Osteopatia “Num país onde mais de metade da população vive com dor e stress crónico, cresce a urgência de respostas que olhem para a saúde além do sintoma” By Revista Spot | Dezembro 3, 2025 Dezembro 5, 2025 Share Tweet Share Pin Email Portugal convive hoje com um dado difícil de ignorar: a maioria da população vive entre dores músculo-esqueléticas persistentes e níveis de stress que já se aproximam de um problema de saúde pública. Perante este cenário, cresce a convicção de que o modelo biomédico tradicional já não responde sozinho aos desafios do quotidiano. É neste ponto de viragem que a Osteopatia ganha novo fôlego e regressa ao debate sobre saúde funcional com outra legitimidade. Marília Sequeira, osteopata e fundadora da AMAS – Saúde Integral e Osteopatia, integra esta geração que reivindica método, evidência e leitura integrada do corpo. Fala de padrões, de cadeias de movimento, de relações que escapam ao olhar apressado. E recusa o automatismo clínico do “tratar onde dói”, apontando a prevenção como eixo estruturante de qualquer estratégia de saúde. Numa altura em que a profissão se regulamenta, se organiza e avança no ensino superior, ouvimo-la para perceber o que mudou e o que ainda falta consolidar para que a Osteopatia ocupe o lugar que a evidência e a prática começam, finalmente, a justificar. Foi a sua paixão pela visão integrativa da saúde que a levou a escolher a Osteopatia? A Osteopatia fascinou-me desde criança. Na minha família, era frequente recorrermos ao osteopata para aliviar queixas do dia a dia, de uma dor muscular a uma entorse, e eu ficava sempre maravilhada com a ideia de que, através das mãos, fosse possível identificar disfunções e devolver mobilidade ao corpo. Como é que algumas manobras eram capazes de corrigir articulações e transformar a forma como alguém se sentia? Com o tempo, percebi que era precisamente esta abordagem global que mais me apaixonava. Gosto de avaliar a pessoa como um todo, de compreender as interações, físicas, emocionais e funcionais, que podem coexistir num mesmo quadro clínico. Só assim consigo ser verdadeiramente eficaz perante as queixas que me são trazidas. A identidade da Clínica AMAS – Saúde Integral e Osteopatia nasceu dessa vontade de ver a pessoa como um todo? Sem dúvida. O próprio nome da clínica traduz essa filosofia: AMAS evoca o amor pela saúde, pelo corpo e pela pessoa na sua totalidade. No quotidiano, esta visão integral está presente em cada etapa do processo terapêutico. Começa na escuta cuidadosa durante a anamnese, prolonga-se no tempo dedicado à avaliação e concretiza-se num tratamento orientado para a causa real da dor, e não apenas para o alívio imediato do sintoma. Acredito profundamente que o corpo comunica através dos sintomas e que, quando é tratado com respeito, presença e conhecimento, encontra naturalmente o seu equilíbrio. É esta forma de estar, atenta, próxima e integral, que define a AMAS e molda tudo o que fazemos enquanto equipa e enquanto clínica. Em que consiste a missão da AIO – Associação Independente de Osteopatia e qual o seu papel na associação? A AIO nasce do compromisso conjunto de profissionais e estudantes de Osteopatia, bem como de todas as pessoas que acreditam no valor desta área da saúde. É uma comunidade coesa, movida por um propósito comum: fortalecer a profissão, impulsionar o seu desenvolvimento e melhorar as condições de quem a exerce. Para isso, trabalha na criação de oportunidades, no estabelecimento de parcerias estratégicas e na participação ativa na construção do futuro da Osteopatia em Portugal. Um dos projetos de maior impacto que coordenamos é o FIOST, Fórum Internacional de Osteopatia, cujo último evento teve lugar na minha terra natal, Vila do Conde. Foi uma oportunidade extraordinária, tanto a nível pessoal como profissional. Conseguimos organizar um encontro exigente e abrangente, com palestras de especialistas reconhecidos, workshops práticos e um ambiente que favoreceu