Bebés/Pré - Natal/SAÚDE/Saúde Infantil No choro do primeiro bebé, no mergulho sereno das sessões aquáticas ou no abraço silencioso do luto gestacional, Rita Cruz encontrou a sua missão de amor By Revista Spot | Novembro 6, 2025 Novembro 7, 2025 Share Tweet Share Pin Email Há mulheres que chegam à vida de outras como quem abre janelas. Rita Cruz é uma delas. Enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstetrícia, trocou a cirurgia pela obstetrícia para escutar o som mais puro: o primeiro choro de um bebé e o respirar fundo de uma mãe que se reencontra. Criou “A Enfermeira da Mamã” como quem planta uma semente no terreno esquecido da preparação para o parto, do pós-parto e do luto gestacional, onde tantas mulheres se perdem no silêncio e na culpa. No hospital, em casa de alguém ou dentro da piscina onde orienta sessões aquáticas para grávida e bebés, o seu cuidado tem o mesmo nome: presença. Fala de maternidade sem filtros, com uma verdade rara. “Ser mãe não é ser perfeita, é ser humana”, garante. No Centro Materno-Infantil do Norte e no projeto que criou, leva o mesmo propósito: transformar o nascimento num ato de amor e dignidade. O que é que a fez perceber que queria dedicar a sua vida a cuidar de mães e bebés e o que significa, para si, ser “A Enfermeira da Mamã”? Comecei o meu caminho na Cirurgia Geral, foi uma experiência profundamente humana, mas também desafiadora, que me levou a fazer uma pós-graduação em Cuidados Paliativos. No entanto, com o tempo, comecei a sentir falta de uma enfermagem mais próxima da vida, uma enfermagem que não se limitasse à doença, mas que acompanhasse os ciclos naturais do corpo e da mulher. A obstetrícia apareceu como uma espécie de chamada interior. Ser enfermeira especialista em saúde materna é estar presente em momentos-chave da vida de uma mulher: a gravidez, o parto, o puerpério, a amamentação, e tantas outras etapas dessa jornada contínua. Em 2012 decidi arriscar e tirar a especialidade, enquanto ainda trabalhava na cirurgia. Foram dois anos exigentes e uma espera de três anos até conseguir a transferência para obstetrícia. Quando cheguei a esse universo, percebi que era ali o meu lugar. Trabalhei em vários serviços, consulta de vigilância da gravidez, internamento de grávidas de risco, parto, ginecologia e unidade da mama, e cada etapa aprofundou o meu olhar sobre a saúde da mulher. Em 2018 cheguei ao Centro Materno-Infantil do Norte, onde estou desde então, e percebi que tinha finalmente encontrado “a minha praia”. A experiência com o puerpério inspirou-me a criar o projeto “A Enfermeira da Mamã”, inicialmente focado no pós-parto. Via tantas mães com medo de ir para casa, inseguras, cheias de dúvidas. Percebi que faltava continuidade, alguém que as acompanhasse depois da maternidade, quando o turbilhão começa verdadeiramente. Comecei com apoio domiciliário e consultas de amamentação, e o projeto foi crescendo. Como antiga nadadora de alta competição, quis também juntar a minha paixão pela água e criei o programa de preparação aquática na gravidez, uma forma diferente e terapêutica de viver este período tão intenso. Hoje, a “Enfermeira da Mamã” é mais do que um projeto: é uma missão que une ciência, empatia e presença: acompanhar mulheres em todas as fases da maternidade, com respeito, informação e amor. Temos assistido a uma transformação na forma como olhamos para o parto e o pós-parto, mais centrada na mulher. Que mudanças mais a inspiram neste movimento e o que ainda falta conquistar na prática clínica? Estamos, felizmente, a viver uma mudança de paradigma. As mulheres estão mais informadas, mais conscientes e mais exigentes. Procuram respostas, questionam, preparam-se, investem na experiência de ser mãe. E isso é extraordinário, porque informação é poder, poder de escolha, de decisão, de autonomia. O tempo em que se aceitava passivamente tudo o que o profissional de saúde dizia está a ficar para trás. Hoje, as mulheres perguntam: “O que faz sentido para mim?” E nós, profissionais, temos de acompanhar essa evolução. O grande desafio é aprendermos a respeitar verdadeiramente as