Psicologia/Saúde Infantil “Num mundo que exige pais perfeitos, o que realmente constrói vínculos seguros é a presença consistente, o abraço que permanece depois da birra” By Revista Spot | Setembro 29, 2025 Setembro 29, 2025 Share Tweet Share Pin Email A parentalidade consciente convida-nos a olhar para além dos manuais e das redes sociais, lembrando-nos que criar um filho é também um processo de autoconhecimento. Rita Fernandes Cruz, psicóloga especializada em gravidez, pós-parto e saúde materno-infantil, acredita que o maior desafio não é apenas aprender a cuidar de um bebé, mas reaprender a cuidar de nós mesmos enquanto adultos. Num mundo que exige pais perfeitos, a psicóloga lembra que a perfeição é uma armadilha: o que constrói vínculos seguros não é a ausência de falhas, mas a presença consistente, o abraço que fica depois da birra, a escuta sem julgamento. Cada choro é uma mensagem, cada silêncio, um pedido escondido. A psicologia materno-infantil não serve apenas para tratar feridas, mas para prevenir ruturas, quebrar ciclos de culpa e dar espaço à autenticidade. Afinal, educar não é moldar crianças, é permitir que cresçam a sentirem-se vistas, respeitadas e profundamente amadas. Como surgiu o seu interesse pela Psicologia e, em particular, pela área da Saúde Materno-Infantil? Desde cedo percebi que tinha interesses bastante diversificados e, por isso, nunca fui aquela aluna que dizia com convicção o que queria ser quando crescesse. No entanto, sempre tive a certeza de que gostaria de trabalhar com pessoas e que a infância me despertava uma curiosidade especial. O contacto com uma grande amiga, que já estudava nesta área, acabou por ser decisivo. Ela partilhava comigo as suas aprendizagens e falava com tanto entusiasmo que me senti motivada a explorar esse caminho. Ao ler alguns dos seus apontamentos, percebi que tudo fazia sentido para mim e pensei: “porque não?”. Foi esse primeiro passo que me abriu a porta para uma área onde hoje me sinto realizada. O interesse pela saúde materno-infantil surgiu mais tarde, em 2016, com o convite para colaborar numa associação que acompanha mulheres grávidas e bebés em situação de vulnerabilidade. Em 2020 fui mãe pela primeira vez e, em 2022, despedi-me para poder conciliar melhor a vida profissional com o acompanhamento dos meus três filhos. A gravidez é muitas vezes idealizada como um período mágico, mas nem sempre é vivida dessa forma. Quais são, na sua experiência, os desafios emocionais mais comuns que as mulheres enfrentam durante esta fase? A gravidez pode, para algumas mulheres, ser uma das fases mais bonitas da vida, mas, para outras, transformar-se num período desafiante e até angustiante. Ser mãe hoje é muito diferente do que era há 50 anos. Os pais estão cada vez mais informados, mas, ao mesmo tempo, parecem também estar mais pressionados. Essa pressão começa muitas vezes dentro da própria família ou do círculo de amigos, o que pode gerar sentimentos de culpa quando a experiência não corresponde às expectativas. A isto somam-se as preocupações profissionais e financeiras. Em pleno 2025, continuamos a discutir a importância de prolongar as licenças parentais e sabemos bem o risco que algumas mulheres enfrentam: perder o emprego, ver a progressão na carreira travada ou sentir que precisam de escolher entre a maternidade e o desenvolvimento profissional. Há ainda as dúvidas constantes sobre o bebé. Basta abrir o Instagram para encontrar centenas de teorias diferentes sobre cada tema, o que pode ser fonte de ainda mais insegurança. O que observo em consulta é que muitas grávidas acabam por se sentir tão incompreendidas que, pouco a pouco, se isolam e esse isolamento acaba por intensificar o sofrimento. Por isso considero essencial criar espaços de partilha e apoio, onde as mulheres possam sentir-se ouvidas, acolhidas e seguras para falar sobre as suas dúvidas e emoções, sem julgamentos. De que forma o apoio psicológico pode ajudar os casais a lidar com as mudanças na dinâmica do relacionamento após a chegada de um filho? No livro Sete Casais em Terapia, Luana Cunha Ferreira escreve: “Costumo dizer que cada casal é um planeta e, nesse sentido, a primeira criança é um asteroide, de proporções massivas, que facilmente resulta na extinção do casal.” O nascimento de um filho é uma experiência transformadora, mas também extremamente exigente. O que observo é que muitos casais chegam a esta fase com