GINECOLOGIA “A nova Ginecologia nasceu porque as mulheres deixaram de aceitar viver mal em silêncio” By Revista Spot | Julho 17, 2026 Julho 20, 2026 Share Tweet Share Pin Email “Deve ser da idade.” A frase parece inofensiva. Durante décadas, porém, serviu para encerrar demasiadas conversas sobre o corpo feminino. Explicou o cansaço, desculpou a insónia, silenciou a perda de desejo e transformou o desconforto íntimo numa espécie de destino biológico. Mas há uma diferença entre aquilo que é frequente e aquilo que uma mulher deve aceitar como inevitável. Aos 40, o corpo não entra subitamente em declínio. Entra numa fase de transição que exige outras perguntas, mais atenção e decisões capazes de influenciar as décadas seguintes. A ginecologista Marta Rodrigues não aceita essa resignação como destino biológico. Depois de 16 anos a acompanhar mulheres, defende uma Ginecologia que não começa na doença nem termina na ausência de menstruação. Começa mais cedo, quando o corpo dá os primeiros sinais, e prolonga-se pela saúde óssea, hormonal, metabólica, íntima e sexual. “Falar de smart aging não é alimentar a ilusão de permanecer jovem. É garantir que os anos acrescentados à vida não retiram energia, autonomia, prazer ou identidade à mulher que os vive”, garante. Ao longo de 16 anos como ginecologista, foi acompanhando diferentes fases da vida feminina. Como é que esse percurso a levou a aprofundar áreas como a menopausa, a saúde íntima e o smart aging? Ao longo destes 16 anos como ginecologista, fui tendo o privilégio de acompanhar mulheres da adolescência à gravidez, da contraceção à menopausa, da prevenção oncológica à saúde sexual e íntima. E isso deu-me uma visão muito clara: a saúde da mulher não pode ser tratada apenas quando aparece uma queixa ou uma doença. Com o tempo, percebi que muitas mulheres chegavam à consulta com sintomas que já tinham normalizado: cansaço, alterações do sono, perda de libido, dor nas relações sexuais, secura vaginal, alterações de humor, aumento de peso, dificuldade em perder peso, perda de vitalidade. Muitas diziam: “deve ser da idade”. E foi precisamente aí que senti necessidade de aprofundar áreas como a reposição hormonal, a menopausa, a saúde íntima e o smart aging. Hoje, a minha abordagem é muito centrada na longevidade feminina com qualidade. Não se trata apenas de viver mais anos, mas de viver melhor, com mais energia, mais saúde, mais conforto íntimo, melhor função sexual, melhor saúde óssea e uma relação mais consciente com o corpo. O que mudou na forma de cuidar da saúde da mulher? A Ginecologia mudou muito e ainda bem. Durante muitos anos, esteve muito centrada na gravidez, na doença e na resposta ao sintoma imediato. Hoje estamos a olhar para a mulher de forma mais global, preventiva e personalizada. A grande mudança é esta: deixámos de esperar que a mulher adoeça para intervir. Falamos de prevenção, de risco cardiovascular, de saúde óssea, de metabolismo, de sexualidade, de sono, de equilíbrio hormonal, de saúde mental e de envelhecimento saudável. A menopausa, por exemplo, não é apenas o fim da menstruação; é uma transição hormonal com impacto em vários sistemas do corpo. Esta nova geração da Ginecologia vê a mulher como um todo. E isso exige tempo, escuta e diferenciação. Não basta dizer “é normal”. É preciso perceber o impacto que cada sintoma tem na vida daquela mulher e oferecer respostas que devolvam conforto, saúde e qualidade de vida. Ainda existe demasiada resignação em relação aos sintomas da menopausa ou as mulheres estão finalmente a exigir qualidade de vida? Esta é uma das mudanças mais bonitas que tenho sentido na consulta. As mulheres que hoje chegam à menopausa não querem desaparecer, não querem encolher, não querem aceitar que a sua energia, sexualidade, beleza, ambição ou prazer terminam ali. E têm razão. A menopausa pode representar um terço da vida de uma mulher. Não podemos continuar a tratá-la como uma nota de rodapé. Durante muito tempo, houve demasiada resignação: afrontamentos, insónia, irritabilidade, aumento de peso, dor nas relações, perda de urina, secura vaginal… tudo era colocado no saco do “é normal da idade”. Hoje, as mulheres estão mais informadas e mais exigentes. Procuram respostas, querem compreender o que está a acontecer no corpo e querem soluções seguras. Isto não significa medicalizar todas as mulheres. Significa avaliar, personalizar e devolver qualidade de vida. A menopausa não deve