escolhas das mulheres. Ainda existe alguma resistência entre profissionais, julgamentos subtis, crenças pessoais que interferem. É fundamental termos mais empatia e deixarmos espaço para que cada casal viva a experiência de forma única. Se uma decisão é informada, consciente e segura, o nosso papel deve ser apoiar, não impor. Ao mesmo tempo, é preciso trabalhar as expectativas realistas. A idealização excessiva pode transformar-se em frustração, especialmente quando o plano de parto é visto como uma lista rígida de desejos. Eu costumo dizer que o plano de parto deve ser um instrumento de reflexão, não de imposição. O importante é saber o que se quer, compreender os contextos e aceitar que cada parto é único, que a natureza, a clínica e o momento podem surpreender-nos. Ainda há muito por fazer. Continuamos a ouvir mulheres dizerem “tive sorte com a equipa que me acompanhou”, mas o parto não pode depender da sorte. É preciso garantir equidade, sensibilidade e respeito em todos os contextos. O nascimento deve ser vivido como um encontro, não como um procedimento. E a enfermagem obstétrica tem aqui um papel essencial: humanizar, proteger e devolver à mulher o protagonismo do seu próprio corpo. Muitas mães sentem-se pressionadas a “dar conta de tudo”.. De que forma o seu acompanhamento ajuda as mulheres a recuperar o equilíbrio físico e emocional e a redefinir a ideia de “maternidade perfeita”? A maternidade real é muito diferente da imagem idealizada que tantas vezes se vende. Trabalhamos muito esta ideia de expectativas realistas, de compreender que ser mãe não é sinónimo de perfeição. As mulheres têm de perceber que não existem supermães, supermulheres ou superesposas e que tudo bem com isso. A maternidade não é uma linha reta, é uma montanha-russa de emoções, com dias fáceis e outros absolutamente desafiantes. Eu própria, enquanto mãe de três filhos, vivi três pós-partos completamente diferentes e essa experiência permite-me transmitir às mulheres que não há uma única forma certa de maternar. Os filhos não precisam de mães perfeitas, precisam de mães serenas, presentes e felizes. E isso só acontece quando se libertam da culpa e do peso de “ter de dar conta de tudo”. No acompanhamento que faço, tento sempre que percebam a importância de descansar, pedir ajuda e reconhecer os seus limites. Uma mãe exausta precisa de uma rede de apoio, e recorrer a essa rede não a torna menos capaz, torna-a mais humana. Costumo dizer-lhes muitas vezes: “Está tudo bem.” Está tudo bem se naquele dia não conseguirem responder a tudo. Está tudo bem se precisarem de sair, de dormir, de respirar. Também as alerto para o ruído exterior. Há muitos palpites, muitas opiniões não solicitadas. Uso frequentemente uma expressão que resume bem este caos: “menos palpites e mais fraldas”. Porque o excesso de vozes à volta faz as mulheres duvidarem de si próprias e a dúvida é o primeiro passo para a culpa. Um dos temas onde isso mais se nota é na amamentação. Há uma enorme pressão social, quase um julgamento coletivo, que muitas vezes rouba à mulher a liberdade de escolher. Por isso, incentivo-as a refletir ainda durante a gravidez: “Quero amamentar porque faz sentido para mim ou porque me disseram que devo?” A escolha consciente muda tudo. Quando a decisão é realmente da mulher, sem imposição, o processo torna-se mais leve, mais verdadeiro. O meu papel é esse, apoiar sem julgar, acompanhar com empatia. Porque a maternidade não se mede em litros de leite ou horas de sono, mede-se em presença, afeto e autenticidade. “A maternidade tornou-se excessivamente técnica. Os pais observam o bebé como se fosse um gráfico em vez de o viverem como um vínculo” A preparação para o parto vai muito além das técnicas respiratórias. Que impacto tem o acompanhamento especializado na vivência da gravidez e na prevenção de complicações físicas e emocionais, como a depressão pós-parto? O acompanhamento durante a gravidez é determinante, não apenas no plano físico, mas sobretudo no emocional. Ter alguém de confiança, um “porto seguro”, faz toda a diferença. Muitas mulheres acabam por se perder entre