expectativas pouco ajustadas. É comum ouvir relatos de quem acredita que, durante a licença parental, vai conseguir ler vários livros ou até organizar a garagem. Quando percebem que não conseguem concretizar esses planos, porque um bebé exige presença quase 24 horas por dia, sentem frustração e até revolta. As exigências são muitas: privação de sono, sobrecarga de cuidados, mudanças profundas na rotina e menos tempo de qualidade a dois. A tudo isto somam-se as dificuldades de comunicação. Por vezes, o casal deixa de partilhar o que sente ou precisa, seja por medo de sobrecarregar o outro, por vergonha ou pela ideia de que o parceiro “já devia saber”. É precisamente aqui que a terapia pode ser tão valiosa. Funciona como um espaço seguro, onde o casal pode explorar expectativas, negociar responsabilidades de forma mais equilibrada e, sobretudo, aprender a comunicar de maneira mais clara e empática. O objetivo não é apenas lidar com os desafios, mas fortalecer a relação e criar bases mais sólidas para viver esta nova etapa em conjunto. Ainda persiste a ideia de que o apoio psicológico serve apenas para “resolver problemas”. Na verdade, pode ter um papel essencial na preparação e adaptação dos casais à chegada de um bebé. A saúde mental materna tem impacto direto na vinculação com o bebé. O que pode comprometer essa ligação e como trabalhá-la em tempo útil? A saúde mental da mãe influencia de forma direta a forma como se liga ao bebé. Como explica Gabor Maté, o desenvolvimento emocional da criança depende muito mais da presença e da responsividade do adulto do que apenas dos cuidados físicos. Quando a mãe se encontra ansiosa, deprimida ou sobrecarregada, torna-se mais difícil oferecer essa presença emocional contínua. Gordon Neufeld reforça que a vinculação não acontece de forma automática: constrói-se diariamente, à medida que o adulto responde com atenção e sensibilidade às necessidades do bebé. Se a mãe se sente isolada, exausta ou com receio de mostrar fragilidade, essa ligação pode enfraquecer, originando um apego inseguro. Tal pode ter consequências imediatas na forma como o bebé se relaciona com os cuidadores e reage ao mundo que o rodeia. Muitas destas dificuldades podem também resultar de partos traumáticos ou de situações complexas, como lutos ou problemas de saúde do bebé. Por isso, é essencial que a mãe esteja rodeada de pessoas atentas e informadas, capazes de sinalizar uma eventual crise e encaminhá-la para profissionais especializados. Quanto mais cedo se atua sobre os sinais de sofrimento materno, maior a possibilidade de reparar e fortalecer essa ligação. Quanto mais segura e apoiada a mãe se sentir, mais disponível estará para o bebé, garantindo uma base emocional sólida que fará toda a diferença no desenvolvimento da criança. A culpa e a ansiedade são sentimentos muito presentes na parentalidade. Como evitar cair na armadilha da parentalidade perfeita? Culpa e maternidade andam quase sempre de mãos dadas. É comum ouvir mães dizerem que sentem que nada do que fazem é suficiente. Muitas vezes estão exaustas: trabalham oito horas por dia, enfrentam uma lista interminável de tarefas domésticas e, ainda assim, espera-se que cheguem ao fim do dia com energia para dar cambalhotas e brincar às lojas. O que exigimos das famílias é mil vezes mais do que aquilo que os super-heróis dos desenhos animados conseguiriam fazer. E, por isso, é evidente que, sem cuidar da saúde, é impossível não manifestar sintomas de ansiedade. Laura Sanches refere, num dos seus livros, que a culpa pode ser uma bússola. Se a soubermos usar, pode tornar-se uma aliada. Vamos errar, falhar, fazer coisas menos boas, é inevitável. Somos humanos, com limitações. Mas, se sentirmos culpa (em níveis adequados), podemos reparar, pedir desculpa e corrigir. E isso é fundamental para construir relações saudáveis. Qual o impacto da parentalidade consciente na construção da autoestima e da autonomia da criança? A parentalidade consciente fala-nos muito mais sobre o adulto do que sobre a criança. O que fragiliza a autoestima e a autonomia das crianças são, muitas vezes, comportamentos imaturos por parte dos pais. Quando os pais não são capazes de reconhecer as necessidades emocionais da criança, criam estilos de apego inseguros, seja por se mostrarem emocionalmente instáveis e proporcionarem ambientes imprevisíveis, seja por estarem emocionalmente desconectados dos filhos. Nessas