a partilha de conhecimento e o fortalecimento da nossa rede profissional. Que padrões encontra com mais frequência em consulta e como é que a Osteopatia pode ajudar o corpo a sair do estado de alerta crónico? Um dos padrões mais comuns em consulta é a clássica tensão nos trapézios, aquela “pressão nos ombros” muitas vezes associada ao trabalho sedentário, às longas horas frente ao computador ou ao stress acumulado, seja no trânsito, no ritmo diário ou em situações de maior exigência emocional. A abordagem osteopática começa por normalizar o tónus muscular e corrigir as disfunções associadas, seguindo-se o trabalho postural. No final de cada sessão, costumo deixar sempre alguns “trabalhos de casa”: exercícios simples que ajudam a prevenir recidivas e a promover uma autonomia saudável no dia a dia. No que diz respeito ao stress propriamente dito, existem técnicas especialmente eficazes, como as técnicas sacro-cranianas, que ajudam a regular o sistema nervoso, promovendo relaxamento físico, emocional e um profundo bem-estar. São ferramentas valiosas para ajudar o corpo a sair desse estado de alerta crónico e a reencontrar o seu equilíbrio natural. “Uma instabilidade no tornozelo pode, a médio ou longo prazo, manifestar-se como lombalgia” De que forma um desequilíbrio localizado, seja numa articulação, num padrão de marcha ou até na forma como respiramos, pode influenciar outras áreas do corpo e gerar sintomas à distância? O corpo funciona como uma unidade integrada, e é por isso que muitas vezes encontramos sintomas em zonas aparentemente distantes da origem do problema. Quando surge uma disfunção, por exemplo, uma entorse do tornozelo, o corpo adapta-se para continuar a funcionar, recorrendo a mecanismos de compensação. Essas compensações, quando prolongadas no tempo, podem alterar cadeias musculares e fasciais, modificar a postura e, inevitavelmente, criar novas zonas de sobrecarga. Assim, algo tão simples como uma instabilidade no tornozelo pode, a médio ou longo prazo, manifestar-se como lombalgia; e essa lombalgia pode mais tarde evoluir para cervicalgia ou cefaleias. Quando aparece a dor, significa que o corpo já esgotou a sua capacidade de compensar. Daí a importância do diagnóstico osteopático, que implica uma avaliação minuciosa dos sinais, sintomas e padrões de mobilidade, recorrendo à palpação, testes específicos e à leitura global da postura. Só assim é possível identificar a verdadeira causa e não apenas o local onde a dor se manifesta. Como se traduz essa “unidade do corpo” no diagnóstico e na prática clínica? A ideia de unidade significa que todas as estruturas e sistemas, músculo-esquelético, fascial, visceral, circulatório e até emocional, estão interligados e se influenciam mutuamente. Essa visão integrada começa logo na anamnese: não observamos apenas a zona dolorosa, mas a pessoa em movimento, a sua postura, hábitos, história clínica e a forma como respira e reage. Na consulta, avaliamos como cada tecido responde: músculos que não relaxam, fáscias que perdem deslizamento, articulações restritas, vísceras que influenciam a mobilidade global. Muitas vezes, a origem da tensão não está onde dói, mas numa disfunção noutra região que alterou o equilíbrio do corpo. Quando entendemos o corpo como uma unidade, deixamos de tratar “peças isoladas” e passamos a tratar a pessoa como um sistema integrado, promovendo recuperação, funcionalidade e uma saúde mais profunda e duradoura. O nervo vago é hoje um dos grandes protagonistas da regulação do stress e do bem-estar. De que forma o trabalho osteopático pode estimular este nervo e ajudar o corpo a recuperar equilíbrio, digestão e um estado de maior tranquilidade? A Osteopatia dispõe de abordagens muito eficazes na regulação do sistema nervoso autónomo, sobretudo através das técnicas sacro-cranianas. São técnicas suaves, confortáveis para o paciente e altamente moduladoras. Trabalham sobretudo a mobilidade craniana e sacral, áreas-chave