num parque de diversões. Aproveitei o facto de ser autora de alguns livros para o público infantojuvenil e escrevi o mais recente, “Os Dentuças – A Patrulha do Bem”, que aborda, de uma forma lúdica, o medo e o universo da medicina dentária e dos seus instrumentos. E é muito bonito ver a forma como os miúdos que já o leram em casa ou na escola reagem na consulta! O medo não deixa de estar lá, mas é superado com a ajuda dos nossos heróis! O sono entrou também na conversa da saúde oral. De que forma problemas como ressonar, dormir mal ou acordar cansado podem ter relação com a boca, a mandíbula ou a respiração? Os estudos mais recentes reportam-nos, cada vez mais, para a relação íntima entre a qualidade do sono, a forma como respiramos e a saúde oral. Problemas como ressonar, dormir mal ou acordar cansado podem ser sinais de uma obstrução das vias aéreas durante o sono, muitas vezes relacionada com a posição da mandíbula, com um desenvolvimento inadequado dos maxilares ou com alterações na posição da língua e das restantes estruturas da boca. Quando a respiração não é eficiente, o organismo recebe menos oxigénio e o sono deixa de ser reparador, o que pode ter impacto na energia, na concentração, na saúde cardiovascular e até no humor. O médico dentista tem hoje um papel importante na identificação destes sinais e, em muitos casos, trabalha em equipa com outros profissionais de saúde para diagnosticar e tratar estas alterações, contribuindo para um sono mais saudável e uma melhor qualidade de vida. Bruxismo, dores na mandíbula, cefaleias e tensão facial parecem cada vez mais comuns. O stress moderno está a chegar-nos também à boca? Sem dúvida! O stress moderno está cada vez mais a manifestar-se na boca. Cada vez mais pessoas descarregam a tensão emocional através do apertar ou ranger dos dentes, quase sempre de forma inconsciente, especialmente durante o sono. Isso pode levar a bruxismo, dores na mandíbula, cefaleias, desgaste dentário, tensões nos músculos da face e até limitações na abertura da boca. As disfunções temporomandibulares são multifatoriais, mas sabemos hoje que fatores como o stress, a ansiedade, a má qualidade do sono e um ritmo de vida acelerado têm um papel muito importante no seu aparecimento e agravamento. Por isso, o tratamento não pode passar apenas pelos dentes ou pelas articulações. Na grande maioria das vezes, exige uma abordagem mais global, que inclui a gestão do stress, a melhoria da qualidade do sono e, quando necessário, um trabalho multidisciplinar. A saúde da boca reflete muitas vezes o que se passa no resto do organismo e, por isso, compreender a origem destas tensões é tão importante quanto tratar os seus sintomas. Como diretora clínica da Ortocelos, em Barcelos, que visão quis construir ao longo destes anos: uma clínica dentária ou um espaço de saúde oral mais integrado e humano? Eu e a “Ortocelos” crescemos juntas! O desenvolvimento e a expansão da empresa refletem o meu próprio crescimento e, sobretudo, a minha curiosidade e sede de conhecimento, que me acompanham desde sempre. É, por isso, compreensível que, ao longo dos anos, à medida que o meu olhar se foi voltando para o entendimento do indivíduo como um todo, a “Ortocelos” se tenha tornado o reflexo dessa visão integrada. Essa visão integrada levou, naturalmente, à criação do “Método Integralis”, que é o meu contributo, o meu propósito, aquilo que profissionalmente me faz feliz. E a “Ortocelos” é o veículo para a materialização desse propósito. Relativamente ao espaço humano que refere, a “Ortocelos” foi sempre esse espaço, desde 1999, quando tinha apenas um gabinete e eu era uma miúda em início de carreira. Fala-se muito, atualmente, devido ao avanço tecnológico, na humanização na área da saúde. Para mim, a humanidade é uma obrigação; nunca será um fator de diferenciação. E é, sem dúvida, juntamente com a verdade, o valor mais inegociável que temos na “Ortocelos”! Em que situações é essencial trabalhar com otorrinos, terapeutas da fala, pediatras, fisioterapeutas ou outros profissionais para tratar a causa e não apenas a consequência? Devo ter sido, há cerca de 15 anos, das primeiras profissionais a trabalhar em equipa multidisciplinar, nomeadamente com otorrinolaringologistas, terapeutas da fala, pediatras, osteopatas e, mais recentemente, como parte integrante de equipas de medicina do sono. Quem realmente quer ir à causa dos problemas não pode, de forma alguma, trabalhar isoladamente. E é impossível trabalhar com ortopedia funcional dos maxilares sem o apoio de outros profissionais de saúde. Mas há algo muito importante: é preciso atuar de forma transdisciplinar e não apenas multidisciplinar. Os profissionais de saúde têm de falar a mesma linguagem e partilhar a mesma visão integrada. Caso contrário, corremos o risco de criar dúvidas, inseguranças e receios nos nossos pacientes. Quando cada profissional compreende o seu papel dentro de uma visão comum, conseguimos não apenas tratar sintomas, mas identificar e intervir nas verdadeiras causas dos problemas, proporcionando resultados mais estáveis e uma melhor qualidade de vida aos pacientes. Morada: Rua Dr. Santos Júnior 41 n º12, 4750-332 Barcelos Instagram: @dra.joanaluisamatos | @ortocelos Facebook: Ortocelos Clínica Médico Dentária Contacto: 253 826 450 (chamada para a rede fixa nacional) Site: ortocelos.com Mipmed lança plataforma digital que simplifica compras e leva informação de saúde ao utilizador “O sucesso começa quando o joelho deixa de ser o centro da vida”
CLÍNICAS DENTÁRIAS / SAÚDE ORAL “Quando um paciente regressa com os filhos, percebemos que construímos mais do que uma clínica” Uma clínica também pode ajudar a mudar a geografia da saúde. Quando Emílio Esteves abriu o primeiro centro clínico em…
CLÍNICAS DENTÁRIAS / SAÚDE ORAL “Na Medicina Dentária, o resultado de hoje não pode comprometer os próximos vinte anos” A Medicina Dentária habituou-se a mostrar resultados. Vítor Neves prefere perguntar o que acontecerá depois deles. Um tratamento pode parecer…
CLÍNICAS DENTÁRIAS “A boca é uma das primeiras testemunhas da qualidade do nosso sono” A boca pode estar a contar, todas as noites, a história de como dormimos, respiramos e suportamos o stress. Dentes…