circunstâncias, as crianças tendem a reprimir e a bloquear os sentimentos para evitar dor e rejeição. Isto não contribui para a construção de uma autoestima saudável. Diria que o mais importante é, desde cedo, estarmos verdadeiramente conectados à criança e fazê-la sentir-se respeitada e vista nas coisas mais simples do dia a dia. Se os meus pais me amam, está tudo certo! O burnout parental é um tema cada vez mais falado. Como podemos reconhecê-lo e preveni-lo? Na parentalidade, é natural sentirmos cansaço e falta de energia. Temos crianças dependentes de nós 24 horas por dia, 7 dias por semana, cheias de energia. E, ainda por cima, somos as pessoas preferidas delas. Não há pausas. Quando estamos com os miúdos… estamos! E isso é maravilhoso, mas também pode ser exigente. A tudo isto juntam-se ainda inúmeras preocupações e tarefas invisíveis, que podem tornar o dia a dia das famílias particularmente pesado Alguns fatores que podem potenciar o burnout parental são o desequilíbrio entre a vida familiar e profissional, a cultura da culpa de que falámos anteriormente e a sobrecarga de tarefas. Tudo isto pode resultar em sintomas como exaustão física e mental, irritabilidade e intolerância, ansiedade, perda de interesse em atividades que antes suscitavam motivação, problemas de sono e até distanciamento ou desapego emocional em relação à criança. Se estes sintomas persistirem, é fundamental procurar ajuda especializada. E como podemos prevenir? Durante a gravidez oferecemos presentes caríssimos e investimos em material de puericultura dispendioso, muitas vezes inútil. Talvez fosse mais útil aprendermos a ser melhores colegas de trabalho, tolerando que uma mãe ou um pai produzam menos quando estão mais cansados; ouvirmos mais as mães e opinarmos menos; oferecermos tempo para ajudar nas tarefas domésticas, permitindo que os pais brinquem mais com os filhos. E porque não oferecer consultas de psicologia? O que é a regulação emocional e como podemos ensiná-la aos nossos filhos desde pequenos? Se esta entrevista servir para que as pessoas compreendam que uma birra não é uma escolha da criança, sinto que o meu dia está ganho. A área do cérebro responsável pelo controlo dos impulsos começa a desenvolver-se por volta dos 3/4 anos e só fica concluída por volta dos 25. Nós focamo-nos tanto nas birras das crianças, mas é tão frequente vermos adultos aos gritos no trânsito ou nas filas do supermercado e já passaram bem dos 25 anos! As “birras” são manifestações (intensas) de necessidades: insegurança, insatisfação, fome, sono, novidade. São expressões de frustração e de emoções que a criança ainda não é capaz de regular ou controlar. Não são comportamentos manipulativos, “lutas contra o sono” ou tentativas de confronto com o adulto. Esperamos, muitas vezes, que as crianças se comportem como mini-adultos: que cumpram protocolos, passem horas sentadas, em silêncio, sem “incomodar”. E isso é dramático. Uma criança pequena não se regula sozinha. Sempre que insistimos em frases como “se chorares não gosto de ti” ou “pára já de chorar”, só lhes ensinamos que as suas emoções não importam e que as suas necessidades não interessam. Quantos adultos conhecem que colocam sempre os outros à frente, que não conseguem dizer que não e que sofrem com isso? Não há nada de “especial” para ensinar. Quando uma criança faz uma birra, o que precisamos é de compreender e acolher. Acreditem: são bem mais dolorosas para elas do que para nós. O que podemos ensinar é que não se bate e não se usam palavras feias, mas isso só pode acontecer depois da birra passar. O que fazer quando uma criança tem uma birra ou um ataque de raiva? Abraçar. Ajudar a criança a respirar com mais calma. Dizer-lhe que não vamos sair de perto dela e que a amamos, mesmo quando faz coisas menos boas. Mas, para isso, os adultos precisam de estar regulados emocionalmente. É importante acalmarem-se, respirarem fundo e ignorarem o olhar reprovador das pessoas em redor. Acolham a criança e, quando os “trovões” passarem, conversem sobre o comportamento (se a criança já tiver maturidade para tal). Instagram: @rita.fernandes.cruz.psicologia “Do consultório ao ginásio, a fisiatria, o desporto e a medicina regenerativa transformam dor em movimento e qualidade de vida” Da cozinha real às redes sociais: a nutricionista que conquistou as famílias com lancheiras saudáveis para crianças
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