Psicologia “Nunca foi tão fácil comunicar e nunca tantas pessoas se sentiram tão sozinhas dentro da própria relação” By Revista Spot | Maio 23, 2026 Maio 24, 2026 Share Tweet Share Pin Email O contrário do amor não é o ódio. Muitas vezes, é a indiferença. É quando se deixa de perguntar, de tentar, de procurar o outro e, sobretudo, de acreditar que uma conversa ainda pode mudar alguma coisa. Joana Pinho Cruz, psicóloga, conhece bem esse lugar onde tantos casais acabam por chegar, não necessariamente em guerra, mas cansados, afastados, presos aos mesmos ciclos e incapazes de se ouvirem sem se defenderem. Num tempo em que as redes sociais reduzem o amor a “red flags”, fórmulas rápidas e diagnósticos apressados, esta entrevista devolve um olhar mais profundo sobre as relações. Fala-se de comunicação, desejo, silêncio, limites, famílias de origem, traição, divórcio e terapia de casal. Mas fala-se, acima de tudo, daquilo que ainda pode ser reparado quando duas pessoas aceitam olhar para a relação não como um campo de batalha, mas como um sistema que precisa de presença, consciência e transformação. O que é que a levou a aproximar-se da terapia familiar e da terapia casal? Desde muito nova que ouvia as pessoas dizerem que eu tinha facilidade em escutar o outro e em dizer a palavra certa no momento certo. Na altura, ainda se confundia muito Psicologia com aconselhamento, mas essa ideia de empatia, de escuta e de compreensão de quem tinha à minha frente foi ficando comigo. Mais tarde, percebi que o ser humano é, antes de tudo, um ser de relação. Estamos sempre inseridos em sistemas: a família de origem, a relação conjugal, a parentalidade, o trabalho, a comunidade. Nada em nós acontece de forma isolada. Aquilo que somos, sentimos e repetimos está muitas vezes ligado às dinâmicas em que crescemos e às relações que vamos construindo. A terapia familiar e de casal atraiu-me precisamente porque permite olhar para a pessoa no seu contexto. Não basta compreender o indivíduo sem perceber o sistema em que vive. Muitas vezes, se uma pessoa muda, mas o sistema à sua volta permanece igual, essa mudança torna-se muito difícil de sustentar. Também houve uma dimensão pessoal nesse interesse. Ao longo da vida, fui percebendo padrões nos meus próprios relacionamentos: escolhas semelhantes, papéis repetidos, formas de funcionar que pareciam voltar. Isso levou-me a querer compreender melhor o que está por trás dessas repetições. A abordagem sistémica ajudou-me a perceber que as relações estão no centro de grande parte do nosso sofrimento, mas também podem estar no centro da nossa cura. Nunca foi tão fácil comunicar e, ao mesmo tempo, há imensas pessoas que se sentem emocionalmente distantes dentro da própria relação. Porque é que tantos casais chegam hoje a esse lugar de desencontro? Vivemos um paradoxo muito curioso. Temos cada vez mais formas de comunicar, mas nem sempre nos sentimos verdadeiramente ouvidos. Enviamos mensagens, áudios, vídeos, estamos permanentemente ligados, mas muitas pessoas continuam a sentir-se profundamente sós. Acredito que isto acontece porque há hoje uma grande necessidade de falar, mas pouca disponibilidade para ouvir. As pessoas estão saturadas de estímulos, de informação, de tarefas, de notificações, de exigências. A cabeça está sempre em movimento. E, quando isto acontece, a escuta torna-se mais difícil. Nos casais, esta dificuldade manifesta-se através de padrões comunicacionais repetidos. Muitas vezes, um aproxima-se e o outro afasta-se. Um critica, exige ou zanga-se; o outro fecha-se, evita ou desliga. À superfície, parece apenas conflito, irritação ou frieza. Mas, por trás disso, há frequentemente emoções mais profundas. Por exemplo, uma pessoa pode expressar raiva quando, na verdade, o que sente é medo de ser abandonada. A zanga é a emoção visível, mas a emoção mais profunda pode ser medo, insegurança ou necessidade de proximidade. Do outro lado, quem se afasta pode não estar a rejeitar o parceiro, mas a tentar proteger-se da ansiedade que aquela intensidade lhe provoca. Em terapia de casal, muitas vezes o trabalho passa por ajudar o casal a identificar este ciclo. Quando ambos percebem que não estão apenas a discutir, mas a repetir uma dança emocional que os afasta, torna-se possível comunicar de outra forma. A partir daí, podem construir rituais de conexão, momentos de presença e formas mais seguras de se aproximarem um do outro. A exaustão tem hoje um impacto enorme na vida afetiva. Até que ponto o