ser vivida como perda. Pode ser uma fase de enorme consciência, liberdade e poder, desde que haja acompanhamento adequado. A terapêutica hormonal continua a gerar dúvidas, receios e opiniões muito polarizadas. O que é importante esclarecer às mulheres para que possam tomar decisões informadas e seguras? A terapêutica hormonal continua a ser um dos temas mais mal compreendidos na saúde da mulher. Durante anos, foi envolvida em medo, muitas vezes baseado em informação descontextualizada. Hoje sabemos que a decisão deve ser individualizada, tendo em conta a idade da mulher, o tempo desde a menopausa, os sintomas, os antecedentes pessoais e familiares, os fatores de risco e as preferências da própria mulher. A terapêutica hormonal é reconhecida como o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores, como afrontamentos e suores noturnos, e pode também ter benefícios na qualidade do sono, humor, saúde íntima e na prevenção da perda de massa óssea nas mulheres em pós-menopausa. Mas é essencial dizer isto: a terapêutica hormonal deve ser individualizada. Não é igual para todas as mulheres e não deve ser iniciada sem uma avaliação médica cuidadosa. É necessário avaliar sintomas, idade, antecedentes pessoais e familiares, fatores de risco, contraindicações, preferências da mulher e escolher a formulação, dose e via de administração mais adequadas. Quando a terapêutica hormonal não é indicada ou não é desejada, existem também alternativas não hormonais que podem melhorar a qualidade de vida. O mais importante é retirar a decisão do território do medo e colocá-la no território da ciência, da avaliação clínica e da decisão partilhada. Fala frequentemente de smart aging. Em que momento é que uma mulher deve começar a cuidar do envelhecimento hormonal, ósseo e íntimo, mesmo sem sintomas? Quando falo de smart aging, falo precisamente disto: não esperar pelos sintomas para começar a cuidar. O envelhecimento hormonal, metabólico, ósseo, muscular e íntimo começa antes da menopausa, muitas vezes na perimenopausa, que pode surgir vários anos antes da última menstruação. A partir dos 35-40 anos, muitas mulheres começam a notar alterações subtis: sono menos reparador, mais ansiedade, ciclos diferentes, dificuldade em perder peso, menor recuperação após esforço, menor lubrificação, alterações da libido. Nem tudo é hormonal, claro, mas o eixo hormonal feminino tem um papel central. O smart aging é uma abordagem preventiva e estratégica: avaliar risco, otimizar estilo de vida, sono, exercício, composição corporal, saúde óssea, saúde íntima, metabolismo e equilíbrio hormonal. É cuidar hoje para chegar à última década da nossa vida com mais autonomia, vitalidade e saúde. Não se trata de contrariar a idade. Trata-se de envelhecer com inteligência. Secura vaginal, dor nas relações sexuais, perda de urina ou desconforto continuam a ser problemas vividos em silêncio. Porque é que tantas mulheres ainda acreditam que “é normal da idade”? A saúde íntima continua a ser uma das áreas mais silenciadas da vida feminina. Muitas mulheres vivem anos com secura vaginal, ardor, infeções urinárias recorrentes, dor nas relações sexuais, perdas de urina ou sensação de desconforto e não falam sobre isso nem com o seu médico. Porquê? Porque cresceram a ouvir que é normal depois dos filhos, normal depois da menopausa, normal com a idade. Mas há uma grande diferença entre ser frequente e ser inevitável. O síndrome geniturinário da menopausa pode afetar a lubrificação, elasticidade, conforto vaginal, sexualidade e trato urinário. Existem várias opções terapêuticas, desde hidratantes e lubrificantes adequados, estrogénios locais, DHEA vaginal, terapêuticas sistémicas em casos selecionados e outras abordagens complementares, sempre com avaliação individual. A mensagem que gostava que todas as mulheres ouvissem é simples: dor, desconforto e perda de prazer não são coisas que se tenham de aceitar em silêncio. A ginecologia regenerativa desperta curiosidade, mas também algum preconceito. O que é realmente esta área e que problemas consegue tratar com evidência científica? A ginecologia regenerativa é uma área que desperta muita curiosidade, mas também algum preconceito, muitas vezes porque foi comunicada de forma demasiado comercial, com expressões como “rejuvenescimento vaginal”, que eu pessoalmente considero redutoras e pouco rigorosas. Para mim, ginecologia regenerativa não é prometer juventude eterna