na transmissão de estímulos que influenciam o tónus do sistema simpático e parassimpático. Ao restabelecer esse equilíbrio, o corpo entra num estado de maior segurança fisiológica: a tensão muscular começa a diminuir, o ritmo respiratório torna-se mais fluido e o sistema digestivo, amplamente inervado pelo nervo vago, beneficia de forma muito evidente. Melhorias como redução da ansiedade, da sensação de aperto torácico ou de desconfortos gastrointestinais são resultados muito frequentes. É como se o corpo recebesse permissão para sair do modo de alerta e regressar ao seu estado natural de autorregulação. Nos últimos anos, a articulação temporomandibular tornou-se um dos grandes “barómetros” do stress contemporâneo. Como é que a Osteopatia aborda estas disfunções e de que forma se articula com a Medicina Dentária? A Osteopatia desempenha um papel central na recuperação da articulação temporomandibular (ATM), porque não se limita a tratar a articulação em si, trabalha todo o contexto funcional que a influencia. Isso inclui os músculos mastigatórios, a cervical, as tensões cranianas e até alterações posturais que, muitas vezes, mantêm o padrão de sobrecarga. Como cada pessoa expressa o stress de forma diferente, os sintomas variam muito: dor orofacial, cefaleias, zumbidos, dificuldade em abrir a boca ou mesmo sensação de bloqueio. Por isso, é essencial uma avaliação abrangente que permita identificar todas as peças do puzzle. A colaboração com os dentistas é fundamental. Hoje, muitos profissionais de Medicina Dentária reconhecem o impacto das disfunções musculoesqueléticas na ATM e encaminham os seus pacientes para Osteopatia, sobretudo quando há indicação de goteiras, aparelhos ou quando persistem cefaleias e dores associadas. É uma parceria que funciona muito bem, porque junta duas abordagens complementares e orientadas para o mesmo objetivo: restaurar função, conforto e qualidade de vida. “Melhorias como redução da ansiedade, da sensação de aperto torácico ou de desconfortos gastrointestinais são resultados muito frequentes” O movimento dos órgãos e vísceras é invisível aos olhos, mas não ao tato clínico. Como é que a Osteopatia Visceral interpreta estas mobilidades subtis e de que forma a sua disfunção pode influenciar dor, postura e até a qualidade do sono? A Osteopatia Visceral dedica-se a avaliar dois aspetos fundamentais: a mobilidade dos órgãos e vísceras em relação às estruturas vizinhas e a sua motilidade. Quando estes movimentos se encontram restritos, por tensão fascial, cicatrizes, inflamação ou padrões de stress, o corpo adapta-se, alterando a postura e criando zonas de sobrecarga. É por isso que um desequilíbrio num órgão pode manifestar-se como dor musculoesquelética. Um exemplo clássico é a alteração da mobilidade do rim, que pode originar lombalgias atípicas irradiadas para a coxa ou joelho, muitas vezes acompanhadas de despertares noturnos entre as 5h e as 7h. Ao restaurar a mobilidade visceral, o corpo reorganiza-se: melhora a postura, reduz-se a dor e o sistema nervoso entra num estado mais regulado, permitindo um descanso mais profundo e funcionalidade global. Hoje fala-se cada vez mais numa abordagem integrada da saúde. De que forma a Osteopatia se articula com áreas como a medicina regenerativa, a fisioterapia ativa e o movimento consciente, criando um percurso terapêutico mais completo? O futuro da saúde passa claramente por abordagens interdisciplinares. A medicina e a semiologia oferecem a base diagnóstica e científica; a Osteopatia contribui com o reequilíbrio funcional do corpo, atuando sobre mobilidade, postura, respiração e regulação do sistema nervoso; a fisioterapia acrescenta o componente de reabilitação ativa e de educação para o movimento; e práticas de movimento consciente ajudam a integrar e manter os ganhos terapêuticos no quotidiano. Quando estas áreas trabalham em sinergia, o impacto é muito mais profundo: acelera-se a recuperação, melhora-se