cansaço se tornou um dos grandes sabotadores da intimidade, da escuta e da comunicação? O cansaço é, sem dúvida, um dos grandes sabotadores das relações. Vivemos numa sociedade acelerada, onde estamos constantemente sobrecarregados de informação, responsabilidades e estímulos. Quando o sistema nervoso está demasiado ativado, o corpo entra quase em modo de sobrevivência: tenta poupar energia. E, nesse estado, a disponibilidade emocional diminui. A pessoa chega ao fim do dia exausta e já não tem capacidade para ouvir, conversar, aproximar-se ou investir na relação. A comunicação passa a ser apenas funcional: “vais buscar os miúdos?”, “o que vamos jantar?”, “pagaste a conta?”, “amanhã tens reunião?”. O casal deixa de conversar como casal e passa a funcionar quase como uma equipa de gestão doméstica. Quando há filhos, isto torna-se ainda mais evidente. O subsistema parental é tão exigente que, muitas vezes, engole o subsistema conjugal. As pessoas continuam a ser pais, mas deixam de se encontrar como parceiros, como homem e mulher, como casal. Por isso, é essencial criar rituais de conexão. Momentos simples, mas intencionais, em que o casal se reencontra fora das tarefas, dos filhos e da rotina. Pode ser uma conversa sem telemóveis, um jantar, uma caminhada, uma saída a dois ou até pequenos gestos durante o dia. Também é importante abandonar a ideia de que o desejo, a intimidade e a ligação têm de surgir sempre de forma espontânea. Com o passar dos anos, e com o aumento das responsabilidades, a relação precisa de ser cuidada. Tal como combinamos encontros com amigos ou organizamos compromissos importantes, também o casal precisa de reservar espaço para si. Claro que isto exige rede de apoio, tempo e, muitas vezes, recursos. Mas sem esse investimento, a relação corre o risco de ficar reduzida à logística. E uma relação não sobrevive apenas de funcionalidade; precisa de presença, intimidade e cuidado. Porque é que o afastamento silencioso pode ser tão ou mais perigoso do que o conflito aberto? O silêncio pode ser muito perigoso numa relação, sobretudo quando deixa de ser apenas uma pausa e passa a ser uma forma de afastamento. Na abordagem sistémica, falamos muitas vezes da tendência dos sistemas para manterem a sua homeostase, ou seja, o seu equilíbrio habitual. Mesmo quando esse equilíbrio não é saudável, o sistema tende a repetir aquilo que conhece. Para que um casal evolua, precisa de capacidade de adaptação, de mudança, de flexibilidade. Mas muitos casais ficam presos aos mesmos ciclos: discutem da mesma forma, afastam-se da mesma forma, reconciliam-se da mesma forma, ou deixam de se reconciliar. John Gottman fala do “muro do silêncio” como um dos sinais mais preocupantes numa relação. Acontece quando uma pessoa deixa de responder, se fecha, se isola ou evita completamente o confronto. Às vezes, esse silêncio surge como defesa: a pessoa sente-se demasiado sobrecarregada e afasta-se para não explodir. Noutras situações, pode ser usado como forma de punição ou controlo, aquilo a que muitas pessoas chamam “tratamento de silêncio”. Mas há ainda uma terceira possibilidade, talvez a mais inquietante: quando o silêncio revela desistência. A pessoa já não discute porque já não acredita que valha a pena. Já não confronta porque está cansada. Já não tenta aproximar-se porque sente que nada muda. É por isso que o silêncio pode ser mais perigoso do que o conflito. Quando há conflito, por mais difícil que seja, ainda existe uma tentativa de comunicar, de dizer “isto importa-me”. Quando se instala a indiferença, a relação pode já estar num lugar de grande rutura emocional. O problema não é o silêncio em si. Todos precisamos de pausas. O problema é quando o silêncio se torna morada, quando substitui a escuta, o diálogo e a tentativa de reparação. Nessa altura, o casal já não está apenas zangado; pode estar emocionalmente afastado. Que ideias simplistas, ou até perigosas, sente que estão hoje a distorcer a forma como as pessoas olham para o amor e para a vida a dois? As redes sociais criaram uma espécie de “propaganda do amor”. Parece haver fórmulas para tudo: para ganhar dinheiro rapidamente, para ter sucesso, para ser uma mulher ou um marido ideal, para viver uma relação perfeita. Tudo surge apresentado de forma muito rápida, muito simplista e, muitas vezes, pouco realista. Ao mesmo tempo, conceitos importantes como “narcisismo”, “toxicidade” ou “red flags” passaram a ser usados de forma muito leviana. E isto é perigoso. Uma