SAÚDE O tabu que está a custar qualidade de vida a muitas pessoas By Revista Spot | Junho 3, 2026 Junho 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Durante demasiado tempo, a proctologia viveu escondida atrás da vergonha. Falava-se pouco, sofria-se muito e normalizavam-se sintomas que nunca deveriam ser silenciados: dor, sangramento, desconforto, alterações após o parto ou inseguranças ligadas à saúde íntima. Hoje, porém, a proctologia começa a sair da sombra. Com mais informação, novas tecnologias e uma abordagem menos invasiva, a especialidade está a atravessar uma transformação profunda. A médica Milena Liorci, CEO da Liorci Clinic, no Porto, é uma das vozes que tem contribuído para essa mudança em Portugal, numa visão integrada, que cruza cirurgia, laser, nutrição, fisioterapia pélvica e acompanhamento humano. Nesta entrevista, fala-nos de tabus, saúde íntima, sexualidade, inovação, recuperação rápida e da urgência de deixar de tratar a proctologia como um tema menor. Porque sofrer em silêncio nunca deve ser a solução. Quem é Milena Liorci e como nasceu a sua ligação com a proctologia? A medicina sempre me fascinou pela capacidade de transformar vidas, mas foi na cirurgia que encontrei o meu verdadeiro propósito. Dentro dela, a proctologia surgiu quase como um desafio, uma área extremamente importante, mas muitas vezes esquecida, cercada de preconceitos e medo. Percebi muito cedo que os doentes sofriam não apenas pela doença, mas também pela vergonha de procurar ajuda. E isso marcou-me profundamente. A região anal ainda é vista como um tabu, quando deveria ser encarada como qualquer outra parte do corpo que merece cuidado, atenção e tratamento especializado. Hoje vejo a proctologia como uma especialidade transformadora. Muitas vezes conseguimos devolver qualidade de vida, autoestima e liberdade a pessoas que conviviam há anos com dor, sangramento ou desconforto em silêncio. Está em Portugal há quase sete anos. Como foi essa trajetória? Foi uma caminhada intensa e muito desafiante. Cheguei a Portugal em 2019 e comecei pelo Serviço Nacional de Saúde, onde aprendi muito sobre o funcionamento do sistema e sobre a realidade dos doentes portugueses. Foi um período importante de adaptação, crescimento e construção de credibilidade. Com o tempo, percebi que existia espaço para criar algo diferente, uma clínica que reunisse tecnologia, inovação e uma abordagem mais humana e moderna da medicina. Hoje sou CEO da Liorci Clinic, no Porto, uma clínica multidisciplinar com foco em proctologia minimamente invasiva e saúde íntima integrada. Ver esse projeto crescer depois de tantos anos de trabalho é algo muito especial para mim. O que diferencia a formação de um proctologista brasileiro de um português? O Brasil tem uma tradição muito forte na coloproctologia, com um volume cirúrgico elevado e grande desenvolvimento técnico, especialmente na área minimamente invasiva. Existe também uma cultura de inovação muito intensa e uma procura constante por novas tecnologias. Portugal possui excelentes profissionais e uma medicina extremamente séria e segura, mas durante muitos anos a proctologia foi vista de forma mais conservadora. Hoje isso está a mudar rapidamente. Acredito que o meu percurso de 20 anos de medicina acabou por unir esses dois mundos, a experiência técnica e inovadora brasileira com a qualidade e estrutura da medicina portuguesa. Isso permitiu-me trazer novas abordagens e ajudar a acelerar algumas mudanças nesta área. Foi também dessa visão que nasceu a Liorci Clinic. Percebi que muitos doentes precisavam de um acompanhamento mais completo e integrado, e não apenas de uma cirurgia ou de um tratamento isolado. Quis criar uma clínica onde diferentes especialidades trabalhassem em conjunto, olhando para o doente de forma global. Na proctologia, isso faz toda a diferença. Um exemplo muito comum são as hemorroidas. Muitas vezes o doente realiza um procedimento cirúrgico, mas continua com hábitos intestinais inadequados, obstipação ou alimentação pobre em fibras. Sem acompanhamento nutricional e mudança de estilo de vida, o problema pode persistir ou voltar a surgir. Infelizmente, essa abordagem multidisciplinar ainda é muitas vezes esquecida por alguns cirurgiões, que focam apenas na resolução imediata da doença. Mas tratar verdadeiramente um doente significa compreender a causa do problema e atuar em conjunto com outras áreas, como nutrição, fisioterapia pélvica e até psicologia em alguns casos. Na Liorci Clinic acreditamos numa medicina mais integrada, preventiva e humana, onde o objetivo não é apenas tratar sintomas, mas melhorar a qualidade de vida de forma duradoura. A saúde anal continua a ser um tema tabu também na vida sexual? Sem dúvida. A saúde anal cruza-se diretamente com a