Cirurgia/ORTOPEDIA O percurso de um dos rostos que está a transformar a cirurgia da coluna em Portugal By Revista Spot | Julho 10, 2026 Julho 12, 2026 Share Tweet Share Pin Email Quando Eduardo Moreira Pinto teve contacto, na Coreia do Sul, com a endoscopia biportal da coluna, a técnica ainda não fazia parte da realidade portuguesa. Viu ali um caminho diferente: operar com menor agressão, preservar estruturas e devolver mais depressa os doentes à vida ativa. Decidiu aprender, implementar e divulgar. Anos depois, a técnica está presente em vários centros nacionais, faz parte de cerca de 90% da sua prática cirúrgica e levou-o a formar cirurgiões portugueses e estrangeiros. Na Porto Spine Unit, integra uma equipa dedicada à diferenciação e inovação na patologia da coluna. Há, porém, um detalhe que torna esta história singular: quando precisou de ser operado, Eduardo Moreira Pinto escolheu para si a mesma abordagem que ajudou a afirmar em Portugal. À Revista Spot, fala-nos da evolução da cirurgia da coluna, dos medos que persistem e de uma medicina cada vez mais precisa, personalizada e menos invasiva. Recentemente foi submetido a uma cirurgia à coluna utilizando a mesma técnica endoscópica que ajudou a introduzir e divulgar em Portugal. Como foi passar para o outro lado da mesa de operações e de que forma essa experiência alterou a sua perspetiva enquanto cirurgião? Foi uma experiência muito interessante porque me permitiu viver a cirurgia do lado do doente. Durante anos expliquei aos meus doentes o que podiam esperar antes e depois de uma cirurgia endoscópica da coluna, mas desta vez fui eu a passar por esse processo. Para além dessa perspetiva diferente, permitiu-me confirmar em primeira mão aquilo que observo diariamente na minha prática clínica: a capacidade destas técnicas para aliviar rapidamente a dor e proporcionar uma recuperação muito célere. No meu caso, desapareceu a dor que me limitava e a recuperação foi tão rápida que nem sequer precisei de interromper a minha atividade profissional. Naturalmente, nem todos os doentes têm uma evolução idêntica, porque cada caso é diferente. Mas ter vivido pessoalmente essa experiência reforçou ainda mais a minha confiança numa técnica que não só ajudei a introduzir e divulgar em Portugal, como também escolhi para mim quando precisei de ser tratado. Vivemos mais sentados, mais stressados e muitas vezes mais desconectados do corpo. Que retrato faz hoje dos problemas de coluna que chegam à consulta? Estamos a ver dores e patologias cada vez mais cedo? A dor lombar é atualmente uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Vemos cada vez mais pessoas jovens com sintomas relacionados com sedentarismo, excesso de peso, trabalho prolongado ao computador e menor atividade física. No entanto, também é importante perceber que o envelhecimento da população faz com que vejamos um número crescente de doentes com patologias degenerativas da coluna. Por outro lado, a coluna não pode ser vista apenas como uma estrutura mecânica. Existe uma relação muito forte entre dor, especialmente cervical, e o estado psicológico de cada pessoa. Períodos de stress, ansiedade, privação de sono ou sobrecarga emocional estão frequentemente associados ao agravamento das queixas cervicais e musculares. Muitas vezes tratamos não apenas uma alteração anatómica, mas também o impacto que o estilo de vida e o estado emocional têm na perceção da dor. Que sinais devem levar uma pessoa a procurar ajuda especializada? A maioria das dores lombares melhora espontaneamente. No entanto, dor persistente durante várias semanas, dor irradiada para os membros inferiores, perda de força, alterações da sensibilidade ou dificuldade em caminhar devem motivar uma avaliação especializada. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico correto, mais facilmente conseguimos evitar a progressão dos sintomas. Muitas pessoas associam hérnia discal imediatamente a operação. Como se decide entre tratamento conservador ou cirurgia? A grande maioria das hérnias discais não necessita de cirurgia. O tratamento depende dos sintomas, da duração das queixas e da presença ou não de défices neurológicos. A cirurgia é apenas uma das ferramentas disponíveis e normalmente reservada para situações em que os sintomas persistem ou existe compromisso neurológico significativo. O mais importante é individualizar a decisão para cada doente. Ainda há muito receio quando se fala em operar a coluna. Quais são os mitos que mais encontra nos pacientes? O mito mais frequente continua a ser o de que “quem opera à coluna fica pior”. Essa ideia resulta muitas vezes de experiências antigas ou de casos complexos que não refletem a realidade atual. Hoje dispomos de técnicas muito mais seguras, precisas e menos invasivas. A cirurgia da coluna evoluiu profundamente nas últimas duas décadas. O que é que estas técnicas vieram mudar na prática clínica? Vieram permitir tratar muitas patologias através de incisões muito pequenas, preservando músculos, ligamentos e estruturas normais da coluna. Isso traduz-se geralmente em menos dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor necessidade de internamento e regresso mais precoce à vida ativa. Quase a totalidade dos doentes operados caminham poucas horas após a cirurgia e regressam a casa no próprio dia ou no dia seguinte e atualmente cerca de 90% dos procedimentos cirúrgicos na minha prática clínica são realizados por via endoscópica. Hoje a endoscopia biportal é uma realidade em vários centros portugueses, mas nem sempre foi assim. Como começou este percurso e qual foi o seu papel na introdução e desenvolvimento desta técnica em Portugal? Quando realizei um fellowship na Coreia do Sul e tive contacto com a técnica percebi imediatamente o seu enorme potencial em revolucionar a cirurgia da coluna em geral. Numa altura em que ainda não era realizada em Portugal, investi fortemente na sua aprendizagem e implementação. Desde então, tenho dedicado uma parte significativa da minha atividade não apenas à prática clínica, mas também à divulgação e ensino da técnica. É gratificante ver que aquilo que começou como uma aposta pessoal se tornou hoje uma realidade em múltiplos centros nacionais. A Porto Spine Unit foi distinguida como centro de excelência em cirurgia endoscópica da coluna. O que significa este reconhecimento? É um reconhecimento do trabalho desenvolvido por toda a equipa ao longo dos últimos anos. Demonstra que é possível produzir inovação, ensino e diferenciação a partir de Portugal. Para os doentes, representa a garantia de acesso a cuidados prestados segundo padrões internacionais de excelência. Tem tido um papel ativo na formação de cirurgiões portugueses e estrangeiros nesta área. O que significa ver outros colegas a adotarem esta técnica? É provavelmente um dos aspetos mais gratificantes da minha carreira. A medicina evolui através da partilha de conhecimento. Ao longo dos últimos anos tive a oportunidade de organizar dezenas de cursos, programas de formação e receber cirurgiões de vários países para observação e treino. Ver esses colegas implementarem a técnica nos seus hospitais significa que mais doentes poderão beneficiar desta abordagem. Entre robótica, navegação e inteligência artificial, o que acredita que vai mudar mais nos próximos anos? A cirurgia da coluna será cada vez mais precisa, personalizada e menos invasiva. A navegação, a inteligência artificial e a robótica terão um papel crescente no planeamento cirúrgico e na tomada de decisão. No entanto, acredito que o fator mais importante continuará a ser a capacidade de o cirurgião selecionar o tratamento certo para o doente certo. Se tivesse de resumir o seu percurso numa única frase, qual seria? Se há algo que resume o meu percurso, é ter ajudado a aproximar Portugal da linha da frente da cirurgia endoscópica da coluna. Instagram: @pintoeduardomoreira Marcação de consulta: https://www.hospitaldaluz.pt/pt/encontre-um-medico/8215/eduardo-moreira-pinto Porto Spine Unit: portospineunit.com “Do fogo argentino a uma estrela Michelin, a Tasca do Paiol abriu a porta a outras cozinhas sem deixar de ser tasca” “A dependência pode esconder-se em comportamentos tão comuns como jogar, fazer compras online, comer compulsivamente ou passar horas nas redes sociais”
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