pessoa pode ter uma atitude mais egocêntrica num determinado momento e isso não significa que seja narcisista. Pode ter um comportamento menos adequado e isso não quer dizer que seja “tóxica”. Claro que existem relações tóxicas e claro que o narcisismo é uma perturbação séria, mas banalizar estes conceitos pode levar-nos a olhar para o outro com desconfiança permanente. Quando entramos numa relação em estado de hipervigilância, sempre à procura da próxima “red flag”, deixamos de estar verdadeiramente disponíveis para conhecer a pessoa. E conhecer é essencial. John Gottman fala dos “mapas do amor”: saber quem é o outro, o que sonha, o que teme, o que valoriza, que ideia tem de família, de futuro, de compromisso. Sem esse conhecimento, não há intimidade verdadeira. Também é importante desconstruir a ideia do amor romântico como algo mágico, intuitivo e perfeito. A fase da paixão é muito hormonal, apaixonamo-nos muitas vezes pela imagem que criamos do outro, mais do que pela pessoa real. O amor maduro começa quando essa fusão termina e conseguimos ver o outro como um ser inteiro, com qualidades, defeitos, limites e história própria. Amar não é adivinhar pensamentos, nem viver num conto de fadas. Amar é disponibilidade, tentativa, erro, construção e vontade de fazer dar certo. E os mapas do amor também mudam ao longo da vida. Aquilo que eu queria há dois anos pode já não ser o que quero hoje. Por isso, os casais precisam de continuar a conhecer-se, a conversar e a criar rituais de conexão ao longo do tempo. Nenhuma relação começa do zero. Cada pessoa traz consigo a família de origem, a forma como aprendeu a amar, a comunicar, a defender-se ou a fechar-se. Até que ponto esses padrões familiares e emocionais continuam a pesar nas relações adultas? Pesam muito. Nós aprendemos a amar, a comunicar, a gerir conflitos e a estar em relação dentro do meio onde crescemos. A isso chamamos transgeracionalidade. Há padrões, crenças e formas de funcionar que passam de geração em geração, muitas vezes sem que tenhamos consciência disso. Quando entramos numa relação adulta, levamos connosco aquilo a que chamamos lealdades invisíveis. São formas de pensar, sentir e agir que nos ligam à nossa família de origem. Às vezes repetimos exatamente aquilo que vimos. Outras vezes fazemos o oposto, mas com a mesma rigidez. E isso também pode ser uma forma de lealdade. Por exemplo, alguém que vem de uma família muito conservadora pode tornar-se aparentemente muito aberto e progressista, mas aplicar essa abertura com a mesma rigidez com que a família aplicava o conservadorismo. O conteúdo muda, mas a estrutura emocional mantém-se. A rigidez continua lá. O mesmo acontece na comunicação. Se uma pessoa cresceu numa família onde nunca se falava sobre problemas, pode sentir-se atacada quando o parceiro quer conversar sobre a relação. Para um, falar é cuidar. Para o outro, falar pode parecer confronto. E ambos podem estar a reagir a aprendizagens antigas, não apenas ao que está a acontecer naquele momento. É por isso que a consciência é tão importante. Quando percebemos de onde vêm os nossos padrões, podemos escolher se queremos repeti-los, transformá-los ou criar um meio-termo mais saudável. Diferenciar-nos da família não significa afastarmo-nos dela. Significa podermos ser nós próprios, com autonomia emocional, sem deixar necessariamente de manter proximidade e vínculo. Nas relações adultas, o desafio é esse: perceber que cada pessoa chega com uma história, com lealdades, medos, modelos e defesas. Quanto mais consciência houver sobre isso, mais fácil se torna construir uma relação que não seja apenas a repetição automática do passado. Nas famílias e nos casais, nem todos os conflitos nascem apenas entre duas pessoas. Há também sogros, ex-parceiros, lealdades antigas, fronteiras frágeis e interferências externas. Até que ponto a dificuldade em definir limites continua a estar na origem de muito sofrimento relacional? A dificuldade em definir limites está muitas vezes no centro do sofrimento dos casais. Quando duas pessoas formam uma relação, continuam a ser filhos, irmãos, pais ou membros de uma família de origem, mas passam também a construir um novo sistema: o casal. E esse sistema precisa de espaço, autonomia e fronteiras próprias. O problema surge quando essas fronteiras não estão claras. Há famílias que têm dificuldade em aceitar que o filho ou a filha agora também pertence a um novo núcleo. E há casais que, por culpa, medo ou lealdade à família