vida sexual, mas continua envolta em medo, julgamento e muita desinformação. Ainda existe dificuldade em falar de prevenção, dor, fissuras, infeções sexualmente transmissíveis, práticas sexuais anais ou cuidados íntimos de forma clara, médica e sem preconceito. E isso é perigoso, porque o silêncio faz com que muitas pessoas sofram em segredo, pratiquem sexo sem informação adequada ou normalizem sintomas que precisam de avaliação médica. Como médica, acredito que precisamos de tratar este tema com naturalidade e responsabilidade. O objetivo não é incentivar ou julgar comportamentos, mas sim orientar, prevenir complicações e promover saúde. A região anal também faz parte da saúde sexual e merece acompanhamento especializado, exatamente como qualquer outra área do corpo. Muitos dos meus doentes chegam ao consultório com dúvidas que nunca tiveram coragem de colocar. Quando encontram um espaço seguro, sem julgamento, percebem que é possível falar sobre sexualidade anal de forma séria, científica e saudável. A proctologia está a mudar? Completamente. E talvez esta seja uma das maiores transformações da medicina atual. As pessoas já não querem apenas resolver um problema. Procuram tratamentos menos invasivos, recuperação mais rápida, menos dor e mais qualidade de vida. Vejo claramente que os portugueses estão mais informados e mais abertos a procurar ajuda. Existe uma nova geração de doentes que pesquisa, pergunta, compara e deseja soluções modernas. O medo de tratar doenças da região anal está finalmente a começar a diminuir. Ainda existe vergonha, claro, mas noto uma mudança cultural muito importante nos últimos anos. Também acredito que as redes sociais tiveram um papel importante nessa transformação. Utilizo as minhas plataformas diariamente para falar de temas que durante muito tempo foram considerados proibidos, e percebo o impacto real que isso tem na vida das pessoas. Recebo frequentemente mensagens de mulheres que sofreram alterações na região anal após o parto, viveram anos com vergonha, desconforto e baixa autoestima, sem saber que existiam soluções simples e modernas. Muitas delas descobriram através dos meus conteúdos que tratamentos com laser podem resolver rapidamente determinadas alterações, com recuperação muito mais tranquila. Quando uma mulher deixa de sentir vergonha do próprio corpo e recupera a confiança, isso vai muito além da medicina, é transformação emocional e qualidade de vida. A tecnologia teve um papel importante nessa mudança? Sem dúvida. A tecnologia mudou completamente a forma como tratamos muitas doenças proctológicas. Fui pioneira em Portugal na utilização do laser de CO2 aplicado à proctologia minimamente invasiva. Hoje realizamos procedimentos com muito menos trauma, menos dor pós-operatória e recuperação significativamente mais rápida. Também sou atualmente a única médica em Portugal a utilizar o dispositivo italiano Proctoscan, uma tecnologia avançada com a qual me cruzei através de formação internacional específica. Trata-se de um sistema moderno de laser e abordagem proctológica que permite tratamentos com muito mais precisão. A medicina evoluiu e a proctologia também precisa de acompanhar essa evolução. Além da prática clínica, também tem investido na formação de colegas médicos? Sim, e esse é um projeto pelo qual tenho enorme paixão. Sempre acreditei que conhecimento precisa de ser partilhado. Por isso comecei a desenvolver cursos, mentorias e formações para colegas portugueses interessados em proctologia minimamente invasiva e novas tecnologias. Mais do que ensinar técnicas, procuro transmitir uma nova visão da especialidade: mais humana, menos traumática e centrada na qualidade de vida do doente. E isso também se reflete no perfil dos meus pacientes atualmente. Hoje recebo pessoas de várias cidades de Portugal que viajam até ao Porto em busca de tratamentos modernos e menos invasivos que muitas vezes ainda não encontram nas suas cidades. Isso mostra que os doentes estão mais informados, procuram tecnologia, querem recuperar mais rápido e já não aceitam sofrer em silêncio durante anos. Que mensagem central gostaria de deixar? Que ninguém deve normalizar dor, sangramento, desconforto ou vergonha. A saúde íntima também é saúde. E procurar ajuda não deve ser motivo de constrangimento. Acredito que estamos a viver uma nova era da proctologia: mais moderna, mais tecnológica, menos invasiva e, principalmente, mais humana. Morada: Largo Alexandre Sá Pinto 44 B4 – 4050-027 Porto Contacto: +351 925 632 299 (chamada para a rede móvel nacional) Facebook: Dra. Milena Liorci Instagram: @milenaliorci | @liorciclinic Site: dramilenaliorci.pt | liorciclinic.pt “Durante anos, a cirurgia da coluna foi sinónimo de medo. 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