consultas no centro de saúde, hospital e profissionais diferentes, ouvindo opiniões contraditórias. Acredito que o essencial é haver continuidade e vínculo, alguém que conheça a mulher, que perceba o seu percurso, que leia nas entrelinhas daquilo que ela diz e sente. A saúde mental perinatal ainda é um tema que precisa de mais espaço. Há uma tendência para reduzir a prevenção a questionários e escalas, mas a verdadeira leitura faz-se na escuta, no olhar, nas palavras, na forma como a mulher se posiciona perante a sua gravidez. No internamento com grávidas de risco, por exemplo, conseguimos perceber muito cedo sinais de ansiedade, isolamento ou medo. E é aqui que o acompanhamento especializado pode evitar que, mais tarde, estas mulheres enfrentem uma depressão pós-parto sem suporte. Nas sessões de preparação aquática, que são uma das minhas paixões, o foco vai muito além do exercício físico. Trabalhamos respiração, mobilidade e circulação, sim, mas também a ligação emocional entre mãe e bebé. Há momentos em que peço simplesmente que fechem os olhos, que se deixem flutuar e sintam o bebé, o movimento, o ritmo, o silêncio. É uma forma de meditação ativa, uma pausa num mundo que exige sempre mais. E os resultados são incríveis: as grávidas saem mais tranquilas, mais confiantes, mais conectadas consigo próprias. Esse equilíbrio é a base de tudo. Uma mãe emocionalmente estável e apoiada está mais preparada para cuidar do seu bebé e de si. Porque a maternidade não é apenas cuidar de outro ser, é também aprender a cuidar de nós próprias com a mesma ternura. O que é que a água proporciona que o consultório não oferece e como é que esse meio contribui para o vínculo mãe-bebé? A água é um universo à parte, um espaço de leveza, de suspensão e de silêncio. Quando uma grávida entra na piscina, tudo muda: o corpo perde o peso que carrega há meses, os músculos libertam-se e a mente abranda. Há ali uma pausa que o consultório, por mais acolhedor que seja, nunca consegue proporcionar. Nas sessões individuais, costumo convidar o companheiro a participar. A presença do pai é importante, permite-lhe sentir-se parte, perceber o corpo da mulher e o bebé que cresce. Na água, o casal redescobre a intimidade de forma diferente: sem pressa, sem performance, apenas presença. É comovente ver esse reencontro, essa cumplicidade silenciosa entre dois corpos que agora são três. Já as sessões em grupo são um pequeno laboratório de empatia. Só barrigas, cada uma num tempo diferente, mas todas unidas pela mesma curiosidade e fragilidade. A partilha acontece naturalmente: uma fala de enjoo, outra de ansiedade, outra de medo do parto. E todas se reconhecem. A água cria comunidade, dissolve barreiras e faz nascer amizades que muitas vezes seguem para o pós-parto. Durante as aulas, que duram cerca de uma hora, o foco é sempre o bem-estar e a escuta do corpo. Trabalhamos a respiração, o pavimento pélvico, a mobilidade da bacia, mas também o relaxamento profundo. Há momentos em que lhes peço simplesmente para fecharem os olhos, pousarem as mãos na barriga e sentirem o bebé. É mágico: muitas vezes o bebé responde com movimentos suaves, como se dançasse ao ritmo da água. Gosto de lhes dizer: “Se fosses o teu bebé, como te sentirias?”, porque o bebé vive num ambiente aquático, quente e flutuante. Recriar essa sensação na água é recriar a ligação mais pura que existe. A mulher percebe que é casa, abrigo, universo. E é essa consciência corporal e emocional que transforma as sessões numa experiência única, uma espécie de diálogo silencioso entre mãe e filho, em que ambos se ouvem sem palavras. Entre noites mal dormidas, emoções intensas e a adaptação a um novo corpo, o pós-parto é uma fase tão bela quanto desafiante. Quais são as maiores dificuldades que observa nas mães? O pós-parto é, talvez, a fase mais bonita e mais solitária da maternidade. Apesar de muitas mulheres terem uma rede de apoio, sentem-se profundamente sozinhas. Acreditam que as suas dúvidas são únicas, quando na verdade são universais. E a amamentação é, sem dúvida, o tema que mais angústia causa. As mulheres