de origem, não conseguem fazer esse processo de diferenciação. Diferenciar-se não é cortar relações. É conseguir dizer: “Continuo a pertencer à minha família, mas agora há decisões, intimidade e prioridades que pertencem ao casal.” Também pode acontecer aquilo a que chamamos triangulação. Quando existe tensão entre duas pessoas, essa tensão é deslocada para um terceiro elemento, um filho, um sogro, um ex-parceiro, um amigo, a família alargada. Em vez de o casal olhar diretamente para o conflito, concentra-se nessa terceira pessoa ou nessa questão externa. Isso alivia temporariamente a tensão, mas não resolve o problema de base. Com os filhos, esta dinâmica é muito frequente. Quando o subsistema parental engole o subsistema conjugal, o casal deixa de se encontrar como casal e passa a funcionar apenas como pai e mãe. A parentalidade é exigente, naturalmente, mas se não houver rituais de conexão e estratégias de manutenção da relação, tudo passa a girar em torno dos filhos. Outro conceito importante é o coping diádico, ou seja, a forma como o casal enfrenta em conjunto os fatores de stress externos. Quando há apoio mútuo, comunicação e espírito de equipa, o casal consegue lidar melhor com a pressão da vida: filhos, trabalho, família, problemas financeiros, doença, cansaço. Quando não há essa parceria, cada dificuldade externa torna-se mais uma ameaça à relação. Por isso, os limites não servem para afastar pessoas. Servem para proteger vínculos. Um casal saudável não é aquele que vive isolado do mundo, mas aquele que sabe relacionar-se com o mundo sem perder o seu centro. Há relações marcadas por feridas profundas, traições, quebras de confiança ou anos de ressentimento acumulado. Na sua experiência clínica, o que torna possível a reparação do vínculo? Quando existe uma ferida profunda, uma traição ou uma quebra de confiança, a relação nunca volta exatamente ao que era. E talvez essa seja uma das primeiras ideias importantes: reparar não significa regressar ao passado. Significa construir uma nova narrativa. No caso de uma infidelidade, por exemplo, é necessário haver responsabilidade, verdade e disponibilidade para atravessar um processo de luto. A pessoa traída precisa de elaborar a dor da quebra de confiança. A pessoa que traiu precisa de assumir a sua responsabilidade e, se o casal decide tentar reconstruir, a situação de traição tem de pertencer ao passado. A terapia de casal pode ajudar muito, mas há um ingrediente essencial, ambos têm de querer entrar no processo. Se uma pessoa quer trabalhar a relação e a outra não está disponível, torna-se muito difícil avançar. A terapia não existe para obrigar um casal a ficar junto; existe para ajudar duas pessoas a compreenderem o que aconteceu, a tomarem decisões mais conscientes e, se fizer sentido, a reconstruírem o vínculo. Também é importante perceber quais eram, ou quais passam a ser, os limites da relação. Muitas vezes, os casais nunca conversaram verdadeiramente sobre o contrato relacional: o que é fidelidade, o que é traição, que limites existem, o que cada um espera da relação. Parte-se do princípio de que todos entendem o compromisso da mesma forma, mas nem sempre isso acontece. Depois de uma traição, pode haver casais que escolhem continuar juntos, outros que escolhem separar-se, outros que redefinem as regras da relação. O essencial é que essa decisão seja livre, consciente e equilibrada. Não pode haver manipulação, medo ou desigualdade de poder. E se há perdão, esse perdão também precisa de ser verdadeiro. Perdoar não pode transformar-se numa arma para controlar o outro para sempre. Se a pessoa decide continuar, mas passa anos a usar a traição como forma de punição, a relação não está reparada; está presa à ferida. Reconstruir exige compromisso, honestidade, tempo e capacidade de criar algo novo. Às vezes, esse novo caminho é a continuidade da relação. Outras vezes, é uma separação mais consciente e respeitosa. A reparação nem sempre significa ficar. Pode significar compreender, fechar um ciclo e seguir de forma mais inteira. Em contexto de separação ou divórcio, continua a ser difícil para muitos adultos distinguir conjugalidade de parentalidade. Porque é que a coparentalidade saudável continua a ser um dos maiores desafios depois do fim de uma relação? Depois do fim de uma relação, o casal deixa de existir enquanto sistema conjugal, mas continua a existir enquanto sistema parental. E essa passagem nem sempre é simples. Muitas vezes, há um luto que ainda