nem propor procedimentos milagrosos. É utilizar técnicas que procuram melhorar a qualidade dos tecidos, a hidratação, a elasticidade e a função íntima, sempre com indicação clínica, consentimento informado e expectativas realistas. Pode ter lugar em situações como atrofia vulvovaginal, desconforto íntimo, dor nas relações, alterações pós-parto, algumas queixas urinárias ligeiras e alterações funcionais ou estéticas que têm impacto real na qualidade de vida da mulher. Mas é importante ser honesta: nem todas as técnicas têm o mesmo nível de evidência. Por isso, a segurança, a eficácia e a indicação devem ser discutidas caso a caso, numa consulta médica diferenciada, sem promessas exageradas e com rigor. Quando bem indicada, por profissionais diferenciados e com rigor médico, esta área pode ser transformadora. Não por mudar quem a mulher é, mas por devolver conforto, confiança e função. Apesar das campanhas de vacinação e rastreio, continua a existir desinformação sobre o HPV, o colo do útero e as lesões precursoras. Quais são os mitos e medos que mais encontra na consulta? Sim, ainda existe muita desinformação sobre o HPV. Apesar de falarmos mais sobre vacinação e rastreio, continuo a encontrar muitos mitos na consulta. Um dos maiores medos é achar que HPV é sinónimo de cancro. Não é. O HPV é uma infeção extremamente frequente, muitas vezes transitória, e na maioria dos casos o sistema imunitário consegue controlá-la. O problema está nas infeções persistentes por tipos de alto risco, que podem levar a lesões precursoras de cancro do colo do útero. Outro mito é associar automaticamente HPV a infidelidade recente. Isso causa muita ansiedade e até conflitos nos casais. O vírus pode permanecer silencioso durante muito tempo, em estado de latência, e a sua deteção não permite datar com precisão quando ocorreu a infeção. Também é importante reforçar que vacinação e rastreio não competem, complementam-se. A vacinação contra o HPV e o rastreio regular são pilares fundamentais na prevenção do cancro do colo do útero. Informação clara reduz medo. E quando reduzimos medo, aumentamos adesão à prevenção. Quando se fala em prevenção feminina, raramente se pensa na saúde óssea. Estamos a falhar na prevenção da osteoporose? Sim, estamos muitas vezes a falhar na prevenção da osteoporose. A saúde óssea continua a ser pouco valorizada, talvez porque não dói e porque não dá sinais, até ao dia em que há uma fratura. A queda dos estrogénios na menopausa acelera a perda de massa óssea, e isso aumenta o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas. A osteoporose é silenciosa e pode comprometer profundamente a autonomia, mobilidade e qualidade de vida da mulher. A prevenção deve começar antes da fratura: avaliar os fatores de risco, a história familiar, o peso, a alimentação, a necessidade de suplementação com vitamina D, a prática de exercício de força, a ausência de hábitos tabágicos, a não ingestão de bebidas alcoólicas e a medicação crónica. O osso é tecido vivo. Responde ao movimento, à carga, à nutrição e ao ambiente hormonal. Por isso, quando falamos de menopausa e smart aging, a saúde óssea tem de estar no centro da conversa. Depois de tantos anos a acompanhar mulheres em diferentes fases da vida, qual é a mensagem que considera mais importante deixar às mulheres de hoje? Gostava que todas as mulheres ouvissem isto: não aceitem viver mal só porque vos disseram que é normal. Todas vamos envelhecer. É normal atravessar fases hormonais. É normal que o corpo mude. Mas não é obrigatório viver com dor, exaustão, perda de prazer, insónia, vergonha, desconforto íntimo ou medo do próprio corpo. Procurem informação de qualidade. Façam prevenção. Falem sobre sexualidade, menopausa, libido, peso, sono, humor e envelhecimento sem vergonha. A consulta de Ginecologia deve ser um espaço seguro para tudo isto. A mulher de hoje pode viver mais anos, mas merece vivê-los com saúde, desejo, autonomia, confiança e presença. E é exatamente esse o futuro da saúde feminina: menos silêncio, menos resignação e muito mais conhecimento. Instagram: @dra.marta.rodrigues Facebook: Dra. Marta Rodrigues Marcações: https://linktr.ee/dramartarodrigues “Há pacientes que dormem oito horas, mas passam a noite inteira a desgastar os dentes” “Sou pediatra, mas também sou mãe. Sei como é difícil manter a calma quando uma criança está abatida ou desconfortável”
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