chegam cheias de perguntas: “Será que o meu leite é suficiente? O bebé está a mamar bem? O leite é fraco?” A pressão é enorme, da família, dos profissionais, da sociedade. Tudo é medido: gramas por dia, minutos de mamada, mililitros. E esquecemo-nos de que cada bebé é diferente, que um recém-nascido de 2 kg não é igual a um de 4 kg, e que nem todos seguem a mesma curva. Por isso, é preciso desconstruir esta ideia de que os números ditam o sucesso da maternidade. Nas visitas ao domicílio vejo muitas vezes pais assustados, a seguir checklists como se fossem manuais de instruções. “Tenho de lavar assim, vestir assado, fazer o banho em três passos.” Falta-lhes intuição, e sobra-lhes medo. O meu papel é devolver-lhes essa confiança, validar, tranquilizar, dizer: “Está tudo bem.” Porque está mesmo. A maternidade tornou-se excessivamente técnica. Os pais observam o bebé como se fosse um gráfico em vez de o viverem como um vínculo. Há mães que, durante a mamada, estão mais preocupadas em verificar se a pega está perfeita do que em sentir aquele momento de ligação. Falta leveza, falta tempo para simplesmente estar. E depois há algo que me preocupa profundamente: a invisibilidade da mãe. Durante a gravidez, toda a atenção recai sobre ela; depois do parto, o foco desloca-se para o bebé. O calendário é o reflexo disso, o bebé tem consultas semanais, vacinas, pesagens; a mãe só é revista semanas depois. Entre uma coisa e outra, há lágrimas, dor, exaustão e, muitas vezes, silêncio. Recordo-me do meu terceiro filho, uma experiência desafiante. Eu era enfermeira especialista, tinha conhecimento e experiência, mas nem isso me poupou à pressão. O meu bebé não ganhava peso, os números não subiam, e a cada ida ao centro de saúde eu sentia-me a falhar. Comprei uma balança para pesar em casa, chorava depois das consultas, e perguntava-me o que estava a fazer de errado. No meio disso tudo, ninguém me perguntou: “E tu, como estás?” e essa é talvez a pergunta mais importante que se pode fazer a uma mãe. O que tento hoje transmitir é isso mesmo: a mãe também precisa de cuidado, de colo, de descanso e de voz. O pós-parto não devia ser uma prova de resistência, mas um processo de reconexão. Não é suposto ser sempre bonito, nem sempre feliz, mas é, sem dúvida, profundamente humano. “Eu própria, enquanto mãe de três filhos, vivi três pós-partos completamente diferentes” Dedica parte do seu trabalho a apoiar famílias de colo vazio. Porque é que é tão importante falar sobre o luto gestacional e o que tem aprendido com essas mães e pais sobre amor, dor e reconstrução? O luto gestacional continua a ser uma dor muito desvalorizada pela nossa sociedade. Fala-se pouco, acolhe-se pouco e compreende-se ainda menos. Felizmente, sinto que nos últimos anos tem havido pequenos avanços, fruto do trabalho de muitos profissionais e famílias que, como eu, têm lançado sementes através de jornadas, congressos e partilhas. Ainda assim, é um tema que exige coragem: coragem para olhar de frente para a parte invisível da maternidade, aquela onde o amor e a perda coexistem. Quando tirei a especialidade em saúde materna, imaginava a maternidade como um universo de nascimentos felizes, bebés saudáveis e famílias radiantes. Mas a realidade mostrou-me o outro lado: também há bebés que morrem, gravidezes que terminam demasiado cedo, diagnósticos que obrigam à interrupção, e pais que regressam a casa com os braços vazios. E nós, profissionais de saúde, não estamos preparados para lidar com isso. Fomos formados para cuidar da vida, não da morte. E, no entanto, a morte também acontece dentro das maternidades. A partir do momento em que comecei a acolher estes casais, percebi que faltava humanidade na forma como lidamos com o luto. Muitas vezes, estas famílias partilham o mesmo espaço com outras que estão a celebrar o nascimento dos seus filhos e isso acrescenta dor a uma dor já insuportável. Foi aí que percebi que o meu papel era oferecer acolhimento, mesmo quando as palavras falham. Porque, na verdade, não é preciso dizer muito. O silêncio, um gesto, um abraço, a presença certa, tudo isso comunica