não foi feito, mágoas por resolver, ressentimentos acumulados e uma dificuldade em aceitar que aquela relação terminou enquanto casal, mas não terminou enquanto pais. A coparentalidade saudável exige precisamente essa separação: compreender que já não há uma vida conjugal em comum, mas continua a existir uma responsabilidade partilhada em relação aos filhos. E essa responsabilidade deve ter sempre como princípio o superior interesse da criança. O superior interesse da criança passa por ela não ter de escolher lados. Passa por poder estar com o pai e com a mãe sem culpa, sem sentir que trai um quando está com o outro, sem ser colocada no centro de conflitos que pertencem aos adultos. Quando os pais usam os filhos para magoar o outro, chamar a atenção ou manter uma forma de ligação através do conflito, quem sofre verdadeiramente é a criança. Os filhos, sobretudo quando são pequenos, querem essencialmente sentir que os pais estão bem. Podem desejar que os pais fiquem juntos, naturalmente, mas também conseguem adaptar-se a uma separação quando percebem que há segurança, estabilidade e respeito. O que os desorganiza não é apenas a separação; é a guerra, a tensão permanente, a culpa e a sensação de terem de tomar partido. Por isso, a coparentalidade é um enorme desafio emocional. Obriga os adultos a colocarem a dor da relação num lugar diferente da parentalidade. Obriga-os a perceber que, mesmo quando a relação amorosa acabou, a forma como continuam a relacionar-se enquanto pais vai influenciar profundamente a maneira como os filhos crescem, se vinculam e, mais tarde, constroem as suas próprias relações. Ainda há quem veja a terapia de casal ou familiar como um último recurso, quase uma tentativa desesperada quando tudo já parece perdido. Que sinais devem levar um casal ou uma família a pedir ajuda mais cedo e o que pode ainda ser reconstruído quando esse pedido chega a tempo? A terapia não deve ser vista apenas como uma última tentativa quando a relação já está muito desgastada. Pelo contrário, pode ser uma ferramenta de prevenção, de clareza e de reconstrução antes de certos padrões ficarem demasiado cristalizados. Há sinais importantes a que os casais devem estar atentos. Quando deixam de existir rituais de conexão, quando o casal já não cria pequenos momentos de proximidade, quando a comunicação se torna apenas funcional ou quando as discussões repetem sempre o mesmo ciclo, é importante pedir ajuda. O mesmo acontece quando há um padrão de aproximação e afastamento, quando um confronta e o outro se fecha, ou quando surge o “muro do silêncio”, a crítica, o desprezo, a defensividade e o afastamento emocional começam a ocupar demasiado espaço na relação. Muitas vezes, os problemas começam de forma subtil. Uma pequena distância, uma conversa evitada, um hábito que se repete, uma mágoa que não é reparada. Com o tempo, esses comportamentos vão-se cristalizando. É como uma massa de bolo: enquanto está maleável, ainda pode ganhar várias formas; depois de ir ao forno, torna-se muito mais difícil transformá-la. Nas relações acontece algo semelhante. Quanto mais cedo se intervém, mais possibilidades existem de mudar a forma como o casal comunica, reage e se aproxima. Mas mesmo quando o pedido chega tarde, a terapia pode continuar a ser importante. Desde que exista vontade de compreender, melhorar e fazer um processo, há sempre algo que pode ser trabalhado. A terapia não é milagrosa, nem decide pelo casal. Ajuda, sim, a tornar visíveis os ciclos que as pessoas muitas vezes não conseguem identificar sozinhas. Quando o casal compreende o que está por trás das suas reações, as lealdades invisíveis, os medos, os padrões familiares, as necessidades emocionais e os mapas do amor de cada um, torna-se mais fácil desenvolver empatia e criar novas formas de relação. A terapia oferece conhecimento, mas também humaniza o conflito. Mostra que, muitas vezes, por trás da crítica, do silêncio ou da distância, há dor, medo e necessidade de ligação. Por isso, pedir ajuda não deve ser visto como sinal de fracasso. Pode ser precisamente o contrário: um sinal de responsabilidade, maturidade e vontade de cuidar da relação antes que a distância se torne irreversível. Instagram: @drajoanapinhocruz Chefs, street food, uma app com IA que nos guia pelo copo e mais de 200 cervejas artesanais: o HOPEN está de regresso a Braga “O rosto não é um filtro. Não se redesenha como quem edita uma imagem num ecrã”
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