a funcionalidade e, sobretudo, promove-se a prevenção. Só uma abordagem conjunta permite compreender o paciente na sua totalidade, otimizar o diagnóstico e criar hábitos de saúde que perdurem no tempo. É, sem dúvida, a direção certa para uma medicina mais completa, humana e eficaz. O trabalho sedentário tornou-se uma realidade transversal. Que estratégias simples, mas eficazes, podem ajudar a reduzir o impacto destas longas horas no bem-estar músculo-esquelético? Os números falam por si: cerca de 59% da população identifica as queixas ósseas, articulares ou musculares como os problemas laborais mais significativos, e quase 80% dos trabalhadores refere estar exposto diariamente a fatores que afetam a sua saúde física. Isto evidencia a necessidade de as empresas adotarem planos estruturados de prevenção, integrando pausas ativas, pequenos exercícios ao longo do dia e melhorias ergonómicas no posto de trabalho. Contudo, a responsabilidade é partilhada. Cabe também ao trabalhador cultivar hábitos como atividade física regular, maior consciência postural e recorrer a Osteopatia quando surgem os primeiros sinais de tensão. São ações simples que ajudam a manter um corpo mais desperto, resiliente e adaptado ao movimento. Numa rotina acelerada, muitos ignoram os pequenos alertas do corpo. O que significa, na prática, desenvolver esta capacidade de escuta e agir antes da dor se instalar? Desenvolver literacia corporal é, acima de tudo, aprender a reconhecer sinais subtis: rigidez matinal, desconfortos repetidos, fadiga muscular ou alterações de padrão que se tornam frequentes. Quando estes sinais são ignorados, o corpo acaba por se expressar através de dor mais intensa e é muitas vezes nesse ponto avançado que as pessoas procuram ajuda. Para mim, a verdadeira prática de autocuidado está na prevenção: procurar um profissional quando surgem os primeiros sintomas, permitindo identificar desequilíbrios antes de evoluírem para quadros dolorosos ou patológicos. É uma atitude proativa, que promove saúde em vez de apenas reagir à doença. “O passo que considero mais importante para o futuro seria a integração da Osteopatia no Serviço Nacional de Saúde” Com a integração da Osteopatia no ensino superior e a crescente procura por cuidados mais integrados, que passos considera essenciais para consolidar o reconhecimento da Osteopatia na sociedade e no sistema de saúde? A regulamentação da Osteopatia representou um marco fundamental na evolução da profissão. A sua presença no ensino superior veio reforçar a qualidade formativa e abrir portas à investigação científica, algo determinante para aprofundar a evidência e consolidar o conhecimento nesta área. Hoje, todos os profissionais são obrigados a possuir cédula profissional, o que transmite ao paciente uma segurança muito maior na escolha de quem o acompanha. Este enquadramento formal elevou o padrão de prática e contribuiu para a credibilização da Osteopatia na sociedade. Vivemos um momento muito positivo: cada vez mais pessoas recorrem à Osteopatia, não apenas para tratar dor, mas para melhorar funcionalidade, prevenir lesões e cuidar da saúde de forma global. O passo que considero mais importante para o futuro seria a integração da Osteopatia no Serviço Nacional de Saúde, permitindo que um número muito mais alargado de pessoas tenha acesso a esta abordagem complementar e altamente eficaz. Essa integração seria um avanço significativo na promoção de uma saúde mais preventiva, multidisciplinar e centrada na pessoa. Morada: Rua Padre Hermínio Ferreira Soares, 45 Retorta Contacto: 914 026 855 (chamada para a rede móvel nacional) Facebook: AMAS Saúde Integral e Osteopatia Instagram: @ mariliasequeira_osteo “Estamos perante uma geração de mães mais informadas, mas também mais pressionadas a fazer tudo bem” Das rabanadas lendárias às receitas secretas de Bacalhau, o Natal do D. Frango tornou-se memória coletiva
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