mais do que qualquer frase feita. As pessoas não se lembram da técnica, lembram-se do olhar, da forma como foram tratadas. Por isso, defendo que o luto exige empatia, escuta ativa e disponibilidade. E também exige que cuidemos de quem cuida, porque nós, profissionais, também carregamos as nossas próprias perdas e memórias. Cada história que escuto deixa marcas, e há dias em que é pesado. Falta-nos também um “colo para os cuidadores”, um espaço onde possamos partilhar o que sentimos. No centro deste trabalho está uma certeza: a dor do luto existe porque o amor existiu primeiro. O luto é a continuação desse amor. E o nosso papel é validá-lo, para que não se transforme em trauma. É reconhecer que o luto da mãe e o luto do pai são diferentes, mas igualmente legítimos. O pai continua a ser o grande esquecido. Lembro-me de um testemunho num congresso que organizei, em que um homem disse: “E a cadeira do pai, onde fica?” e foi das frases mais marcantes que ouvi. As famílias precisam de espaço, de tempo e de permissão para amar e despedirem-se. Precisam de ser ouvidas, sem julgamentos nem frases como “ainda és nova” ou “foi melhor assim”. Precisam de ser vistas. Porque a morte não é o contrário da vida, faz parte dela. E o luto não passa: transforma-se. O amor permanece, e é esse amor que, pouco a pouco, ensina a reconstrução. Vivemos tempos em que muitas mulheres se sentem sozinhas, mesmo rodeadas de pessoas. Que papel têm as redes de apoio, familiares, profissionais e comunitárias, na vivência saudável da maternidade? O apoio é fundamental. E quando falo em redes de apoio, refiro-me não apenas à família, mas também às equipas de saúde e à própria comunidade. Porque, infelizmente, ainda falta um verdadeiro acompanhamento após a perda. Hoje, um casal que perde um bebé, seja às 40 semanas ou às 8, recebe alta e fica entregue a si próprio. E isto é devastador. Ainda existe a ideia de que “quanto mais precoce, menos dói”, o que é completamente errado. Dói sempre. É a perda de um filho sonhado, de um projeto de vida, de um futuro imaginado. E ninguém pode medir o tamanho dessa dor. Nas maternidades, começa-se a fazer algum trabalho de sensibilização: criar memórias, respeitar o tempo e as vontades dos pais, dar-lhes oportunidade de ver e segurar o bebé, fazer uma fotografia, um molde da mãozinha, guardar uma recordação. Tudo isso é essencial para que o luto possa ser vivido de forma saudável. Mas o problema é o depois, o regresso a casa, o silêncio, a ausência de acompanhamento psicológico e a falta de continuidade entre hospital e centro de saúde. Enquanto os bebés que nascem vivos têm seguimento estruturado, vacinas, consultas, rastreios, os casais que perdem um bebé são simplesmente esquecidos. Não há referência, não há ponte, não há seguimento. E é nessa ausência que o sofrimento se instala. Felizmente, começam a surgir associações e grupos de apoio que organizam encontros, círculos de partilha e eventos dedicados ao luto gestacional e neonatal. É um passo importante, porque ajuda as famílias a perceber que não estão sozinhas e que há outras pessoas a viver a mesma dor. Mas ainda precisamos de algo mais estruturado, integrado nos serviços de saúde, para garantir acompanhamento emocional e psicológico desde o primeiro momento. No meu serviço, por exemplo, já fazemos um trabalho mais próximo com casais que passam por uma interrupção médica da gravidez. Acompanhamos o processo desde o início até à alta, com profissionais sensibilizados e dedicados. Ainda assim, quando a alta acontece, o casal regressa ao mundo sem um mapa. E é aí que a rede, de profissionais, amigos, comunidade, precisa de existir, para amparar o que ficou suspenso. A maternidade, mesmo quando termina antes de tempo, é sempre amor. O luto precisa de ser reconhecido, respeitado e integrado, para que essas famílias possam voltar a respirar, com dor, sim, mas também com a dignidade de quem amou profundamente. Como é que a experiência de ser mãe transformou o seu olhar clínico e emocional? Ser mãe mudou tudo, a forma como escuto, como observo, como cuido. A maternidade deu-me uma sensibilidade que nenhum curso, nenhuma especialização poderia ensinar. Trouxe-me empatia, vulnerabilidade e um olhar mais humano sobre a imperfeição. Percebi que o mundo da maternidade não é feito apenas de flores, mas também de cansaço, culpa, medo e contradições. E que isso não a torna menos bonita, torna-a mais real. Aprendi que os filhos não precisam de mães perfeitas, precisam de mães felizes, mães que se permitam falhar e descansar, que saibam reconhecer os seus limites e ainda assim se mantenham presentes. A maternidade ensinou-me a olhar para a vida com mais ternura e a abrandar. Tudo passa depressa demais e quando damos por nós, já não temos um bebé nos braços, mas uma criança que corre pela casa e nos obriga a olhar para trás e perguntar: “Vivi mesmo este tempo como devia?”. Por isso, hoje digo muitas vezes às mulheres que acompanho: não é preciso fazer tudo certo, é preciso viver tudo com verdade. Essa experiência pessoal transformou também o meu olhar clínico. Hoje, preocupo-me menos em seguir o que “vem nos livros” e mais em escutar o que faz sentido para cada mulher. Ser mãe ensinou-me a respeitar os tempos, as histórias e os desejos de cada um e a cuidar sem julgar, porque percebi, na pele, o quanto a maternidade é também um exercício de aceitação. “O luto gestacional continua a ser uma dor muito desvalorizada pela nossa sociedade” Costuma dizer que “cuidar da mãe é cuidar da família”. Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que vivem esta fase tão intensa, entre amor, culpa, exaustão e descobertas? Diria, antes de mais, que as mães também precisam de colo. Precisam de se sentir cuidadas, amadas e apoiadas, não apenas enquanto cuidadoras, mas enquanto pessoas. Cuidar de si não é egoísmo, é responsabilidade. Uma mãe bem cuidada é uma mãe mais disponível, mais serena, mais inteira. Costumo terminar as minhas apresentações com a mesma frase: “Sejam mães felizes. Muito felizes.” Porque acredito profundamente que é essa a verdadeira herança que deixamos aos nossos filhos, a felicidade de nos verem realizadas, em equilíbrio, em paz connosco próprias. Tenho três filhos, mas já perdi a conta aos bebés e mães que me passaram pelas mãos. Cada história deixa uma marca, e há coincidências que parecem ter um significado maior. Lembro-me, por exemplo, de uma mãe que acompanhava durante o internamento. Estava grávida de uma menina chamada Maria Rita. Havia uma ligação inexplicável entre nós, talvez porque também sou Rita, talvez porque estava a passar por uma fase delicada na minha vida. Num sábado, a bebé deixou de ter batimentos cardíacos. Estive ao lado daquela mãe em tudo, fui eu quem ligou ao companheiro, quem ficou com ela no momento mais difícil. Foi um processo profundamente doloroso, mas também transformador. Três anos depois, ela teve outro bebé, o Enzo, e convidou-me a estar presente na cesariana. O meu terceiro filho, o Vasco, nasceu precisamente no mesmo dia em que a Maria Rita partiu. Há coisas que não se explicam, apenas se sentem. Essas histórias mostram-me, todos os dias, que a ligação entre as pessoas vai muito além do acaso. E que, mesmo depois da dor, há sempre espaço para recomeçar. Uma gravidez após perda é uma montanha-russa de medo e esperança, e é aí que tento ser colo outra vez, ajudar essas mulheres a viver essa nova história com amor, sem comparações, com o cuidado e a leveza que merecem. Porque cada bebé, cada gravidez, é única. E cada mulher precisa de se sentir segura, compreendida, amparada. A saúde mental da mãe é o alicerce de tudo. Por isso, a minha mensagem é simples: procurem o vosso porto seguro. Encontrem alguém que vos escute, que vos compreenda, que vos faça sentir vistas. Porque quando uma mãe é cuidada, toda a família floresce. Instagram: @aenfermeiradamama “A economia circular precisa de olhar para o mundo como um sistema interligado, não como fronteira a fechar” Entre Modena e Joane, Nápoles e Guimarães, Carlos Graciano construiu a Forneria da Villa e o Gratti e tornou-se o ‘pizzaiolo-empresário’ mais respeitado da sua geração
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